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Cozinheiras falam sobre o machismo na profissão

Já que o assunto não se restringe ao 'MasterChef Profissionais', elas contam o que acontece entre pratos, facas e panelas na vida real.

por Débora Lopes
13 Dezembro 2016, 5:45pm

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Foi com uma simples frase que um participante do MasterChef Profissionais, programa da TV aberta que mostra a competição entre cozinheiros e cuja final acontece na noite desta terça (13), riscou o fósforo e acendeu o debate sobre machismo na cozinha durante uma prova em grupo. "Então, pega uma vassoura e varre o chão", proferiu Ivo Lopes para sua colega Dayse Paparoto, aparentemente insatisfeita com a distribuição das tarefas em equipe. Antes, com as mãos livres e disposta a ajudar, a cozinheira havia reclamado: "Você quer fazer o legume, o tomate, tudo".

Em vários momentos, a edição do programa mostrou algo que pareceu muito claro: homens querendo competir com homens. Para isso, o trabalho de Dayse, que está na final com um deles, foi constantemente desmerecido. "Trabalhar com mulher na cozinha é um pouco mais delicado. Vamos ser realistas. Ela acaba sendo um pouco mais 'frágil'", justificou o experiente Ivo, que traz no currículo 25 anos de cozinha e passagens por restaurantes renomados. Fora do programa, ambos trabalharam juntos no italiano Due Cuochi, em São Paulo, no qual Ivo era o chef.

Compartilhado mais de 100 mil vezes no Facebook, um vídeo editado do programa viralizou nas redes. Finalista ao lado de Dayse, o participante Marcelo Verde também profere críticas agressivas e aparentemente desnecessárias à colega. Soam como ódio. A maior parte dos usuários que compartilhou o vídeo apontou uníssona: machismo. E, então, outro tópico emergiu das águas trevosas pela qual navega a televisão nacional, nosso freak show particular: o que acontece entre pratos e panelas pelas cozinhas do Brasil?

A cozinheira Bianca Bertolaccini, ex-participante do MasterChef Brasil. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Do MasterChef, a cozinheira Bianca Bertolaccini, não tem lembranças tão positivas. Com uma taça de chá de hibisco na mão e o cigarro na outra, conta, na varanda de seu apartamento em São Paulo, que o programa serviu como um pontapé para a profissão, mas que não o assiste. Produtora e atriz de teatro, ela participou da primeira edição, que era voltada para cozinheiros amadores. Ainda nas classificatórias, foi chamada de arrogante por Paola Carosella e trocou farpas com Henrique Fogaça, ambos chefs premiados e jurados da atração. Chorou em frente às câmeras e, apesar de ganhar o dólmã e entrar na competição, não sobreviveu muito tempo. No dia seguinte à eliminação, recebeu um telefonema da chef Bel Coelho. Foi aí que sua vida como cozinheira começou.

"O mundo é machista. Não é só a cozinha", pontua Bianca, entre uma tragada e uma espiada na focaccia que está repousando na forma antes de ir para o forno. "A cozinha tem uma herança francesa que, além de ser machista, é rude, hostil. Na verdade, não é um lugar para fracos." Para ilustrar a rotina, ela cita algumas atividades braçais, como picar 30 quilos de batata e filetar 30 quilos de peixe. "Gente fraca não aguenta o tranco. É muito foda. É muito punk, muito puxado. Você passa muito tempo em pé, tem de ter braço pra aguentar." Para Bianca, é aí, provavelmente, que mora o estigma do machismo, da mulher ser "frágil", como sugeriu o participante do MasterChef Profissionais.

Para afastar a ideia de fragilidade, a mulherada se vê trabalhando com muito afinco. "Você tem de dobrar os caras. Tem de provar que consegue carregar um saco de 30 kg e estar na mesma excelência e disposição das 7h às 21h. Pronta pra tudo e super atenta."

A profissional diz também que constantemente ouve de bocas masculinas que "mulher não aguenta". O que, culturalmente, é irônico — já que "falam que lugar de mulher é na cozinha."

A cozinheira Bianca Bertolaccini, 38, ex-participante do MasterChef. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Com as pontas dos dedos, Bianca salpica alecrim colhido de sua horta na focaccia que está preparando. O cheiro é de inspirar o estômago de qualquer repórter. "Existem pratos que pedem delicadeza, leveza. Mas não tem gênero. É um estado de espírito", fala. "É entender que aquele prato precisa de mais atenção. Pra fazer uma telha de caramelo, tem de ter paciência. Não é ser homem ou mulher."

