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Entretenimento

Por dentro de um centro de treinamento para atores pornô

Diferente de um teste do sofá típico, o acampamento da atriz e produtora pornô de Vancouver Samantha Mack dá uma chance real para amadores se profissionalizarem na indústria.

por Laura Bell; Traduzido por Marina Schnoor
15 Agosto 2019, 6:23pm

Aspirantes a ator pornô aprendem as habilidades necessárias. Screenshot via "Porno Bootcamp" da VICE.

Alguns meses atrás, convenci meu editor que seria uma boa ideia juntar a turma da redação para se aventurar numa mansão em Vancouver e acompanhar a jornada de cinco homens numa competição conhecida como “Porno Bootcamp”. Sim, né, por que não? O que começou com uma matéria interessante mas ligeiramente traumática se tornou muito mais que isso. Do Porno Bootcamp vieram quatro semanas de transtorno de estresse pós-traumático, incontáveis pesadelos com pênis, e uma crença genuína de que eu nunca mais ia conseguir transar (e talvez, só talvez, amadurecimento).

Quando eu estava num festival recentemente, meus amigos de ressaca decidiram passar um copo morno de leite com morango na roda uma manhã. Naquele momento, achei que assistir meus 10 amigos compartilhando suco de vaca tinha sido uma das coisas mais perturbadoras que eu já tinha visto – até testemunhar o Porno Bootcamp. O rosto dos cinco caras se masturbando num sala acarpetada quente queimou aqueles bigodes de leite da minha memória.

AVISO: quem ficou com nojo da história do leite não está preparado para o que vem a seguir. Vai ler outra coisa, por favor.

O Porno Bootcamp é ideia de Samatha Mack, artista, produtora e CEO da Mack Models, uma agência que fornece elenco para filmes adultos de Vancouver. Samantha Mack é tipo um Yoda da indústria pornô. Ela pega esses amadores e dá uma mãozinha (literalmente) para que eles entrem na carreira profissional os ensinando as habilidades necessárias.

Como todo bom empreendedor, Mack viu um problema na indústria e decidiu consertá-lo. Havia uma falta de talentos (e ejaculações) descentes em Vancouver, e ela percebeu que se precisava de caras, ela tinha que treiná-los ela mesma. Das cinzas preexistentes dos pintos profissionais de Vancouver, o Porno Bootcamp ascendeu como uma Fênix.

O Porno Bootcamp é o equivalente masculino de um teste do sofá. Ele envolve três rodadas pensadas para testar a resistência, estamina e jato dos caras, para ver se eles estão prontos para as câmeras. A competição até coroa um vencedor no final, pelo melhor e mais bonito esperma (e por conseguir gozar dentro de um tempo pré-determinado). Aí o vencedor tem a oportunidade de filmar um vídeo com a própria Mack.

Quando nos encontramos com Mack, ela recebeu nossa turma comparativamente baunilha com os braços abertos e seus seios de 7 quilos. Logo de cara ficou claro a matriarca e educadora impressionante que ela era. Diferente de um teste de sofá para mulheres, que se tornou um tropo abundante e problemático nos vídeos pornô, o acampamento é uma experiência realmente valiosa para os participantes, não a tentativa de um diretor folgado de ver gente pelada.

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Porno Bootcamp é ideia de Samantha Mack, atriz e produtora pornô, e tipo uma Yoda da indústria. Screenshot via "Porno Bootcamp" da VICE.

A rodada que testemunhamos se chamava “Musical Dicks”, e sei que você não quer saber as regras, mas vou contar mesmo assim. Em “Musical Dicks” cinco aspirantes a ator pornô são chupados por três mulheres (Mack entre elas). Os homens precisam aguentar oito minutos e as mulheres precisam impedir que eles aguentem. Se um homem goza antes do tempo ele está fora, e as mulheres ganham. Mas depois que o relógio dá oito minutos, os homens precisam gozar antes da marca dos dez minutos; ou também estão fora. Complexo, eu sei. Se não está entendendo qual a dificuldade, você é um dos sortudos.

“Tinha cinco pênis naquela sala em vários estados de meio a todo mastro.”

Então, de repente, lá estava eu com cinco homens nus, três mulheres nuas, um diretor e a equipe da VICE. Era uma mistura constrangedora de corpos nus lubrificados e gente vestida. Uma situação camisetas versus descamisados, só que não tinha como o pessoal de camiseta ganhar. Não adiantava o quanto eu quisesse fingir que não era o caso, mas infelizmente era: tinha cinco pênis naquela sala, cinco (!), em vários estados de meio a todo mastro.

Passamos o dia anterior conhecendo os caras, um grupo heterogêneo de aspirantes cuja obsessão por dar prazer a Mack superava qualquer hesitação em competir.

