Fotos impactantes e afetuosas de uma viagem de pai e filha
Fotos por Jesse Burke.
Viagem

Fotos impactantes e afetuosas de uma viagem de pai e filha

Conversamos com o fotográfico Jesse Burke que no seu mais novo trampo reuniu fotos de cinco anos de viagens com sua filha.
fotos por Jesse Burke
Traduzido por Marina Schnoor
03 Fevereiro 2016, 3:30pm

"Esse trabalho parece mesmo servir como um álbum de família", disse o fotógrafo Jesse Burke durante uma palestra recente. Mas acho que podemos dizer que as suas (nem as minhas) fotos de família parecem muito com a exposição que ele estava discutindo, Wild & Precious, exibida atualmente no Rhode Island School of Design Museum em Providence, nos Estados Unidos.

Na exposição há baleias, filhotes de guaxinim e pássaros mortos. Há montanhas, rios, praias de pedras e nuvens em espiral no céu azul. E, na maioria das fotos, há uma protagonista em miniatura: a filha de Burke, Clover, que foi fotografada entre os seus cinco e nove anos durante viagens que cruzavam os EUA. Nas imagens, ela aparece como uma figurinha brincando na areia, cercada por madeiras numa praia no Noroeste do Pacífico. Em outra, ela aparece num close, usando uma rede de pegar borboletas como um véu de noiva, ou olhando direto para a câmera com o rosto sujo de sangue, resultado de um sangramento do nariz inofensivo, mas muito impressionante.

Foto: Jesse Burke

As 15 imagens da exposição saíram de uma série de 134 fotografias publicadas pela Daylight Books em novembro de 2015, com anotações sobre as colaborações entre pai e filha. Em um trecho, Burke diz: "Minha mente está cheia de imagens em movimento: você correndo para o mar enquanto as gaivotas voam sobre sua cabeça, você pegando cascas de bétula e penas caídas de peru, eu e você escovando os dentes silenciosamente, ao lado um do outro, sob o zumbido da luz fluorescente do nosso banheiro de hotel...". No final do livro, Clover responde: "Pegamos animais como pássaros, coelhos, salamandras e insetos... lembro de ver uma baleia morta e de como ela cheirava mal".

Semana passada, antes da abertura da exposição, me encontrei com Burke, que recentemente foi nomeado pela revista TIME um dos 50 fotógrafos do Instagram para seguir .

VICE: Como o projeto surgiu?
Jesse Burke: Sempre fomos muito ligados à natureza, minha esposa e eu, antes de ter filhos. Então sempre fizemos trilhas, aventuras. Quando tivemos uma filha, era natural que ela adotasse nosso estilo de vida. Por isso, em vez de mudar nossa vida, apenas a incluímos. E isso foi fora do meu processo de trabalho.

Um dia resolvi fazer uma viagem de carro com a minha filha. Porque ela estava de férias. E sendo o freelancer da família, tenho a responsabilidade de cuidar dela durante esses dias de folga, quando minha esposa não pode deixar o trabalho. "Vamos dar o fora da cidade e sair para um passeio. E vamos tirar fotos para meu outro projeto".

Estão pegamos a estrada. Lentamente, nos primeiros dias, numa viagem de cinco ou seis dias, comecei a tirar as fotos que eu já pretendia tirar — fotos da paisagem, essencialmente, no Maine [estado localizado no nordeste dos EUA] – e de vez em quando, ela meio que entrava no enquadramento. E eu pensei "Ah, isso é legal. Vou tirar essas por diversão, mostrar para minha esposa e tirar as fotos de paisagem para o meu projeto". E depois do terceiro dia, percebi: "Ah, isso pode ser algo diferente".

Foto: Jesse Burke

Houve um convite, da sua parte, para que sua filha entrasse no projeto? Você disse: "Ei, quer ser parte desse novo projeto?"
Logo percebi que o processo não era muito a relação entre tema e diretor, mais uma coisa de colaboradores. Se eu a deixasse ser ela mesma e parasse de dirigi-la, o projeto seria mais rico de muitas maneiras, e eu seria mais feliz como pessoa. E ela também.

Então eu meio que a guiava até um espaço, sem dar muitas indicações: tipo um parque, [e dizia] "vamos andar pra este lado", e deixava ela interagir. Teve uma ocasião que foi tipo um momento de epifania. Estávamos numa praia no Canadá — essa foto nem está na exposição, aliás — e ela estava nessa praia muito linda com neblina, e havia muitos restos de pesca comercial, porque o lugar é remoto e ninguém faz a limpeza da praia. Depois de ficar no carro por tanto tempo, ela queria brincar, correr, não parar e ouvir o pai. Eu dizia: "Pare. Olhe aqui. Faça isso". E ela não me escutava. Ela ficava girando uma corda nas pernas, e eu estava muito bravo. E não consegui as fotos que queria.

