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Entretenimento

GG Allin pela 'paz, rock and roll e nada de drogas' foi a melhor zoeira já produzida na TV brasileira

O surreal encontro entre GG Allin, políticos de Santa Catarina e universitários em um programa de variedades de Florianópolis.

por Marie Declercq
21 Junho 2016, 10:00am

Cartaz do evento "Dez Anos sem GG Allin", divulgado por desavisados no Programa do Cesar Souza em Santa Catarina.

Existem coisas que só a televisão aberta brasileira pode nos proporcionar. E foi em 2003 que a combinação mais esquisita do Brasil foi formada num programa de variedades de Santa Catarina com um apresentador defensor da moral & bons costumes, um político, universitários zoeiros, uma banda tradicional alemã e...GG Allin.


Um grupo de estudantes do curso de História da UFSC conseguiu alguns minutos no programa diário do Cesar Souza para divulgar o improvável festival "10 anos sem GG Allin", que contou com apresentação de bandas e exibição de filmes underground. Os organizadores resolveram pregar uma peça nos convidados e pintaram o artista como um cara que pregava a paz e lutava contra as drogas. Praticamente uma Madre Teresa do punk. O apresentador e os convidados sustentaram a zoeira sem saber: todos se rasgaram de elogios ao falar de GG e um deles, o político Dário Berger, alegremente comparou seu trabalho à trajetória do mais notório entre os punks xixi. Uma maravilha.

Um dos organizadores do evento, o Gurcius Gewdner, conta que nada foi muito planejado. "Enquanto a gente fazia os corres do evento, o nosso amigo mais bobo sugeriu 'Por que a gente não vai lá programa do fulano divulgar o evento?' O canal era bem pertinho, então fomos lá na mesma tarde e marcamos hora". O festival contou com a exibição de filmes do Petter Baiestorf, do próprio Gurcius e John Waters e mais a apresentação de bandas como Objeto Amarelo, Os Legais (também do Gurcius), Monstro do Armário, entre outras.

"Eles nunca checaram nada mesmo. Nos bastidores, quando apresentaram a gente pros políticos convidados, todos fingiam que sabiam quem era o GG Allin, o 'sociólogo e ativista famoso, né?'", conta.

Durante a divulgação do festival, o Hans Konesky ("herói nacional, meu muso de muitos filmes, chora por 5 minutos em O Triunvirato de 2004") foi escolhido para falar no microfone, fazendo a cara mais serena possível e com um alto controle mental para não rir pintou GG Allin, autor de músicas como "I Kill Everything I Fuck" e "Bite You Scum" e que morreu por conta de uma overdose acidental de heroína, como um cara que lutava com unhas e dentes contra o alcoolismo. Tudo isso com DMX tocando ao fundo. Durante o programa do apresentador, hoje deputado federal pelo PSD-SC e pai do atual prefeito de Florianópolis, Cesar Souza, outro homem que entrevistava os alunos reforçou: "GG Allin, pregava paz, muito rock'n'roll e nada de drogas. "

Um dos apresentadores do programa de variedades rasgando elogios ao artista punk, ao fundo, os estudantes da época que foram divulgar o festival.

"Era pra ter tido Os Legais tocando no final do programa, mandei até uma música de outra banda dizendo que era a gente, mas falhei em mandar uma foto da gente vestidos de caixas de papelão. A produção do programa achou o figurino 'muito estranho' e vetou. Depois achei bom, que creio que não ia ter rolado aquela apresentação linda de dança alemã que teve ali", relembra.

Alunos da UFSC (alguns portando camisetas d'Os Legais) fazendo a egípcia para não rir muito e dar pinta da sacanagem.

Treze anos depois e ninguém nunca realmente perguntou ao apresentador e os convidados se sabiam quem era de fato o GG Allin. O próprio Gurcius deixou um pouco na muquia com medo que os envolvidos desavisados ficassem putos. Na época, o até professor do curso que estava responsável pelos alunos ficou apreensivo. "Aproveitamos o café colonial oferecido depois da gravação e saímos correndo."

"Se eu vasculhar meus arquivos aqui, encontro os cartazes que ficavam afixados nos murais da faculdade, e tem uma carta do professor que assinou pelo evento na época, muito assustado, achando que seria algum tipo de serão performático com pessoas se auto-mutilando, praticando escatologia e se esfregando nas paredes. Acho que ele logo entendeu que era um simples evento de cinema, com debates sobre cinema de transgressão e etc."

A apresentação de uma bandinha alemã foi a cereja do bolo.

Segundo Gewdner, a divulgação no programa diário conseguiu até atrair um pessoal desinformado para o evento. "Creio que nos dois primeiros dias tinha gente que foi parar lá por causa da TV, mas acho que depois da exibição do Pink Flamingos na terça feira não sobrou mais nenhum desavisado."

Infelizmente o festival contou com apenas uma edição, mas eventualmente é carinhosamente lembrado como uma sacanagem muito bem feita envolvendo o cara mais risca faca da história do punk com políticos pomposos do sul do Brasil. "Na época o irmão do GG, o Merle Allin, ficou sabendo do evento e foi bem simpático por carta. Ele disse que não tava rolando esse tipo de coisa em outros lugares do mundo não. (risos)".

Se você amou o vídeo, pode se divertir mais ainda vendo o segmento completo do programa abaixo:


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