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As fazendas de cliques faça-você-mesmo dos EUA

Americanos médios estão usando exércitos de celulares para gerar dinheiro e comprar comida, fraldas e cerveja através de fraude de anúncios.

por Joseph Cox; Traduzido por Marina Schnoor
05 Agosto 2019, 10:00am

Imagem: Cathryn Virginia.

A Netflix achava que eu era quatro pessoas diferentes. Eu estava sendo pago através de um aplicativo para assistir seus trailers repetidamente, acumulando pontos digitais que eu podia eventualmente trocar por cartões de presente da Amazon ou dinheiro real. Mas em vez de usar meu próprio celular, comprei quatro aparelhos Android para rodar os trailers simultaneamente, me trazendo mais dinheiro.

Fiz uma pequena “fazenda de celulares”, capaz de fabricar envolvimento com anúncios e programas de empresas como a Netflix, além de trailers de videogames, shows de fofoca sobre celebridades e esportes. Ninguém estava realmente assistindo os trailers, mas a Netflix não precisava saber disso. O objetivo era deixar esses celulares rodando 24 horas, 7 dias por semana, com cada um coletando uma fração de centavo por anúncio “assistido”.

Por hobby ou tentando fazer algum dinheiro, pessoas nos EUA estão fazendo o mesmo agora, comprando dezenas ou centenas de celulares para gerar renda e poder comprar produtos para a casa, pagar contas, comprar um fardo de cerveja ou gerar mais renda sem precisar dirigir para o Uber ou fazer entregas para o Grubhub. As fazendas são similares as encontradas em outros países, muitas na China, onde fileiras e fileiras de celulares clicam e passam por redes sociais ou outros aplicativos para simular o envolvimento de um humano real. Quase todo mês, um vídeo dessas fazendas chinesas viraliza, mas em armários de quartos, pilhas em cantos de salas ou em instalações personalizadas na garagem, fazendeiros de celular dos EUA estão fazendo algo parecido, mas em menor escala.

A Motherboard falou com oito pessoas que comandam fazendas de vários tamanhos, a maioria delas morando nos EUA.

“Fui sugado pela minha fazenda de celulares”, disse uma delas, que usa o nome Goat_City e usa 100 celulares na Virgínia, para a Motherboard num chat online.

Você tem ou trabalha numa fazenda de celulares? Ou conhece alguém envolvido? Contate Joseph Cox com segurança pelo Signal em +44 20 8133 5190, Wickr em josephcox, no chat OTR em jfcox@jabber.ccc.de ou por e-mail em joseph.cox@vice.com.

As pessoas geralmente não são pagas para assistir ou ler propagandas na internet. Mas um ecossistema de sites e aplicativos virou essa ideia de cabeça pra baixo. Com uma estratégia de marketing chamada “tráfego incentivado”, desenvolvedores de aplicativos pegaram anúncios e outros conteúdos que as empresas querem colocar na frente de um público atento, e pagam esse público para assistir ou interagir com eles.

Esse pode ser um negócio perfeitamente legítimo: não há nada errado em decidir ser compensado por sua atenção ao assistir propagandas ou trailers de filmes num aplicativo, e ganhar um troco com isso. Ano passado, a NBCUniversal lançou um aplicativo chamado WatchBack, que dá aos usuários a chance de ganhar US$ 100 em troca de assistir programas de TV, na esperança de atrair mais fãs para sua programação. Outros aplicativos, como o Perk, dão aos usuários pontos por assistir trailers e programas, que depois podem ser trocados por bens. Roy Rosenfeld, chefe do Laboratório de Fraude do DoubleVerify, uma empresa focada em fraude de anúncios, disse que eles estimam que esses aplicativos de tráfego incentivado “geram cerca de 100 a 300 milhões de pedidos de anúncio por mês”, com a maioria trabalhando com vídeo.

Os fazendeiros de celular com quem a Motherboard falou não são responsáveis por muitos desses pedidos de anúncio, mas ainda tiram vantagem desse ecossistema. Em vez de realmente assistir essas propagandas, os fazendeiros usam até centenas de celulares, e às vezes automatizam o processo para parecer que alguém está assistindo esses anúncios para gerar renda.

