Identidade

A obsessão da alt-right por fazer das mulheres brancas "fábricas de bebês"

Fui assediada por um neonazista que perguntou: “Você quer continuar a raça branca comigo?”

por Erin Corbett; Traduzido por Marina Schnoor
05 Abril 2018, 3:00pm

Imagem por Alex Reyes.

Conheci William Fears no protesto “Unite the Right” em Charlottesville em agosto, que acabou com a morte de Heather Heyer, ativista que se manifestava contra os supremacistas brancos e foi atropelada por um carro. O texano de 30 anos ganhou notoriedade por ser um dos presos e acusados de tentativa de homicídio dois meses depois, na Flórida. Mas Fears me aterrorizou visualmente desde o começo: ele usava o típico look da direita alternativa – calça social e blazer – e carregava uma bandeira do ramo texano do autoproclamado grupo fascista Vanguard America. Acusado pelo atropelamento de Heather e outras 18 pessoas, James Alex Fields Jr. foi visto na companhia do mesmo grupo antes de supostamente jogar seu Dodge Challenger em direção aos manifestantes antifas.


Assista:


Na hora do meu encontro com Fears, eu ouvia Thomas Rousseau, agora líder do Patriot Front – um grupo que se separou do Vanguard America depois de Charlottesville – falar com jornalistas sobre o protesto. Os extremistas de direita esperavam violência, e enquanto Rousseau dizia que seu grupo não começaria brigas, ele acrescentou que “se a oposição começar com alguma coisa e a polícia não acabar, nós vamos”.

Ele continuou perguntando se eu queria um namorado, e acrescentou: “Você quer continuar a raça branca comigo?”

Se estar na presença de neonazistas violentos já não fosse tenso o suficiente, foi mais ou menos nessa hora que Fears virou pra mim e perguntou “Você tem namorado?”.

Eu não sabia como responder. Eu estava despreparada para avanços sexuais de um neonazi, e parecia, como acontece com frequência com mulheres trabalhando nessas situações – mesmo aquelas envolvidas com homens menos flagrantemente tóxicos –, que não havia como escapar. Ou eu arriscava receber uma reação violenta respondendo, ou pareceria impotente não dizendo nada.

Ele continuou perguntando se eu queria um namorado, e acrescentou: “Você quer continuar a raça branca comigo?”.

A junção do pensamento supremacista branco com agressão sexual descarada era chocante, e isso, graças em parte à violência que se seguiu, ficou na minha cabeça mesmo antes de saber sobre os supostos crimes de Fears na Flórida. Naquele dia em Charlottesville, ele me deu um sorriso seboso enquanto eu tentava me distanciar. “Que tal um sorriso?”, gritou, num comentário agressivo e familiar para toda mulher.

O sentimento persistente de desconforto ficou ainda maior depois que descobri a história violenta daquele homem com mulheres – um problema que, mesmo não sendo obviamente único da alt-right, parece se alimentar do racismo endêmico do movimento.

Supremacia branca e misoginia estão interligadas, e são emblemáticas dos movimentos nazistas.

Dois dias depois do protesto na Flórida, a promotoria de Harris County, Texas, deu queixa contra Fears por um incidente onde ele teria batido e enforcado a então namorada mais cedo naquele mês. E no janeiro anterior, Fears teria puxado uma faca para Hannah Bonner, um reverenda do clero Metodista Unido, num aeroporto no Texas. “Quando o encarei, eu soube que estava frente a frente com algo que nunca tinha encarado antes”, Bonner relembrou numa entrevista. “Vê-lo sendo finalmente preso por tentar matar pessoas foi meio que 'sim, eu tinha razão'."

Mas não é só Fears – o patriarcado e a supremacia branca são fundamentais para os grupos neonazistas que convergiram em Charlottesville e continuam a se organizar pelos EUA na era Trump. As cantadas e insultos que eles jogaram contra mim e outras contramanifestantes naquele final de semana – incluindo termos homofóbicos como “sapatão”, lançados para membros do clero – eram invariavelmente cobertos de sexismo e racismo. Supremacia branca e misoginia estão interligadas, e são emblemáticas dos movimentos nazistas.

