O menino Jesus era meio babaca?

Segundo os Evangelhos da Infância, Jesuisinho usava seus poderes divinos para aterrorizar professores, matar crianças e ser um baita cuzão.

por Mark Hay
23 Dezembro 2016, 6:27pm

Para os cristãos, o símbolo chave do Natal é a natividade. Essa cena icônica com animais, anjos, José, Maria, e os sábios adorando silenciosamente o bebê Cristo em sua manjedoura, captura a imaginação dos crentes há quase oito séculos. Mas segundo o folclore cristão antigo, o bebê de Belém não continuou de boa por muito tempo. Aparentemente, o jovem Cristo podia ser um terror.

A Bíblia é notoriamente escassa em detalhes sobre a vida de Jesus entre sua circuncisão aos oito dias, fuga para o Egito, uma breve passagem impressionando o pessoal do templo em Jerusalém aos 12 anos, e o batismo aos 30. E mesmo esses eventos são contados em apenas algumas linhas. O acadêmico de cristianismo primordial e retórica clássica Mike Whitenton, da Universidade Baylor, aponta que os primeiros cristãos provavelmente ficaram desapontados com a falta de detalhes da origem de Jesus. O que faz sentido. As biografias greco-romanas de homens lendários naquela época tinham muito cuidado em destacar a infância de seus heróis, prenunciando seu poder futuro.

"[Os primeiros cristãos] queriam mais informação sobre Jesus do que os evangelhos [centrais da Bíblia] forneciam", acrescenta o professor de cristianismo primordial da Universidade de York Tony Burke, "como: 'Por que Maria foi escolhida para ser mãe de Jesus? Como ele era quando criança?'."

Para abordar isso, os primeiros cristãos, já ocupados criando outros livros bíblicos não-canônicos – como os evangelhos gnósticos e vários outros apócrifos – registraram ou inventaram histórias sobre a infância de Jesus. Um dos mais famosos é o Evangelho da Infância de Tomé, que apareceu no século 2 da Era Comum. Whitenton acredita, baseado na linguagem usada, que essa pode ter sido uma tentativa direta de continuar as histórias do menino Jesus encontrada no Evangelho de Lucas. Elementos desse trabalho foram incorporados a outras obras, como o Evangelho da Infância de Mateus, junto com contos adicionais do jovem Cristo. Traduções ou adaptações desses textos pegavam novos elementos e histórias, e ainda mais contos circulavam em tradições folclóricas independentes.

Em alguns desses contos, o jovem Jesus era totalmente bom. O Evangelho da Infância de Tomé o mostra, entre os cinco e os 12 anos, salvando milagrosamente seu irmão Tiago de uma mordida de cobra venenosa, esticando uma viga para ajudar o pai num trabalho de carpintaria e ressuscitando um pedreiro morto, entre outros feitos.

Mas, quase com a mesma frequência, Jesus aparece como um bostinha bem perigoso. Quando o filho de um escriba local irrita Jesus, ele declara que o garoto deve "secar como uma árvore, e não dará folhas, terá nem raízes, nem frutos". Então o moleque murcha e morre. Em outra ocasião, Jesus amaldiçoa uma criança a morte quando ela esbarra nele na rua. Puta, com toda razão, a comunidade inteira diz para José dar um jeito no filho ou sair da cidade. Quando José tenta falar com Jesus, ele diz que sabe que o pai está sendo incomodado pelas pessoas do vilarejo, então cega todo mundo. Jesus também fazia a vida dos professores um inferno, ressuscita um menino chamado Zeno só para ele dizer aos pais que não tinha sido Jesus quem o matou, e só revoga algumas de suas maldições quando um professor diz que ele é mais inteligente que os outros alunos.

Em certo ponto, José lamenta que o menino Jesus "tenha matado todos que provocam sua ira".

E isso em apenas um texto. Em outros, Jesus seca a mão de uma mulher que questiona seu nascimento milagroso – logo depois de nascer, Jesus sobe num raio de sol, chama outras crianças para o seguirem, depois as deixa cair para a morte; e transforma garotos em porcos quando os pais deles tentam escondê-los de sua ira.

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Claro, esses evangelhos e outras histórias populares não entraram na Bíblia quando ela foi compilada nos séculos 4 e 5 pela consolidação das igrejas. Mas segundo Burke, não foi por que as histórias da infância de Jesus prejudicavam sua reputação.

"O problema do Evangelho da Infância de Tomé quando se trata de doutrina é que ele vai contra a declaração do Livro de João, que diz que o milagre de transformar água em vinho no casamento em Canaã foi o primeiro milagre de Jesus", ele diz.