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Uma imagem de uma fazenda de celulares postada no Discord de Mr. E Media, propriedade do usuário Black Fox.

Joseph D'Alesandro, 20 anos, fazia quase US$ 2 mil por mês com sua fazenda de celulares em 2017, ele disse a Motherboard por telefone. Quando ainda estava no colegial, D'Alesandro encontrou um dos aplicativos populares entre os fazendeiros e começou a usá-lo em seu celular pessoal. Com os anos, ele construiu sua fazenda, expandindo para mais e mais aparelhos. Em seu canal do YouTube TheTechSlugs, D'Alesandro fazia vídeos explicando seu progresso.

“Não dá para comparar isso com um emprego”, disse D'Alesandro, porque ele precisava interagir muito pouco com os celulares.

Outros fazendeiros de celular dizem que fazem centenas de dólares por mês rodando passivamente os aplicativos em seus celulares. Goat_City disse que conseguiu ganhar de US$ 700 a US$ 800 por mês recentemente; outro fazendeiro com o nome de usuário CallMeDonCheadle disse que sua fazenda faz US$ 7 por dia, podendo alcançar mais de US$ 200 por mês. Outro fazendeiro, que pediu para ser chamado de Cole H, disse que depois de começar com sete celulares baratos e ir aumentando sua fazenda com os lucros, seus aparelhos renderam US$ 1.094,63 desde agosto do ano passado. Pelas fotos postadas por usuários no servidor Discord comandado por Mr. E Media, outro youtuber que faz vídeos sobre fazendas de celulares, as pessoas usam seu lucro para comprar desde Nintendo Switches até drones amadores e pizza. Usuários também já postaram fotos de Airbnb e cartões de presente da Amazon que ganharam, e os lucros nos aplicativos transferidos para eles através do PayPal.

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Uma imagem de uma fazenda de celulares postada no Discord de Mr. E Media, propriedade do usuário Goat_City.

Os lucros variam muito: Aaron, outro fazendeiro, disse que faz apenas entre US$ 50 e US$ 100 por mês no momento com seus 20 celulares. Mas mesmo uma renda modesta de uma pequena fazenda de celulares já ajuda. Um fazendeiro usando o nome PhenOm20 disse que começou sua fazenda para ajudá-lo a comprar acessórios de computador e comida, e um terceiro disse que conheceu alguém que usava sua fazenda para pagar as fraldas do filho e outros produtos para a criança.

“Prefiro fazer isso que dirigir um táxi ou entregar comida para fazer um extra”, um fazendeiro, que pediu para ser chamado de Tommy, disse por e-mail. “É praticamente um segundo emprego, mas você trabalha de casa. Geralmente enquanto fico com minha esposa e filhos, ou enquanto assisto TV.”

Um fazendeiro de celular pode começar com seu próprio aparelho, como D'Alesandro, depois comprar celulares usados no eBay ou Amazon. Há custos iniciais envolvidos, e se você não fizer as coisas com eficiência, sua fazenda pode acabar dando prejuízo.

Para muitos fazendeiros de celular com quem a Motherboard falou, construir sua fazenda também é um hobby, não só questão de dinheiro. Um fazendeiro chamado ElSucio disse que aprendeu sobre rede de computadores através de sua fazenda.

“Entender a rede de software e exatamente como todo mundo estava ganhando dinheiro com todos esses aplicativos era algo que me intrigava”, disse Cole H.

“Mas claro, o dinheiro é o que está realmente atraindo as pessoas para o negócio”, ele acrescentou.

Como começar uma fazenda de celulares

Para a fazenda de celular da Motherboard, compramos aparelhos usados no eBay: quatro celulares Android TracFone ZTE por US$ 24,99 cada. As caixas estavam abertas, mas os celulares estavam funcionando direito. Às vezes é possível conseguir aparelhos mais baratos, por volta de US$ 10 cada, e os fazendeiros trocam dicas sobre que aparelhos trazem o maior custo-benefício. Um fazendeiro disse que às vezes usa celulares virtuais em seu PC, mas como isso pode sobrecarregar o computador, é mais eficiente ter uma seleção de celulares baratos. Alguns fazendeiros podem usar celulares mais potentes para rodar dois aplicativos ao mesmo tempo.

