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Transa Amazônica: Uma Entrevista com Edyr Augusto, Autor de 'Pssica'

Sexo, sangue, vingança e tráfico humano nas fronteiras do norte brasileiro. Em entrevista exclusiva, o escritor e jornalista paraense descortina seu novo romance policial, o intrépido Pssica.

Edyr Augusto confessa: é um vampiro. Viciado em Coca-Cola e leitor assíduo de cadernos policiais, dorme pouco e suga qualquer história boa que os ouvidos captam. Mora sozinho no centro de Belém do Pará, embora seja casado há quase 20 anos com um atriz. "Funciona", diverte-se. Escritor, jornalista, radialista e dramaturgo, gosta de frases curtas. Seu último livro, Pssica (2015), lançado pela Boitempo Editorial, é uma faísca de sangue transamazônico na estrada cheia de feno pela qual caminha a literatura nacional. Em menos de cem páginas, tráfico humano, crimes, mortes, vingança e sexo se unem e dão luz ao thriller.

"Quantos anos ela tem? Doze. Muito criança. Já fode pra caralho, meu! É minha filha. Quem fodeu primeiro fui eu. Tu és o pai? Que é que tem? Eu criei, alimentei, fui o primeiro a provar desse xiri aí." - Trecho de Pssica

Repleto de casos verídicos que foram ficcionalizados pelo autor, Pssica conta a história de Janalice, uma garota de 14 anos que sofre uma reviravolta depois que o namorado joga na internet um vídeo íntimo dos dois. Espancada e expulsa de casa pelo pai, a garota é enviada para a residência de parentes. Lá, as coisas pioram: ela acaba raptada e vira escrava sexual. Outro personagem central é Portuga, um angolano que tenta vingar a morte da esposa decepada por ratos d'água, como são conhecidos os criminosos violentíssimos na Ilha do Marajó e arredores que atacam balsas, comerciantes e civis utilizando barcos para locomoção e fuga. "Eles usam a violência como uma expressão de força. Eles machucam as pessoas. Eles estupram as mulheres na frente dos cônjuges", explica o autor.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Provavelmente, Pssica pesa mais nos ombros de quem o lê. Apesar da fidelidade da obra às manchetes estampadas nos jornais amazônicos, Edyr desmembra uma coisa da outra. "Perguntaram se eu conseguia dormir depois de escrever e se eu não trazia pra dentro de mim esses crimes, essas maldades todas. Pelo contrário. No período em que escrevo, estou profundamente enamorado pelo livro. Ninguém me tira o alto-astral", confessa.

A violência trazida pela publicação emoldura um retrato escancarado de cidades paraenses como Breves, Faro e Afuá, onde, segundo o autor, "os rios são as ruas" e "a lei não chega". O mesmo serve para Belém, considerada uma das capitais mais perigosas do mundo. É nela que Edyr desvela seus personagens: traficantes, prostitutas, gente em situação de rua. "Um autor é uma esponja."

Passamos um fim de tarde em São Paulo com o escritor paraense que recusou qualquer bebida, já que os dois bares próximos não vendiam seu maior xodó, Coca-Cola. Leia os melhores trechos da entrevista abaixo.

VICE: O que significa a palavra "Pssica"?
Edyr Augusto: Vem do nheegatu, um idioma dos índios. Falamos muito em Belém quando se quer desejar azar para alguém. Você deseja uma psica pra pessoa. Quando um jogador vai cobrar um pênalti contra o seu time e você quer que ele erre, você fala: "Psica, psica, psica, psica". Por isso, coloquei os dois "s", porque tem um sibilar na pronúncia. Em dado momento do livro, um dos personagens diz: "Poxa, parece que jogaram uma psica em cima de mim porque as coisas não estão dando certo". É uma palavra que decidi colocar como provocação. Uma palavra que soa interessante, melódica.