Mas embora esses textos não-canônicos tenham caído de circulação com o tempo, essas histórias de um Jesus menino às vezes milagroso, às vezes horrível, continuaram contadas por séculos. Burke aponta que os evangelhos da infância aparecem em dezenas e dezenas de manuscritos. E segundo Mary Dzon, especialista em literatura medieval da Universidade de Tennessee – Knoxville, muitos clérigos dessa era podiam não ensinar essas histórias, mas permitiam que elas florescessem como ficções devocionais úteis. Como resultado, a arte medieval é rica em referências dos milagres realizados pelo menino Jesus. Os feitos bons são maioria, mas Dzon aponta que muitos de seus atos malévolos aparecem em manuscritos sagrados e obras de arte bem executadas.

Ninguém sabe exatamente por que os cristãos antigos desenvolveram esse Cristo para preencher as lacunas dos evangelhos principais, ou por que séculos de cristãos perpetuaram essa imagem em vez de abandoná-la. Burke sugere que essas histórias visavam mostrar a divindade de Jesus através de demonstrações de bênçãos e maldições comuns na literatura antiga – pense no Deus do Antigo Testamento. Brandon Hawk, um especialista em literatura medieval do Rhode Island College, trabalhando na tradução e um desses evangelhos da infância, aponta que as pessoas medievais talvez nem vissem essas atos como maldições vingativas, mas como respostas ao que poderia ser visto como insultos legítimos a Deus. Hawk acrescenta que as pessoas que Jesus amaldiçoou são claramente retratadas como judeus duvidosos.

"A indisposição dos personagens judeus em reconhecer Jesus como Cristo, ou a entender seus milagres", diz Hawk, "tinha a intenção de difamá-los".

Foto via usuário do Flickr Waiting For The Word.

Outros vão na direção oposta, sugerindo que a imagem de Jesus inicialmente era desconfortável para muitas pessoas – e que essas coisas podem ter sido escritas por oponentes tentando minar a jovem fé, mas que foram reinterpretadas e absorvidas pelo movimento, colocando um toque positivo nos contos comuns.

Dzon sugere que essas histórias do folclore medieval podem ser vistas como um reflexo da visão da época sobre as crianças: miniadultos irascíveis. Nessa leitura, Jesus é humanizado nessas histórias – o transformado num ser em crescimento aprendendo a controlar seus poderes e seu eu humano.

"Acredito que esse comportamento estranho... possa ser atribuído ao que chamamos de 'dores de crescer'", acrescentou Whitenton, sugerindo que as narrativas mostram a moral do menino Jesus se tornando a de um homem.

Algumas, todas ou nenhuma dessas suposições podem ser verdade. É muito provável que o apelo e significado dessas histórias tenham se desviado de sua intenção retórica original com o tempo e a distância, variando de lugar para lugar e com o tempo. Mas independente do contexto, como Hawk aponta: "Essas histórias cativaram as pessoas medievais pela mesma razão que nos cativam hoje: elas são um entretenimento". Mas os leitores modernos raramente podem conhecer essas histórias, em parte por causa de Martinho Lutero e companhia.

"Os evangelhos da infância começaram a perder interesse para a Europa Ocidental durante a Reforma Protestante e a Contrarreforma Católica", diz Hawk. "Os protestantes começaram a rejeitar esses evangelhos por seu status não-canônico, e especialmente por sua associação com a veneração a Maria; e o desejo dos católicos de implementar suas próprias reformas pedia um retorno à Bíblia... Os apócrifos foram deixados para trás nesses debates sobre a Bíblia, doutrina e outros pontos teológicos."

Esses contos ainda sobrevivem em algumas culturas – aparentemente alguns cristãos coptas ainda contam variações dessas histórias hoje – mas não no Ocidente. Elementos de outras histórias apócrifas sobreviveram entre os cristãos europeus e sua prole no Novo Mundo, mas Burke aponta que muitas vezes o que sobreviveu já era parte de festivais estabelecidos e outras instituições. Sem isso, as histórias do Evangelho da Infância de Tomé e muitas narrativas paralelas lentamente murcharam e sumiram com a marginalização institucional.

O que não quer dizer que nós não temos o mesmo impulso de criar esse jovem Jesus violento e impulsivo. Nossa cultura ainda adora visões apócrifas de Cristo, por exemplo o filme de 1988 A Última Tentação de Cristo de Martin Scorsese. Ainda queremos saber o que o jovem Cristo aprontou, como visto no drama bíblico deste ano O Jovem Messias. E ainda gostamos de humanizar e reinterpretar Cristo de maneiras que vão do profundo ao absurdo.

O homem moderno pode ter trazido ao mundo contos de Jesus tão bizarros e violentos quanto Jesus Christ Vampire Hunter (assista por sua conta e risco), mas nem mesmo esta era irreverente e experimental conseguiu criar histórias tão teologicamente densas, com narrativas divertidas e moralmente desconcertantes como a visão dos primeiros cristãos do menino Jesus, dormindo em sua manjedoura, mas pronto para liberar suas bênçãos e ira no mundo assim que acordar.

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Tradução: Marina Schnoor

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