Quantcast
DMT: Você Não Pode Imaginar uma Droga ou Uma Experiência Mais Estranha

Um relato de Terence McKenna, que considera o DMT “o mais potente alucinógeno conhecido pelo homem e pela ciência”.

Ilustrações por Tao Lin.

N, N-dimetiltriptamina, ou DMT, é um composto psicodélico ilegal de triptaminas encontrado no corpo humano e em mais ou menos 60 espécies de plantas no mundo. O médico Rick Strassman descreveu isso como “o primeiro psicodélico endógeno humano” em DMT: The Spirit Molecule (2000) e, numa entrevista há três anos, disse que o DMT “aparentemente era um componente necessário às funções normais do cérebro”. Terence McKenna – que, “mais que ninguém”, escreveu Strassman em 2000, “conscientizou sobre o DMT através de palestras, livos, entrevistas e gravações”) – chamou o composto de “o mais potente alucinógeno conhecido pelo homem e pela ciência” e o “mais comum em toda a natureza” na palestra “Rap Dancing Into the Third Millennium”, de 1994. McKenna se perguntava como a teologia não tinha consagrado o DMT como “a prova central da presença de outro no corpo humano” e disse:

“Eu não consigo entender como isso não é uma manchete de 10 centímetros em todos os jornais do planeta, porque não sei que outras notícias vocês estavam esperando, mas essa é a notícia pela qual eu estava esperando.”

McKenna fumou DMT pela primeira vez quando ainda era um estudante de Berkeley no começo de 1967. Ele já tinha experiências com LSD – ingerindo isso “uma vez por mês, mais ou menos” – e outras drogas psicodélicas, mas, como ele disse numa entrevista para The Archaic Revival (1992):

“Foi o DMT que aumentou meu compromisso com a experiência psicodélica. Ele era tão mais poderoso, tão mais alienígena, levantando todo tipo de questão sobre o que é realidade, o que é linguagem, o que é o eu, o que é o espaço e o tempo tridimensionais, todas as questões com que me envolvi nos últimos 20 anos.”

De 1967 a 1994, ele fumou DMT – uma substância laranja cristalina, parecida com cera de ouvido, e que “cheira vagamente como almôndegas” – 30 ou 40 vezes. Ele relatou suas viagens em “Rap Dancing into the Third Millennium”, “DMT Revelations” e “Time and Mind”. Abaixo você tem a minha composição dos três textos de McKenna, organizados cronologicamente, com quantidades aproximadas de tempo, em minutos e segundos, decorridos desde a primeira tragada vaporizada num cachimbo de vidro:

0:00. Primeira tragada. Cores brilhantes, formas pontiaguda e coisas distantes ganham clareza – “há uma sensação de que todo o ar da sala foi sugado para fora”.

0:10. Segunda tragada. Você fecha os olhos e “cores começam a correr juntas, formando algo como uma mandala floral, rotacionando lentamente, geralmente amarela e laranja” – o que McKenna chamou de “o crisântemo”. Então “você atravessa isso ou vai precisar de mais uma tragada”. (“Os fumantes de haxixe entre nós levam vantagem nesse departamento.”)

0:20. Terceira tragada. O crisântemo se parte. Há um som como de “plástico de embalagem de pão ou crepitar de um chama” e “uma impressão de transição”. Então “é como se houvesse uma série de túneis e câmaras que vão desmoronando”.

0:40. Você cai nesse “lugar”.

Em um desses relatos, nesse ponto, ele frisa: “E a língua não pode descrever isso apropriadamente. Portanto vou descrever isso de maneira inapropriada. O resto agora são mentiras.” E mais tarde: “Você tem que entender: essas são metáforas no sentido mais verdadeiro, significando que são mentiras!” A consciência de McKenna de um engajamento com esse aspecto do DMT aumentou meu interesse em seus relatos sobre a droga. Em um de suas palestras, afirma:

“A razão disso ser tão confuso se deve ao seu impacto nas capacidades de formação da língua em si, que se deve à coisa que está tentando olhar para o DMT estar infectada por isso – pelo processo de inspeção. Então ele não fornece uma experiência que você analisa. Não é nada tão organizado. O maquinário sintático de descrição passa por algum tipo de inflação hiper dimensional instantaneamente, e então, sabe, você não consegue dizer para si mesmo o que está entendendo. Em outras palavras, o que o DMT faz não pode ser descrito em uma linguagem de tão baixa dimensão como o inglês.”

