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Como identificar um esquerdomacho: os caras que acreditam em justiça social mas são sacanas com as minas

Sasha Borissenko

Um cara que é tão apaixonado pelo seu próprio radicalismo progressista que acha que não pode fazer merda, incluindo ser um babaca sexista.

Fiquei amiga do meu primeiro esquerdomacho aos 18 anos. Ele era super de esquerda, criativo, charmoso e articulado — o que deixava as minas loucas. Eu era a única mulher do nosso time de debate. Um desafio, sim, mas eu era uma hipster wannabe da Helen Clark na época. Discutíamos constantemente. O argumento do cara é que ele não era um esquerdomacho, eu é que estava equivocada. Quando eu apontava que ele frequentemente era condescendente e estava sempre diminuindo as mulheres, ele descartava isso como bobagem e dizia que eu estava me apegando a problemas menos importantes do as "questões reais", como aquecimento global.

Imagem via.

O esquerdomacho mestre acabou me expulsando do time de debate. Na defesa dele, eu disse um dia antes que tinha problemas com a maioria das facetas da personalidade dele. Na verdade, eu disse que não era a personalidade dele que me incomodava, mas a contradição de seus valores. E esse foi o fim da minha carreira política.

Num artigo no News Statesmen, Penny Laurie apontou que Russel Brand é um clássico esquerdomacho celebridade, usando ironia e comédia como arma para educar as massas sobre as causas realmente de valor. Em sua série no YouTube The Trews, ele faz piada com o capitalismo, casamento gay e política de gênero. Tudo isso com um longo histórico de objetificar as mulheres. Depois temos o intocável Leonardo DiCaprio, que usou seu discurso no Oscar para elevar "as vozes que foram afogadas pela política da ganância". O que fica meio estranho emparelhado à sua predisposição por modelos de biquíni e sua suposta tendência a se gabar de suas conquistas amorosas.

Mas Hollywood está muito longe da Nova Zelândia. Fomos o primeiro país do mundo a dar o direito de voto às mulheres, e temos nos orgulhado de empoderá-las desde então. Mas eu tenho minhas dúvidas. Desde minha primeira treta com o esquerdomachismo, desenvolvi um radar para caras que tentam esconder seu sexismo atrás de uma cortina de fumaça progressista. Como da vez em que uma amiga me contou sobre um cara incrível que tinha conhecido. Ele tinha uma banda e trabalhava na arena política da esquerda, mas não era o tipo "hipster robô". Ele era um cara legal. Ele até trolava misóginos nas redes sociais. Apesar de logo descobrirmos que ele tinha uma garota em cada canto. Não muito depois dessa descoberta, o escritório onde ele trabalhava teve que introduzir uma política antissexismo por causa do comportamento questionável do cara.

Pela minha experiência, existem dois tipos de esquerdomachos. O tipo um usa seus valores progressistas exteriores para atrair mulheres, principalmente no reino público das redes sociais, enquanto mantém secretamente valores não tão igualitários assim. O tipo dois vê as mulheres como objetos dispensáveis e as tratam mal para esconder suas inseguranças. Fingindo para o mundo, e até para eles mesmo, que querem libertar os oprimidos do mundo, eles ganham uma reputação angelical enquanto continuam confortáveis nas estruturas dominantes do patriarcado. Nos dois casos, é uma combinação de arrogância e empatia por tudo e todos — em seus próprios termos — que define o esquerdomacho.

Imagem via usuário do Flickr Steven Depolo.

Os esquerdomachos descolados podem usar Dr. Martens, Vans ou aquelas alpargatas sem meia, e também curtem calça skinny. Eles gostam de marcas de qualidade, tipo Fjallraven, Acne Studios e Cheap Monday Jeans, empresas escandinavas que se alinhem a seus valores igualitários. E sem surpresa, eles preferem andar de bicicleta e transporte público em vez de qualquer abominação emissora de carbono.

As preferências musicais são autoexplicativas, mas os esquerdomachos são atraídos por músicas sentimentais de homens e bandas locais. E eles também não têm escrúpulos com as batidas irônicas dos anos 90, já que assim eles se veem livres para rir de si mesmos.

O paladar deles é bem interessante. Apesar de inclinados ao vegetarianismo, eles não passam para o veganismo por medo de se tornarem muito hardcore ou dogmáticos. Eles vão apostar em salgados integrais sem carne, assim como num café da manhã de café preto e frutas da ferinha de orgânicos, por exemplo. Eles se recusam a se conformar aos papéis de gênero, então cozinham e limpam com gosto. Depois do jantar, eles bebem uísque e cervejas artesanais em excesso. Os esquerdomachos fumam socialmente, mas não contam isso para o médico. Eles são antifumo, se alguém perguntar. Em vez disso, eles fumam depois de bons debates políticos, quando acham que já educaram seus colegas ignorantes o suficiente. É o cigarro pós-sexo dos millenials, se você preferir.

Num nível mais amplo, esses caras geralmente são indivíduos com educação superior, trabalhando no setor público ou sem fins lucrativos. Já os esquerdomachos criativos desenham móveis em estilo escandinavo, fazem campanhas publicitárias para ONGs ou lançam uma startup. Quando eles curtem tecnologia em vez de carros e esportes, eles não são os tipos tradicionais do "cosplay" ou "World of Warcraft". Em vez disso, eles investem pesado nas redes sociais. Eles defendem arduamente suas crenças, ainda mais que a feminista em seu cotidiano. Eles vão ser os primeiros no seu feed a postar no Dia Internacional da Mulher.

Não há dúvidas de que eles estão por aí, mas quando pedia a algumas mulheres para comentarem suas experiências com esquerdomachos, todas tiveram medo de passar por descontentes, loucas ou exageradas. É difícil atacar um cara que parece ter intenções tão nobres. Como uma amiga me disse: "nenhum [esquerdomacho] vai ser convencido a repensar seu sexismo, ou mesmo reconhecer que tem comportamentos sexistas. Os caras que acreditam que têm seus ideais em ordem acham que podem reinar livremente com o pau".

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Tradução: Marina Schnoor

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