Meu Nome Não É Selton

“Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém” - O Vinícius Perez transformou esse drama em HQ.

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13 Abril 2012, 5:40pm

Todo mundo algum dia já se sentiu meio Danton Mello. Ou Emilio Stevez, Edinho, Júnior Lima... Tanto faz, é como diz a música: “Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. O Vinícius Perez, 21 anos, também já passou por isso, mas aproveitou pra transformar o drama em HQ/conto. Danton é o primeiro trabalho do tipo escrito pelo gaúcho integrante do grupo de fashioniilistas do Todo Dia Um Look. Ilustrada pela sua namorada, Niege Borges, a saga conta a história de um dia na vida do irmão mais novo do Selton, com participações especiais de Fernando Meirelles, Lima Duarte e Gerald Thomas. Fora um #vale virtual da Cléo Pires.

Tudo ficção, garante ele, já preocupado com mágoas e processo. É que tem gente ficando cabreira com o desenrolar, inclusive os mais chegados, e até então ninguém sabe se o atual Fabiano Duarte da Malhação chegou a ler o enredo no qual ele finalmente é protagonista (mesmo assim o próprio Vinícius já imaginou toda uma situação pra quando isso acontecer). Enfim, assim que acabei de rir, e me sentindo muito melhor, conversei com ele sobre a história.

VICE: Então quer dizer que você foi xingado até pela sua família e amigos por causa da história do Danton?
Vinícius Perez: A galera se sensibilizou, achou maldade e espírito de porco. A própria Niege Borges, minha namorada e ilustradora da história, me xingou depois da primeira lida, dizendo que era nojento e se recusando a desenhar uma passagem sobre masturbação. Já uma amiga sádica me xingou dizendo que o final tava fraco demais. "Mais dor, mais dor!", pedia ela. Outro dia fui tentar fazer um press release sobre o projeto e acabei escrevendo uma carta de desculpas pra ele. Mas não é nada disso: quem adora o Danton mesmo sou eu, e escrevi imaginando ele como um super-herói.

Mas por que o Danton Mello?
Parece piada, mas nem foi pensando no Danton Mello que tive a ideia. Foi pensando no Selton mesmo, e o lance de ele ser uma estrela de quase todas as produções cinematográficas do país. Daí imaginei uma cinebiografia do Danton com o Selton sendo chamado para interpretar o irmão. Na hora percebi que a piada não era o Selton, e sim essa ideia do irmão meio desgraçado e errante, que vive na sombra e no fracasso. E aí foi só questão de escrever. Acho ele um personagem tri carismático.

Acha que ele já viu a HQ?
Um amigo com contatos disse que tem 90% de chance que ele tenha lido. Gosto de imaginar que ele lê, acha engraçado, me procura na internet e encontra o endereço da minha casa. Um dia eu tô descendo pra ir comprar xampu (acabou faz uns quatro dias e eu procrastinei a compra de um novo tubo) e ele tá escorando no poste aqui da frente de casa. Me curvo de vergonha e ele ri, abrindo os braços. Eu abraço de volta, agora meio constrangido de quão seboso está meu cabelo. Mas dá pra perceber pelo olhar carinhoso que ele não se importa com nada disso. Me sinto mais confortável e falo: "Já reparou como dá pra mudar de 'seboso' para 'sedoso' só girando o b até ele virar um d?". Ele ri e a gente passa os próximos minutos fazendo esse comercial imaginário para Seda, entre gargalhadas. Esses minutos acabam se estendendo em horas e a gente descobre que tem vários gostos em comum: livros, filmes, mulheres e séries. "E o final de Lost, hein?", pergunto. "Nossa, fraquíssimo, né?", ele responde.

Mas alguma vez chegou a pensar (pra, sei lá, evitar problemas) em fazer tipo o Casseta & Planeta e trocar algumas letras do nome, tipo Banton Nello?
[Risos] Vou colocar isso no segundo volume de Danton. Sim, vai sair mais uma palhaçada dessas. Daí no livro vai ter um esquete do Casseta & Planeta sobre as desventuras do Banton Nello -- que vai ser interpretado pelo Hélio De La Peña, naturalmente. Mas usar o nome real era fundamental pra narrativa e pro senso de humor da história. É bem estúpido também. Tenho medo de magoar o Danton e de ser processado. Mais medo de ser processado mesmo, porque meu dinheiro importa mais que o sentimento dos outros. Mas magoar o cara não ia ser maneiro. E curto muito o tom que brincar com realidade e ficção dá para uma história, tipo Adaptação, do Kaufman, ou o seriado Louie, do mestre CK. Schadenfreude é um termo alemão pra achar graça da desgraça alheia, e acho que muita gente acha que esse é o charme do Danton. É uma das características principais mesmo, mas pra mim a graça não está na desgraça ser alheia. Ao ver Adaptação, o que me faz rir mesmo não é o Nicolas Cage se fodendo. A graça tá em como me identifico e sou um fodido também. E o fato de ser uma pessoa de verdade ajuda muito pra facilitar nessa identificação. 

