Munchies

Comi ao lado de capivaras e suricatos nos mais insanos pet cafés de Seul

Na Coreia, você pode comer waffles fazendo carinho numa ovelha ou tomar um smoothie acompanhado de suricatos.

por Spencer R. Morrison; Traduzido por Marina Schnoor
10 Agosto 2017, 6:19pm

Esta matéria foi originalmente publicada no MUNCHIES US .

Desde sua estreia em Taiwan quase 20 anos atrás, a febre dos pet cafés se espalhou como fogo no mato pela Ásia e migrou para outras partes do mundo também; cafés de gatos são quase lugar-comum em vários países, e ano passado os EUA abriu seu primeiro café de cachorros.

Mas em Seul, a experiência de pet cafés vai muito além de gatos e dogues. Algumas das experiências de refeição mais únicas da Coreia do Sul incluem agora uma variedade de animais exóticos.

Mês passado, saí para visitar três dos pet cafés mais incomuns de Seul. Eles prometiam a experiência de comer waffles ao lado de ovelhas, guaxinins e suricatos. Comecei com o Thanks Nature Cafe, também conhecido como "café de ovelhas". Ele fica em Hongdae, a área de Seul para onde você vai se quer shows indies, cafés loucos e moda criativa. Felizmente, a seção com as ovelhas é separada da área de alimentação, que serve café, smoothies, sucos e waffles.

Como na maioria dos pet cafés, para passar tempo com os animais você precisa comprar tipo um pacote. Fora as ovelhas, os clientes vêm aqui pelo waffles e patbingsu, uma sobremesa popular coreana de raspadinha de leite com coberturas diversas. A versão do patbingsu do Thanks Nature Cafe é a clássica raspadinha de leite com pasta de feijão-vermelho, pó de feijão torrado e mochi de feijão-vermelho. A raspadinha tem a textura de neve recém-caída, um antídoto perfeito para o verão opressivo coreano.

"Assim que entramos, a barista nos entregou um cardápio e um flyer com algumas regras, como 'Não pegue os guaxinins no colo' e 'Não toque um guaxinim que estiver dormindo'."

Minha maior preocupação antes de ir a esses estabelecimentos eram as possíveis questões sanitárias de ter animais andando perto de onde comida é preparada e consumida. Eu achava que a área aberta teria cheiro de xixi de ovelha, mas os donos estão sempre limpando e desinfetando a área. Como resultado, o espaço do animal era imaculado, e as ovelhas pareciam ter acabado de tomar banho – mais limpas e fofinhas que a maioria das nuvens que você vê no céu poluído de Seul.

Quanto ao bem-estar, os animais têm uma parte separada e um pequeno estábulo para dormir e evitar visitantes barulhentos se quiserem. As ovelhas, chamadas Anna e Sam, eram muito simpáticas, vindo receber e até pular em clientes que quisessem alimentá-las. O balido suave delas era relaxante comparado com o K-pop acelerado que tocava lá fora.

A próxima parada da minha busca por pet cafés era o "café de guaxinins" Blind Alley. No começo, esse me pareceu o mais estranho de todos. Cresci nos subúrbios de Nova Jersey, então sempre vi guaxinins como criaturas malevolentes que reviram o lixo e podem transmitir raiva, não um bicho perto da qual você ia querer comer.

O Blind Alley Cafe fica numa parte relativamente tranquila de Seul, onde há outros pet cafés. Depois de falar com alguns baristas e os donos, comecei a entender por que esses pet cafés são tão populares na capital da Coreia do Sul.

A densidade populacional de Seul é o dobro da de Nova York, então a maioria dos moradores da cidade vive em apartamentos, e muitos prédios não permitem animais. E a ênfase da cultura coreana em trabalho pesado significa que os coreanos têm a terceira mais longa semana de trabalho do mundo, deixando pouco tempo para cuidar de bichos. Então, depois de lidar com o stress da vida na cidade e uma jornada de trabalho de 60 horas por semana, às vezes você só quer tomar um gelato e fazer carinho num guaxinim para relaxar um pouco.

Apesar de várias mesas vazias – diferente do Thanks Nature Cafe, que estava lotado – o café conta com um fluxo estável de locais e estrangeiros. Assim que eu e minha namorada entramos, a barista nos entregou um cardápio e um flyer com algumas regras, como "Não pegue os guaxinins no colo" e "Não toque num guaxinim que estiver dormindo". Eu gostaria de estar presente quando algum cliente sem noção tentasse pegar um guaxinim no colo como se fosse um filhote de cachorro.

Mais alarmante, o panfleto também avisava que as criaturas poderiam tentar comer nossos pertences ou nos morder, então, sabe "Não tenha medo e diga 'não' com firmeza para o guaxinim".

"Bom saber. Vou querer um Oreo Bong Bong e uma salada de ricota", eu disse à barista.