O lugar ou espaço onde você surge – chamado “a doma” por alguns – parece ser subterrâneo e iluminado de maneira suave e indireta. As paredes estão “cobertas de alucinações geométricas, muito coloridas, iridescentes, com brilhos profundos e superfícies muito altas e reflexivas. Tudo é como uma máquina, polida e pulsando com energia”. McKenna ainda completa:

“Mas não foi isso que imediatamente prendeu minha atenção. O que prendeu é o fato de que esse espaço é habitado – que a impressão imediata quando você entra ali é que há uma alegria. […] Você entra nesse espaço e é imediatamente cercado por máquinas élficas, rangendo e se autotransformando... feitas de luz, gramática e sons que vêm cantando, gritando e tropeçando na sua direção. E elas dizem: 'Viva! Bem-vindo! Você está aqui!' E no meu caso: 'Você manda tantos e vem tão raramente!'”

0:50. Você fica “chocado”. Você pensa “Jesus Cristo, o que é isso? O que é isso?” Observou McKenna:

“E o mais estranho sobre o DMT é que isso não afeta o que chamamos normalmente de mente. A parte que você chama de você: nada acontece aí. Você é exatamente como era antes, mas o mundo foi radicalmente substituído – 100% –, tudo se foi, e você está sentado ali, dizendo: 'Jesus, um minuto atrás eu estava numa sala com algumas pessoas, e elas estavam passando uma droga estranha. E agora, o que aconteceu? Isso é a droga? Fizemos isso? É isso mesmo?'”

1:00. Os elfos ou “bolas de basquete de joias que driblam a si mesmas” se aproximam. Elas “cantam, gritam, falam numa língua que é muito bizarra de se ouvir, mas o que é muito mais importante é que você pode ver isso, [o que é] totalmente desconcertante!” E, também, algo “contínuo”, que com os anos McKenna passou a chamar luv – “não como em 'light utility vehicle', mas em amor que é como Eros ou não atração sexual”, algo “quase como uma coisa física”, “uma cola que se derrama nesse espaço”.

1:10. As “criaturas-máquinas élficas” (...) “se acotovelam, dizendo: ‘Veja isso, veja isso, pegue isso, me escolha!'” Elas “vêm na sua direção, e então – você tem que entender que elas não têm braços, então estamos meio que baixando isso numa dimensão menor para poder descrever – o que elas fazem é oferecer coisas a você. Você percebe que o que está sendo mostrado – essa “proliferação de presentes élficos” ou “brinquedos celestiais” que “parecem como que vivos” – é “impossível”. Esse “estado de frenesi incrível” continua por cerca de três minutos, durante os quais os elfos estão dizendo:

“'Não dê lugar ao espanto. Não se abandone ao maravilhamento. Preste atenção. Preste atenção. Veja o que estamos fazendo. Veja o que estamos fazendo, e então faça! Faça!'”

4:10. Então – “e apenas 5% das pessoas relataram isso”, apontou McKenna – “tudo para e elas esperam, e você sente como se, tipo, uma tocha, uma fagulha, se acendesse na sua barriga e começasse a se mover para cima no seu esôfago”. Aí sua boca “abre e essa coisa que é como uma linguagem sai”. É som, mas “o que você está experimentando é uma modalidade visual, onde esses tons são superfícies, sombras, cores, insetos, joias, e você está fazendo algo”. Os elfos “enlouquecem de alegria”.

4:40. “A coisa toda começa a desmoronar em si mesma, e eles literalmente começam a se afastar fisicamente de você. E no final eles realmente acenam adeus.” Há “uma ondulação através do sistema, e você percebe que os dois contínuos estão sendo separados”. (Uma vez, “assim que a manobra de separação começou, todos os elfos se viraram simultaneamente e olharam” para McKenna e disseram “déjà vu, déjà vu”.) Ele acrescentou:

“E frequentemente isso é muito erótico, apesar de eu não ter certeza se essa é a palavra. Mas é quase como se o sexo fosse a superfície do que isso é o volume. E eu sou um grande fã do sexo, não quero denegrir isso. Quero erguer o DMT a um status bastante alto.”

5:00. “Você delira.”

7:00. “Você não consegue se lembrar de nada.” E relata: “essa é a coisa mais maravilhosa, a coisa mais maravilhosa, isso – do que estou falando?” McKenna achava que o DMT “podia ter um papel nos sonhos”, em parte porque “o modo como um sonho se desfaz é o modo como uma viagem de DMT se desfaz: na mesma velocidade”. Ele discutiu isso numa entrevista:

“Há um mecanismo de autoapagamento. Tenho a sensação de que você descobre algo tão contraintuitivo que literalmente não consegue pensar nisso se estabelecendo aqui. Então, quando você vem de lá para cá, há um momento onde isso escapa da superfície da apreensão racional.”

