Quadrinhos, Arte Punk e Psicodelia Reunidos em Livro Lançado pela Läjä

Conversamos com o Alex Vieira sobre seu primeiro livro, que reúne mais de 500 desenhos, colagens, estampas, tirinhas, grafites e capas produzidas para a Revista Prego, para a Läjä, para bandas amigas e para vandalizar um pouco os muros alheios.

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27 março 2014, 2:00pm

À sua maneira, Alex Vieira contribuiu para a estética do hardcore Vila Velha, como ficou conhecida a produção punk dessa cidade litorânea do Espírito Santo — fácil de identificar nos discos, livros, camisetas, shows e produtos da gravadora Läjä Records, sediada na praia de Coqueiral de Itaparica. Agora, Alex publicou seu primeiro livro em quase dez anos de carreira. Quadrinhos, arte punk & psicodelia reúne, em 304 páginas, mais de 500 desenhos, colagens, estampas, tirinhas, grafites e capas produzidas para a Revista Prego, para a Läjä, para bandas amigas e para vandalizar um pouco os muros alheios.

São 12 seções que agrupam sua obra por afinidades encontradas durante a edição/diagramação, feita juntamente com o amigo Werllen Castro. O livro abre com a primeira exposição "séria" de Alex, também sua monografia apresentada ao Centro de Artes da Universidade Federal do Espirito Santo.

“É um conjunto de mais de 20 trabalhos que têm interligação. É um trabalho que sai da revista, é o que cheguei mais longe”, afirmou.

Em seguida, o livro se divide em cartazes, pinturas, capas de discos, colagens, desenhos, cadernos, quadrinhos, ilustrações, Revista Prego, objetos e arte de rua. Cada capítulo é precedido de um texto de apresentação em inglês e português.

Para lançar o livro na noite de 20 de março, Alex convidou a banda Os Pedrero — que também acabam de lançar uma novidade, o CD Lúcifer — para tocar na loja da Prego, que fica num posto de gasolina e o resultado foi uma puta festa família pra caramba, com a presença do pai de Alekinho, da mãe do Mozine, além da velharia hardcore canela verde e muita gente de bandas.

Dois dias antes, eu me encontrei com Alex e Mozine no bar Piratininga, point que reúne coroas para jogar baralho, dominó e sinuca há mais de 50 anos na Prainha de Vila Velha. Escolhemos o ponto de encontro por obrigação artística, se é que isso existe: em janeiro deste ano, Alex ficou em terceiro lugar na categoria profissional de um concurso de pintura de observação e a tela retrata exatamente o Piratininga e alguns de seus frequentadores.

“A tela só não entrou no livro porque em janeiro ele já estava pronto”, lamentou.

Confira a seguir a entrevista com Alex Vieira, com uma pequena ajuda de Fábio Mozine, que passou de entrevistado a aprendiz de repórter.

VICE: Quando surgiu a ideia de fazer o livro?
Alex Vieira
: Foi em 2012. Eu estava pensando em juntar minhas coisas, muita coisa guardada e outras espalhadas, publicações em zines de outros estados, capas de discos, desenhos que não entraram nos discos, mas eu achava legal. Algumas artes que não foram para frente, de discos que não foram lançados. Aí fui juntando, na verdade, eu não jogo nada fora daquilo que eu faço. Se fizer um desenho num guardanapo, eu guardo. Aí vou acumulando, então achei legal ter uma publicação para deixar essas coisas para trás e partir pra outra, tentar fazer algo do zero.

O livro traz tudo o que você já publicou e exibiu?
Não. Tem muita coisa publicada que não entrou no livro.

Qual foi o critério para a seleção?
AV: Cara, são 304 páginas e algumas coisas ficaram de fora por conta da composição do livro. Tinha trabalho que ficava legal, tinha trabalho que eu acho legal, mas que não se encaixava com o que estava do lado. Na diagramação, a gente foi fazendo uma composição que mantivesse o ritmo. Cada seção foi pensada separadamente, fomos tentando equilibrar e tirando [o que não encaixava]. No início, tinha uma seção só com fotos minhas de criança – virou uma foto só no final. A seção de desenhos na rua tinha muita coisa – cortei também. Procurei não censurar temas, o critério não foi esse, foi pela composição mesmo. Tem colorido, mas tem preto e branco também. No livro tem a primeira colagem que eu fiz para alguma coisa, foi a capa da minha primeira banda, a Ajudante de Papai Noel.

(Nota: Enquanto Alex conclui sua resposta, um grupo de quatro coroas chega ao bar para jogar um carteado no mesmo ambiente em que nós estávamos. Eles nos cumprimentam, meio admirados por encontrar no seu mocó três moleques – dois cheios de tatuagem – gravando uma entrevista).

