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Andy Gill, do Gang of Four: "Trump está sempre tirando uma com a cara das pessoas"

Banda fundamental do pós-punk inglês cumpre shows em São Paulo nesta semana e tem disco novo, 'Happy Now' engatilhado para o ano que vem.

por Eduardo Ribeiro
21 Novembro 2018, 9:00am

Foto: Divulgação

Perto dos 40 anos do lançamento de seu clássico álbum de estreia, Entertainment!, a influente banda ícone do pós-punk inglês, Gang of Four, está de volta ao Brasil para três shows. No roteiro das apresentações, dias 22 e 23 no Sesc Pompeia, em São Paulo, e dia 24, no Sesc Ribeirão, em Ribeirão Preto, interior paulista, sucessos do anti-cânone do punk rock como “Damaged Goods”, “At Home He’s a Tourist” e “Natural’s Not in It” estão garantidos. Formado em 1977 e conhecido por suas batidas pungentes, letras inteligentemente irônicas e guitarras gaguejantes, o grupo vem mostrar que não parou no tempo com músicas do recente EP, Complicit, no repertório. Em fevereiro do ano que vem, chegará o próximo álbum, Happy Now, o primeiro com um vocalista fixo, John "Gaoler" Sterry, após a saída de John King, em 2010.

Falar da importância do Gang of Four para o rock dançante é como chover no molhado, mas não menos irresistível é lembrar o quanto eles mudaram a vida dos caras do Legião Urbana, Ira! e Titãs, nos anos 1980 aqui no Brasil, e de nomes internacionais como Nirvana, The Rapture e Franz Ferdinand. O guitarrista Andy Gill, produtor altamente gabaritado, que já trabalhou com Red Hot Chilli Peppers, Michael Hutchence (INXS), The Futureheads e The Jesus Lizard, entre outros, é o único remanescente da formação original. O GOF tem uma história cheia de adversidades, mas o membro fundador sempre soube manter a chama acesa com sua distinta força criativa. Via Skype, ele dedicou alguns minutos de seu tempo para trocar uma ideia com o Noisey. Acompanhe.

VICE: Como se deu início a composição das faixas do recente EP, Complicit?
Andy Gill: Em dezembro do ano passado eu comecei a ter algumas ideias de sons e estava realmente curtindo o que saía. Isso fez com que me sentisse muito motivado e foi meio que onde tudo começou. Depois dos primeiros esboços, a banda trabalhou muito arduamente, todos os dias, para arredondar as primeiras faixas, que saíram neste EP. Dessa vez, decidi que, ao contrário dos registros anteriores recentes, nos quais eu meio que fiz tudo sozinho, agora era a hora de apostar numa criação coletiva. Achei que era o momento de mudar o processo, envolver outras pessoas, outros produtores, mixers. Foi uma boa decisão.

Você delega a produção das músicas do Gang of Four a outras pessoas, apesar de sua larga experiência como produtor. Por quê?
Produzi muitas coisas de outros artistas ao longo dos anos. Quando se tem experiência como produtor, é natural você achar mais prático produzir seus próprios trabalhos também, mas, na verdade, essa não é uma ideia tão boa assim. O bom mesmo é ter a chance de interagir com outras pessoas no processo. Já trabalhei com Ben Hillier, Ross Autumn, que é mais conhecido por ter produzido Arctic Monkeys e M.I.A., e Mark Taylor. Todas essas pessoas trouxeram para o repertório uma estética diferente do que eu teria pensado. E isso também ajuda na disciplina: você entra na sala a certa hora e fica lá trabalhando até alcançar o objetivo esperado.

Qual mensagem política você quer passar com uma música que tem o nome da filha de Donald Trump, e com a foto dela estampada da capa do EP?
Com “Ivanka (Things You Can’t Have)” eu realmente quis pegar o material, jogar a reflexão para as pessoas, e obter feedback delas sobre o assunto. Donald Trump é obviamente uma figura muito controversa, você sabe, seria extremamente fácil, do meu ponto de vista, fazer uma espécie de música panfletária anti-Trump. Algo como “eu odeio o Trump”, isso seria muito óbvio e não causaria impacto. Mas o que achei fascinante foi que Ivanka, tão logo seu pai venceu as eleições, imediatamente conseguiu um escritório na Casa Branca. Quando alguns jornalistas questionaram Donald Trump: "Isso não é nepotismo?" Trump apenas sorriu e disse: "Sim, e eu adoro o nepotismo". Ele está sempre tirando uma com a cara das pessoas. Na sequência, ela fez alguns discursos, deu entrevistas, e tem aquela famosa declaração dela, em que disse: “Eu não sei o que significa ser cúmplice [em inglês, “complicit”].” Daí também o nome do EP. A música em si trata de como essa jovem acabou sendo empurrada para esse tipo de posição estranha [Conselheira Sênior da Presidência], e o lance de ela tentar explicar, sem sucesso, a filosofia Trump. A abordagem é essa, e me pareceu muito natural ter uma ótima foto dela na capa.



A música vai estar presente no álbum a caminho?
Depois que gravamos a música, eu estava ouvindo e pensei que seria legal fazer uma versão com diferentes batidas, outra linha de baixo… Esta versão, “Ivanka Part 2”, vai sair no álbum agora em 1º de fevereiro. O álbum vai se chamar Happy Now, com lançamento via Pledge Music. Já está rolando a pré-venda no site.