As frases são curtas, e você optou por não usar travessão ou aspas durante as falas dos personagens. Isso foi calculado?
No meu primeiro livro, Os Éguas [1998], isso está indicado. Ficou bem claro também no meu segundo livro, Moscow [2001]. É uma escrita rápida, direta. Ao longo do tempo, foi se cristalizando. No Pssica, ela atinge seu ápice. Eu troco o tempo do verbo, troco o sujeito, e você vai compreendendo. Puxo o leitor pra dentro do texto como se ele estivesse espreitando aquela cena e ficando ofegante em ver tudo aquilo que acontece. Ao terminar a cena de ação, o leitor respira fundo e diz: "Eu não posso largar isso. Eu não posso deixar pra ler amanhã antes de dormir. Eu preciso ir fundo nessa história". Então, não largue, não largue, não largue. Vá até o final. Essa é a ideia.

Acho que faço livros aparentemente finos porque eles são muito intensos. As pessoas ficam incomodadas porque, às vezes, começam a torcer por patifes que não merecem nada.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Já nas primeiras páginas de Pssica, você pensa: "Porra, o que vem depois?". Parece que o livro inteiro está ali. Parece que você entrega o jogo. Você mencionou agora que o livro é fino –– e, realmente, o li em dois dias. Tenho amigos que leram em um. Você gosta disso, ou te incomoda saber que as pessoas leem rápido?
É como assistir a um filme. Não gosto de falar isso, porque muitas pessoas acabam de ler e dizem: "Isso é um filme". E eu digo que isso é um livro. A minha ideia é te segurar até você acabar de ler. Não importa se você lê em um dia, em dois dias. Acho que mergulhar nos meus livros é uma experiência, é um tapa na cara.

Há, em algumas cidades pobres do Marajó, inclusive, leilão de virgens com 11, 12 anos de idade. Meninas com cara de criança. É ininteligível a estupidez do homem em fazer isso.

Você teve um primeiro insight pro livro quando um amigo teu contou sobre o caso de uma menina que teve um vídeo vazado na internet. Como foi isso?
Esse é um assunto mundial. Acontece no mundo, em São Paulo, acontece em Belém. E Belém tem uma saída pro mar através de Caiena; [tem saída] pra Europa, pro Caribe.

Eu já tinha a ideia de fazer o livro e contava com dois argumentos: o dos ratos d'água e do tráfico de mulheres. Aí esse amigo chegou e me mostrou no celular a cena de uma moça transando com o namorado. Ele disse: "Isso aconteceu hoje. Essa moça mora na minha rua. Ela chegou no colégio, e todo mundo ria da cara dela. Ela não sabia o que era. Quando soube, foi aquele escândalo. A escola mandou pra casa, o pai deu uma surra e a situação está terrível lá". Era uma menina do subúrbio, que tinha família. Em casa, era a menina dos olhos do pai. E, de repente, por uma atitude ruim e reprovável do namorado, ela cai. Ela não é mais a princesinha do pai. Ela agora virou uma coisa. Um objeto. Minha personagem cai de uma maneira tão veloz que nem ela própria consegue perceber. Ela é mandada pra casa de uma tia por uns tempos. E a tia mora no centro da cidade de Belém. Lá, ela se defronta com os primeiros obstáculos. O namorado da tia a estupra de noite pedindo silêncio, senão ela não teria pra onde ir.

Ela [Janalice] também passa pelo Marajó. E aí se verifica uma outra forma de tráfico, que é com o aliciamento de meninas bonitas, mas pobres. A quem se promete tudo que elas não podem ter. Muitas vezes pela oferta de pai e mãe, que vendem a filha por R$ 50, R$ 100 pra comer. É terrível. E há, em algumas cidades pobres do Marajó, inclusive, leilão de virgens com 11, 12 anos de idade. Meninas com cara de criança. É ininteligível a estupidez do homem em fazer isso, mas é absolutamente verdadeiro. Acontece. Eu passo pelo Marajó e posso dizer que isso acontece.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Um dos seus personagens é um bispo que denuncia esse tipo de tráfico.
Esse bispo existe. Ele é verdadeiro. Ele grita pro mundo que aquilo está acontecendo, e ninguém parece ouvi-lo. Não o mataram ainda por medo que cause uma revolução.

A verdade é que os jovens são hoje o principal combustível dessa indústria terrível que é o tráfico de mulheres. Achei que eu tinha de tocar nesse assunto. Colocar como pano de fundo algo que é real, ficcionar isso. E aí vem o jornalista falando. Como que um grito: "Presta atenção que isso acontece".

