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Fiz o Teste “Você é Viciado em Internet” e Acertei Tudo

"Sinto como se não houvesse mais um limite em que eu termino e a internet começa. Então, estou meio preocupada."

por So Sad Today
26 Janeiro 2015, 11:00am

Ilustrações por Joel Benjamin.

O vício em internet ainda não é uma doença oficialmente reconhecida no manual de diagnósticos DSM-V. Mas uma busca recente por "ajuda com vício em internet" revelou vários centros de reabilitação para viciados em internet, terapeutas especializados nessa condição e um Viciados em Internet e Tecnologia Anônimos.

Estou limpa e sóbria de drogas e álcool há um certo tempo e sei muita coisa sobre vício, por isso consigo reconhecer exatamente o que está acontecendo comigo em relação à internet: estou tentando remendar um buraco dentro de mim que não pode ser consertado com coisas externas. A internet me fornece dopamina, atenção, amplificação, conexão e fuga. Ela também me distrai, decepciona e paralisa, além de catalisar uma sensação falsa de identidade. Estou me agarrando às porcarias que ainda posso usar para ficar loucona numa festa tosca de dopamina.

Além disso, não sei o que estou fazendo. Ultimamente sinto que a internet está me penetrando. Sinto como se não houvesse mais um limite em que eu termino e a internet começa. Então, estou meio preocupada.

Mas minha obsessão com a internet é realmente um vício? Decidi responder essa pergunta fazendo um teste do Psych Central chamado "Você é Viciado em Internet?". O teste é de múltipla escolha, mas minha relação com a internet é complexa; então, escolhi dar minhas respostas em forma de ensaio. Também escolhi responder esse teste publicamente – não tanto para me responsabilizar por isso, mas por não haver lugar melhor para confrontar os próprios demônios do que a internet com todos os seus viciados (especialmente vocês, babacas dos comentários).

OK. Vamos lá.

1. Com que frequência você descobre que ficou na internet mais tempo do que pretendia?

Gosto de usar meu iPhone no banheiro. Passo horas no banheiro sem fazer xixi. Às vezes, é o meu próprio banheiro. Às vezes, estou no mundo real e peço licença para ir ao banheiro. Sempre digo que são cinco minutos. Nunca são cinco minutos. Eu caio num buraco, e sumir é uma sensação agradável. As pessoas acham que morri. Eu gosto.

Tento definir regras para usar a internet. O ato de definir regras significa que provavelmente sou viciada nisso. Tipo, pessoas que não são viciadas não precisam definir regras sobre as coisas. Elas simplesmente vão lá e fazem.

Minhas regras incluem: dez minutos de meditação antes de ligar o celular ou o computador pela manhã; nada de redes sociais antes do meio-dia; só 120 minutos em sites de redes sociais por dia; apenas dois tuítes por dia, e só depois das 19h; e detox de internet por 24 horas nos finais de semana. Regras que desobedeço diariamente.

2. Você prefere a excitação da internet à intimidade com seu parceiro?

Sim. Claro. A menos que o parceiro seja um estranho virtual em quem projetei toda uma narrativa de fantasia e estamos nos pegando pela primeira vez num quarto de hotel.

"Quando alguma coisa real tem de ser feita, tipo arrumar a cama ou pagar uma conta, sinto como se isso fosse me matar."

3. Você negligencia tarefas domésticas para passar mais tempo online?

Quando alguma coisa real precisa ser feita, tipo arrumar a cama ou pagar uma conta, sinto como se isso fosse me matar. Tipo, sinto que uma mãe cruel e opressora está vindo atrás de mim e que o mundo é feito apenas de tarefas sísificas, em que você tem que empurrar uma pedra morro acima e sempre ser esmagado por ela infinitamente. Uma vez, eu estava lavando calcinhas à mão na pia e entrei no Twitter, aí a pia transbordou. A vizinha de baixo, que tinha acabado de ter um bebê, mandou o zelador do prédio subir. Ele invadiu meu apartamento e eu pensei que ele era um serial killer. Então, sim.

4. O seu trabalho (ou estudo) sofre com a quantidade de tempo que você passa online?

Meu trabalho é online.

