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Os divulgadores do Passinho do Maloka querem reacender o funk paulista

Com a reafirmação da estética negra nas roupas e no estilo de dança, os caras do NGKS estão mudando o jeito do paulista curtir e dançar funk.

por Julia Reis; fotos por Larissa Zaidan
01 Abril 2019, 5:16pm

Da esquerda pra direita: Lucas Alves, Lucas Martins, Guilherme Cavalcante, Guilherme Oliveira e Tainan Oliveira formam o grupo paulistano NGKS. Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Os movimentos de dança que viraram febre nos bailes de rua da Zona Sul de SP vieram do NGKS. Eles misturam a estética trap de Atlanta com o estilo boy de vila no jeito de se vestir, e pegam referências que partem desde o clássico Passinho do Romano até o street dance. Viseira, roupa extra G, cordão de crachá no bolso e um boot de marca no pé. É assim que os cinco NGKS andam pelas ruas do Capão Redondo.

Tudo começou em uma brincadeira de intervalo na escola, lá no extremo sul de São Paulo. Era costume dos meninos colocar o lançamento da semana pra tocar na caixinha de som portátil e, com o Lucas Souza, mais conhecido como Bafo Produções, por trás da câmera do celular, lançar uns passinhos. Daí veio o que posteriormente foi apelidado de "Passinho do Maloka". O primeiro foi ao som de MC Novin e GW, que viralizou na época. Isso fez com que os meninos começassem a lançar esse estilo de vídeo toda semana.

O sucesso bateu e, mesmo tendo um longo caminho pela frente para percorrer, eles usam do próprio estilo e identidade visual para reacender o funk paulista. Hoje, os caras tem uma websérie no Youtube de duas temporadas com 35 episódios, ao todo. Os vídeos documentam os melhores momentos nas turnês que fazem pelo Brasil, dançando e cantando alguns hits de funk.

Guilherme Oliveira, Guilherme Cavalcante, Lucas Alves, Lucas Martins, Lucas Souza e Tainan Oliveira, que têm entre 18 e 20 anos, começaram a amizade num baile black em Jabaquara, Zona Sul de São Paulo. Todos os meninos, exceto Lucas Alves, já se conheciam porque estudavam na mesma escola. Alves, que é o único da zona leste, foi apresentado aos caras por conta de alguns amigos em comum que estavam na roda.

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Lucas Alves (de rosa, à direita) é o único que não mora na zona sul de São Paulo. Os demais se conheceram na época da escola e são vizinhos de bairro. Foto: Larissa Zaidan/VICE.

“Meu irmão era amigo dele. Ele tava na rodinha e acabei cumprimentando. Depois ficamos no rolê conversando, tumultuando”, conta Cavalcante. Depois disso, um dos moleques organizaram o clássico grupo de Whatsapp para agitar os próximos rolês nessas festas que tocam sons black regidas pela coreografia do público. O resultado foi inevitável: os passos de dança não ficaram só na festa, e acabou virando o passatempo predileto entre eles.

Depois do grupo estourar postando os vídeos de dança no Facebook, começaram a ser chamados para participar de clipes de MCs. Foi na primeira participação, no clipe de "Sem Compromisso" do MC Brankim, que a equipe do Kondzilla Records e o atual empresário deles se interessaram.

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Lucas Martins (de boné vinho) é o vocalista do grupo, enquanto os outros membros desenrolam na dança. Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Fernando Ferrugem, que administrava a carreira de Brankim, convidou os meninos para produzir algumas músicas autorais, só que alguém teria que cantar. Na mesma hora, ele percebeu que entre os dançarinos havia um cantor em potencial. O Lucas Martins, conhecido como Sorriso, foi o escolhido por conta de "sua voz cantada", explica os meninos.

Enquanto Lucas Alves largou o trabalho e a faculdade de Recursos Humanos para poder se dedicar na carreira, Sorriso foi pai. “Meus pais não acreditavam que o funk podia dar aquilo que meu filho precisa, e que não seria um ambiente bom pra mim. Eu quero, até hoje, sempre mostrar o contrário para eles. Hoje moro sozinho com minha mulher e vivo do funk”, conta o MC.

Hoje, os caras são fechados com o Kondzilla e produzem o funk que dominam dançar: batidas marcadas, um grave intenso e letras sem putaria. “A gente traz o Mandela da rua com letras que todo mundo pode escutar”, explica Sorriso. “Não queremos restringir o público e tocar só em baile. Queremos tocar pelo Brasil todo”, complementa Tainan.

Entre os compassos do funk paulista 130 BPM, o passo ficou conhecido por lembrar muito o estilo do Passinho do Romano e o street dance. As referências são bem essas mesmo. E é bonito de ver todo esse estilo em uma coreografia sincronizada ao som de um grave bem feito.

Para conseguir achar a pegada ideal do passinho, eles juntaram todos os ritmos prediletos de cada um. “Tem moleque que dança black, outro trap, outros mandavam demais no Passinho do Romano, e a gente foi colocando essa experiência toda no nosso estilo.”

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Da esquerda pra direita: Lucas Alves, Lucas Martins, Guilherme Cavalcante e Guilherme Oliveira. Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Depois do sucesso do primeiro single, "Menina Maluca", que já soma mais de 12 milhões de visualizações, eles já lançaram mais quatro clipes. Junto com isso, a legião de fãs só aumenta. Eventualmente, o NGKS organiza encontro de fãs em parques em São Paulo e promovem batalhas de passinho.

Com o cabelo pra cima e sempre na régua, os caras não conseguem parar na rua. “Todo mundo tem sua fama mas quando os cinco estão juntos não dá. Qualquer lugar chamamos atenção por conta do cabelo”, conta Lucas Alves. Para quem queria viver do que amava, o sonho já está realizado. Eles dizem que querem aproveitar com o que tem hoje, mas que isso tudo é só o começo.

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