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Como Não se Tornar um Cadáver Explosivo

Não é um espetáculo bonito, mas precisamos ser francos sobre o que acontecerá com seu corpo entre o velório e o reino dos céus.

Quando se trabalha num cemitério, o esperado é que, em circunstâncias normais, tudo se mantenha em seu devido lugar entre um turno e outro. Na verdade, acredito que os funcionários não gostem muito de surpresas, principalmente quando elas envolvem explosões de cadáveres.

Relatos do fenômeno não são tão raros, embora não haja dados quanto a sua frequência. O fato é que ele existe. O que não sabemos é se constitui regra ou exceção. Há como impedir que isso aconteça? Precisamos ficar atentos a alguma outra prática funerária?

Pra responder a estas perguntas, conversei com o Josh Slocum, diretor executivo da Funeral Consumers Alliance, uma organização sem fins lucrativos que se autodenomina uma espécie de paralelo funerário da Consumer Reports, revista que publica as opiniões dos consumidores.

VICE: Por que os cadáveres estão explodindo?
Josh Slocum: Imagine aqueles restos de comida que ficam na geladeira. Todos sabem o que acontece se você deixar um pedaço de carne num pote por muito tempo. Na geladeira, demora um pouco mais, por causa do frio, mas, se você deixar do lado de fora, eu tenho certeza de que muitos de nós podem se lembrar do cheiro horrível que sai dele quando você o abre. Seres humanos são de carne, assim como qualquer outro animal. Quando um corpo é armazenado num ambiente hermeticamente fechado, quente e úmido, bactérias anaeróbias se desenvolvem. O corpo apodrece de qualquer jeito, não importa se ele está num ambiente fechado ou não. O problema é que, quando se impede a circulação de ar e a desidratação, as consequências são horríveis.

Como assim, horríveis?
Basicamente, o caixão se torna uma panela de pressão. Ele reduz o corpo a uma lama castanha nojenta, volumosa. É horrível. Eu nunca vi isso pessoalmente, mas já olhei muitas fotografias de famílias que resolveram mover ações judiciais por causa disso. Imagine um caixão sendo tirado do túmulo com o que parecem ser litros de sujeira marrom escorrendo por todos os lados. O caixão é aberto e, dentro, não se vê nada além de tecido molhado e uma vaga mancha em forma humana. Terrível.

Mas como acontece a explosão?
Sabemos que restos em decomposição de qualquer tipo produzem gás. Basicamente, é assim que funciona a compostagem. É o processo de decomposição normal. Quando se lacra um caixão, o gás não consegue sair. Acho que já houve casos em que a pressão foi suficiente para arrancar aquela parte da frente dos túmulos. Normalmente as explosões não são do tipo “bum!”, mas, sim, pequenos estalos na tampa que deixam o gás sair. É nojento, mas não há risco de transmissão de doenças.

Acho que isso serve de consolo para os funcionários dos cemitérios. Eu mesmo vou a esses lugares frequentemente e, quando estou em um mausoléu, eu sei dizer logo se aquele lugar tem ventilação apropriada ou não.

Há algum motivo específico para selarem os caixões?
Não tente achar nenhuma lógica ou razão nisso. O que existe é um sistema louco onde a indústria funerária está presa dentro dos mitos que ela mesma inventou e não consegue admitir isso publicamente.

O que se deve fazer, então?
Donos de mausoléus mais sensatos sabem que você vai preferir um túmulo ventilado - e não completamente fechado. É por isso que, de vez em quando, há ações judiciais contra funcionários de cemitérios que entram escondidos nos mausoléus e abrem um pouco os caixões, para facilitar a desidratação. Eles todos sabem o que acontece se isso não for feito.

Por que isso vira uma ação judicial?
Porque é feito depois de a família ter comprado um caixão lacrado classificado pela casa funerária como “preventivo”. Tudo funciona de um jeito muito estranho. Um mausoléu bem projetado tem túmulos levemente inclinados para a parte traseira, para um sistema de drenagem por onde os fluidos escorrem discretamente. O desenho também permite a circulação constante de ar nos túmulos, facilitando a desidratação por um discreto respiradouro atrás da construção.

Um mausoléu bem projetado pode prevenir explosões?
Alguns não são muito bem projetados e, em outros casos, dependendo do quão apertado o caixão for fechado ou aparafusado, você terá problemas de qualquer forma.

Caixões lacrados são sempre um problema?
Geralmente, mas não sempre. O maior fabricante de caixões dos EUA, por exemplo, alega que os seus “arrotam”. Eles devem permitir que o excesso de gás escape do caixão, e assim a pressão não se acumula. Isso funciona algumas vezes - mas nem sempre.

Como as pessoas que desejam ter esse tipo de funeral podem evitar todos esses problemas?
Grandes cemitérios, pertencentes a grandes empresas, geralmente têm esses mausoléus de baixa qualidade e costumam fazer todo tipo de promessa falsa sobre eles. Mas isso não se restringe ao comportamento corporativo. Se você quiser um túmulo limpo e seco, o melhor que você tem a fazer é garantir que o funeral seja num mausoléu bem projetado e com um caixão simples, que não seja hermeticamente fechado, permitindo a circulação de ar.