Mas fazer uma fazenda de celulares não é tão simples como comprar alguns celulares, instalar alguns softwares e ver o dinheiro entrar. Os aplicativos que rendem mais estão constantemente mudando, com desenvolvedores percebendo que as pessoas estão usando vários aparelhos de uma vez, ou fazendo alterações no aplicativo que tornam mais difícil fazer dinheiro passivamente, como exigir intervenção do usuário para continuar rodando.

Geralmente, um fazendeiro de celular vai baixar um aplicativo e ser incentivado a fazer uma conta no serviço. A interface do usuário para cada aplicativo varia, mas fazendeiros de celular podem ir direito para assistir os anúncios, às vezes selecionando um menu de diferentes gêneros ou programas. Os fazendeiros também pulam entre aplicativos quando um se torna mais lucrativo que os outros, apesar dos aplicativos funcionarem mais ou menos do mesmo jeito.

“Não uso mais o Supervank depois que eles cortaram os lucros para 75%”, escreveu um usuário do Discord do Mr. E Media no começo do ano, se referindo a um aplicativo específico.

“O Perk era o rei das fazendas de celular, mas agora um aplicativo chamado CashMagnet está em ascensão”, CallMeDonCheadle disse a Motherboard.

A Motherboard também cruzou com vários problemas em sua fazenda. Alguns desses aplicativos de fazer dinheiro têm bugs, caem constantemente e parecem ser mais rápidos em reiniciar o aparelho Android em vez de parar o processo do aplicativo e reiniciar a si mesmo. Uma notificação de emergência de inundação parou pelo menos um celular que estava passando vídeos. Às vezes, o celular fica carregando para dar o play mas nunca termina o processo, mesmo com uma conexão estável e rápida de internet. Manter os aparelhos e os aplicativos funcionando pode ser trabalho intenso – o contrário da promessa das fazendas de celular.

“Uma razão para ter feito uma longa pausa nisso foi porque o tempo necessário para gerenciar a fazenda parecia não estar compensando”, disse CallMeDonCheadle. Os fazendeiros ocasionalmente precisam clicar num pop-up na tela dos celulares para dizer que sim, continuam assistindo os anúncios, ou monitorá-los para notar outros problemas.

“Prefiro fazer isso que dirigir um táxi ou entregar comida para ganhar um extra.”

Pela maior parte do nosso teste de uma semana, os celulares de Motherboard rodaram o aplicativo Perk TV, cujo site diz: “Quanto mais vídeos você assiste, mais Perk Points ganha. Troque os pontos por cartões de presente, prêmios, sorteios e muito mais – de graça!” Para assistir vídeos – no nosso teste, principalmente trailers da Netflix – a Perk TV dá pontos. Mil pontos valem US$ 1. (Até recentemente, você trocava esses pontos num cartão de crédito Perk, mas o aplicativo descontinuou o cartão semana passada.)

No total, fizemos 50 centavos em pontos do Perk.

Alguns fazendeiros vão além de apenas rodar vários celulares de uma vez, também usando software para simular cliques e movimento dos dedos nos aparelhos. Enquanto o aplicativo acha que eles estão prestando atenção nos anúncios, “na verdade eles estão dormindo, haha”, disse Goat_City.

Mr. E Media deu a Motherboard acesso a uma seção geralmente fechada de seu servidor do Discord focado em fazenda de celulares. Dentro dessas salas de bate-papo que só podem ser acessadas com convite, os membros discutem jeitos de automatizar seus aparelhos para gerar mais dinheiro sem qualquer interação, o que muitas vezes viola os termos de uso desses aplicativos. Alguns usam um aplicativo chamado Frep, ou Finger Replayer, para fazer um loop virtual de movimentos dos dedos na tela do celular e enganar o aplicativo. Outros focam no Automagic, que permite aos usuários automatizar uma série de comandos ou ações num aparelho Android. Outras técnicas pensadas para gerar mais dinheiro incluem terceirizar CAPTCHAs do Google para serem completadas por outra pessoa por uma pequena taxa, e direcionar o tráfego do celular através de vários endereços IP para burlar os mecanismos antifraude dos aplicativos. (Um usuário do Discord postou uma screenshot indicando que o Perk o tinha banido por usar muitos aparelhos num único endereço IP.)

