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O Café Consertado de Bombinhas

A bebida, que não existe em nenhum outro lugar do Brasil, é feita com a sobra do café passado pela manhã, açúcar, cravo, canela, gengibre, às vezes erva doce e, por fim, cachaça.

por Taisa Sganzerla
11 Novembro 2014, 11:00am

Fotos da autora.

​Em um pacato balneário de Santa Catarina, há uma estranha bebida que não existe em nenhum outro lugar do Brasil. Ela se chama "consertada" e é feita pelas mulheres de Bombinhas com a sobra do café passado pela manhã, segundo manda a tradição. Adiciona-se açúcar, cravo, canela, gengibre, às vezes erva doce e, por fim, cachaça, e aí temos o "café consertado", pronto para ser servido às visitas da tarde.

Cais da Baía de Zimbros.

Você já deve ter ouvido falar de Bombinhas. A cada verão, essa pequena península do Atlântico Sul vê a sua população de 15 mil habitantes saltar para 150 mil. A estradinha de mão dupla que liga a BR-101 às suas praias fica permanentemente engarrafada para o aborrecimento de muitos nativos, ainda que, no fim, a maioria trate de ganhar algum dinheiro com isso, seja alugando a própria casa ou vendendo canga na praia.

Giovani Moser não é um deles. "Odeio o verão", confessa. "Em quatro anos morando aqui, só fui à praia duas vezes." Giovani tem 32 anos, cresceu em Blumenau, mas se mudou para Bombinhas após ser aprovado em um concurso da prefeitura. Ele acabava de me buscar no supermercado local que faz as vezes de rodoviária e, nos próximos dois dias, me levaria para conhecer as "consertadeiras" que ainda restam na cidade.

"Muitas têm mais de 50 anos e nem todas ensinaram a receita às suas filhas. É uma tradição que parece estar sumindo." Como já anoitecia, Giovani resolveu deixar as visitas para o dia seguinte. Seguíamos para o Canto Grande, um dos poucos redutos de nativos da península, que fica a 20 minutos do centro de Bombinhas – para as proporções locais, seria o equivalente a ir da Casa Verde a Santo Amaro em São Paulo.

Baía de Zimbros, no Canto Grande, um dos últimos redutos de nativos de Bombinhas.

São nas águas da bucólica Baía de Zimbros que muitos moradores do Canto Grande atracam seus barcos. A pesca artesanal segue sendo a principal atividade das famílias daqui, mas alguns membros das novas gerações não seguiram os passos dos pais. É o caso de André da Cruz, 29, dono de um restaurante chamado Mar de Fora. Em agosto deste ano, ele se tornou o primeiro bar em Bombinhas a servir a consertada.

Filho e neto de pescadores, logo se vê que André tem uma veia meio historiadora. Decorou o bar com fotos da década de 1930 após escanear negativos pertencentes a sua avó e me explicou a história por trás de cada uma das fotos pacientemente.

André da Cruz serve a consertada em seu restaurante "Mar de Fora".

"A verdade é que não tenho muitas lembranças de infância da consertada. Resolvi resgatar um costume que é de uma geração anterior à dos meus pais." Seu fornecedor é a Dona Helena, uma das consertadeiras que, naquela semana, estava no Rio Grande do Sul. A bebida não está no cardápio, no entanto. Tem que chegar e pedir no balcão, ou esperar que André sirva de cortesia.

A ideia de André é apresentá-la aos parcos turistas que se aventurarem no Canto Grande na próxima temporada. "Essa vai ser a primeira temporada com consertada aqui no bar. Vamos ver no que vai dar." Tomo uma da dose oferecida por ele. É marrom, meio viscosa e tem gosto de café velho e cravo, mas o açúcar engana e deixa descer fácil. Ele quer saber: "E aí, gostou?". Peço para repetir e paro por aí.

Faltam algumas semanas para que a consertada passe pelo crivo dos forasteiros. Naquele fim de tarde, ainda em outubro, quase não se via gente circulando pelas ruas de Bombinhas. A cidade parecia um imenso canteiro de obras, como se cada dono de pousada estivesse acrescentando mais uns quartos aos seus estabelecimentos.

No dia seguinte, fomos encontrar Rúbia Melo, proprietária de um café que serve doces e salgadinhos. O pequeno estabelecimento, que leva o nome da proprietária, foi montado na própria garagem de sua residência e é decorado no estilo "casa de avó" (já adotado pelas lojas de "bolos caseiros" que têm se proliferado por São Paulo).

Rúbia em sua cozinha com seus quitutes.

"Fui criada dentro da cozinha, respirando peixe frito, farinha e consertada", conta Rúbia, que tem 39 anos. Seu avô, conhecido na cidade como "seu Pinguim", deixou a pesca para montar um dos primeiros restaurantes de Bombinhas, que, hoje, já não existe mais. A família inteira ajudava a tocar o negócio, e foi assim que Rúbia se apaixonou pela culinária.

Montou uma pequena empresa de encomenda de salgadinhos e logo se tornou uma famosa quituteira, passando a fornecer suas iguarias para supermercados e padarias. Seu marido, Edson, largou o emprego em uma farmácia para se juntar à firma, que também emprega os dois filhos adolescentes do casal, exatamente como no negócio do avô.

"O perfume da consertada, quando ela está no fogo, é o que mais gosto. Imediatamente me vem a imagem da minha avó no fogão, e é por isso que gosto tanto de fazê-la." Em uma garrafinha de vidro, Rúbia me serve uma dose. Tomo um gole e nem parece que eu já havia provado essa bebida antes: sabor leve e equilibrado, mais herbáceo e menos doce. Uma delícia. "O segredo é não usar gengibre velho, colocar erva doce e deixar ferver a cachaça um pouquinho. Dizem que isso é errado, porque o álcool evapora, mas acho que fica mais gostoso. E quanto mais velha a consertada, melhor."

