Conversamos com Bárbara Wagner sobre Foto, Povo e Pop

‘A busca só tem graça e valor se a gente não sabe bem aonde vai dar.’

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20 agosto 2014, 7:19pm

A fotógrafa Bárbara Wagner nasceu em Brasília e escolheu Recife e Berlim como casa, embora se veja sem origem fixa nem destino certo. Nessa entrevista, feita por e-mail no mês de agosto, ela conta como sua história de vida guiou um processo criativo marcado pela busca das origens de algumas das expressões culturais, religiosas e econômicas mais típicas do Brasil atual, numa representação do que chama de “corpo popular” que não cede ao lugar comum, mas questiona o sentido contemporâneo do que se apresenta como tradição.

Ela traça paralelos entre o jornalismo e a arte, questiona os critérios de valorização do mercado e reflete sobre a difusão de imagens nas redes sociais, como Facebook e Instagram, além de discorrer sobre o impacto que as escolhas técnicas e conceituais têm sobre seu trabalho, em exibição atualmente em museus pelo Brasil, como no Centro de Arte Hélio Oiticica, até o fim de agosto, e no Museu de Arte do Rio, até fevereiro de 2015. Em breve, a fotógrafa estará na mostra coletiva do programa Rumos do Itaú Cultural, que abre na semana que vem, em São Paulo, e fica até outubro. Ela também exibe no Sesc Sorocaba, de outubro a dezembro, seu mais recente projeto: “Evangélicos”.

VICE: Bárbara, voltando ao início da sua trajetória, você é de Brasília e migrou pra Recife, certo? Como essa mudança de ambiente, de clima e de sociedade interferiu na sua formação e percepção? Recife parece ser não somente um cenário importante para as suas imagens mas um personagem, fonte de indagações e temas. Você o considera essencial para sua produção?
Bárbara Wagner: Acho que tenho sorte de não ter uma origem fixa nem um destino certo. Mas aos 5 anos fiz uma viagem de carro que durou muitos dias cruzando o interior do país e da qual não esqueço: por mais que o tempo passasse, a Bahia não acabava nunca. Aos 17 decidi morar em Recife, que é pra mim essa Bahia que não se acaba - é lá onde me faço perguntas que não têm resposta certa, questões ordinárias que me permitem acessar formas de expressão popular extremamente complexas. Qual o sentido contemporâneo da tradição? Como o popular se torna pop? Como se pode ter ao mesmo tempo um pé no terreiro e outro no palco? Quando se olha para o Nordeste de agora, com atenção à sua história - e sem nostalgia -, se percebe toda uma nova geração que experimenta a vida comum de modo radicalmente diferente do que se alinha com um discurso conservador, ou que se dirige ao tradicional, etnográfico ou folclórico.

Como se deu a sua formação como fotógrafa? Você veio do jornalismo, não foi? E hoje em dia, você se considera uma fotógrafa documental? Consegue viver apenas dos seus trabalhos autorais?
Sim, me interessa entender o que está tão perto que quase não se vê. Penso que a arte pode ser exatamente esse lugar no qual o jornalismo toma formas transversais às convenções formais das mídias massivas, que normalmente achatam nossa percepção do sentido político do dia a dia. Nesse sentido, não vejo ganho na distinção entre trabalho autoral e comercial (ou mesmo industrial): importa o que se quer dizer, como e pra quem. Na fotografia documental, vejo a subjetividade exatamente no modo como se articulam esses três eixos (o quê, como e para quem) dentro dessas mesmas convenções. E essa tarefa é tão desafiadora no jornalismo quanto na arte. Ao mesmo tempo em que minha fotografia envolve pesquisa em disciplinas diversas e acontece num ritmo mais alongado do que aquele do jornalismo, ela não é talhada para as medidas de distribuição do mercado da arte como ele se apresenta hoje. A fresta entre esses dois mundos é larga e bastante precária, mas acho um privilégio e uma grande responsabilidade trabalhar como artista no Brasil.

Vendo a sua linha de trabalho vejo uma conexão de temas sociais e populares e o uso do retrato quase como uma abstração do documental, uma criação de um lugar fictício: um outro lugar possível, entre o imaginário e o real. De Brasília Teimosa até Evangélicos você enxerga essa linha se intensificando? Parece-me haver uma busca por temas que se complementem e a construção de um universo próprio. Essa é uma busca consciente ou que vai se dando naturalmente?
Toda busca ou pesquisa só tem graça e valor se a gente não sabe bem aonde vai dar. Ao mesmo tempo em que gosto de estar atenta ao que já foi feito antes de mim, a intuição tem grande força no meu trabalho. Cada série que desenvolvo acaba, conscientemente, levantando questões que originam trabalhos que vêm depois. Em Brasília Teimosa, a atenção está na representação de classe e status através da pose; em Estrela Brilhante, o cânone de uma tradição “pura” é questionado no registro de uma performance fora do palco; em A Corte, o assunto é a mobilidade social, a simbologia de hierarquias que se manifesta na cultura popular como nas convenções do retrato; em Evangélicos, quero escrutinar o que há de ordinário e material no mundo fantástico da indústria da crença. Do princípio ao fim, meu trabalho é documental, e isso quer dizer que ficção e realidade nunca se opõem, mas necessariamente operam em paralelo, se orquestram em medidas mais ou menos evidentes ou harmoniosas a depender do tema trabalhado.

