​A exposição ‘Prazeres Proibidos’ revisita a censura dos filmes de pornochanchada durante o regime militar brasileiro

A vídeoinstalação abre no dia 23 de fevereiro no Museu de Imagem e Som e relaciona documentos oficiais da censura brasileira com grandes clássicos da pornochanchada brasileira.

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fev 23 2016, 2:45pm

Still de A Ilha dos Prazeres Proibidos de Carlos Reichenbach. Todas as fotos são cortesia do MIS.

Na contramão de um período da ditadura militar brasileira marcado pela forte censura de produções culturais e intelectuais, nasce a pornochanchada brasileira no eixo Rio-São Paulo. O gênero cinematográfico contava histórias lotadas de hedonismo, sacanagem e foi mais uma das provas de que o brasileiro sempre foi chegado numa zoeira grande. Mesmo com um regime ultraconservador, dito como o grande protetor da moral e da família, milhares de brasileiros foram aos cinemas para assistir a clássicos da pornochanchada produzida pela Boca do Lixo, em São Paulo, e pela Boca da Fome, que se concentrava em terras cariocas.

Entretanto, o gênero também sofreu com a censura. Esse foi o tema escolhido pela cineasta Fernanda Pessoa para ser abordado na forma de uma videoinstalação que será aberta amanhã (23) para o público no Museu de Imagem e Som, em São Paulo. Fernanda passou quatro anos debruçada sobre centenas de documentos oficiais da censura e resgatando inúmeras cenas que foram cortadas pelo pente fino da comissão do regime militar que definia o que o público brasileiro poderia ver nas telas de cinema.

A cineasta optou por se concentrar no auge da produção das pornochanchadas nos anos 70 para tentar entender como a ditadura atuava sobre essas obras — que mais chamavam atenção pelas cenas eróticas do que pelo tom "pastelão" das histórias. Foram cerca de 150 filmes analisados; dentre eles, foram selecionados alguns trechos vetados para figurarem na instalação juntamente com seus respectivos documentos oficiais emitidos pelos censores da época. A exposição Prazeres Proibidos tomará conta do espaço do MIS até o dia 27 de março.

Antes da abertura oficial da instalação, pedimos para Fernanda contar um pouco sobre sua extensa pesquisa em relação ao tema e como a censura funcionava no país na época do regime militar.

VICE: Quando começou a surgir o seu interesse pelo tema?
Fernanda Pessoa:
Me formei em cinema na FAAP e passei um ano trabalhando na filmoteca da faculdade, no acervo de fotografia de filmes brasileiros. Quem é o diretor e a pessoa que organiza tudo lá é o Máximo Barro, que foi montador de muitos filmes da Boca do Lixo. A maioria do material na filmoteca era dele, e grande parte dos filmes eram da década de 1970. Tudo da Boca do Lixo e pornochanchada, basicamente. A partir disso, consegui ver muito filme para conseguir catalogar as fotos e acabei adquirindo um repertório muito grande de pornochanchada, que é uma coisa que acaba ficando um pouco de lado, porque é uma coisa um pouco renegada na história do cinema. Apesar de que, hoje em dia, esteja rolando uma revisitação histórica ao tema. Por mais que tenham coisas ruins, foi um período em que nós tivemos uma mini-indústria do cinema. Foram filmes muito vistos e que o público teve uma resposta muito grande. O que me fez pesquisar mais sobre o assunto e me interessar mesmo é essa contradição presente no gênero: estávamos durante uma ditadura militar ultraconservadora, defensora da moral e da família, e de repente o cinema mais produzido e visto é a pornochanchada. Totalmente o inverso disso.

Como aconteceu essa popularização da pornochanchada no país?
A pornochanchada é completamente contemporânea à ditadura. É uma coisa muito louca. Em dezembro de 1968, baixou o AI-5; e, em metade de 1969, apareceu o primeiro filme do gênero. E, na abertura democrática nos anos 1980, ela começa a degringolar porque é taxada como filme de sexo explícito. Então, com a abertura democrática, ela some por completo, tendo uma duração bem exata com a ditadura. Quando os militares entraram no poder, existia projeto de cultura nacional pensado para o país, especialmente com a existência da Embrafilme. Com isso, os filmes que tinham uma visão mais politizada ou que traziam uma visão mais pejorativa do Brasil segundo os militares, como o Cinema Novo e o Cinema Marginal, acabaram saindo de cena. Os cineastas foram perseguidos e impedidos de fazer filmes. Nesse momento, surgiu uma oportunidade de fazer uma coisa nova. A Boca do Lixo já existia e já havia produzindo algumas coisas do Cinema Marginal– e acabou conseguindo oferecer uma estrutura para essa demanda cinematográfica.

