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Ei, Indonésia, Hitler Não Foi um Rebelde

Embora seja possível encontrar o rosto de Führer e suásticas estampadas por todo o país, as pessoas que vendem e usam essa parafernália nazista em geral não são extremistas de direita, mas gente normal que às vezes não faz a menor ideia de quem foi...

Uma banca em Malioboro – uma rua comercial em Yogyakarta. 

Se um dia você visitar a Indonésia e acabar tropeçando numa imagem do Führer, não se assuste. Banquinhas de todo o país vendem pôsteres de Adolf Hitler, lado a lado com imagens de Kurt Cobain e de times do futebol europeu. Suásticas também estão por toda parte – muros, canecas, cinzeiros e camisetas –, não somente a suástica budista. Mas o mais estranho sobre esse fenômeno é que as pessoas que vendem e usam essa parafernália nazista, em geral, não são extremistas de direita confusos como esses caras, mas gente normal que às vezes não faz a menor ideia de quem foi Hitler.

Para descobrir por que produtos com símbolos nazistas são vendidos nas ruas da Indonésia, entrei em contato com o Dr. Wahid, um professor de história da Universidade Gadjah Mada de Yogyakarta, Java. 

Um garoto indonésio usando uma camiseta nazista. 

De acordo com o Dr. Wahid, os indonésios estão longe de ser antissemitas: “O conhecimento que as pessoas têm sobre Hitler vem dos filmes norte-americanos. Ao contrário de seus colegas europeus, os estudantes indonésios dificilmente têm aulas sobre a Segunda Guerra Mundial. Eles não sabem nada sobre a perseguição dos judeus, por exemplo. Eles veem Hitler como um revolucionário, similar a Che Guevara, não alguém responsável pela morte de milhões de judeus. Claro, eles o condenam por seus atos – quando têm alguma consciência deles – mas se sentem atraídos pelos emblemas da Alemanha nazista porque conheceram esses símbolos em vídeos de bandas punk e de hard rock. Na visão deles, esses símbolos representam a rebelião”.

Essa ignorância não é uma grande surpresa para Gene Netto, professor de inglês de Jacarta. Uma vez, ele notou que um estudante tinha colado um adesivo de suástica em seu celular. “Ele não fazia a menor ideia do que isso significava. Então, eu me sentei com ele e expliquei quem foram os nazistas e o que eles fizeram. Depois disso, o garoto arrancou o adesivo imediatamente.”

Estêncil de Hitler em Semarang, na antiga fortaleza Kota Lama (foto por Kyra Dirkssen). 

A questão é que entre 1967 e 1998, a Indonésia viveu sob o regime autoritário do presidente Suharto. Nem é preciso dizer que o currículo padrão das escolas também estava sob controle do regime: “Os professores só podiam ensinar as histórias de glória e grandeza da Indonésia”, disse Wahid. “O Ministério da Educação proibia que os professores ensinassem sobre genocídios internacionais, violência política ou conflito racial. A maioria dos estudantes se formava sem nunca ter ouvido falar em Holocausto.”

Era muito provável que minha surpresa com tudo isso fosse uma certa arrogância ocidental. A realidade é que a ignorância dos indonésios quando o assunto é Hitler pode ser explicada pelo que acontecia no país durante a Segunda Guerra Mundial: depois que os opressores japoneses (que ocuparam o país de 1942 até 1945) foram embora, foi a Holanda que tentou assumir o controle. Tudo isso acabou quando a República da Indonésia se tornou independente em 1949. Wahid explicou: “Toda aula de história focada nesse período específico devia enfatizar a independência da Indonésia. Ninguém se importava com a perseguição dos judeus”.

Uma vendedora segura um pôster de Hitler. “Não tenho a menor ideia de quem seja”, ela disse. 

Wahid acha que a ascensão da internet é uma benção para a juventude indonésia. “Não faz tanto tempo, éramos controlados pelo governo, mas agora que a internet se tornou uma ferramenta comum, todo mundo tem acesso livre à informação. Notei que a geração atual de estudantes tem uma visão muito mais realista do mundo exterior em comparação com as gerações anteriores.”

Tradução: Marina Schnoor