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Masoquismo Musical

Masoquismo Musical — Fui Detonado Pelos Detonautas

Um dia inteiro ouvindo Detonautas Roque Clube foi o dia mais triste da minha vida

por Paulo Marcondes
31 Julho 2013, 12:31pm


Foto: divulgação

Vocês pensaram que o autoflagelamento musical tinha se esgotado? Não, não, camaradas! Passar um dia todo escutando Capital Inicial ou Jota Quest não me parecia tarefa tão árdua quanto de fato foi, mas sobrevivi. Entretanto, desta vez a coisa foi mais difícil. Vocês já escutaram Detonautas Roque Clube? Na moral, é triste, é deprimente e eu por diversos instantes me senti como o Ian Curtis uns dez minutos antes de se matar. Walk in silence.

Tomado pela gana de conhecer mais a fundo uma das bandas mais punks dessa geração — risos eternos —, separei as obras que vieram num único arquivo zip quando joguei “Detonautas” no 4Shared, são eles: Detonautas Roque Clube (2000), Roque Marciano (2004), Psicodeliamorsexo&distorção (2006) e O Retorno de Saturno (2008). Consegui apurar que essa é a discografia de estúdio do grupo, que ainda conta com DVDs, Acústicos, etc. Parem por aí, meninos. Vamos fazer esse pacto?

Manhã
Tenho um grande problema em acordar e sempre levanto mal-humorado. E, desencana, não é porque tenho que trabalhar ou porque o mundão tá me cobrando. Enfim, acordo diariamente com vontade de falar o mínimo possível e apenas tomar meu café enquanto vejo os jornalões, minha dose diária de alienação. Mas, desta vez, a manhã foi especialmente triste. As notícias do G1 eram ruins, mas a voz do Tico Santa Cruz cantando “quando o sol se for, meu amor, vou onde você for”, me fez querer enfiar a cabeça na tela do PC. Ainda bem que não o fiz. O Detonautas não vale meu monitor.

Com o passar do tempo, comecei a sorrir e achar engraçado o método de composição da banda. O disco tem uma música pra fazer sucesso e tocar na Malhação e o resto é o mais completo sumo da merda enlatada. A vergonha alheia chegou com tudo. Na faixa “Ladrão de Gravata” eu ficava me perguntando: “por que o rock nacional é tão bunda mole a ponto de fazer músicas falando sobre roubo de políticos da mesma maneira há mais de 20 anos?” e aí já eras, já tinha escutado versos como “Vou rimando na velocidade alucinante / Num caminho mais distante / Onde a luz não vai me pegar / A ciência ainda não explica porque é que a gente fica aqui parado apanhando sem revidar / vou rimando afobado / mas não vou ficar parado / é melhor tomar cuidado”. Rimando, Tico? Eu prefiro o Gu e o Champions. Essa foi a faixa mais sem personalidade e CQC com a qual tive contato em toda minha vida. “Que País é Esse?” acaba virando um hino totalmente anarquista se comparado a isso. Vergonha alheia é o pior sentimento que alguém pode ter e que acabou me condicionando de volta à tristeza.

Enquanto lia e-mails e resolvia inúmeros problemas, uma sensação de estar sendo contaminado pelo espírito do Detonautas falava tão alto que, num momento da manhã, resolvi largar tudo e ficar somente olhando para minha tela. Um papel de parede bonito, uns ícones no desktop e esse tal de Windows 8 sem o menu iniciar. Foi uma ótima terapia até eu perceber que o Tico Santa Cruz tava resmungando seus versos em meus ouvidos. Minha meditação foi pras cucuias. Mas bem, se a questão é música ruim, a hora do almoço sagrou-se campeã.

Hora do almoço
Como um curto período de tempo pode ser um dos piores momentos de seu dia? Levo em conta algo em torno de 12h a 13h como o horário ideal para esquentar sua marmita no micro-ondas e almoçar como um boia-fria da cidade grande. E eu estava feliz, ia bater um rango e tudo, até perceber que, no disco Psicodeliamorsexo&distorção, o pior de toda carreira dos caras, eles têm duas faixas enormes: “Insone”, com 18 minutos e “Um pouco de seu veneno”, com 13. Fiquei inconformado, como alguém pode fazer isso? Que fique claro, o instrumental de “Insone” é o melhor de toda a discografia do grupo, mas há necessidade de cantar a porra da letra umas cinco vezes? Eu estava começando a ficar triste e olhar para as pessoas com pena. E olha que estava em casa. Virei um cara sentimental, como se fosse meu último dia na terra, não por ser alguém legal, mas por pura tristeza. É preciso repetir que ambas as faixas são uma bosta? Sim. Em uma delas rola até trechos em espanhol, deve ser pra aumentar a carga de pedância “poética”. Leitores, eu era uma espécie de filantropo movido a uma carga desumana de tristeza. Isso não é nada bonito, e se uma banda consegue despertar esse tipo de sensação entre seus ouvintes, bem, talvez seja hora de acabar.

