comportamento

Por que pessoas de 30 e poucos anos odeiam seu trabalho?

Uma recente pesquisa inglesa aponta que 36 anos é a idade que a maioria das pessoas decide buscar por novas carreiras, perguntamos para algumas delas por quê.

por Helen Nianias; Traduzido por Marina Schnoor
27 Janeiro 2016, 12:55pm

Ilustração por Dan Evans

Trinta e seis, se você acreditar nos resultados de uma pesquisa recente, é a idade em que você desiste da sua carreira. Você passou a faixa dos 20 tentando arrumar sua vida o suficiente para conseguir um emprego, aí você se vê com 30 e poucos quando é tarde demais para pensar se era isso mesmo que você queria fazer. O pêndulo da vida balança. Planilhas durante o dia, séries e mais séries à noite. Grey's Anatomy. Catálogos de Tupperware. Este tipo de coisa.

A pesquisa conduzida pela empresa britânica de contabilidade AAT (The Association of Accounting Technicians) descobriu que pessoas se sentem "presas" em suas carreiras quando atingem a metade dos 30 anos. 31% por cento dos entrevistados disseram pensar em mudar de carreira pelo menos duas vezes por mês, mas a principal barreira para fazer isso é o alto custo de outro treinamento/faculdade/congêneres.

Com esses dados aterradores, falamos com seis pessoas de 30 e poucos anos sobre como o trabalho se encaixa na vida delas agora.

Habib, 34 anos, segurança de clube noturno

"Meu trabalho não é nada com o que eu sonhava. Achei que acabaria fazendo algo mais interessante e glamouroso que isso. Eu trabalhava como agente de apostadores e gostava mais desse trabalho, mas trabalhar na porta de clubes era melhor para mim e para minha esposa. Estamos separados agora, mas temos duas filhas pequenas e se eu trabalho à noite e ela durante o dia, tem sempre alguém para cuidar das crianças.

"Não estudei muito na escola e nunca achei que teria o tipo de trabalho onde você precisa usar uma camisa engomada. Trabalhar na porta das baladas pode ser difícil – você nunca se acostuma realmente com dormir durante o dia. Mas não reclamo disso com meus amigos. Os caras com quem trabalho são confiáveis e nós sempre nos divertimos. Vejo muitos comportamentos escrotos nos clubes em que trabalho, então sempre tenho boas histórias, o que é o suficiente para mim agora".

Abigail, 34, jornalista freelance e mãe de um bebê

"A fase em que fui mais ambiciosa foi no final dos 20 anos. Aí, por volta dos 30, decidi que isso era bobagem, por isso virei freela. Para mim e muitos dos meus amigos, os 30 são uma questão de formar uma família e criar raízes. No momento, só quero que meu trabalho seja mais fácil e bem pago, o que, quando você faz a mesma coisa há quase 15 anos, é o que aparece, ou você provavelmente não é muito bom no que faz.

Acho que quando você ganha uma certa renda, é muito difícil mudar de carreira. Acho que a exceção são pessoas que fazem algo por conta própria ou abrem o próprio negócio. Essa é a idade em que você pensa: 'Ah, quero começar um site/um selo musical/uma loja de cupcakes', mas poucas pessoas realmente podem fazer isso. Acho que se você tiver um parceiro que realmente possa te apoiar, aí sim. Tipo um banqueiro que pode financiar a carreira em design de interiores da esposa... Mas isso é algo raro e fora de moda hoje em dia".

James, 36 anos, trabalha com marketing

"Meu pai trabalhou na mesma empresa por 40 anos. O principal conselho dele para mim e meu irmão na infância era: 'Não façam o que eu fiz, sejam criativos'. Então fiz Artes Cênicas na universidade, e aí achei que iria trabalhar na TV, e fiz isso por um ano ou dois, então saí e comecei uma trupe de esquetes de comédia. Tentamos mesmo tornar isso uma carreira. Alguns amigos estão ganhando Baftas e escrevendo para a Radio 4 agora. A maioria não. Eu fazia trabalhos temporários para bancar minha escolha, mas aí senti que queria realmente ganhar algum dinheiro e não sofrer tanto para pagar o aluguel, então peguei um trabalho permanente de marketing, pensando em escrever no meu tempo livre.