Então fomos embora, e naquela noite, enquanto eu passava pelas fotos no computador, foi quando tive a epifania. As fotos que achava que queria, eu não tinha conseguido. Mas eu não precisava delas. Porque as fotos dela fazendo o que queria fazer eram muito melhores. Porque eram reais, eram honestas, e eram uma colaboração total entre nós. Quer dizer, ela sabia que estava sendo fotografada, e ela estava se apresentando para a câmera de certa maneira. Mas nos termos dela, não nos meus.

Acho que uma das imagens mais impressionantes é esta que estou vendo agora, que está no nível dos meus olhos. Estamos olhando nos olhos dela.
A imagem do nariz sangrando.

Foto: Jesse Burke

Sim. O que você vê quando olha para essa foto?
Quando olho para essa foto, vejo calma, entendimento e força diante da vulnerabilidade. Onde há sangue e uma criança envolvida, claramente há algum tipo de ferimento acontecendo. E ela parece totalmente calma e quase com um olhar de provocação, em vez de medo, em vez de ter a resposta que geralmente você associaria com a de uma criança no caso de um ferimento e sangue. E eu amo isso nela. Uma coisa que sempre me interessou é essa habilidade dela de meio que comandar e controlar o espaço, e se sentir bem e em casa na situação, independentemente de onde a gente esteja.

Em muitas dessas fotos, fiquei me perguntando: "Esse animai está morto ou dormindo?". Muitas vezes parece que o animal está morto.
Morto. Sempre morto. Este estava vivo.

[Ele aponta para a foto As Long as the Grass Shall Grow_.]_

Isso é um filhote de guaxinim.

Foto: Jesse BurkeFoto: Jesse Burke

Levar sua filha para a natureza é, em parte, uma maneira de ter uma conversa sobre a morte?
Sim, definitivamente. Sempre achei importante que meus filhos tivessem consciência disso, não medo. É normal. E acontece. E vai acontecer nas nossas vidas com humanos e animais — na nossa vida, na vida de todo mundo.

Mas quando vamos para a natureza, a coisa que muda é que nós, a família Burke — ou talvez os humanos em geral, eu diria — temos um desejo muito instintivo de se conectar aos animais. [Mas] essa não é uma relação recíproca. Eles não dão a mínima para nós. Mas nós os amamos e queremos aprender com eles, estudá-los, tocá-los. E, novamente, eles querem fugir de nós.

Como não sou um cientista e não faço estudos de campo de coiotes e coisas assim, as únicas vezes que meus filhos ou eu mesmo podemos ver, tocar, sentir e estudar um coiote é se tivermos a sorte de encontrar um morto na floresta. Então a parte bonita do momento em que você encontra uma criatura morta é que você pode usar essa oportunidade para estudar isso, olhar para isso. E acho que esse é um nível de conexão muito mais profundo do que as pessoas têm por livros, televisão ou num zoológico.

E eu uso a fotografia da baleia como um exemplo perfeito. Eu sabia que a baleia estava lá por causa das notícias. Então fomos pra lá. Fazemos isso se ficamos sabendo que há uma baleia morta; vamos até lá, para tirar fotos. E pela mesma razão que todo mundo vai para lá: para ver isso, porque é insano e inacreditável! Quer dizer, essa é uma criatura do oceano e eu vou ter a memória da minha filha segurando a barbatana da baleia e olhando para isso. E isso é uma experiência incrível e única.

Você tem que ultrapassar a morbidez disso e chegar ao centro, que é o de que ela possa realmente ver e sentir todas as criaturas. E como estamos sempre na natureza, temos a oportunidade de ver essas criaturas.

Foto: Jesse Burke

Por que incluir fotos dela dormindo na série?
Quando estamos na estrada, ficamos em hotéis toscos, de propósito. Parcialmente porque adoro fotografar esses hotéis, mas também porque eles são baratos e estão por toda parte. Então eu saí do banheiro uma noite e a vi dormindo, com a luz da cabeceira iluminando o rosto dela, e pensei "Uau". Ela parecia um querubim iluminado na cama.

Então pensei: "Vou tirar uma foto dela dormindo. Ela está tão linda". Novamente, sem pensar onde isso se encaixava no projeto. Então tirei a foto e fiquei sentado lá, vendo ela dormir. E era uma coisa muito bonita. Foi a primeira vez na vida que parei e fiquei vendo minha filha dormir, com a luz acesa. Você via o peito dela se mexer e nada mais. Era muito lindo e simples.

Aí comecei a fotografá-la toda noite — toda noite. E isso virou parte do processo. As fotos dela dormindo são meio que a espinha dorsal do projeto. Elas se tornaram superimportantes, muito depois do fato, de uma maneira que eu nunca teria previsto. Quando o livro começa, a primeira foto que você vê é dela dormindo, e essas fotos são como a abertura dos capítulos. E a última foto é dela dormindo. De certa maneira, o arco do livro todo é um sonho.

Foto: Jesse Burke

Philip Eil é um jornalista freelancer que mora em Providence, Rhode Island, nos EUA. Siga-o no Twitter.

A exposição Wild & Precious fica em cartaz no RISD Museum até 26 de setembro de 2016. Compre o livro pela Daylight Books. Saiba mais sobre o projeto — e veja fotos adicionais da série — em wildandprecious.co

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