“Quero deixar a Sam orgulhosa”, disse Taylor Thick, o “homem de três minutos”, um sentimento compartilhado pelos outros competidores, incluindo Shredz, o marido de Mack na vida real. Os caras musculosos e bem-dotados agiam como a entourage dela; carregando sua bagagem, trazendo café e se agarrando na lingerie dela como fariam com o avental da própria mãe. A influência dela sobre eles era palpável.

Male porn hopefuls trying to not get in their heads. Screenshot via VICE's
Aspirantes a ator pornô tentando não pensar demais. Screenshot via "Porno Bootcamp" da VICE.

“No final, quero que todos eles se saiam bem”, me disse Mack. “Os colocamos numa situação quase impossível porque é o melhor jeito deles apreenderem.” Então, enquanto o discurso de matrona dela sobre ficar puta se os garotos gozassem no carpete recém-lavado parecia severo, ele vinha do coração.

A atmosfera, mesmo pra nós vestidos, era acolhedora e relaxada. Acho que estar na mesma sala com pessoas que até pouco tempo eram estranhos e agora estão recebendo um boquete bem na sua frente significa que o clima é mais aberto. A gente podia rir, o que ajudou.

O começo das festividades foi legal, quase divertido, na verdade. Os competidores ficavam tocando suas partes, sim, mas todo mundo estava conversando animadamente e trocando dicas: que bomba peniana usar, que jeito virar a parceira para conseguir um bom ângulo do seu pau, que shake de proteína é o melhor para conseguir um esperma bem viscoso. Sim, eu estava vestida e eles estavam em vários estágios de nudez, mas, estranhamente, parecia só um grupo de amigos conversando.

“Tá nervoso?”, peguntei a “Spaniard”, outro aspirante que estava num canto se preparando com um iPod tocando grime nos fones.

“Estou tentando não pensar muito”, ele respondeu. Ah, sim, eu já tinha ouvido falar que pensar demais pode atrapalhar uma boa performance. Na verdade, para os caras do pornô, pensar demais é tipo ferrugem num barco velho: é quase impossível de tirar e pode acabar causando um naufrágio. Triste.

“'Olhe nos olhos dele' era meu mantra.”

Enquanto o bate-papo continuava, eu estava tentando desesperadamente não olhar para o que ele estava fazendo com sua genitália. “Nos olhos, olhe nos olhos dele” era meu mantra. Mesmo assim, era difícil me distrair das coisas que estavam acontecendo na minha visão periférica. Era como conversar com alguém com alface no dente; você não consegue parar de olhar, por mais desconfortável que seja. Olhos, olhos, olhos.

“Interessante”, eu disse. O que era interessante? Eu não estava ouvindo nada do que ele dizia. Olhos, olhos, olhos. “Entendi”, agora eu estava concordando com a cabeça, com o que eu não sabia exatamente; acho que estávamos falando de proteína. Olhos, olhos, olhos. O negócio estava logo abaixo dos meus olhos e eu conseguia ouvir o barulho do contato de pele com pele.

Mas assim que ouvi uma sirene, esqueci meu mantra e com um suspiro melancólico de inevitabilidade, olhei pra baixo. Lá estava ele, olhando diretamente pra mim.

Nesse ponto, pedi licença e fui falar com outro homem de quem eu não tinha encarado a pistola ainda. Nem preciso dizer que a mesma experiência aconteceu com os cinco moços.

Logo fomos chamados para uma sala. Aí lembrei que a gente não ia apenas ficar conversando com homens pelados, que logo eles estariam atuando num pornô real bem na nossa frente.

Como todo mundo estava filmando ou com a mão lubrificada demais para segurar outra coisa que não fosse uma jeba, tive que ficar cara a cara com a metade inferior dos caras e tirar fotos dos pintos com uma câmera Instax (porque sempre jogo pelo time, mas principalmente porque a Mack me pediu, e parece que eu também caí no encanto dela).

“Nunca na minha vida me senti mais lésbica.”

“Podemos usar mais uma garota se você quiser participar”, disse a Sam, indiferente, enquanto os pintos iam lentamente aparecendo nas polaroids na minha mão. Achei melhor recusar. Mas como gosto de me envolver, concordei em ser a pessoa marcando o tempo, o que fiz com gosto.

Não teve nada de sexy no que vimos naquela sala. Na verdade, nunca na minha vida me senti mais lésbica. Nossos rostos, das pessoas vestidas, eram diferentes estágios de um sorriso amarelo, principalmente do técnico de áudio, que teve que ouvir os sons de punheta e boquete diretamente em seu fone de ouvido. Mack tinha normalizado tanto a experiência que acho que esqueci que, no final, veríamos um pornô acontecendo de verdade, com esperma, peitos e tudo mais.

Perceber isso enquanto estando numa sala com o esperma e os peitos foi um tanto alarmante. Com o celular na mão, foquei na minha tarefa, instruindo as garotas a trocar de parceiros a cada minuto. Fiquei feliz com a distração, porque pelo menos eu podia tentar me concentrar em outra coisa. Foquei no relógio, os segundo passando lentamente, cada um mais longo que o último, como um acidente de carro particularmente horrível.