Fale sobre o primeiro single e clipe de Complicit, “Lucky”.
“Lucky” é sobre o papel do amor na vida das pessoas, valorizar a sorte de ter um amor ao invés da sorte material. Esta foi a primeira música totalmente concluída do novo apanhado, mas eu já tinha um grande estoque de músicas em vários estágios de desenvolvimento na manga, entre as quais escolhi algumas aleatoriamente para trabalhar.

Qual é a identidade que você procura manter num álbum do Gang of Four?
Gosto de misturar ritmos e técnicas, e sempre busco por isso. O aspecto funky e pesado das dinâmicas rítmicas. Desta vez, desde o começo, eu queria algo que fosse acessível, algo que trouxesse essa mistura e não fosse difícil de ouvir. Eu me sinto realmente muito satisfeito com o resultado.

Ouvi dizer que você gravou umas guitarras num som do Dado Villa-Lobos. Vocês fizeram amizade naquela época dos shows em tributo à Legião Urbana, em 2012?
Alguns anos atrás, do nada, recebi um e-mail do Dado dizendo que eles estavam planejando algumas grandes apresentações em São Paulo. “Nós amamos você e gostaríamos de convidá-lo a tocar guitarra em algumas músicas”, dizia a mensagem. Realmente fiquei meio surpreso, e respondi: “Acho que sim, isso me soa interessante.” Então rolou, e foi emocionante. Aprendi muito sobre algumas das bandas brasileiras pós-punk, como a própria a Legião Urbana e o Ira!... Fiquei amigo do Dado, ele veio para Londres com sua mulher e filha no Natal do ano seguinte. Nós saímos juntos algumas vezes, e até pedimos que ele cantasse uma versão em português de uma das músicas do What Happens Next [2015]. Em troca, ele me pediu para tocar um pouco de violão numa música dele. Foi uma experiência interessante, porque ele tem um tempo diferente de tocar, uma coisa muito brasileira, muito diferente para mim. Passei algum tempo dando a ele todos os tipos de opções.

O Dado lhe mostrou o Titãs? Você conhece essa banda?
Não me lembro. Me manda depois alguma coisa deles pra eu ouvir.

Vou te mandar o link de um álbum chamado Jesus não Tem Dentes no País dos Banguelas. Tem uma música chamada “Corações e Mentes”, em que eles simplesmente pegaram um trecho da letra de “Damaged Goods”, traduziram pro português e colocaram lá no meio…
[risos] Esses caras são famosos aí?

Super. Eles foram uma das maiores bandas de rock do país nos anos 1980-90.
Legal, me manda aqui pelo Skype depois.

Depois de trabalhar com diversos cantores em What Happens Next, podemos contar com Gaoler como vocalista oficial, ou é só na gravação de Happy Now?
Como se tratava do primeiro álbum após a saída de Jon King, naquele momento me pareceu interessante trabalhar com diferentes vocalistas. Mas acho que o Gaoler ocupará bem o posto de vocalista fixo daqui pra frente. Já trabalhei bastante com ele e admiro muito sua abordagem. Eu amo como ficaram todos os vocais deste novo álbum.

Mas, a princípio, você chegou a considerar trabalhar novamente com vocalistas convidados?
Bem no início do projeto, chamei a Alison Mosshart, do The Kills, e o Herbert Grönemeyer, um cantor alemão. Na Alemanha, ele é mega pop, e por causa disso um monte de gente achou confuso eu querer trabalhar com ele. Sabe como é, as pessoas acham que você tem que se enquadrar no gênero que elas escolheram para ti. Mas na verdade o que aconteceu foi que, bem na época, eu estava produzindo uma banda de Berlim e precisava de alguém para cantar em cima de um som de Gibson, mandar uns backing vocals. Foi quando alguém me apresentou o Gaoler. Quando o escutei cantando, pirei. Meses depois, fizemos alguns shows secretos em lugares pequenos de Londres, como pubs e clubinhos, só para sentir como funcionava a nossa química ao vivo. E achei que tinha tudo a ver.

No começo, alguns fãs das antigas não curtiram muito a entrada dele, né?
Sim, uma galera saiu publicando comentários, criticando a escolha no Facebook. Coisas do tipo: “Ele tem idade para ser seu filho, Andy”. Mas qual o problema? Só posso trabalhar ao lado de gente da minha idade? Essa é a grande regra da vida? Não concordo com isso. Acho que ele combina perfeitamente com a banda. É um cara ótimo tanto no palco como no estúdio, e hoje em dia essa polêmica já nem está mais rolando.

Quase 40 anos depois, as pessoas ainda pedem para ouvir as faixas do Entertainment! nos shows. Você fica de saco cheio de tocar essas músicas até hoje?
Eu gosto muito de tocar o Entertainment! hoje em dia. Estamos preparando alguns shows comemorativos para o ano que vem, em Tóquio, e vamos ter que marcar duas noites no mesmo local, porque o público quer uma noite inteira só com músicas do álbum na íntegra. Não quero precisar fazer isso o tempo todo, como uma regra, mas acho legal, de vez em quando, tocar alguns shows só com músicas da fase clássica. É foda, porque tive que reaprender como tocar algumas das músicas que nós não incluímos normalmente no set list. Acho que será divertido.

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