A experiência com o DMT foi, para McKenna, “de uma ordem fundamentalmente diferente de qualquer outra experiência deste lado chato do túmulo”. Ele postulava que isso não era uma droga, mas “algo mascarado como uma droga”. A experiência disso, ele dizia, seria diferente para cada pessoa, mas “isso será, de alguma forma, pelo menos similar a minha descrição de quão dramático isso é”. Ele concluiu provisoriamente assim:

“Isso tem que ser levado a sério. Em outras palavras, essa coisa de 'é só uma alucinação' – essa baboseira é atrasada. Quer dizer, realidade é só uma alucinação, pelo amor de deus, você nunca ouviu falar? Isso dá conta disso: de que é só uma alucinação. O que temos aqui, amigos, é uma inteligência enteléquia de algum tipo, que quer se comunicar com seres humanos por alguma razão.”

Ele descreveu as entidades do DMT, entre outros nomes, como “elfos translinguísticos”, “entidades fractais amistosas”, “legiões de elfos do hiper espaço”, “tykes”, “comerciantes de memes”, “colecionadores de arte” e “homúculos sintáticos”. O estudioso dos efeitos do composto alucinógeno apresentou algumas teorias de que essas entidades poderiam ser algumas das quais “delineei como sem julgamento”, ele disse, porque não “tinha certeza”.

1. Extraterrestres

Eles poderiam ser alienígenas  “evoluídos ao redor de uma estrela diferente, possivelmente com uma biologia diferente, podem nem ser feitos de matéria, vindos de grandes distâncias talvez há muito tempo, e têm uma agenda que podemos ou não ser capazes de conceber”.

“Se um extraterrestre quisesse interagir com a sociedade humana, e tivesse uma ética que proibisse aterrissar suas naves de trilhões de toneladas na Praça das Nações Unidas – em outras palavras , se eles fossem sutis –, eu poderia ver isso se escondendo dentro de uma intoxicação xamânica. Eles diriam: 'Vamos analisar essas pessoas. OK – eles são do tipo racionalistas cabeça-dura, mas têm esse fenômeno chamado 'chapar', e quando ficam chapados eles aceitam o que quer que aconteça com eles, então vamos entrar nessa chapação e falar com eles dali, e eles nunca vão perceber que somos de um status diferente dos elefantes rosas.”

2. Entidades de um contínuo paralelo

Outra possibilidade, que “talvez seja mais próxima, amistosa às noções pagãs”, é que “há um contínuo paralelo próximo, essencialmente bem aqui”. McKenna elaborou:

“Chame de mundo das fadas, chame de Reino Ocidental – o que você quiser –, mas você não vai até lá em naves espaciais. Você vai através de portas mágicas que são abertas graças a rituais e coisas assim. Isso também é possível. O folclore humano em todos os tempos – exceto na Europa Ocidental nos últimos 300 anos – insistia que esses domínios paralelos de inteligência e organização existem.”

3. Pessoas mortas

Uma terceira possibilidade é que “o que você penetra com o DMT é uma ecologia de almas humanas em outra dimensão de algum tipo”. Isso era “arrepiante” para McKenna, que chegou “relutantemente” a essa especulação. Algumas das evidências dele para isso:

“Essas coisas... têm uma relação muito estranha com os seres humanos. Primeiro, elas nos amam! Elas se importam por algum motivo. Quem quer que sejam e o que quer que sejam, estão muito mais conscientes de nós do que estamos delas. Testemunhe o fato de que elas me deram boas-vindas. Então é possível que no final do século 20 – depois de 500 anos de materialismo, reducionismo, positivismo – o que estamos prestes a descobrir é o desfecho menos provável que qualquer um de nós esperava do nosso dilema:a morte não tem ferrão.”

4. Humanos do futuro

Uma quarta possibilidade é que as entidades sejam “humanos de algum futuro extraordinariamente avançado, onde as pessoas são feitas de linguagem e medem apenas 80 centímetros”.

DMT: The Spirit Molecule (2000), por Rick Strassman.

Nascido em 1952, Rick Strassman de certa maneira abordou um ângulo oposto ao de Terence McKenna quanto ao DMT – pelo menos de acordo com palestras e textos de McKenna – mas descobriu coisas que, acho, foram igualmente, mas de modo diferente, bizarras, inesperadas, impressionantes e profundas. Em 1990, Strassman começou “a primeira pesquisa em mais de 20 anos sobre os efeitos de drogas psicodélicas ou alucinógenas em humanos nos EUA”.