Como surgiu o nome "pornochanchada"?
O nome do gênero vem da estrutura das chanchadas que eram filmes de comédia muito comuns nos anos 50. No Rio de Janeiro, havia muito dessas chanchadas cariocas que falavam dos playboys cariocas, de Copacabana, das paqueras, mulheres e tudo mais. Assim, eles misturaram isso com o erotismo. No começo, foi de forma leve, com mulheres de biquíni e nada muito chocante. Só que essa mistura começou a dar certo, o público respondia muito bem a essas películas. A resposta foi tão grande que começam a surgir subgêneros. A cidade de São Paulo começa a fazer esses filmes, e nisso eles descobrem que não era por causa da comédia que dava certo: era por causa do erotismo mesmo. Assim, foram surgindo outros subgêneros, também chamados de pornochanchadas, que são pornôs aventuras, pornô western, pornô drama... na Boca do Lixo, começa-se a criar uma mini-indústria, conseguindo produzir muita coisa. O próprio Davi Cardoso, que se proclamou o rei da pornochanchada de São Paulo, chegou a produzir muita coisa mesmo. Ele fechava um filme pronto para a exibição e já falava qual era o próximo filme só com o título para conseguir dinheiro para o financiamento. Foi por aí que rolou esse boom do gênero.

Quando foi que o regime começou a prestar mais atenção nesse tipo de cinema?
Acredito que foi nos anos 1970, quando os filmes começaram a ser produzidos em maior escala. Que é também quando foi trocado o esquema de censura do regime militar. Antes era o Serviço de Censura que fazia esse tipo de trabalho que se transformou na Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Os dois eram a mesma coisa; na verdade, só mudou o nome. A censura dos filmes da pornochanchada tem uma coisa bem típica da ditadura militar. Dependendo de quem era o diretor da divisão de censura da época, era mais ou menos fácil aprovar um filme. Tinha essa coisa meio precária que existiu um pouco na nossa ditadura, o que prova que nem tudo foi tão organizado como a gente imagina.

Still de O Enterro da Cafetina de Alberto Pieralisi.

O que costumam dizer muito é que o teor da censura dependia muito do humor e do dia que o censor estivesse passando.
Exato. Esses documentos que analisei mostram muito isso. Todo filme passava por um grupo de três censores que assistam ao filme e emitam um parecer que explicava a mensagem que o filme passava, o valor educativo dele, um monte de coisa. E eles falavam o que tinha de ser liberado ou não, ou se ele precisava de cortes para conseguir ser exibido. Cada censor tinha uma visão diferente também, vale lembrar. Então, por exemplo, se os três censores decidiam pela não exibição do filme, o produtor pedia um reexame. Aí ele voltava e era examinado por outros três censores – e acabava sendo liberado. Então, dependia muito de quem estava analisado. Óbvio que existiam alguns padrões para serem analisados, já que os censores tinham aulas sobre isso.

Eles tinham aulas para aprender a censurar?
Sim, eles tinham que passar por várias disciplinas. Eram cursos de treinamento promovidos para censor federal ministrados por alguns professores na Academia Nacional de Polícia. Os censores tinham aula de filosofia, psicologia, aulas de técnicas do cinema para entender mais sobre a linguagem do cinema também. E eles tinham uma aula de segurança nacional, que era onde havia um teor mais politizado mesmo, já que era lá que eles aprendiam a reconhecer possíveis [histórias que] tivessem conteúdos comunistas infiltrados nos filmes. No que diz respeito à pornochanchada, não tem tanto essa questão da segurança nacional, é mais uma questão de censura moral. Eles usavam muito mais a parte de psicologia para conseguir explicar como aquele conteúdo poderia subverter o espectador adulto com ideias erradas.

Quais eram as coisas que a censura mais pedia para cortar?
Uma coisa que eles quase sempre cortavam eram palavrões. Eram, inclusive, umas coisas meio bestas, tipo "bunda, "filho da puta", piadinhas de duplo sentido. No tocante às imagens, variava muito com a época. No começo dos anos 70, eles cortavam praticamente qualquer coisa. Por exemplo, tinha uma época [em que] podia mostrar um peito de lado, mas não podia mostrar dois peitos de lado. Só que, conforme o passar do tempo, os próprios diretores vão dando passinhos a mais nos seus filmes. No final de 79, os filmes já trazem cenas mais explícitas. Tem uma cena, por exemplo, de um filme do Ody Fraga, que mostrava uma menina fazendo xixi em cima de um carro. Um tipo de cena que jamais seria liberada no começo dos anos 1970. Os próprios diretores começaram a fazer planos para serem cortados como uma forma de moeda de troca. Já que praticamente a maioria dos filmes sofriam algum tipo de corte, eles sabiam que, se tivesse um plano ousado, ele seria cortado, e o resto acabaria passando. Assim, eles perceberam que dava pra ousar aos poucos.

Portanto, rolava uma certa gambiarra por parte dos diretores para lidar com a censura?
Quando o filme era muito cortado, os censores costumavam optar pelo veto completo do filme, já que ele acabaria sendo incompreensível por causa disso. Isso acontecia muito em uma primeira passagem do filme pela censura. Com isso, os diretores e produtores da época tinham de enfrentar uma verdadeira batalha para a liberação do filme. Eram inúmeras cartas trocadas, explicando que o filme era pra maiores de idade, que o público tinha capacidade de entender o que estava sendo mostrado. Alguns filmes realmente passavam por um reexame, no qual [ele] era aceito depois de ver que o filme não era de fato subversivo. A maioria das vezes, eles conseguiam liberar. No fim, esse sistema acabava sendo mesmo uma burocracia gigante.