No release que você escreveu sobre a HQ pro seu blog, você diz ser ele um representante da "humilhação na quinta-série, o paladino daquele sentimento constante de inadequação que fica sempre por perto tentando te sabotar". Como você sabe tanto sobre isso? Quais foram as passagens "quase autobiográficas do autor"?
Pensei que todo mundo soubesse tanto quanto eu sobre insegurança e se sentir inadequado o tempo todo. [Risos]. O teu "como você sabe TANTO" me fez pensar que talvez nem todos fiquem matutando sobre não serem bons o suficiente. Mas vai dizer que às vezes no teu emprego tu não fica pensando "Caralho, uma hora essas pessoas vão descobrir que eu sou uma farsa"? Agora mesmo: penso no que respondi e me sinto o cara mais pedante e caricato que já pisou na Terra, tentando pagar de sujeitinho perturbado, mimimi com sua autoestima baixa mimimi, uma baita mulherzinha. Mas nem são ações do Danton que são autobiográficas (tô desesperadamente tentando deixar bem claro que nunca bati punheta pra avatar do Facebook), mas sim a vibe e o sentimento da história.

E da biografia dele, o que lá é verdade e foi pesquisado -- fora o nome as novelas?
Não li nada, acho. Um amigo me lembrou que ele era apresentador do Globo Ecologia e que caiu no helicóptero no Monte Roraima, ficou lá por 25 horas com um princípio de hemorragia no abdômen. É tipo de desgraça tão grandiosa que se eu tivesse pensando, nem ia botar na história por ficar forçado demais. Mas é uma baita história, sem piada: o cara é um sobrevivente, a ex-mulher salvou a vida dele ao apressar o resgate. Foda.

Aliás, já viu a Wikipédia dele? Tem uma parte só sobre a Genealogia dele. Lembrando de quem ele é filho, irmão ou primo.
Bah, fui ver agora que tu falou. Muito fantástico. Próximo projeto: escrever um épico de quase mil páginas sobre todas as gerações da família Mello, tipo Cem Anos de Solidão.

Qual dos papéis do Danton que mais te marcou -- se teve algum?
Não lembrei de nada, daí voltei à Wikipédia pra ver que ele dublou o personagem do River Phoenix no Indiana Jones e a Última Cruzada. É esse.

Aliás, você já tinha escrito contos ou algum tipo de literatura antes ou foi sua primeira vez como escritor?
"Escrever literatura" é um troço pesado, hein? Me senti sujo agora. Mas eu escrevia no Todo Dia Um Look, que foi um exercício muito afudê: teve uma semana que escrevi um texto gigante por dia sobre esse universo de qual eu não compreendia nada. 

E as ilustrações são da sua namorada, é isso?
Isso. Todo mérito do sucesso da história é dela. Acho que se encaixaram bem, a jornada desgraçada do Danton com o traço mais elegante da Niege. Dá uma equilibrada, pra não ficar muita escrotidão. A ideia original era ser só HQ, mas ela não é palhaça e acha sofrido demais desenhar quadrinhos. Implorando e usando chantagem emocional, consegui convencer ela a fazer essas cinco páginas. A gente colaborou sim: eu fazia umas montagens horríveis pra ajudar a pensar na estética da página que ela ia desenhar enquanto ela lia o que escrevi e dizia: "Vinícius, tu passou três parágrafos falando de uma ereção. Precisa mesmo?". Mas a Niege é foda. Ela tem o Dancing Plague of 1518, só com dancinhas famosas da TV e cinema, que é a coisa mais linda.

Já pensou em transformar isso num curta e chamar o Danton pra fazer o Danton que vai ser interpretado pelo Selton?
Lógico, seria a piada chegando ao seu ápice. A ideia deve ter nascido como argumento de um curta, mas por ser tão inviável, descartei de cara e nem lembro mais. O Erik Gustavo, o roommate do Marcelinho, queria adaptar com o próprio Danton no elenco. Tomara que role. Aliás, lembrei agora que quem me falou isso foi um amigo em comum e nunca conversei isso com o Erik mesmo.

Você falou de uma continuação. Já tem algo da segunda parte pra adiantar?
Vai ter um segundo sim, pra estragar tudo. É que uns amigos gostaram, pediram mais e, como não sei lidar com elogio, abri as pernas e aceitei na hora. Não escrevi quase nada, na verdade, mas ó:

"Com a mente lúcida pela primera vez em semanas, Danton decide caminhar um pouco, respirar um ar. Uma senhora de um metro e quarenta, trajando um vestido de algodão com padronagem de girassóis, esbarra nele, o fazendo derrubar seu celular. Ele sabe que foi culpa dela (e parece que a queda trincou a tela do celular de Danton), mas por educação (OK, é simplesmente medo, a ideia de confrontar alguém [por mais frágil e senil esse alguém pareça ser] é aterrorizante), Danton pede desculpas. “Opa, mil perdões, senhora”, ele diz, simpático, sorrindo. “Otário”, responde a senhora, enquanto dá as costas e vai embora."

Legal. E cara, na Malhação nesse exato momento em que escrevo as perguntas, o Danton Mello tá recebendo uma dança do ventre particular da Letícia Spiller depois de um jantar a dois tematizado Oriente...

Mestre! Ele pegou a Helena Ranaldi dia desses, vi no Ego. Daí, logo depois, rolou outra matéria com a manchete: "Helena Ranaldi sobre ficada com Danton Mello: 'Nem me pergunte'". É muito mestre.

Uma brincadeira: você pode chamar qualquer pessoa do mundo pra um churrasco, sem se preocupar com custos (você tem dinheiro pra isso) e RSVP (essas pessoas VÃO aparecer). Mas só pode chamar três, e esse pessoal se sentaria na sua mesa. Você chamaria o Danton Mello? 
Lógico. E como o orçamento é aberto, mandaria fazer uma estátua de gelo no formato do Danton que também é uma fonte de champanhe que expele a bebida pelo pênis em cima de uma segunda estátua de gelo em formato do planeta Terra.

E só por curiosidade, quem seriam as outras duas?
O Danton do passado e o Danton do futuro.