5. Você forma novos relacionamentos com pessoas online?

Prefiro estar na internet, me envolvendo com pessoas semi-imaginárias de um jeito falso, do que na vida real, me envolvendo com gente real de um jeito real. Não que tudo na internet seja falso. Criei conexões profundas com pessoas que nunca encontrei pessoalmente (ou talvez eu estivesse me conectando comigo mesma, com meu próprio desejo de quem eu queria ser) através da internet. Às vezes, comparo as pessoas reais da minha vida com as pessoas da internet e sempre penso: por que as pessoas reais não podem ser como as pessoas da internet? Talvez porque as pessoas reais não são pixeladas. Seus erros e chatices não podem ser reaproveitados na fantasia. Eu realmente preciso ver as pessoas reais e ser vista por elas. Se as pessoas nunca se tornam reais, é mais difícil elas te desapontarem. É por isso que a internet é uma boa para pessoas tristes. Você pode estar com pessoas sem ter de estar realmente com pessoas.

6. As pessoas da sua vida reclamam da quantidade de tempo que você passa online?

A pessoa com quem tenho um relacionamento sério chama meu celular de meu "namorado". Ele fica eufórico quando a bateria acaba. Uma vez, ele ameaçou jogar meu celular da janela. Ele se preocupa muito mais com o jeito como uso a internet para deixá-lo de fora do que com qualquer coisa que eu possa fazer sexualmente com outra pessoa. Falo pra ele que não estou deixando-o de fora. Estou deixando a realidade de fora. Infelizmente, ele é real.

7. Você fica na defensiva ou reservada quando alguém pergunta o que você faz online?

É mais o ato de estar online, em si, do que o que eu estou fazendo lá. Todo mundo sabe o que eu estou fazendo lá. Estou tuitando. É mais a coisa do banheiro. Eu falo para a pessoa com quem estou saindo: "Tenho que cagar". E sumo pelo resto da noite.

Na verdade, uma coisa de que tenho vergonha é de gostar de pornô "female friendly". Tipo, eu queria não gostar de pornô "female friendly". Eu queria que, quando eu estivesse assistindo ao Xander Corvus comendo a boceta da "babá" Melanie Rios, eu não pensasse "Meu Deus, ele está tão apaixonado por ela. Tipo, ele devia estar apaixonado por ela todo o tempo em que ela foi a babá dele. Ele sonhava com esse momento e agora está acontecendo, ele definitivamente vai querer ficar com ela para sempre!". Eu queria não ser assim.

8. Você já notou que sua performance ou produtividade no trabalho sofre por causa do tempo que você passa online?

Óbvio.

9. Você confere seu e-mail antes de qualquer coisa que precisa fazer?

Não consigo mais me envolver com o e-mail, isso geralmente exige mais de 140 caracteres. Se mando um e-mail, uso a Siri e dito a mensagem. A internet destruiu minha capacidade de concentração de um jeito que não consigo nem escrever um e-mail. A internet me tirou da coisa do e-mail. O iPhone me tirou do computador. Se o computador é a cocaína, o iPhone é o crack. E eu fumo essas pedrinhas de crack antes, durante e depois de tudo.

10. Você tem um ataque, grita ou age com nervosismo se alguma coisa te incomoda quando você está online?

Geralmente entro num estado comatoso e não tenho mais consciência do mundo ao meu redor. Quando entro no buraco do coelho, não vejo mais você.

11. Você se sente ansiosa esperando o momento em que vai poder ficar online novamente?

Já tive tremedeira.

12. Você bloqueia pensamentos perturbadores sobre a sua vida com pensamentos amenos da internet?

Meu maior medo é morrer. A morte é OK, mas morrer – a incapacidade de respirar, o último ataque de pânico – é uma coisa realmente assustadora. Também tenho medo da vida em si, já que a morte é implícita na vida. Às vezes, a vida parece hiper-real. Tipo, olho para as pessoas e elas parecem robôs, ou como se fossem feitas de borracha, e acho que estou testemunhando a ascensão da matrix, mas provavelmente é só ansiedade. Nesses momentos, penso "Caramba, ninguém realmente sabe o que está acontecendo aqui". Minha terapeuta não ajuda. Ela não sabe explicar o que está acontecendo melhor do que as outras pessoas. Ela não pode me impedir de morrer. A internet também não, mas é um bom lugar para enterrar essa adrenalina. É mais fácil que gente de borracha.

Outra coisa de que tenho medo é de rejeição. Se alguém vai me rejeitar, prefiro que seja eu. Quando um ser humano real me rejeita na vida real ou percebo uma rejeição na vida real, preciso de uma confirmação de que mereço existir neste planeta. E consigo essa confirmação angariando amor falso de estranhos através de um avatar que parece comigo. Essas tentativas de reparar meu eu central, ou a falta de um eu central, sempre resultam numa cascata de tuítes. E imediatamente acompanho isso deletando todos ou a maioria dos tuítes e entrando numa espiral de vergonha.