De 1990 a 1995, ele administrou mais de 400 doses intravenosas de DMT em 60 voluntários, fortemente pré-selecionados com muita experiência em drogas psicodélicas. Ele documentou os resultados – em detalhes fascinantes, porque era “importante que outras pessoas saibam como se guiar por esse labirinto”, se referindo ao processo labiríntico, e às vezes kafkiano, de dois anos que envolve interações sincopadas com o Human Research Ethics Committee, o FDA, o DEA e outras instituições, para ganhar aprovação para realizar estudos – em DMT: The Spirit Molecule, que foi publicado em dezembro de 2000, nove meses depois da morte de Terence McKenna.

O livro de Strassman inclui as seguintes observações, descobertas e especulações:

1. DMT é “o mais simples psicodélico” e “existe em nossos corpos e ocorre em plantas e animais. É parte do processo de fabricação de humanos e outros mamíferos; animais marinhos; gramíneas e ervilhas; sapos e rãs; cogumelos e mofos; e cascas, flores e raízes”.

2. “Comparado com outras moléculas, o DMT é pequeno. Seu peso é 188 'unidades moleculares', o que significa que isso não é muito maior que a glicose, o açúcar mais simples do nosso corpo, que pesa 180.”

3. “Vinte cinco anos atrás, cientistas japoneses descobriram que o cérebro transporta ativamente o DMT através de barreiras sangue-cérebro em outros tecidos. Não conheço outra droga psicodélica que o cérebro trate com tamanha ânsia. Esse é um fato surpreendente, que devemos manter em mente quando pensamos quão rapidamente os psiquiatras biológicos rejeitaram um papel vital do composto em nossas vidas. Se o DMT fosse apenas um subproduto insignificante e irrelevante do nosso metabolismo, por que o cérebro faria o que faz para atrair isso para suas fronteiras?”

4. “Quando o corpo produz ou toma DMT, certas enzimas quebram isso em segundos. Essas enzimas, chamadas monoaminas oxidases (MAO), ocorrem em alta concentração no sangue, fígado, estômago, cérebro e intestinos. Essa presença generalizada de MAO é o motivo para os efeitos do DMT serem de tão curta duração. Sempre e onde quer que isso apareça, o corpo faz questão de usar isso rapidamente.”

5. A glândula pineal – a “única em seu status solitário no cérebro”, enquanto todas as outras partes da substância que compõem o encéfalo aparecem em pares – pode ser o local onde o DMT é produzido no corpo humano: “A hipótese mais geral é que a glândula pineal produz quantidades psicodélicas de DMT em tempos extraordinários da nossa vida”.

6. A glândula pineal de formas de vida mais antigas, como lagartos, é chamada de “o 'terceiro' olho” e tem uma lente, córnea e retina. Enquanto a vida evoluía, a glândula pineal se moveu para mais fundo no cérebro. Finalmente: “A glândula pineal humana não é realmente parte do cérebro. Em vez disso, ela desenvolveu tecidos especializados no teto da boca fetal. De lá ela migrou para o centro do cérebro, onde parece ter o melhor lugar da casa”.

7. A glândula pineal “se torna visível no feto em desenvolvimento” aos 49 dias. O Livro Tibetano dos Mortos “ensina que leva quarenta e nove dias para a alma de um morto recente 'reincarnar'”; aos quarenta e nove dias, escreveu Strassman, é “quase exatamente o momento onde é possível claramente ver a primeira indicação de gênero feminino ou masculino”.

Os testes com o composto alucinógeno resultaram num número inesperadamente alto de encontros com entidades em aparentes “níveis autônomos e independentes de existência”. Strassman escreveu que não estava “intelectualmente ou emocionalmente preparado para a frequência com que contatos com seres ocorreram em nossos estudos, nem para a natureza frequentemente bizarra dessas experiências. E parece que muitos dos voluntários também não estavam preparados, mesmo os que tinham fumado DMT anteriormente.”

Esse seres foram descritos assim: “coringas”; “palhaços”; “as entidades ou o que quer que sejam”; “elfos do DMT”; “pessoas de desenho animado”; “uma presença que não era hostil, apenas irritante e brusca”; “alienígenas”; “guias”; “ajudantes”; “répteis”; “louva-a-deus”; “abelhas”; “aranhas”; “cactos”; e “bonecos de palito”. Quando os participantes abriam os olhos, a realidade do espaço DMT se sobrepunha ao quarto de hospital onde estavam, contaram após a experiência.

Uma das experiências mais chocantes foi com um voluntário chamado (no livro) Ken. Não é uma experiência representativa, mas incluo-a aqui como um tipo de contraponto – igualmente chocante mas totalmente diferente de certas maneiras – às experiências de McKenna. Note que, nos dois relatos, a experiência durou apenas cinco minutos.