E você, Mozine, como entrou nessa?
Fábio Mozine
: Foi algo bem natural, sabe? Já tem um tempo que eu e Alex estamos fazendo coisas juntos, o cara entrou pras minhas bandas e a gente está sempre fazendo alguma coisa juntos. O Alex faz bastante arte pra gente. Eu me sinto muito representado nesse livro, tem muita coisa da Läjä no livro, tem desenho meu que ele fez para a revista. Mas a grande questão não é isso, tudo se encaixou pela representatividade que ele tem para a Läjä. A Prego tem um trabalho muito parecido com o da Läjä.

Capa e contracapa do livro.

A Läjä ajuda a viabilizar, tem distribuição, é isso?
FM: Cara, muitas vezes eu não atinjo o mesmo público da Loja da Prego, então, quanto mais ramificado, melhor. Tenho uma prática de comércio maior, prestação, pagamento. Fizemos uma divisão: em algumas feiras ele vai, eu vou em outras. Teve show d'Os Pedrero semana passada em Vila Velha, a gente combinou que eu ia vender os meus livros, aí fiz uma promoção: dava um disco junto para incentivar... a estrutura que já tenho, os contatos, o relacionamento. Vendi agora 10 livros para o ETE, de Campinas. Mas até chegar ao dia do pagamento, eu posso estar devendo ao ETE, o livro vira moeda.

Alex, se a ideia surgiu em 2012, por que publicou somente agora, em 2014?
AV: É que eu inscrevi o projeto na lei de incentivo à cultura de Vila Velha, cidade onde moro. Mas a grana saiu somente em 2013, houve problemas na prefeitura em 2012 e o dinheiro não saiu. Houve contingência no valor e esse também é um dos motivos para eu ter procurado o Mozine, sacou? Pô, eu queria fazer colorido, são tantas páginas... Falei para ele: com a grana que eu tenho, só daria pra fazer 500 cópias e o preço da gráfica era quase o mesmo para imprimir mil cópias. O preço ficaria muito alto e seria ruim para vender os livros. Ele entrou com uma grana, eu completei e juntamos o dinheiro da prefeitura, que ajudou, foi bom eu entrar na lei de incentivo.

Eu paguei o diagramador também, o Werllen Castro, que já faz muitos trabalhos comigo, teve a revisão da Joyce [Castello], que fez um preço quase de graça, teve a Raquel Pontes que fez a tradução para o inglês. Ela já fez tradução para revista, eu gostei.

FM: Posso fazer uma pergunta? Você acha que ter essa tradução ajuda em alguma coisa? Você acha que é importante? Já fez feiras, precisou do Inglês, viu resultado?

AV: A primeira vez que pensei em publicar em inglês foi naquela viagem [turnê da banda Merda, em 2010] para os Estados Unidos, aí levei a revista a uma loja de quadrinhos e o cara disse que tinha achado irada, mas que não entendia nada... Este ano estive na Feira Plana, em São Paulo, e já sei que de lá teve gente que levou para os Estados Unidos. Alguém que se interessar já vai entender agora.

(Enquanto isso um tiozão da jogatina vai ao banheiro e o barulho da descarga interrompe a gravação por 30 segundos.)

Então, é uma coisa que torna o livro mais completo, pois o livro registra diferentes etapas de meu trabalho e daqui a um tempo ele poderá ser visto de novo.

Onde já é possível encontrar o livro para comprar?
FM: Já tem na loja do ET, em Campinas, a Chop Suey; tem a Ideal Shop que quer atingir Fnac, lojas de discos. Já tem no Belém do Pará; tem na Velvet de Santa Catarina. O livro tá chegando à galera do hardcore, tá espalhando...

AV: Já tem na Ubra, loja virtual; tem na Caput Livros, empresa organizadora da Feira Plana, em São Paulo. No Rio de Janeiro tá com o Matias Max, da Cucaracha, que faz a Tarja Preta e a Sem Semente. Em Minas Gerais tem o João Perdigão, que faz o zine Zica, ele leva para eventos, monta banquinha...

Qual é o próximo trabalho?
AV: Eu tô muito na pilha de, depois desse livro, fazer um trampo do zero, começar a desenhar algo mais longo... um pouco maior, talvez misture linguagens, mas não defini ainda o que vou fazer.

FM: Você acha que seu livro pode inspirar, motivar artistas do hardcore, quadrinistas, artistas novos a fazer um também?

AV: Na feira mesmo teve artista que comprou e disse que passou a noite pensando em fazer um também. Quando fiz o livro, eu sentia que já havia uma galera que acompanha o que eu faço, os caras também têm.

FM: Alex, tem algum trabalho que você considere “o” trampo?

AV: O que eu fui mais longe é a exposição Lote 64, que abre o livro. É um conjunto de trabalhos, mais de 20 obras que têm interligação, é um trabalho que sai da revista, é o que cheguei mais longe. Depois da exposição eu dei um tempo nesse tipo de trabalho, até por que meu espaço de criação diminuiu também e eu me adaptei a isso. É o trabalho que foi minha monografia na faculdade.

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