13. Você acha que a vida sem internet seria chata, vazia e sem prazer?

Não, acho que seria linda. Eu me imagino numa praia rochosa, segurando algo verde. Provavelmente uma alga marinha, mas talvez seja musgo. Bebo muito chá de camomila. Eu "apareço" por mim mesma. É, seria vazia.

14. Você se vê dizendo "Só mais alguns minutos" quando está online?

Se tem uma coisa de que eu não gosto, é o tempo linear. A internet me faz sentir que posso manipular o tempo. Mas não posso; então, digo "Mais cinco minutos" e caio num vórtex. Tenho apagões.

15. Você se preocupa com a internet quando está offline ou fantasia sobre estar online?

Óbvio.

"Acho que a internet reproduz o sol."

16. Você perde o sono por ficar online até tarde da noite?

Hoje, acordei às 3 da manhã e entrei na internet. Agora são 6h30. Fiz isso toda noite nesta semana, menos na segunda, quando não dormi nada. Acho que a internet reproduz o sol. Talvez gente gótica, emo ou altamente sensível não devesse estar na internet. Estamos fadados a definhar.

17. Você tenta esconder o tempo que fica online?

Quando ainda bebia, eu costumava aparecer nos bares, já bêbada, e pedir logo uma bebida. Eu fingia que o primeiro drinque no bar tinha me deixado bêbada. Minha conta no Twitter, So Sad Today, é anônima, porque tenho vergonha do quanto tuíto. Acho que há uma ligação aí.

18. Você escolhe ficar mais tempo online em vez de sair com outras pessoas?

A internet significa que estou com pessoas sem precisar sair de casa. Além disso, posso ser quem eu quiser. Tipo, posso ser um mago fantástico na internet, mas na vida real estou aqui, comendo lasanha do Vigilantes do Peso e usando um short com estampa de trompetes.

19. Você já tentou cortar o tempo que passa online e fracassou?

Todo dia.

20. Você se sente deprimida, de mau humor ou nervosa quando está offline, o que acaba quando você volta a ficar online?

Na verdade, muitas vezes é a internet que me deixa deprimida, de mau humor e nervosa. Tipo, entro lá e, dois segundos depois, penso "Foda-se tudo". Mas a vida real consegue ser ainda pior.

Mesmo quando a internet é um saco, ela possui um potencial infinito. Eu sei que determinado site está uma merda hoje, porque estava uma merda um segundo atrás, mas continuo recarregando a página. Eventualmente isso muda. Mas a vida não é assim. Quando você fica clicando em recarregar na mesma coisa na vida real, você só consegue a mesma coisa. Cometer os mesmos erros + esperar resultados diferentes = merda.

Na verdade, talvez isso não seja inteiramente verdade. Há algo de espiritual em coisas repetitivas, mantras, rosários, Ave Maria – ou como o Prince disse: prazer na repetição. O problema com o vício é que o prazer da repetição dá lugar a uma combinação de prazer e problemas. Depois, só há problemas mesmo.

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Acho que o alcance que a internet tem em mim tem algo a ver com luz e vazio. A luz e o vazio são sensuais e me fazem sentir que qualquer coisa é possível. Eu sei que a vida tem o mesmo potencial infinito que a internet. Mas, infelizmente, sou obrigada a ser uma adulta na vida real. Na internet, eu ainda tenho 16 anos.

Além disso, eu me saio bem na internet. Se o Twitter é um videogame, eu já terminei o jogo. Nem sempre me saio bem na vida real. Ainda não superei o fato de que vou morrer um dia. Qual é o cheat code da vida?

Não me vejo trilhando o caminho do meio na internet. Provavelmente isso vai ter que ser tudo ou nada. Redução de danos nunca deu certo para mim. Quando um pepino vira picles, não dá para transformá-lo de volta num pepino. E a internet me transformou num picles há muito tempo.

So Sad Today é uma crise existencial sem fim interpretada em 140 caracteres ou menos. A autora anônima vem lutando com a consciência desde antes da criação do feed do Twitter, em 2012, e finalmente decidiu que era hora de projetar suas ansiedades numa tela maior, na forma de uma coluna neste site. Leia o primeiro texto dela aqui.