Como era o processo de mandar a película para ser analisada?
Bom, nenhum filme brasileiro poderia ser exibido sem o certificado de censura. Então, o filme acabava de ser feito, e uma cópia era enviada à comissão para que os censores assistissem aos filmes e emitissem os pareceres. Assim, o filme era devolvido ao produtor para fazer os cortes necessários e passava de novo por uma revisão que certificava que os cortes foram feitos de maneira correta. Quando o filme estava com os todos os cortes, eles emitiam um certificado de censura que trazia em anexo uma lista das cenas que não foram aprovadas.

Havia a possibilidade de alguns produtores nutrirem uma amizade com os censores para facilitar na liberação dos filmes?
Pelo que consegui ver nas cartas, não. Era tudo num tom muito formal e até um pouco na defensiva. Tem uma carta do Jece Valadão que usei para a instalação [em] que ele escreve que é um dos grandes nomes do cinema nacional e que contribuiu muito para a cultura brasileira. Isso é o que eu consegui ver pelos documentos, pelo menos.

Quantos documentos você chegou a analisar?
Nossa, foram muitos. Assisti a mais de 150 filmes; e, [de] quase todos os filmes a que assisti, fui procurar os respectivos documentos emitidos pelo regime militar. Acho que foram quase 400. Meu foco principal foi encontrar os filmes do gênero na versão integral, sem os cortes. Eu tive de ficar vendo cada filme que encontrava com a lista de cortes na mão e os pareceres para ver se ele foi adulterado.

Os censores chegavam a pedir a destruição dos trechos cortados? Como foi o processo de resgatar esses filmes?
Normalmente, os produtores enviavam uma cópia para a comissão de censura; então, eles não faziam as alterações direto no original. Só o que acontece é que muitos desses produtores não tinham muitas condições para catalogar essas películas, ainda mais que o material delas é uma coisa muito complicada de estocar. E a nossa história do cinema não tinha a noção de que era importante guardar isso para o futuro. São filmes difíceis de achar: não consegui encontrar nem metade do que eu tinha na minha lista. Alguns filmes, o Canal Brasil digitalizou; outros, consegui diretamente com o produtor. Porém, existem filmes inteiros que foram perdidos. Foi uma pesquisa muito longa e trabalhosa que durou quatro anos para reunir o que queria. Primeiro, tive de juntar todos os filmes que consegui achar. Uns, peguei na cinemateca do RJ; outros, no YouTube, já que teve gente que gravou alguns filmes que passaram na televisão e subiram lá. Consegui ver que algumas obras que passaram na televisão depois do período do regime foram exibidas sem cortes por causa dos produtores que enviaram uma cópia integral. A maioria acabou sendo suprimida, mas consegui reunir algumas versões integrais – e eram esses planos vetados que me interessavam.

E os diretores do gênero chegaram a ser perseguidos pelo regime militar?
Acho que todos, em maior ou menor escala. Só que esses diretores acabaram ficando no meio de tudo isso. A ditadura realmente não gostava deles, e a crítica e os intelectuais de esquerda achavam os filmes de extremo mau gosto, malfeitos e despolitizados. A direita e os militares odiavam, porque era uma visão de um Brasil muito libertino. Era um limbo mesmo – e, quem gostava, era o público mesmo, que acabava sempre vendo os filmes.

E como foi a montagem da instalação, e o que você quer passar para o visitante?
Essa videoinstalação vem do resultado de uma residência de um ano que fiz no MIS, onde consegui fazer uma imersão no tema. Uma preocupação bem grande que eu tive foi obviamente ter um lado estético, artístico, na instalação, mas também tem um lado mais didático para que o público consiga entender o que está sendo posto ali. Eu sempre soube que queria colocar esses documentos de censura, porque acho que é algo que a gente ainda precisa olhar até hoje. Eles estão aí, e qualquer um pode ter acesso a eles no Arquivo Nacional. Quis mostrar esses arquivos também porque eles são uma coisa muito legal de se ver, pois é possível ver a personalidade do censor por trás deles. Me diverti muito lendo os pareceres: tem censor que quase escrevia uma peça literária ao analisar uma obra. Então, comecei a pensar que queria fazer uma espécie de imersão ao espectador, criar um trajeto nisso, porque é um assunto longo e complexo. Eu queria que o visitante pudesse ter essa experiência da censura e sentir como se ele tivesse entrando em um lugar proibido e extremamente burocrático.

Prazeres Proibidos
Data: 23 de fevereiro a 27 de março
Abertura: 23 de fevereiro, às 19 horas
Horário: 10h a 20h (terça a sexta-feira); 9h a 21h (sábados); e 11h a 19h (domingos e feriados)
Local: Museu da Imagem e do Som - Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo
Entrada Gratuita

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