Durante as festas de final de ano de 2017, por exemplo, uma série de incidentes de violência doméstica, que suspeita-se terem sido realizados por extremistas de direita, resultaram em 13 mortes e mais de 20 feridos. Muito antes de James Alex Fields ser preso, sua mãe deficiente tinha ligado várias vezes para a polícia em 2010 e 2011 para dar queixa de ameaças e violência contra ela. E semana passada, Matt Heimbach, presidente do grupo neonazi Traditionalist Worker Party, foi preso por acusações de intimidação e violência doméstica contra sua esposa.

Os simpatizantes da alt-right empregam a mesma narrativa hoje para explicar seu ódio por mulheres trans.

Segundo Marilyn Mayo, pesquisadora sênior do Centro de Extremismo da Liga Antidifamação, começando por volta dos anos 1960, grupos supremacistas brancos nos EUA argumentavam que as feministas organizadas para reverter papéis de gênero tradicionais “são todas judias tentando criar um paradigma diferente e enfraquecer os homens brancos”. Os simpatizantes da alt-right empregam a mesma narrativa hoje para explicar seu ódio por mulheres trans. Uma postagem no site de extrema-direita Daily Stormer sobre uma garota trans, por exemplo, sugeria que “os judeus fizeram isso”, e comentários no Discord (historicamente a plataforma de chat preferida da alt-right) apontam para uma obsessão transmisógina com genitália.

Mas, mais especificamente, a busca contemporânea da extrema-direita por “ter bebês brancos” se baseia numa nova mistura de antinegritude, antissemitismo, misoginia e uma noção eugenista de que a raça branca é e deve se manter pura para “repovoar”.

Um mês depois da minha experiência em Charlottesville, uma conta no Twitter que parecia estar associada ao Patriot Front propôs que eu “tivesse meus bebês brancos”. Samuwell Haididi – que também parece ser afiliado com contas no Facebook que pertencem a um homem que usa o nome Cody Coombs – sugeriu que eu “poderia ser comível” desde que não fosse judia.

Como Donna Minkowitz, que escreve e pesquisa sobre nacionalismo branco para o Political Research Associates, explicou numa entrevista, esses avanços são coloridos pelo fato de que muitos homens recrutados para movimentos modernos de nacionalismo branco são radicalizados na internet. Ela apontou em particular para o “Homem-esfera”, uma rede de fóruns e blogs onde homens discutem masculinidade e a conquista sexual de mulheres – nem sempre de maneiras que encorajam ou desculpam a violência, mas muitas vezes sim.

De muitas maneiras, a reversão dos direitos das mulheres e o feminismo geral são uma força motora para recrutamento na extrema-direita, junto com a conceitualização supremacista branca do que eles chamam de “etnoestado branco”. Essa fantasia se baseia não só em ganhar poder sexual sobre as mulheres brancas, mas também impor controle reprodutivo sobre mulheres não brancas. “Eles têm essa teoria de que as pessoas brancas estão morrendo e vão ser ultrapassadas em números por pessoas não brancas, e eles morrem de medo que as pessoas brancas possam ser oprimidas”, disse Minkowitz. “Eles não vão permitir que mulheres brancas abortem, mas vão forçar o aborto” para mulheres de outras raças.

O líder da alt-right Richard Spencer ecoou esse sentimento ano passado num vídeo no YouTube. “Queremos ser eugenistas”, ele disse, mais tarde acrescentando que “a ideia de que todo ser humano tem direito à vida... não é assim que pensamos como identitários!”

Parte do problema aqui é que homens brancos se acham no direito de muita coisa. Como Keegan Hankes, um analista sênior do Southern Poverty Law Center, explicou numa entrevista, homens brancos americanos muitas vezes são ensinados desde jovens que vão ter as circunstâncias econômicas e sociais que desejam: um bom trabalho, dinheiro, relacionamentos profundos. Quando homens brancos com problemas nessas áreas veem esses sucessos em outras comunidades, eles podem entender isso como uma “encarnação de suas perspectivas em declínio”, como Hankes colocou. E acham que seus status e privilégios foram invertidos, e por essa lógica, problemas sociais reais como desigualdade econômica são culpa das comunidades não brancas.

