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O Dekmantel Foi Tão Show, que a Única Coisa Ruim que Vi Foi uma Poça de Vômito

Um resumo da maravilha que foi este festival independente que acontece há três anos na Holanda, com ingressos acessíveis, uma linda locação na floresta e um lineup afiadíssimo

por Joe Zadeh
05 Agosto 2015, 2:00pm

Eu vou dizer isso: a EasyJEt é a companhia aérea mais divertida do mundo. British Airways é careta e pontual demais para qualquer coisa inesperada acontecer (o cocozão fedorento que fez um avião da British Airways pousar em março foi um momento mágico, mas uma anomalia). Ryanair é barata, desagradável e perpetualmente cansativa demais para qualquer um se animar. Mas a EasyJet — com seu tempo de espera, atrasos inesperados e filas completamente não ortodoxas — é ótima para alguém no limite ficar completamente selvagem. No portão 45 do Gatwick eu vi um cara com um moicano descolorido desajeitado e uma camiseta do Undergound Resistance ficarem totalmente malucos. Ele ficou doido porque a mulher no guichê o disse calmamente que sua bagagem de mão não estava nas dimensões adequadas. Então ele logicamente reagiu jogando a bagagem no chão. Depois mais forte. Agora batendo com seus punhos cerrados nela como um rei louco em um banquete medieval. Então ele pulou, pulou em cima da bagagem por um tempo, e o tempo todo seus olhos estavam fixos na atendente completamente não perturbada na mesa. Ele mostrou a bagagem para ela, a atendente acenou, mas ela já não parecia mais sua bagagem. Parecia algo que deixaram esquecido num George Foreman.

Fora isso, o vôo para a Holanda foi bem tranquilo. Fomos para Amsterdã curtir/cobrir o Dekmantel, um festival que existe há três anos e acontece nos arredores da cidade e tem capacidade para cinco mil pessoas, mas rapidamente se tornou o melhor festival de house e techno já criado e vai permanecer assim até o fim dos tempos. Dekmantel é como juntar a Fabric + o Glastonbury multiplicando o resultado pelo conceito cristão de paraíso e elevando ao quadrado. Na verdade, se Deus fosse um DJ, a organização não marcaria Ele no Dekmantel, seria óbvio demais — eles trocariam Deus por Mano Le Tough e pagariam Mano bem mais.

A coisa fácil de notar no Dekmantel é o estado do público. É um grupo muito bom cheio de pessoas simpáticas aproveitando muitão. Não tem nenhum representante daqueles do tipo que deseja que você não estivesse lá. Aqueles que apoiam seus bonés na cabeça ao invés de vestí-los. Aqueles que tiram suas camisas bem antes de alguém gritar "sem a camisaaa!", tocando Martin Garrix dos falantes de seus telefones, dançando duramente ao lado da piscina, enquanto usam uma camiseta com alguma estampa espertona de de "Keep Calm And Move On". Talvez porque muito do lineup de Dekmentel não é o que chamaríamos de agradável para as massas ou talvez porque esses filhos da puta todos ainda estivessem voltando do Tomorrowland.

Por exemplo, um cara que não é o que você chamaria de um típico animador de plateia era Manuel Gottsching. O erudito alemão estava tocando seu disco vintage E3-E4 inteiro na festa de abertura do Dekmantel. Esse é o disco que é uma faixa contínua de uma hora, que se baseia em repetição capaz de induzir o transe, e é nomeado a partir de um movimento de xadrez. Viu o que eu acabei de descrever aqui? Tem um sortido de coisas que a maioria das pessoas provavelmente não curtem. Então ter isso em sua festa de abertura é uma declaração de ousadia.

O show aconteceu longe do palco principal no Muziekgebouw, o tipo de casa de show chique onde você veria Nico Muhly e a Britten Sinfonia tocando algo com um intervalo para um prosecco. A iluminação foi bem esquisita: reduzida mas ainda assim bem clara, como quando sua mãe desliga todas as luzes da sala e liga os abajures para assistir um filme de terror. Você pode imaginar quando Gottsching fez o E2-E4 pela primeira vez nos anos oitenta, ele era como um druida louco sacudindo sintetizadores, guitarras, baterias eletrônicas e potes cheios de globos oculares, mas hoje em dia é só Manuel, sentado em uma cadeira de escritório — a coisa toda simplificada em um Macbook Pro, enquanto ele observada por óculos, e ocasionalmente apoiava o queixo nas mãos. Então com isso e com a iluminação, mesmo a música soando complexa e narcótica, parecia que éramos setecentas pessoas observando um velhinho vendo "21 Coisas Que Aconteceriam Se Jamaica Fosse Para Hogwarts" no Buzzfeed.