Finalmente conseguimos. “Oito minutos. Hora da porra!”, me ouvi dizer. Aí aconteceu o resto. Não vou dizer mais nada, porque não consigo colocar colocar em palavras.

Foi impressionante como os procedimentos se concluíram depois que o último cara ejaculou. Depois do apito final, a sala esvaziou, todo mundo tinha sido ordenhado e foi para o chuveiro, as pessoas que fizeram a ordenha se vestiram, e as pessoas já vestidas ficaram lá tentando não encostar em nada grudento.

Depois de um pequeno discurso da Mack, com os egos devidamente inflados, os homens foram dispensados.

Como muitas outras experiências traumatizantes que formaram meu caráter, eu não sabia mais quem eu era quando saí daquela sala. Comprei um maço de cigarro (não fumo) e bebi uma dose de uísque (odeio uísque). Eu precisava comer, mas quando saí pra comprar alguma coisa eu não conseguia parar de olhar para as salsichas (sou vegetariana). Eu estava perdida, me afogando existencialmente num dilúvio de paus, com flashes de pintos e peitos me atingindo como balas sempre que eu fechava os olhos.

Na volta para o escritório, o carro estava silencioso. Quatro humanos olhando para o nada, que tinham experimentado o horror simultâneo e cíclico de ficar perturbado com o que vimos, mas também abalados por ter acabado. Foi como voltar pra casa depois das férias; tudo é igual mas eu tinha mudado muito. Eu estava de volta ao mundo real, as pessoas estavam todas vestidas e não transando. Foi tenso.

Eu queria falar de outras coisas, mas não conseguia. Era tipo um inferno miltoniano; eu tinha saído daquela sala mas ainda estava lá, em parte, ainda vendo um pobre coitado que amarelou na hora H e não conseguiu uma ereção completa, e em vez de sua porra jorrar do pau mole como uma pequena tromba de elefante, o pinto dele ficou balançando como aqueles bonecos de posto. Foi uma visão que não desejo pro meu pior inimigo.

“Quando ela falava, tudo que conseguia ouvir era pintos. Quando nos beijamos, eu só conseguia ver pintos.”

“Podemos nos ver, mas você não pode me tocar”, mandei mensagem para a pessoa com quem eu estava saindo. Normalmente, quando estou conhecendo alguém, meu trabalho rende uma conversa interessante. Mas dessa vez, eu estava sem palavras. Em vez disso, ela me buscou usando um pijama e fiquei deitada em silêncio até ela tentar me tocar, o que me fez recuar instantaneamente. Quando ela falava, eu só conseguia ouvir pintos. Quando nos beijamos, só vi pintos. Pintos. Constantemente. Agora entendo do “pós” de pós-traumático. Eu estava tremendo visivelmente, tentando me proteger do Satanás de esperma que queria dominar minha alma. Vade retro!

“Você quer falar sobre isso?”, ela perguntou. “De jeito nenhum”, respondi. Então ficamos deitadas lá, com a regra católica dos 15 centímetros de distância, em silêncio.

O celibato e medo de intimidade duraram uma semana. Depois de uns dez dias, consegui tocar novamente minha namorada sem pensar em sêmen. Algumas semanas depois eu só precisava lavar os demônios da minha pele duas vezes por dia, depois de três semanas, só uma. Um mês depois, eu só tinha pesadelos com pintos nos dias ruins. Lentamente, o trauma foi se dissipando, e comecei a me sentir normal de novo.

Agora, acho que tenho sorte quando meus sonhos passam pelos rostos de sexo daqueles cinco homens, porque me lembra o tempo que passamos juntos, e como muito outros desafios da vida, pensando agora, acabei sentindo um certo carinho pela experiência.

Penso muito sobre o Bootcamp. Penso nos caras: onde eles estão, o que estão fazendo, com quem estão, e se eles comeram mesmo oito peitos de frango naquele dia para ficar com a porra mais viscosa. Até hoje, consigo identificar facilmente cada homem por seu pênis, muito mais fácil do que lembrar do nome deles. Até trombei com um dos caras outro dia, e nos cumprimentamos como velhos amigos. Quando você vê alguém ejacular num carpete, vocês acabam mesmo se tornando amigos.

Mas quem eu era antes do Porno Bootcamp? Às vezes não tenho certeza. Lembro de pensar que era feliz, abençoadamente ignorante do cheiro de uma ejaculação em massa, adoravelmente ingênua sobre como você se sente colocando a mão até o cotovelo num balde de lubrificante, e docemente inocente sobre o som de um pênis flácido na boca de alguém. Alguns meses atrás eu nunca tinha ouvido falar em Porno Bootcamp, e a vida era boa – mas bem menos interessante.

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Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

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