Claro, tem muitas mulheres que também compram o conceito da alt-right da fantasia profundamente sexista de um etnoestado. “Não podemos restaurar nossa civilização com os bebês dos outros”, disse Ayla Stewart, uma blogueira de Utah conhecida como “Esposa com um Propósito”, para a apresentadora da direita alternativa Lana Lokteff no rádio ano passado.

“As mulheres têm um papel [no movimento] de guiar as crianças e fazê-las apoiar os pontos de vistas dos pais”, explicou Mayo, acrescentando que mulheres estão envolvidas há bastante tempo – mesmo que marginalizadas – na atividade nacionalista branca nos EUA.

“Nossos homens precisam de haréns, e as membros desses haréns precisam ser fábricas de bebês”

Os sistemas de dominação e poder da direita alternativa também formam as bases da chamada “Xaria Branca”, aplicada por grupos nazistas e fascistas. O termo, que Minkowitz descreveu como “a ideia de que sexualidade, reprodução, vida diária e direito de consentir das mulheres brancas devem ser controlados pelos homens brancos num estado supremacista branco”, supostamente emergiu no Daily Stormer como um meme “irônico” da alt-right. Esse é outro conceito venenoso que conheci pessoalmente: a própria bio no Twitter de Fears – antes que ele fosse suspenso – dizia “líder carismático de um culto de reprodução branco”, e o associado do Patriot Front Haididi uma vez se referiu a mim no Twitter como uma “noiva de guerra da xaria branca”.

Numa entrevista, George Ciccariello-Maher, professor convidado do Hemispheric Institute of Performance and Politics da NYU, explicou o conceito de “Xaria Branca” como “uma obsessão com esse poder sexual racial que eles sonham ter... porque eles sonham ser bárbaros”, além de uma incompreensão racista do Islã. Sacco Vandal, um ex-marine que escreve para seu próprio site, além de outros sites supremacistas brancos, deu uma ideia assustadora do conceito: “Nossos homens precisam de haréns, e as membros desses haréns precisam ser fábricas de bebês”, ele escreveu.

Essencialmente, na visão de mundo dele, o único propósito de mulheres como eu é reprodução.

A marcha “Unite the Right” foi obviamente um alerta para muitos americanos sobre o ressurgimento do nacionalismo branco na era Trump. Mas também foi, para mim, uma janela da masculinidade tóxica endêmica da extrema-direita. Quando soube da prisão de Fears na Flórida mês passado, fiquei aliviada por finalmente poder identificar a pessoa que me violou naquele dia, enquanto simultaneamente fui jogada de volta no estado de raiva e adrenalina que experimentei quando conheci o cara em 12 de agosto. Eu também não estava preparada para o impacto durador que ir até um protestos político teria no meu cotidiano.

Depois do tiroteio na aparição de Richard Spencer na Flórida em outubro, Fears ficou preso por um tempo numa cadeia em Gainesville, com uma fiança de U$S 1 milhão. O representante legal dele lá, Eric Atria, se recusou a comentar para esta matéria, e Fears eventualmente foi extraditado para o Texas, onde foi acusado formalmente em 20 de fevereiro por “ataque a um membro da família – impedimento de respirar”. Segundo o advogado indicado pelo tribunal do Texas para Fears, Patrick J. Ruzzo, ele pode pegar uma pena longa pela acusação de violência doméstica.

“Neste ponto, como em todos os casos em que trabalho, estamos conduzindo uma investigação independente dos fatos”, disse Ruzzo, se recusando a comentar mais. A próxima audiência de Fears está marcada para 10 de abril.

Não importa como esse caso termine, não espero cruzar com William Fears tão cedo. Mas está claro que há muito outros como ele por aí – e poucas chances de uma intervenção política ou cultural que possa controlá-los.

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