Quem são os ratos d'água?
Na minha região, que é de muita capilaridade, os rios são as ruas. As pessoas trafegam em navios grandes, navios pequenos. E esses ratos d'água atacam não só as grandes balsas, mas, também, sobretudo as pessoas. Eles são muito violentos. Eles usam a violência como uma expressão de força. Eles machucam as pessoas. Eles estupram as mulheres na frente dos cônjuges pra que todos vejam a violência deles. A lei quase não chega ali e é determinada pelo mais forte. O arquipélago do Marajó tem quase cem ilhas. É uma área que não tem muitos recursos, não tem lanchas disponíveis, não tem pessoal disponível.

Quando você entra ali na região entre a Guiana Francesa e o Amapá, você já tem os Gendarmerie, que são os guardas franceses, que atiram pra matar mesmo. É complicado aquilo ali. Mas, na parte brasileira, você tem um território livre pra essas pessoas agirem.

No começo do ano, um levantamento apontou que Belém é a quinta capital mais perigosa para crianças e jovens no país. Como você vê esse cenário de violência?
Hoje, Belém é uma das capitais mais perigosas do mundo. O que aconteceu com Belém não foi só despreparo total dos políticos e seus mandatários, mas também porque, quando se descobriu as riquezas no Pará, um número enorme de pessoas pobres correu pra lá pra ganhar dinheiro – 99% não conseguiram, claro. E essas pessoas acabam correndo pra cidade grande como um socorro: formam um cordão de pobreza, falta de ética, educação, cultura, tudo. Aí você começa a ter a presença do tráfico de drogas também.

A cidade está extremamente violenta pela presença das drogas e pelas diferenças financeiras que existem. Há uma elite que tem apartamentos em Miami, que dirige carros importados pela cidade, mas, quando põe o pé no chão, pisa na lama.

Belém, hoje, vive um caos por conta de péssimas administrações e por conta dessas circunstâncias que cercam a cidade. A segurança pública não dá conta. E se você fala em Belém, imagina falar em Afuá, imagina falar em Breves, imagina falar em outra cidade do Marajó. Cidades mais distantes, como Faro. Cidades aonde a lei não chega. E a lei vira a lei do local, do mais selvagem, a lei do que tem mais força. Vivemos em Belém com um medo terrível. Talvez seja interessante do ponto de vista dramático, pra escrever. Mas pelo ponto de vista civil, muitas pessoas tem saído de lá.

Hoje, você sai como se estivesse numa cidade sitiada, olhando pra todos os lados. Isso não é forma de viver.

Seu livro é muito visual, parece mesmo um filme. Você acha que sua experiência no teatro traz isso pra escrita literária?
Sem dúvida. No teatro, você trabalha mais os diálogos. E diálogos secos, rápidos, pro sujeito não ficar dando aquele bife enorme [gíria teatral que remete a textos grandes].

Meu livro sai muito rápido porque é como eu te disse: é um turbilhão. E eu tenho esse processo rápido, talvez porque eu seja jornalista e esteja acostumado a trabalhar com deadline.

Falando em duração, quanto tempo você levou pra escrever o livro?
Levei um mês e meio, dois meses. Foi agora no começo do ano, em abril, quando voltei do Salão do Livro em Paris. A editora falou que estava na hora de lançar um livro, que a França estava bombando. A história já estava na minha cabeça.

Quando você começa um livro, fica apaixonado. É um amor novo. Você fica enamorado pelo livro, pelas histórias.

Quando estou na minha casa, sozinho, no meu computador, na minha sala, não entra ruído. E é uma delícia. Meu livro sai muito rápido porque é como eu te disse: é um turbilhão. E eu tenho esse processo rápido, talvez porque eu seja jornalista e esteja acostumado a trabalhar com deadline. Não tem essa história de "Vou parar aqui que está bom".

Você escreve de noite?
Escrevi o Pssica entre 17h e 19h.

Jane, Preá, Portuga... seus personagens são muito fortes. Ouvi você dizer que mora no centro de Belém e gosta de conversar com todo tipo de gente: cafetão, traficante, prostituta. Essas pessoas te inspiram na hora de construir os personagens?
Um autor é uma esponja. Ele é também um vampiro. Eu sou um vampiro. Se você tem uma boa história, cuidado, eu vou pular no seu pescoço.