"Aí me casei e peguei outro trabalho de marketing, mais bem pago, mais difícil de abrir mão. Continuo escrevendo, mas aquela pretensão de 'escrever é minha carreira' está se dissipando. A ambição, acho, ainda está aqui, aos 36 anos. Mas há outras coisas lutando por espaço no meu cérebro. Um casamento para manter vivo, filhos, uma hipoteca... E a realidade do trabalho criativo não combina muito com a ambição que eu tinha aos 20 anos. Os stand-ups mais criativos hoje acabam em programas bregas como 8 Out of 10 Cats. Acho que ambição é moderada quando você vê os limites que seus colegas atingiram. A ambição de trocar de trabalho não some necessariamente, mas a capacidade de fazer isso sim".

Jay, 31 anos, tapeceiro

"Nunca ganhei muito dinheiro na minha vida. Estou relativamente feliz com minha escolha de carreira, mas gostaria de fazer algo mais bem pago. Começar algo novo leva muito tempo e é geralmente muito caro. Levei 25 anos para decidir o que queria fazer da minha vida, achando que eu poderia continuar nisso e obrigar as pessoas a me pagarem mais. Estudei cinema na universidade porque, na época, todo mundo dizia que você tinha que fazer faculdade.

"Trabalhei num cinema por um tempo porque não tinha qualificação para fazer nada. Treinamento especial foi como consegui o trabalho que tenho hoje. Mudei de volta para a casa dos meus pais por um ano para conseguir pagar o treinamento, o que fica mais difícil conforme você fica mais velho. E fazer o que você ama não é tão divertido assim quando você passa o mês inteiro estressado com o seguro do carro, com comprar o presente de aniversário do seu amigo, etc. Eu gostaria de ser eletricista no futuro – você ganha bem e pode ver o interior da casa das pessoas!".

Daisy, 38 anos, designer gráfica

"Não me sinto presa – isso seria deprimente. Uma das razões [pelas quais odeio meu trabalho] é que não sou motivada por consumo. Minhas despesas mensais são baixas, e é mais importante para mim guardar dinheiro que gastar em coisas rápidas para me animar. Essas economias abrem mais opções do que roupas novas e aparelhos eletrônicos.

"Mas não tenho medo de tomar grandes decisões. Viajei por um ano quando fiz 33, voltei para Londres com nada e consigo ver o que construí com trabalho duro. Posso fazer isso de novo. Não ter filho facilita as coisas, porque minhas decisões só afetam a mim e ao meu marido. As pessoas colocam muita ênfase em 'viver a vida enquanto você ainda é jovem', mas com a idade vem a sabedoria e a experiência – essas são ferramentas valiosas para fazer mudanças de sucesso na sua vida e não deveriam ser ignoradas".

Tom, escritor, 33 anos

"Acho que nunca vou parar de ter ambição. Eu nunca tive acesso ao tipo de progressão linear de carreira que você tem em empregos normais, com aumento de salário e coisas assim, e para sair disso você precisa correr alguns riscos. As coisas geralmente funcionam para o melhor, ou você aprende algo novo. Quanto a fatores externos, eu inevitavelmente me preocuparia mais se tivesse alguém de quem cuidar, mas felizmente sempre me beneficiei por aceitar riscos, então acho que vou levar essa lição para os meus 40 anos.

"Não acho que seja surpresa que as pessoas se arrisquem em suas carreiras antes de terem filhos. Quando você tiver 50 e eles finalmente forem para a faculdade, você pode começar a ser egoísta de novo".

Margarita, 34 anos, trabalha para uma organização de direitos humanos

"Eu trabalhava no Reino Unido, mas agora moro na Argentina. Há uma pressão maior para acumular bens na Grã-Bretanha. Sendo um pouco de esquerda, eu diria que o último estágio do capitalismo encoraja isso. Não tenho uma vida 'tradicional' nesse sentido. Tenho tido relacionamentos abertos desde que era adolescente com pessoas de diferentes gêneros e nunca me senti tentada a casar. Já tive relacionamentos nos quais eu era responsável pelo filho de outra pessoa, mas para ser honesta, nunca quis filhos meus. Também não gosto da ideia de me sentir presa por uma hipoteca. Acho que isso muda as decisões que tenho tomado na minha carreira. Meu trabalho é das 8 às 14h, o que me dá muito tempo para fazer meus hobbies. Meu trabalho é em direitos humanos para o governo, o que é muito satisfatório, mas também sou uma artista interessada em eletrônicos. Estou fazendo exatamente o que eu queria fazer quando era adolescente. Levei muito tempo para atingir o equilíbrio".

Alguns nomes foram mudados.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.