“[Ken] se estabeleceu aproximadamente no ponto dos cinco minutos, mas fez uma careta e balançou a cabeça. Dentro de mais alguns minutos, ele tirou sua venda e olhou diretamente para frente. Suas pupilas ainda estavam dilatadas, então Laura e eu ficamos em silêncio, esperando que ele se normalizasse. Aos 14 minutos, parecendo abalado mas mantendo alguma compostura, ele começou [a falar]:

'Eram dois crocodilos. Um no meu peito. Me esmagando, me estuprando analmente. Eu não sabia se ia sobreviver. Primeiro pensei que estava sonhando, tendo um pesadelo. Aí percebi que isso estava realmente acontecendo.'

Fiquei feliz por ele não estar usando a sonda anal, já que aquele era um dia de triagem.

Lágrimas se formaram em seus olhos, mas continuaram lá.

'Parece horrível.'

'Foi horrível. Foi o momento em que mais tive medo na minha vida. Eu queria pedir para segurar a mão de vocês, mas eu estava tão preso que não conseguia me mover, não conseguia falar. Jesus!'”

A experiência de Ken foi anormal em termos do que ele disse ter ocorrido, se não pelo fator de choque – como você leu acima –, mas também pela “sonda retal” surpreendentemente desnecessária, me parece, sendo usada em voluntários durante o estudo. Como foi anormal que uma única pessoa, chamada Nils no livro, se recusou a usar: “A sonda tinha cerca de dois centímetros de diâmetro, era feita de arame coberto com borracha e bastante flexível. Ela entrava cerca de 10 a 15 centímetros e raramente causava qualquer desconforto, exceto em quem tinha hemorroidas”.

Strassman tentou modelos psicológicos de explicação – Freud, Jung – mas eles não se encaixavam. Sua pesquisa, que eventualmente incluiu a psilocibina, acabou em 1995, depois de, entre outras dificuldades, sua esposa ser diagnosticada com câncer, sua “comunidade monástica budista” começar a criticar sua pesquisa e “retirar seu apoio pessoal” e ele ter permissão negada para mudar seu centro de pesquisa do hospital barulhento e imprevisível que ocupava  - que numa entrevista ele chamou de “o lugar mais desagradável possível, em alguns aspectos, para se ter uma grande viagem”. Em 2007, ele recebeu a seguinte pergunta numa discussão por chat: “Qual o propósito do DMT no cérebro? Por que temos isso naturalmente em primeiro lugar?” Resposta:

“Acho que precisamos de algo em nosso cérebro que faça algo que parece acontecer conosco em vários momentos da nossa vida. Como silicone em chips de computador, o DMT é o melhor material para o propósito de, aparentemente, fornecer acesso a reinos independentes não corpóreos. Por outro lado, já que produzimos DMT o tempo todo, isso também pode permear nossa percepção da realidade diária.”

Terence McKenna disse numa entrevista de 1989 para The Archaic Revival: “Uma das coisas que me interessam sobre sonhos é isso: tenho sonhos onde fumo DMT e isso funciona. Para mim isso é extremamente interessante, porque parece implicar que a pessoa não precisa fumar DMT para ter essas experiências. Você só tem que convencer seu cérebro de que fez isso, e então ele entrega esse estado alterado impressionante.”

Em DMT, Mathematical Dimensions, Syntax and Death, ele diz:

“Uma vez tive a oportunidade de oferecer DMT a um importante lama tibetano – um nome que você reconheceria, talvez não entre os cinco mais, mas um personagem mais enrugado, velho e estranho. E eu – sabe, ele usou isso – disse: 'O que você achou?' Você conhece essas pessoas, esses budistas tibetanos têm um mapa muito bom de seu território. Ele disse que isso são as luzes menores e que você não pode ir muito mais longe que isso sem quebrar o fio do retorno. Além disso não há volta. E então, num sentido muito real, isso é como olhar por cima da borda. Mas mesmo isso não resolve todos os mistérios. Quer dizer, o que é esse desejo de transmitir uma linguagem que é vista? O que é tudo isso? Isso é por que a língua sempre foi um presente do outro?”

Por mais profundo, extremo, confuso e surpreendente que o DMT tenha sido para McKenna, esse não foi o composto a que ele se alinhou mais, o que ele mais defendeu ou falou a respeito. Na minha opinião, isso é a psilocibina – o tópico do texto da próxima semana –, encontrada em mais ou menos 200 tipos de cogumelos e que, uma vez dentro do corpo humano, se quebram em psilocina, que se diferencia do DMT pela adição de um átomo de oxigênio.

Siga o Tao no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor