Por que o 'Vale-Tudo' do Fórum UOL Jogos foi a vanguarda digital brasileira

No ar desde 2002, o maior fórum da internet nacional foi berço de memes e da guinada à direita do politicamente incorreto.

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12 dezembro 2018, 1:15pm

No último dia 3 de dezembro, o Fórum UOL encerrou suas atividades. O fim do fórum leva ao fim também a seção Vale Tudo do UOL Jogos, um dos marcos da internet nacional. Com seus centenas de milhares de usuários e algumas dezenas de milhões de postagens, o VT serviu como uma espécie de 4chan nacional: um ambiente de vanguarda digital, tanto para os memes, quanto para tudo de mais desgraçado e nocivo que rola na rede mundial de computadores.

A plataforma continua online em modo de leitura por mais algumas semanas, e em breve será desativada completamente. Segundo o UOL, a decisão de encerrar o fórum é fruto de “um longo e gradual processo de perda de usuários”, causado pela mudança de comportamento do público e pela migração para outras formas de interação. Uma nova plataforma alinhada com as possibilidades atuais implicaria um custo muito alto em relação à demanda, por isso a decisão é irreversível. “O Fórum UOL foi um produto de muito sucesso no passado, em uma outra época da Internet”, explica a assessoria.

No Fórum UOL Jogos, a seção Vale Tudo surgiu no começo de 2002, sendo mais antigo na linha do tempo da internet que o próprio 4chan, fundado no ano de 2003. No livro From 4chan to the White House, sobre a influência do imageboard na eleição de Donald Trump, o jornalista da BBC Mike Wendling explica que parte do apelo desses sites vem de seu design vintage. O próprio VT passou por algumas mudanças visuais, mas sempre manteve a aparência retrógrada.

Os dois sites são produtos de uma internet muito diferente da atual, regida pelos algoritmos e redes sociais com nomes reais que tentam reproduzir as relações offline, se tornando incompreensíveis para os não-iniciados. “Em sua primeira década, a World Wide Web era populada por gente estranha, obsessivos, fanáticos e fanboys que fizeram suas próprias regras e testaram os limites da liberdade de expressão sem medo de represálias”, diz Wendling em seu livro. O jornalista ainda define a internet nesse período como um lugar cheio de “personalidades alternativas, posicionamentos bem longe do mainstream e comunidades online intencionais”.

Em uma visita ao Wayback Machine — os arquivos do fórum foram resetados algumas vezes desde sua introdução — é possível ver as mudanças no VT ao longo do tempo. O lugar passou de um ambiente informal usado para compartilhar piadas ou discutir sobre jogos e anime, como essas primeiras comunidades onlines costumavam ser, para um espaço com uma cultura própria. Com sua própria linguagem, marcada pela divisão entre “tetas” e “liferulers” (a mesma que rolaria mais tarde lá fora entre “anons” e “normies”, ou “incels” e “chads”), e seus próprios mitos: o user que participou de um programa de namoro televisivo, o user policial militar, o user obcecado pelo Japão, etc.

Em Kill All Normies , livro sobre a ascensão das subculturas de direita na internet, a jornalista Angela Nagle explica que o anonimato do 4chan propiciou as condições ideais para o compartilhamento de pornografia heterodoxa, piadas internas, pensamentos suicidas, misoginia e racismo, sempre disfarçados sobre uma camada de ironia que dificulta saber o que é sério ou não. Mas, acima de tudo, o 4chan foi o espaço perfeito para a difusão dos memes. Com o VT foi a mesma coisa: um ambiente essencialmente anônimo de velocidade altíssima e conteúdo questionável, onde o atrativo principal era o humor politicamente incorreto.

Na era dos blogs, antes das redes sociais, o fórum era uma fonte frequente de conteúdo gratuito a ser kibado por esses blogueiros para o ódio dos usuários. Se o 4chan tinha seus Lolcats e o Rickrolling, o auge do VT também foi nessas primeiras formas de trollagem, como na tentativa de emplacar um usuário do fórum em um concurso da revista Capricho, nos memes do Entei, e nos macros — o formato memético quintessencial dos anos 2000s — sobre situações tensas ou cachorros fãs de drogas. Até hoje, boa parte das menções ao fórum na mídia vem desse período, em textos que se referem ao ambiente usando expressões como “grande celeiro de memes” ou “o berço dos memes brasileiros”.

Um dos pontos de divergência em relação ao imageboard americano é a moderação. Enquanto o 4chan era controlado por um adolescente no porão da casa dos pais, o VT estava sobre a responsabilidade de um grupo de mídia gigantesco com faturamento bilionário, o que implicava em um controle maior. Mas da mesma forma que as regras do 4chan dizem que o racismo e o flaming são proibidos, ou que os administradores criaram o /pol/ na tentativa de coibir o discurso da supremacia branca e acabaram o amplificando, a atuação não era suficiente. A notificação vermelha de “Mensagem apagada pelo moderador” era frequente no VT, mas o discurso não era combatido de maneira mais ativa. Procurado pela reportagem, o UOL afirma que “naturalmente repudia todo tipo de discurso de ódio, mas o comportamento dos usuários não tem qualquer relação com a decisão de negócio de encerrar o Fórum.”

Em um ambiente notoriamente edgy, proibir algum tema acabava servindo como incentivo para os usuários postarem cada vez mais como forma de provocação, seja um meme forçado, puro flood ou discursos racistas. Era questão de poucos minutos para um user banido estar de volta em uma nova conta, repetindo seus erros de forma proposital. Como diz Nagle em seu livro, a alt-right “tem mais em comum com o slogan situacionista de 1968 ‘É proibido proibir!’ do que com qualquer coisa reconhecível como parte da direita tradicional”. Efetivamente, esses ambientes foram pioneiros em apropriar a lógica transgressora historicamente ligada às esquerdas.

Em uma reportagem do Buzzfeed News sobre o papel da internet na eleição de populistas como Trump e Bolsonaro, o repórter norte-americano Ryan Broderick cita uma série de espaços virtuais que foram peças chave no processo de radicalização de homens jovens em diversos países. O VT não é citado — e também não é o único agente no Brasil, já que divide espaço com outros fóruns, imageboards e páginas de Facebook similares — mas compartilha todas as características dos outros listados: a estética antiquada, uma userbase predominantemente masculina, a repulsa às pautas identificadas com a esquerda e o uso de memes e trollagem como armas em uma suposta guerra cultural.

É difícil marcar o ponto em que um ambiente de perdedores obcecados por anime e “Clube da Luta” vira uma militância organizada da direita, mas o movimento é visível. Se alguns anos atrás a organização dos usuários era em torno da vitória de Marcelo Dourado no Big Brother Brasil, o que movimentou o fórum em seus últimos meses de vida foi a militância pró-Bolsonaro. O fórum teve uma participação menor na eleição de Trump que seus equivalentes norte-americanos, por razões geográficas óbvias, mas ainda assim um tópico de apoio ao presidente republicano reuniu mais de 2300 páginas de postagens desde 2015.

Um ex-usuário do fórum conta que já em seus primórdios rolava alguma quantidade de besteira — “adolescente às vezes é meio idiota”, diz —, mas que a base de usuários costumava ser mais tolerante. Em uma visita recente, se assustou com a toxicidade do espaço: “posts machistas e homofóbicos disfarçados de humor”. Entre os motivos para essa guinada à direita, cita a influência de outro subfórum, o Papo Cabeça, notoriamente conservador, e a saída dos usuários mais moderados ao longo do tempo, que serviam como contraponto nas discussões. Mas, principalmente, atribui esse movimento à uma tendência mundial: “O brasileiro copia o estadunidense. Elegeram o Bolsonaro pra ser nosso Trump e o Fórum UOL virou uma cópia explícita dos fóruns do pessoal alt-right branco, machista e tóxico”. Apesar dos amigos que fez em seu período no fórum, acha seu fim positivo. “Ainda bem que o fórum acabou.”

Nos Estados Unidos, o culpado principal apontado por essa organização da alt-right na internet é o Gamergate , movimento que perseguiu e assediou mulheres ligadas à indústria dos jogos eletrônicos sob a pretensa justificativa de cobrar ética no jornalismo de games. O Gamergate “levou gamers, a cultura direitista dos chans, o anti-feminismo e a extrema direita online para o mainstream e também politizou um grupo amplo de jovens, em sua maioria meninos, que organizaram táticas ao redor da ideia de contra-atacar a guerra cultural conduzida pela esquerda”, explica Nagle em seu livro.

Afirmar qual foi esse ponto de virada no Brasil é uma tarefa complexa. Em um sentido mais amplo, movimentos de direita que utilizam essas mesmas táticas tiveram sua origem nas manifestações de junho de 2013, mas muito antes o VT já repercutia a obra de um dos gurus da nova direita, Olavo de Carvalho, por meio de seus livros e podcasts. É difícil mensurar também o impacto real do fórum em um ecossistema povoado por um sem fim de youtubers e personagens midiáticos dedicados às mesmas causas. O que é fato é que se realmente há uma guerra cultural em disputa nas escolas, na mídia e principalmente na internet, como a direita insiste em frisar, o VT batalhou pelas mesmas bandeiras que esses personagens.

Com o fim do fórum, os ex-usuários buscam um novo lar. Alguns propõe a mudança para fóruns similares que serviram de concorrência para o VT, outros para o Reddit ou novos espaços que tentam resgatar o espírito antigo do fórum. A alternativa mais consolidada até agora porém, já com sua própria sessão Vale Tudo, é o fórum de um portal abertamente de direita que se define como “livre de censuras ou perseguições ideológicas”. Um dos tópicos mais lidos é “Relatos sobre a vadiagem feminina”, e uma discussão sobre Bolsonaro, excluída pela moderação do UOL no fórum anterior, tem mais de 1 milhão de acessos. Tudo como nos velhos tempos. O VT se foi, mas suas ideias sobrevivem e encontram novos meios para continuarem sendo difundidas, seja no submundo da internet ou no mainstream das redes sociais.

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