Há uma divisão clara entre aqueles que apoiam fazendas de celular automatizadas e aqueles que não querem ter mais problemas com os desenvolvedores dos aplicativos, possivelmente desencadeando mais turbulência na indústria.

“Acho que se continuarmos trabalhando com as empresas e eles continuarem trabalhando com os anunciantes, todo mundo se beneficia a longo prazo”, disse ElSucio. “Se alguém quer fazer fortuna programado celulares, melhor arrumar um emprego.”

Cole H acrescentou: “Prefiro obedecer as regras deles e evitar ser banido”.

Mas quem se envolve com a prática nem sempre é direito sobre essa questão.

“Nunca faço isso! …piscadinha...”, escreveu Tommy, um fazendeiro de celulares, por e-mail. Tommy disse que nem sempre automatiza seus aparelhos. “Mas agora isso é necessário às vezes”, ele acrescentou.

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Imagem de uma fazenda de celulares postada no Discord de Mr. E Media, propriedade do usuário Phen0m20.

DoubleVerify, a empresa antifraude, trabalha com o Facebook e outros parceiros para determinar se o tráfego de um anúncio está vindo de espectadores reais. Alguns anunciantes acham que tráfego incentivado é um jeito eficiente de aumentar a visibilidade de sua marca, disse Rosenfeld. Mas outros provavelmente não gostam da ideia de que seus anúncios estão caindo em telas de celulares de fazenda.

“Clientes podem querer evitar aplicativos de tráfego incentivado se acreditam que há um grande risco de fraude devido a abusos”, ele disse.

A Netflix, o principal anunciante usado no nosso teste, não respondeu nossos pedidos de comentário sobre sua posição no caso de fazendas de celular.

Mr. E Media disse por e-mail que uma rede de publicidade chamada AdscendMedia parou de trabalhar com ele depois de descobrir que ele falava sobre fazendas de celulares em seu canal.

A AdscendMedia não respondeu nossos pedidos de comentário.

Alguns aplicativos de pagamento tentam expulsar fazendas de celular. TV-TWO é um aplicativo que paga usuários em criptomoeda em troca de sua atenção, e diz que toma vários passos para garantir que as pessoas usando o aplicativo estão mesmo assistindo os anúncios. Um representante da TV-TWO disse a Motherboard por e-mail que a empresa permite que usuários assistam seu aplicativo em apenas um celular e uma TV, e trabalha com outra empresa chamada AppsFlyer para cortar espectadores fraudulentos.

“Se os usuários não estão dispostos a nos dar sua atenção em troca da recompensa [da TV-TWO], eles não devem usar o TV-TWO”, o representante escreveu. Outros aplicativos do tipo, como o Perk, não responderam nossos pedidos de comentário.

A seca

Os ganhos de US$ 2 mil por mês de D'Alesandro não duraram muito. Em 2018, houve uma “queda drástica”, ele disse. Os anunciantes começaram a sair. “Acho que as pessoas colocando dinheiro nisso não sabiam muito bem como isso estava sendo usado”, ele acrescentou.

Em dezembro, D'Alesandro postou seu último vídeo no YouTube. Na descrição ele escreveu: “Foi uma jornada incrível, mas sinto que preciso parar agora e focar em outras coisas para crescer como pessoa”.

Outros fazendeiros sentiram a queda também. Goat_City, que tinha mais de 100 celulares, disse que está fazendo apenas US$ 10 por dia agora. CallMeDonCheadle disse que fez uma pausa depois que os lucros dos últimos anos caíram dramaticamente.

“Tem muito a ver com a coisa se tornando menos passiva, e admito que simpatizo com isso agora que tenho um trabalho”, disse PhenOm20. “Nem todo mundo quer passar seu tempo livre clicando em telas para fazer uma fração de centavo por hora, especialmente se tem família, amigos e uma vida para viver.”

Mas a indústria não está morta. A Motherboard ainda conseguiu gerar uma pequena renda, mesmo como iniciantes sem aplicativos propriamente otimizados e sem usar automação. Os fazendeiros no Discord de Mr. E Media ainda estão trocando ideias, e novos aplicativos são lançados com frequência.

Como um usuário do Discord postou recentemente: “Fazendas de celular ainda não morreram, bebê!”.

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