Entretenimento

A ascensão dos youtubers negros na produção de conteúdo nacional

Esses canais podem não mudar o mundo, mas estão pautando muita gente que entra no YouTube atrás de respostas para suas dúvidas.

por Bruno Costa
26 Novembro 2018, 3:23pm

Os youtubers Nátaly Neri e Murilo Araújo. Foto: Marcelo Mug / Divulgação / YouTube Brasil

Imagine a cena: você entra no prédio do Google, uma das maiores empresas do mundo, para um evento com influenciadores e criadores de conteúdo. Ao abrir a porta, percebe o incomum: a maioria das pessoas que estão ali são negras. Isso aconteceu na última quinta (22) durante o YouTube Black Brasil, em São Paulo, reunindo os produtores negros que estão criando dentro da plataforma.

Achar que cenas como essa talvez nunca aconteceriam aparentemente está ligado a uma crença de que lugares como esse não são de pessoas pretas como eu. "A população negra, principalmente a brasileira, sonha muito pouco", me conta Nátaly Neri, youtuber e embaixadora da plataforma no Brasil.

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Vejam só quantos pretos na plateia. Foto: Marcelo Mug / Divulgação / YouTube Brasil

Natural de Assis, interior de São Paulo, a responsável pelo canal Afros e Afins teve um projeto selecionado pela plataforma de vídeos e ganhou uma grana em dólares para desenvolver o conteúdo aqui no Brasil para falar sobre a narrativa de pessoas negras no país. Assim surgiu o documentário visual Negritudes Brasileiras. "Identidades não são fixas, elas vão mudando de acordo com a classe social e lugares geográficos. Você é negro no Brasil, você é negro fora do Brasil. Na negritude você é negro no mundo inteiro e você vai sofrer racismo", expõe Nátaly, que faz do seu canal o espaço para discutir as diversas formas identitárias, principalmente negras.

"Acho que a comunidade negra no YouTube cresceu radicalmente nos últimos três, quatro anos, e é um boom que não vi igual e só tende a crescer", diz Nery, que foi uma das primeiras criadoras negras de conteúdo a ter grande visibilidade dentro e fora da plataforma. Para a graduanda em Ciências Sociais, o YouTube não vai resolver os problemas do Brasil e muito menos chegar a todos os lares, entretanto, ela tem certeza que as gerações que estão massivas na internet serão influenciadas diretamente por criadores negros, LGBTs, mulheres e pessoas gordas por contarem suas histórias e onde serão ouvidos.

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A youtuber e graduanda em Ciências Sociais Nátaly Neri. Foto: Marcelo Mug / Divulgação / YouTube Brasil

Lá também reencontrei o Murilo Araújo, dono do canal Muro Pequeno e que também é embaixador da plataforma no Brasil. Em 2017, já tinha conversado com o youtuber para falar sobre como a plataforma estava servindo como meio para os jovens LGBTs se assumirem e, dessa vez, ele me contou algo muito marcante: "A gente precisa ter dispositivos de encontrar segurança e conforto em algum lugar, porque se o racista acha que vai calar a boca da gente, sinto muito, não vai".

Mais de 109 mil pessoas seguem o Muro Pequeno. Por lá, Murilo fala sobre sua vida, sua histórias e também explica: "Olha, isso aqui tem a ver com o colorismo, isso aqui tem a ver com a solidão das bichas pretas, aqui é sobre preterimento" e é isso que faz com que as pessoas se identifiquem muito com as vivências.

Murilo sabe que as pessoas chegam no YouTube buscando, muita vezes, conhecimento, esclarecimento, desde que seja uma simples pergunta, e procuram um vídeo que possa conter essa resposta. "Estou numa pira de começar uma série de vídeos no canal explicando conceitos básicos de o que é racismo", revela. No Muro Pequeno já tem vídeo explicando o que é privilégio, apropriação cultural, e para o mês da Consciência Negra, o youtuber juntou uma galera para falar sobre o homem negro. "São pessoas que estão nesse processo, que estão começando a se ver, entendendo que essas questões são relevantes e estão ocupando a plataforma para falar mais de si. Acho que essa coisa de ter um espelho para se identificar tem muito a ver com o debate de representatividade", explica.

Para o youtuber, os negros que acessam a plataforma de vídeos estão começando a ter o YouTube como um possível espelho, mas que o desafio mesmo é de conquistar autonomia e espaços para compartilhar a própria narrativa. "Acho que é uma demanda que está cada vez mais presente na produção negra, mas não só no YouTube, na música negra independente, no teatro negro independente – e, no YouTube, esse movimento está acontecendo".

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Murilo, criador do canal Muro Pequeno, apresentou um dos episódios especiais para o mês da Consciência Negra. Foto: Marcelo Mug / Divulgação / YouTube Brasil

Assim como a minha surpresa de estar no Google entre pessoas negras, ambos os embaixadores do YouTube no Brasil nunca imaginaram apresentar seus trabalhos para uma plateia de influenciadores e criadores de conteúdo negro, muito menos de terem seus trabalhos impulsionados pela plataforma.

Nátaly revelou que graças ao seu canal teve a oportunidade de entrevistar a cantora Elza Soares, e vê esse feito como o maior sonho que o YouTube pôde lhe proporcionar. Para quem queria conversar, queria que as pessoas a ouvissem, a youtuber nunca pensou que seu trabalho poderia ser relevante pro Brasil. "Nunca imaginei e é surreal. Não é algo que eu esteja confortável, acostumada, que eu fale: 'nossa, que incrível'. Não, é algo que eu acordo e falo: 'caramba, isso está acontecendo por quê? Porque eu nunca esperei'".

Nátaly vê muita possibilidade de seu canal bater um milhão de inscritos. "Hoje é possível porque existem pessoas querendo ouvir, tem gente querendo falar e a gente tem a plataforma que está cada vez mais apoiando os nossos projetos", complementa.

Murilo relembra que há três anos, quando ligou sua câmera compacta, só queria gravar umas coisas da vida, da universidade e não imaginava os louros que hoje colhe. Para ele, a tarefa é empoderar mais vozes. Parafraseando a cantora Rosa Luz, Murilo diz que tem muito mais para fazer ainda. "Demora, é difícil, mas vem. Olha isso que a gente está fazendo aqui, sabe? Então, vamos seguir o bonde porque é tudo nosso", finaliza.

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