Como se dá o seu processo de criação, a escolha dos temas, a sua rotina de produção? Quanto tempo demora mais ou menos produzindo cada um de seus projetos?
Tenho sorte de poder dar o ritmo que cada trabalho merece, ou seja, minha rotina é intensa, mas isso não quer dizer que meus trabalhos viram produtos a cada três meses. Algumas séries são feitas em dias; outras, em anos. Imagino que os assuntos é que escolhem seus formatos, e eles nem sempre se tornam públicos apenas em exibições de galeria ou dentro do circuito da arte, muitas vezes por demais conservador. Meus trabalhos acontecem também em pistas de dança, em conversas, em leituras, em livros.

Em Jogo de Classe você está falando desse trânsito de classes sociais que a sociedade brasileira em geral vem passando: você sugere que sonhos e realidade coabitam nas suas fotografias. E aí eu queria saber como rolou esse processo que oscila entre o documental e o fictício. Houve sugestões ou foram interferências diretas nas escolhas das cenas?
Jogo de Classe é uma pesquisa em andamento há mais de três anos que não tem hora pra terminar, justamente porque fala de uma imagem em construção, do desejo de ascensão social que joga entre o ganho e a perda,  que se anuncia no palco pra desaparecer atrás das cortinas. Pra falar do colapso da ideia de coletividade, jogo o flash no sujeito na multidão: as sequências são desenvolvidas junto com os personagens que encontro nas ruas. O que há de comentário no sonho, nesse sentido, não poderia ser mais real.

Hoje em dia você mora entre Berlim e Recife, né? Como se dá essa dicotomia entre duas cidades tão opostas? A maioria de seus trabalhos se baseia na questão social específica da cultura popular brasileira, então me intriga como esses seus trabalhos são recebidos na Alemanha ou na Europa como um todo?
Morar em Berlim funciona como uma estratégia para me manter centrada em minha pesquisa no Brasil, e isso não é uma contradição: é exatamente esse distanciamento eventual do que me é familiar que me permite acomodar perspectivas estimulantes sobre temas que não me pareceriam urgentes de outra forma. Como os trabalhos circulam e são compreendidos fora do Brasil é uma questão caríssima ao meu trabalho, que não tem uma solução definida. Como falei antes, é cada vez mais preciso saber o que se diz, e para quem. Não acredito em temas globais ou que sejam entendidos em qualquer lugar. Para mim, é a especificidade dos trabalhos que o fazem poderosos, comoventes.

Para o projeto Offside Brazil da Agencia Magnum (que selecionou fotógrafos para cobrir a Copa do Mundo do Brasil), você utilizou qual recorte? Qual foi o seu ponto de partida? Como foi a experiência de participar de um projeto colaborativo com diversos outros fotógrafos e uma pauta bem jornalística como essa?
Concentrei-me em algo que há tempos me interessa, que é a relação estreita do evangelismo com o que ficou conhecido como a “nova classe média” do país. No neopentecostalismo, a pauta é a vida ordinária, com a promessa de soluções para problemas do “agora”, o que faz a maioria das denominações evangélicas se inserir exatamente no centro da lógica imediatista do consumo. Nesse sentido, a série de retratos Evangélicos dá continuidade ao meu interesse na cultura popular, à proximidade entre o terreiro, o palco e o altar. No contexto do Offside Brazil, tentei contribuir com uma observação mais íntima dessa forma de política entre o popular e pop, que tem uma estética própria e que deve ser levada a sério.

O flash na luz do dia acabou virando a sua linguagem de certa forma, não? Como que você chegou a esse formato?
Um amigo me disse, uma vez, que a luz do flash, na fotografia, é como um raio que vem antes de um trovão. Eu, que gosto das tempestades, acho essa imagem bem bonita. O uso da luz artificial junto com a luz ambiente é uma receita cosmética velha e comum, e apenas por isso me interessa: ela traz em si uma série de códigos que nos fazem entender, rapidamente, hierarquias de gosto e de poder.

Você é parte dessa geração da transição do analógico para o digital, a internet e as redes sociais. Como isso se dá na sua produção? Você oscila entre os dois meios ou só fotografa com digital? Como foi desde o princípio? E como vê a proliferação da fotografia de celular hoje em dia? Você se utiliza desses meios também? Está no Instagram?
Como jornalista, fotografei muito com equipamento analógico e acompanhei a transição para o digital. Gosto de usar ambos, dependendo da natureza do trabalho. Não estou no Instagram, mas estudo seriamente as fotografias de meus amigos de Facebook que, por exemplo, fazem parte do VASP (Vagabundos Anônimos Sustentados pelos Pais). Nas fotos de capa (no topo da página, com formato panorâmico) muitos se fotografam deitados, aproveitando cada milímetro daquele formato extremamente horizontal, o seu sentido de paisagem do corpo. Meu próximo trabalho será um filme que trata, entre outras coisas, de como o corpo se movimenta e ocupa esses espaços de visibilidade coletiva.

Você sente que há uma mensagem ou comentário geral que você está tentando transmitir com seu trabalho? Ou você somente tira fotos para si mesma que acabam fascinando as pessoas?
Essa relação é circular e passa pelo meu desejo e pelo desejo do outro: gosto de fotografar quem quer ser fotografado, e nessa conta podem sobrar incongruências que valem no final. Não me interessa a arte que se anuncia como arte, ou que especula o social a fim de produzir objetos bonitos que, no fundo, perdem todo sentido crítico. Acho que precisamos superar essa atitude conservadora, como artistas, e ver isso como uma responsabilidade ou perdemos tempo... e isso é sério. Como diz uma música brega do Recife: “O tempo passa / o mundo gira / o mundo é uma bola”.

Para ver as imagens e saber mais de cada trabalho da Bárbara, clique aqui.

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