A "bruxaria" do preparo da consertada. Açúcar, gengibre, erva doce, cravo e canela.

Nem Rúbia nem André sabiam me dizer como a consertada surgiu. Imagino que seja mais uma das tradições açorianas que ficaram no litoral de Santa Catarina desde a imigração. Aqui, todos parecem muito orgulhosos dos antepassados que povoaram essas bandas entre os séculos 17 e 19.

"Olha, na verdade, não. Já estive nos Açores diversas vezes e lá não existe a consertada, ao contrário de outras tradições deles que vingaram por aqui, como o pão-por-deus." Quem explica é Rosane Luchtenberg, 63, fundadora da ONG Instituto Boimamão, que busca preservar as tradições locais. Foi ela quem articulou para que a consertada tivesse sido instituída, no ano passado, como bebida típica cultural de Bombinhas pela Câmara de Vereadores. A sua sede é o museu comunitário Engenho do Sertão, onde locais se reúnem para bater papo, contar histórias de infância e tomar uma consertada, sempre disponível no balcão.

"A consertada é uma bebida ligada às festividades de final de ano, em especial a festa de Terno de Reis. Entrava-se na casa das pessoas e lá estava a consertada para ser servida. Inclusive, era nessa época, em outubro, que as mulheres começavam a fazê-la, para que estivesse 'envelhecida' quando chegasse o Natal", diz Rosane, que pesquisa a cultura local há 20 anos.

Segundo ela, se plantava muito café na região e praticamente toda casa tinha uma roça. Outubro coincide justamente com o período logo após a colheita, que é feita em julho, ou seja, uma época de fartura do produto. "É possível que haja essa relação."

Dona Rosete na varanda de sua casa, tomando uma consertada.

Partimos para conversar com Dona Rosete, consertadeira de 58 anos. Ela confirma que a consertada era uma bebida do Terno de Reis, mas se ressente que as novas gerações não se importem mais com esse costume. "Hoje, todo mundo quer morar em prédio. Como é que se entra na casa das pessoas em prédio? Aí um não gosta, reclama. Tem que pedir ao porteiro. É uma pena que seja assim." Em sua varanda, Rosete nos serve uma dose de sua consertada. Boa, mas já achei muito puxada no gengibre. A minha preferida segue sendo a da Rúbia.

Foi Rosete quem passou a receita para a esposa do dono do Pedro Alemão, o antigo alambique de Portobelo, cidade a poucos quilômetros de Bombinhas. Corria o boato na cidade de que o Pedro Alemão, que existe desde 1965, agora ia passar a produzir e vender consertada. Era lá a nossa próxima parada.​

Nunca houve tentativa de se industrializar a bebida, mas essa é a primeira iniciativa de produzi-la com fins comercias. Giovani estava particularmente interessado em ir até lá para tentar passar umas dicas, convencê-los a fornecer a consertada para bares e restaurantes. "Eles são meio fechados, não gostam de conversa com ninguém", me alerta. "Inclusive, vamos torcer para que o dono não esteja lá. Ele é meio... Digamos, pouco habilidoso para lidar com o público."

Giovani Moser levando a reportagem a todos os cantos de Bombinhas.

É claro que já cheguei querendo que acontecesse justamente o contrário e eu pudesse conhecer o dono ranzinza, filho do já falecido Pedro Alemão. Não tive sorte, e foi a mais boa-praça Tatiane, 40, que nos atendeu. "Produzimos 80 garrafas e vendemos 35 até agora. É mais o pessoal que chega para comprar cachaça, fica curioso e leva." As garrafinhas de 375 ml custam R$ 10.

Consertada engarrafada e rotulada a 10 reais.

Foi a própria Tatiane quem fez as consertadas. "A Rosete me deu uma garrafa da dela e disse: 'Fica como sua referência, vai fazendo até ficar igual'." Mas diz que nem quer que o negócio cresça. "Quem vai ter de fazer sou eu, né? E eu já tenho mais o que fazer."

Regras do alambique.

Pergunto se o marido não poderia vir dar uma palavrinha rápida. "Ih, acho que não... Quando ele está ocupado assim, melhor não incomodar." Vou embora e me contento em tirar uma foto com o Mário Richards de costas, de longe, que entrou na loja do alambique assim que eu saí de lá.

O alambique Pedro Alemão e o seu dono, Mário Richards, que não quis conversar, ao fundo.

Consegui encaixar uma entrevista com a Dona Salete no dia seguinte, antes de pegar o ônibus de volta para Curitiba. Essa consertadeira de 68 anos mora em uma casa rodeada por um belo jardim, com a providencial horta nos fundos. Ela me recebe com um belo avental dos Açores, já sabendo que gravaríamos um vídeo da feitura da consertada. "Meus avós nasceram aqui. Meus pais foram criados nessa casa, e eu também, assim como minha filha e agora minha neta".

Dona Salete em sua cozinha.

A receita de sua consertada foi passada pela avó, ou seja, não tem menos de 100 anos. Ela me explica que nem a filha, que é auxiliar de dentista, nem a neta, que tem 17 anos, sabem fazer a consertada. "Nunca se interessaram muito por cozinha. Parece que vai morrer comigo." ​Neste vídeo, você pode aprender a fazer por si próprio e (quem sabe?) dar continuidade à tradição de Bombinhas.

Consertada da Dona Salete.

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