Fora os guaxinins, o Blind Alley é conhecido por sua ricota caseira e seu gelato. A salada consiste de um monte de ricota fresca coberta com tomates e passas. O 'Bong Bong' de Oreo era um brownie quente feito com wafers de Oreo com gelato de baunilha, calda de chocolate, caramelo e amêndoas. Misturei tudo até o chocolate derretido parecer a cara de um guaxinim.

Como no último café, a seção com os animais é separada da área de alimentação. Eu estava tenso quando entrei e não os vi, então fiquei imaginando que um bicho ia pular em mim de algum canto escuro. Mas os três guaxinins estavam dormindo. A equipe me entregou pedacinhos de lula seca, e eles acordaram um por um com o cheio forte do petisco. O mais interessante e divertido do grupo era um guaxinim albino, com pequenas patinhas brancas macias com que ele pegava um pedaço de lula de cada vez.

Como todos os outros norte-americanos que vi aqui, eu recuava sempre que a pata dele tocava a minha mão. A sala onde os guaxinins ficavam tinha paredes de tijolos e canos baixos, dando a impressão de um beco escuro onde, em Jersey, por exemplo, você encontraria uma horda de guaxinins revirando lixo e bebendo leite rançoso. Os guaxinins subiam pelas paredes e se penduravam nos canos.

Guaxinins não são nativos da Coreia do Sul, então os locais, que não conhecem a reputação não tão boa dos bichos nos EUA, só sorriem e tiram selfies com o rosto a centímetros dos animais. Um corgi até entrou na sala e começou a brincar de lutinha com um deles. Numa sala seguinte, o café colocou recentemente uma capivara, que não parece com nada que já vi na vida. Nativa da América do Sul, ela é o maior roedor da Terra. Parece uma marmota de 60 quilos com cara de coelho e orelhas pequenas. Beber um café Americano perto dessas criaturas selvagens me fez sentir que eu já tinha visto toda a estranheza da cultura dos cafés de Seul, mas foi só uma preparação para o que veio depois.

"Falando por experiência própria, a sensação de suricatos tentando cavar buracos na sua roupa é... estranha."

Finalmente, cheguei aos terceiro e mais estranho destino da minha lista: o Meerkat Cafe. Diferente dos outros, não há áreas designadas para os animais; as criaturas podiam correr pelo lugar todo. Em cima da minha cabeça balançava a calda listrada de uma gineta, um mamífero nativo da África que parece uma mistura de lêmure e mangusto. Atrás de mim, um wallaby, a nova aquisição do café, pulava entre as mesas. Uma raposa do ártico desconfiada correu ao longo da janela atrás de mim e puxou briga com o wallaby. Enquanto isso, uma variedade de gatos pulava sobre as mesas e colos de quem quisesse alimentá-los.

Como não há uma área de alimentação separada, o café só serve bebidas engarrafadas como café gelado ou sucos. Peguei um café gelado e entrei na fila para a parte dos suricatos, onde você tem dez minutos para brincar com uma dezena deles. Os visitantes recebem um cobertor, e os suricatos, que são amigáveis e sociais, vêm sentar no seu colo.

Falando por experiência própria, a sensação de suricatos tentando cavar buracos na sua roupa é... estranha. Observando esses suricatos tentando seguir seus instintos animais num café lotado tão longe de sua terra natal, fiquei imaginando: esses cafés de animais são um jeito ético para essas criaturas viverem? Consultei a dona do Meerkat Cafe, Natalie, e perguntei a ela sobre o tratamento que os animais recebem nos pet cafés coreanos.

"Alguns cafés são ruins. Eles não cuidam dos animais. Eles não limpam nem alimentam eles direito. Eles só se importam com dinheiro", disse Natalie.

"Por que seu café é diferente?", perguntei.

"Eu amo esses animais. Às vezes eles vão para casa comigo. Os suricatos e a raposa eram meus bichos de estimação antes de eu abrir este lugar. Eu me sentia mal por deixá-los sozinhos em casa quando ia trabalhar, então comecei o café para eles terem mais atenção."

Essa parece ser uma história comum. Os guaxinins do Blind Alley eram bichos de estimação da dona, que os resgatou de virarem casacos de pele, ela me disse, e a capivara foi adotada de um zoológico que ia fechar. Apesar do dono no Thanks Nature Cafe não ter as ovelhas antes de começar o café, ele me disse que as criou desde filhotes.

Com vários cafés de cachorros e gatos em Seul indiciados recentemente por maus tratos, esses café dizem que esperam se destacar não só por seus animais incomuns, mas por sua abordagem para o bem-estar deles.

Ainda é difícil dizer se é realmente humano colocar animais selvagens num habitat não natural para serem acariciados por multidões de estranhos todos os dias. Mas para alguns, a alternativa seria ficarem sozinhos num apartamento pequeno na cidade, serem abandonados ou mortos por sua pele. E, pelo menos pela Natalie, suas intenções parecem sinceras.

"Eu amo os animais", ela disse, "e só quero compartilhar os meus com pessoas que também os amam".

Tradução: Marina Schnoor

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