Autchere veio em seguida, e eles brincaram com a iluminação. Eles jogaram o lugar inteiro em completa escuridão e abriram uma lata de sintetizadores pneumáticos, batidas angulares, fortes pontos de vista e sugestões abstratas. O escuro preto e os ritmos loucos se fundiram para dar um curto circuito no seu cérebro, e eu comecei a alucinar de verdade. Não tem outro jeito de colocar. Foi ótimo durante uma hora, como drogas de graça, mas quando eu vi o rosto de um bebê na careca de um sujeito eu achei que já era hora de ir para fora.

Não eram permitidas fotos no Dekmantel quando chegamos ao local do festival, e não nos foi permitido colocar nenhuma foto a não ser as oficiais para nossa matéria, então todas as imagens que você está vendo são as que nos foram fornecidas por eles. E eles adoram fotos de DJs reconhecíveis olhando para computadores. Posto isso, eu não vou falar contra um festival independente muito bem feito com ingressos acessíveis, uma linda locação na floresta, e um lineup afiadíssimo porque eles não me deixaram tirar fotos de sanduíches meio comidos com minha camera descartável. Mas vou descrever algumas coisas que eu fotografaria para colocar nessa matéria, se eu pudesse.

Na segunda noite, enquanto andávamos para casa depois de Model 500 de Juan Atkin, dez opressivos minutos ouvindo Joy Orbinson, e quatro horas de Ben Klock depois de Marcel Dettmann, nós encontramos um jovem australiano. Ele estava andando de bicicleta, o que é bem comum em Amsterdã, mas ele estava fazendo isso na contramão de uma rua movimentada enquanto tentava fumar um cigarro, e quando ele me viu assistindo decidiu parar para bater um papinho. Ele disse que perdeu todos seus amigos e achava que tinham batizado sua bebida, mas ele disse tudo isso com um sorriso. "Parece que você está curtindo, apesar de tudo?", perguntei. "Pode ser verdade", ele sorriu, depois foi em direção a uma enxurrada de buzinas e luzes de carros. Eu teria tirado uma foto dele e colocado aqui.

Nos três dias, nós vimos coisas boas. Four Tet deixou o palco principal bombando com um set que circulava alegremente entre gêneros como um corredor de pernas curtas, culminando em cerca de vinte minutos de grime (parece que os holandeses ainda não sabem dançar grime, mas "Eskimo Riddim" do Wiley causou alguns punhos no ar, e a apresentação emocional de "Functions on the Low" de XTC fechou o set com gritos de "JA!"). Robert Hood fez o caminho todo com sua filha, o show de luzes de Jeff Mills parecia uma zona de guerra de neon vermelho, e Surgeon assustou todo mundo pra caralho com um after party brutal de techno. Na verdade, tudo era tão consistentemente ótimo no Dekmantel, que eu tive que procurar alguma coisa horrível para equilibrar. Eu achei que ao menos poderia ver uma briga, alguém mijando em um copo ou algum frito acendendo o lado errado do cigarro. Eu vi essas coisas todas no Unkown em 2013, com o problema adicional do Clean Bandit! Mas a coisa mais horrorosa que eu vi no Dekmantel foi uma poça de vômito no banheiro. Foi uma bela de uma poça no entanto — um daqueles gorfos que você não consegue desver, como pornô proibido ou um vídeo de YouTube de um dente do siso sendo tirado.

No domingo, a notícia de que Cilla Black havia morrido lentamente penetrou no festival, e o clima ficou obviamente mais sombrio. Se tem algo que techneros velhos de guerra curtem mais do que Carl Craig, era dançar ouvindo Blind Date. Ainda assim, passou completamente batido em muitos dos mais jovens. Enquanto estava em Dixon, eu ouvi duas garotas de vinte e poucos anos discutindo isso:

"Cilla Black morreu."

"Quem era ela?"

"Do Blind Date."

"Quem ela era no Blind Date?"

"Cilla Black."

"Ah..."

Agora, se eu tivesse a minha camera descartável, eu certamente teria tirado uma foto de sua cara exatamente quando ela disse "Ah..."

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Tradução: Pedro Moreira