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Music by VICE

Bella e o mito da Mulher-Lobo

A produtora carioca que vive em Berlim pega carona na ideia da mulher selvagem da poeta Clarissa Pinkola Estés e faz música como forma de ocupar seu espaço no mundo.

por Amanda Cavalcanti
29 Março 2016, 3:55pm

Foto por Carlos Issa.

Em março, na coluna Mulher do Dia, vamos diariamente parar por um minutinho o torno informacional para respirar e pensar sobre quantas vezes nós levamos realmente a sério o fato de que muitas das nossas artistas preferidas são, todos os dias, mulheres.

No livro Mulheres que Correm com os Lobos, a poeta norte-americana Clarissa Pinkola Estés investiga a psique feminina por meio de mitos e lendas como o da Mulher-Lobo, uma figura que, empilhando ossos de lobos, faz renascer outra mulher. Inspirada pela autora, a produtora carioca Bella sobrepôs 17 músicas cantadas, produzidas e tocadas só por mulheres em seu EP cantar sobre os ossos, como uma forma de encenar o renascimento da mulher em sua música.

Envolvida com a cena de noise e arte moderna carioca, Bella, que hoje faz uma residência artística em Berlim, constrói sua produção musical em cima do seu passado no cinema e nas artes plásticas, adicionando aos seus trabalhos perspectivas muitas vezes mais visuais, performáticas, imaginativas e até astrológicas — seu mais recente lançamento, Facies, é inspirado numa constelação que reside em Capricórnio.

Bella é uma espécie de Mulher-Lobo fazendo ressurgir suas produções em cima de seus próprios ossos — suas experiências, ideias e visões. Quando conversamos, ela me contou que acredita que o machismo está em toda a parte e como as mulheres devem ocupar seus espaços no mundo.

THUMP: Como você começou a se interessar por música?
Bella: Me interesso por música desde bem pequena, e comecei a fazer aula de piano com sete anos e permaneci por quinze, ou seja, um longo tempo. Mas comecei a me interessar de fato bem mais pra frente quando viajei pra Alemanha. Estava buscando abrir os horizontes, encontrar outras sonoridades, e fui parar num quarteirão rodeado por lojas de instrumentos antigos, e vinis pra ouvir a qualquer hora. Tive contato com os sintetizadores analógicos, o theremin, pedais, etc, e naquele momento já estava completamente tomada por som. Fazia gravações no garage band, passava o dia editando e tocando não só instrumentos, mas qualquer som, como batucadas na madeira, gravações de um corredor, etc. Também produzia músicas com letra, pois curto o exercício da palavra poética. Fazia tudo de um modo bem intuitivo. Dai gravei um primeiro disco que nunca saiu. Foi um processo bem longo, e envolvia muita gente e depois dele, fui buscando ganhar mais autonomia no meu trabalho (com tudo que a palavra autonomia quer dizer = auto-nome). Passei a explorar o som de uma maneira mais ampla, incluindo meus processos imaginativos, visuais, performáticos, astrológicos. Dei início a ameiacura e com esse projeto gravei uma fita k7 independente, música sempiterna com 19 cópias numeradas à mão. Depois tive meu primeiro lançamento solo, o cantar sobre os ossos, que saiu ano passado pela Seminal Records. Em meio a isso, participei de um projeto no Castelinho do Flamengo que procurava reunir mulheres para improvisar e dai teve início o Meteoro. Exatamente agora acaba de sair o segundo lançamento, "Facies", pelo mesmo selo.

Ouvi muito das mulheres que entrevistei que, no papel de cantora, o preconceito contra a mulher no meio musical não é tão grande. Como produtora, você já o sentiu preconceito de alguma maneira?
Você tocou num ponto que é bem observado por mim. Primeiro, a quantidade de mulheres que seguem como cantoras... há sempre um conteúdo histórico por trás dos fatos. Vejo o preconceito existir em qualquer parte do meio musical, pois mesmo a cantora tendo o seu lugar mais reforçado, não deixa de estar lidando com produtores/ músicos homens em sua maioria. Então não separaria dessa maneira. E muitas cantoras também são produtoras, mas pouco reconhecidas por isso. Precisamos mudar esses padrões...

Você acha que, no meio alternativo, essa discriminação é menor?
Isso existe em qualquer parte. Não tem a ver com nichos. O que acontece é que vivemos um momento de evidência do feminismo, então há os que se dispõem a pensar a respeito disso, tanto homens como mulheres, e procuram colaborar com as mudanças que já estão operando. O mesmo processo vem acontecendo em relação aos papéis maternos e paternos.

Que mulheres você tem como influência/referência?
Não dá pra abreviar. Caroline K., Pauline Oliveros, Ione, Delia Derbyshire, Maja Ratkje, Eliane Radigue, Meira Asher, Pharmakon, Inga Copeland, Else Marie Padie, Diamanda Gállas, Alice Coltrane, Hildegard von Bingen, Mica Levi, Beatriz Ferreyra, Jocy de Oliveira, Marina Abramovic, Laurie Anderson, Meredith Monk, etc.

Você acha que está surgindo mais espaço pra mulheres na música?
Acho que o espaço não surge, ele é ocupado. Cabe a nós, mulheres, ocuparmos os espaços, e também cria-los.

Você tem dicas para mulheres que estão começando agora no meio musical?
Nunca parar.

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