Isso sempre foi um problema?
Alguns meses atrás eu estava em Baltimore e fui a um famoso cemitério histórico. Havia muitos mausoléus acima do nível do chão. Tinham um estilo antigo, eram do século 19, feitos de tijolo. Eles só tinham um andar, não eram um edifício, mas pequenas elevações sobre as quais você tinha de se ajoelhar para ler as inscrições nas plaquinhas. Havia buracos nas portas de ferro fundido que acredito que sejam para ventilação. Olhei lá dentro com minha lanterna e vi o que se espera de um mausoléu: pedaços velhos de madeira dos caixões e alguns ossos, muito secos. Eram como “esqueletos antigos encontrados na caverna”. Antigamente, simplesmente colocavam as pessoas ali, envoltas numa mortalha ou num caixão, e deixavam a natureza fazer seu trabalho. Isso é muito diferente do que se vê em mausoléus modernos.

O que as pessoas devem ter em mente, caso não queiram que seus queridos se tornem cadáveres explosivos?
Nada do que acontece com cadáveres é bonito. Não há nada bonito que se possa fazer. A decomposição na terra é nojenta. Não acredito que alguém também vá querer ver o processo de cremação, onde se queima o corpo a mais de 800ºC. A dissecção anatômica também é nojenta. Mas a vida é assim. Se por acaso você começar a se sentir mal por causa do estado do corpo, recomendo que você pare um momento e lembre-se de que o que acontece com ele não é bonito, mas não podemos fazer nada quanto a isso.

O que fazer na hora da compra do caixão?
Não tente se esquivar do que acabamos de falar. Fique longe de qualquer coisa que tentarem te vender como “preventivo”. Isso é uma mentira, estão querendo tirar vantagem de você, devido a seu estado emocional. Isso faz algum sentido? “Prevenir” o corpo do seu marido de alguma coisa? A maioria diria que não, mas é difícil pensar nisso naquele estado emocional.

Por que você acha que as pessoas não estão bem informadas na hora da compra?
O maior problema é que, além do medo, quase tudo que as pessoas acham que sabem sobre funerais está errado. Há uma certa mitologia quanto ao assunto que, não surpreendentemente, funciona a favor do bolso do empresário. Muitos acreditam, por exemplo, que a lei exija que o corpo seja embalsamado. Falso. A maioria das pessoas crê que a lei determine que o caixão seja colocado num sarcófago. Falso. Elas acreditam que caixões hermeticamente fechados podem preservar um corpo. Falso.

Como esses mitos se espalharam?
Nos EUA, escolas mortuárias começaram 130 anos atrás, através de empresas de embalsamamento químico. Durante um século inteiro, seus estudantes foram doutrinados numa ideia falsa. Não é uma questão de opinião, é um absurdo científico. A ideia de que o embalsamamento desinfeta o corpo e protege a saúde pública é completamente errada, mas eles acreditam nisso. O único problema de saúde relacionado ao embalsamamento vem da exposição do próprio embalsamador ao formaldeído e a fluidos corporais aos quais não estaria exposto se não estivesse abrindo um cadáver.

As pessoas também têm problemas quanto a ver corpos, certo?
Nós crescemos com essa cultura. Achamos chocante o fato de o resto do mundo não embalsamar corpos, não pintar lábios, essas coisas. Para as casas funerárias, também é chocante exibir corpos não embalsamados. Inclusive, já vi casos em que, nessas situações, as pessoas são obrigadas a assinar um papel no qual a funerária não se responsabiliza pelo desconforto emocional que possa ser causado.

Falando em particularidades americanas, uma coisa que me surpreendeu foi descobrir que na Grécia, onde cresci, e provavelmente em outros lugares também, “agente funerário” não é uma profissão regulamentada. É apenas um conhecimento adquirido. Você acha que a abordagem americana serve a algum propósito?
Não serve para nada além de arrancar o dinheiro dos consumidores. É horrível. Eu acharia muito melhor ver um sistema como o que você descreveu. A única coisa que os diretores funerários podem fazer e que nós não podemos é o embalsamamento. O curso da escola mortuária dura dois anos. Desses dois anos, nove meses são dedicados ao embalsamamento, o que é muito excessivo, considerando nossa taxa de cremação. No tempo restante, você aprende a vender caixões, administração de pequenas empresas e um pouco de psicologia.

Então você concorda que nós devemos nos preocupar mesmo é com os vivos?
Não há nada que você possa fazer por sua avó morta. Você não pode insultá-la nem canonizá-la. Você não pode fazer com que ela chegue ao céu mais rápido. Ela já se foi, portanto você não pode fazer nada para ela ou por ela. O que você pode fazer é algo que seja significativo e apropriado para você, sua família e todos os outros. [...] A primeira coisa a se fazer é parar de se desculpar a si mesmo e ao resto do mundo por lidar com essa transação como a transação comercial que ela de fato é.

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Tradução: Flavio Taam