Tentei almoçar ao som dos caras como trilha sonora e também foi uma merda. Eu levantava o garfo como um presidiário da minha própria cognição. Não via as horas passarem e o sentimento de ser alguém insignificante fez com que eu nem sentisse o sabor da couve refogada, do arroz com um tempero de que gosto e o feijão preto. Eu era uma versão infantilizada do Gregor Samsa e o culpado disso era o Detonautas.


Foto: divulgação

Tarde
Precisei sair de casa. Achei que ver pessoas, dar sinal para ônibus, ouvir conversa de motorista e cobrador, e pegar um trânsito fossem me fazer sorrir, mas não, era uma doce ilusão. Como precisava sair da frente do computador, removi todas as músicas do meu iPod Shuffle e, basicamente, montei um player entregue pela assessoria de imprensa dos caras: era o shuffle do Detonautas. Não tinha para onde correr. Saí andando em um dia cinzento da cidade de São Paulo — vez ou outra, pingos caíam no meu rosto — e eu olhava para baixo, sem atenção nenhuma, refletindo sobre o nada. Fui atravessar a rua para ir ao ponto de ônibus e um cara parou para me dar passagem. Agradeci do fundo do meu coração. Quase colei no carro para dizer “muito obrigado, senhor”.

Quando peguei o ônibus, sentei na frente e fiquei esperando meu ponto. Eu sabia que deveria andar uns 3 km para chegar ao meu destino, mas desencanei de me preocupar, caminharia até o sol se fosse possível, pois quando o sol se for, meu amor, vou onde você for. O mundo era bonito e ruim ao mesmo tempo.

Andando, prestando atenção nas letras e na minha iminente tristeza, percebi que há um trecho na faixa “Outro Lugar” em que o Tico Santa Cruz fala sobre um “cara sinistro da Zona Sul”. Supondo que a banda é carioca e que a Zona Sul do Rio de Janeiro é um pico totalmente tomado por boys, cheguei à conclusão de que deveria me atirar na frente do primeiro Monza que passasse.

Desisti da ideia suicida e notei que minha boca estava rachada. Estava à caça de uma farmácia para comprar manteiga de cacau e, puta merda, isso tá caro, hein? No meu bairro, pago R$ 1,20, R$ 1,50, mas comprei por R$ 2,99. Marca genérica, atendente gentil me perguntando se eu queria CPF na nota, sacolinha e eu, ainda triste (e isso deve ficar claro) entrego o dinheiro trocado e respondo “não, moça, não precisa. Está aqui, certinho. Obrigado”.

Andei mais do que devia, sem prestar atenção em nada e, por se tratar de uma região com alto índice de roubo a transeuntes, eu quase torcia para que alguém me roubasse. “Leva, mano, por favor, obrigado, você é foda”, diria se alguém me abordasse, mas nem rolou. Fui nessa até chegar ao meu destino e aí tive que interromper um pouco. Eram assuntos sérios.

Nos momentos em que eu podia escutar, colava o som, nem que fosse em um fone, mas, por ter dado um tempo, fiquei um pouco mais feliz. Mas não se engane: o Ian Curtis deve ter sorrido, o Marco Corbelli, o Mark Linkous e o Vic Chesnutt, todos esboçaram felicidade alguma vez em suas vidas. Confesso que neste período eu estava melhor — mas uma hora eu deveria resolver os problemas e foi aí que a merda ficou pior.

Por volta das 18hs, consegui escutar com os fones no ouvido de verdade — apesar de ter escutado bastante dentro do possível no período da tarde —, e peguei outro ônibus. As pessoas, o Gregor Samsa mais merduncho, a chuva na cara, o Tico Santa Cruz — o mundo é feio, e as pessoas, elas são loucas. Reflexões poéticas e juvenis começaram a passar em minha cabeça, tomado por uma tristeza que não sei se algum dos suicidas citados conseguiu (o coma do Chesnutt foi resultado de uma overdose numa tentativa de suicídio, amigos).

Acabei o dia ouvindo “Quando o Sol se For”, comendo um pão de queijo e pensando em como a vida é insignificante. Como a correria das pessoas às 19h, os ônibus cheios, as luzes da cidade e toda essa merda é sem sentido. Nada me convencia a voltar.

Conclusão
Depois de passar dez horas ouvindo apenas Detonautas Roque Clube eu queria morrer. Deixar o plano em que vivo e esquecer de tudo. Um truta me disse que eu sou o Super Size-Me da música e é basicamente isso, só que tenho medo que as sequelas não possam ser curadas com dietas veganas e cirurgias. Já pensou se essa tristeza me acompanha para sempre?

Gostaria de dizer uma coisa séria também. “Ensaio Sobre Cegueira” tem uma tossida/engasgada do Tico Santa Cruz que é nojenta. Eu quase vomitei. É uma parada meio tiazinha da cantina da escola que fuma Derby vermelho há 45 anos e tosse pedaços do pulmão e catarro preto, manja?

Enfim, se o Jota Quest me proporcionou raiva e problemas estomacais e o Capital Inicial me fez gastar uma baita nota num quilo, o Detonautas conseguiu provocar a pior sensação em um ser humano: a tristeza. Me desculpem, mas eu acho o ódio muito mais nobre que o sentimento que faz você querer sumir.

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