Em 2014, a conceituada chef brasileira Helena Rizzo ganhou o prêmio internacional de "Melhor Chef Mulher" pelo ranking que elege os 50 melhores restaurantes do mundo, promovido pela revista inglesa The Restaurant. A divisão entre "melhor chef" e "melhor chef mulher" ainda é polêmica. A reportagem entrou em contato com a assessoria de Helena pra que ela comentasse o prêmio, mas a chef não quis se pronunciar.

Na cozinha em que trabalha, Bianca e outras funcionárias fizeram com que os homens no recinto não cantassem "aquela música lá, de levar madeirada". Ela se refere à letra de "Malandramente". "Não deixamos. Foi vetada. Não é legal."

Relações de abuso de poder e assédio são intensificadas na cozinha, um ambiente onde tudo é pra ontem e o cliente está posto à mesa, com fome e cheio de expectativas. "Todo mundo grita muito. É muito tenso", conta Bianca, desmistificando toda a aura angelical que imaginamos por trás dos pratos que chegam até nós.

A chef de cozinha Marina Santos, 30. Foto: Felipe Larozza/ VICE

O diploma em geografia ficou guardado na gaveta para que o avental entrasse em cena na vida de Marina Santos, 30, chef de cozinha do restaurante Chá Yê, em São Paulo. Em suas elaborações culinárias de rotina e pesquisa, é a comida brasileira quem fala mais alto. Farinha de milho ou de mandioca, feijão e abóbora são ingredientes indispensáveis.

Por ser uma mulher magra e de porte pequeno, ela relata as inúmeras "sugestões" masculinas que recebeu para se dedicar à confeitaria. "Mas sempre me interessei pela cozinha quente, no fogão, soltando os pratos principais, as entradas", diz. Para Marina, essa foi a primeira percepção machista que teve da área que encara profissionalmente há seis anos.

Durante a formação gastronômica, notou também que os louros foram sempre colhidos pelos homens. "Na história da evolução da cozinha, é impossível citar uma mulher há, pelo menos, um século", pondera. "Acho que isso de estarmos trabalhando na cozinha já é um crescimento. Hoje, posso citar várias chefs que me inspiram. A mulher conseguiu se inserir num trabalho cujo ambiente era antes extremamente masculino e machista."

Humilhação pode ser um sentimento constante na vida dos profissionais que se dedicam a preparar o alimento dos outros. Alguns chefs, afirma Marina, acreditam que gritar com seus funcionários ou humilhá-los fará com que se tornem profissionais melhores.

Depois de fechar seu La Brasserrie, em 2013, Erick Jacquin, chef francês radicado no Brasil, passou a compor a tríade de jurados do MasterChef. Reportagens da época sugeriam que seu temperamento na cozinha lhe rendeu R$ 1,5 milhão de reais entre dívidas e ações trabalhistas. Em entrevista, ele não nega que, durante ataques de fúria, arremessou pratos contra funcionários.

"Imagina uma mulher num ambiente assim?", questiona Marina.

A chef de cozinha Marina Santos, 30, no restaurante Chá Yê. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Proprietária da Manje Culinária, empresa de catering e personal chef, a cozinheira Cintia Sanchez, 35, também participou da primeira edição do MasterChef Brasil, mas desistiu antes da possibilidade de ser selecionada. Na época, a rotina de seleção para o programa estava atrapalhando os cuidados com o filho pequeno. O que não a impossibilitou de pedir um estágio no Arturito, restaurante comandado por Paola Carosella. Jornalista por formação e com anos de experiência na área, ela conseguiu o estágio e, depois, realizou alguns trabalhos como freelancer para o Dalva e Dito, de Alex Atala. Foi o plot twist para mudar de profissão.

Cintia se considera "uma mulher atípica", por isso, acredita enfrentar menos preconceitos no ambiente de trabalho. "Eu era jogadora e sempre fui muito masculina. Não me incomodo. Vou lá e pego um saco de 50 kg de cebola. Mas uma amiga minha, que era uma pessoa pequena, sempre ouvia piadinhas."

A confeitaria também lhe foi "sugerida". Com uma resposta simbólica, Cintia rejeitou: "Gosto de ficar na linha de frente".

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