Tenho livros passados com histórias que aconteceram com a minha mulher, com amigos. Uns até vieram brigar comigo porque achavam que aquelas histórias eram deles. Moro no centro de Belém. Estou rodeado de pessoas dos mais diversos tipos. Eu tinha um teatro lá que era rodeado por prostitutas velhas. No final do mês, os velhinhos iam gastar a aposentadoria lá. E, no nosso primeiro espetáculo, metade do elenco era de prostitutas. Elas entravam naquele palco realizando um sonho. Elas são depósitos de emoções. E, ali, o teatro era como um parque de diversões.

Certa vez, arranjamos um serviço odontológico pra elas com uma cooperativa de dentistas, e todas foram à consulta num sábado. Quando chegou a segunda-feira, uma delas, cujo nome de guerra é Corina, estava chorando na porta. Perguntei o que aconteceu, e ela disse que queria tirar a dentadura, queria a antiga de volta. Ela disse: "Sabe o que é? Eu já estou foló, e a minha especialidade é boquete. E a outra dentadura estava no ponto certo pra fazer. Com essa nova, não consigo. Tô perdendo dinheiro".

São histórias maravilhosas que você vai colhendo, vai ouvindo nas ruas. Eu também leio muito o caderno policial. Mas esse grupo de pessoas que me cerca também me provém de melodias, de palavras, xingamentos, expressões fortes. Quando escrevo um livro, eles ficam em volta falando. Isso te invade quando você está escrevendo.

Perguntas babacas de jornalistas: você tem um personagem preferido?
Nunca. Todos são meus filhos.

São pessoas comuns. Não são bandidos nem mocinhos. Os mocinhos matam também. Eles se vingam. Têm atitudes de guerrilha.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Escrevo duas horas por dia, no máximo. Sou preguiçoso.

Como é o seu processo de escrita?
Escrevo duas horas por dia, no máximo. Sou preguiçoso. Tenho outras atividades. Me fecho no meu apartamento e ali começo a escrever. Escrevo muito velozmente, sabes como é que é trabalhar em jornal... e aquilo tudo vai se formando na minha frente. Assim como você lê e vê, eu estou escrevendo e vendo. É como se eles estivessem todos atrás de mim. Eu me divirto muito enquanto escrevo.

Hoje, alguém me perguntou se eu conseguia dormir depois de escrever e se eu não trazia pra dentro de mim esses crimes, essas maldades todas. Pelo contrário. No período em que escrevo, estou profundamente enamorado pelo livro. Ninguém me tira o alto-astral. Vou trabalhar, faço outras coisas, mas aquilo ali fica me chamando. Quando chega a hora de entregar o livro pro editor, sinto um vazio no dia seguinte, como se fosse um relacionamento que terminou. Aí você percebe que o mundo continua. As coisas estão normais. Almoça, janta, namora. E aquele vazio enorme que você não sabe de onde surge vai, aos poucos, fechando. E daí a pouco você começa a pensar num outro livro. Daí, opa. Uma coisa começa a acender na cabeça.

Você bate coisas da história com a sua mulher?
Bato, claro. Ela é minha primeira leitora. Não moramos juntos, mas estamos juntos há quase 20 anos. Cada um na sua casa. É uma coisa que funciona. Como atriz, ela tem um sentimento quando lê aquilo tudo.

Meus filhos também são meus leitores, mas eles não costumam dar opiniões. Ela, não. Ela briga com o personagem. Ela se aborrece quando mato um, fica brigada. Ela diz: "Você mata todos [de] que eu gosto". E eu digo: "Mas não sou eu quem mata. A história mata".

Leio pra ela, mando por e-mail. No dia seguinte, já pergunto: "Leste? Leste?". Como ela já interpretou vários textos teatrais meus e convive comigo, sabe meu ritmo, minha cadência escrevendo.

Algumas pessoas acham que me elogiam dizendo 'Que porrada, que porrada'. Eu não sei se é um elogio. Fico mais preocupado. Gostaria que as pessoas percebessem a dimensão desse desastre que a gente vive lá.

Que tipo de coisa os leitores te disseram sobre o livro?
A maioria ficou chocada no começo, mas compreendeu. Algumas pessoas acham que me elogiam dizendo "Que porrada, que porrada". Eu não sei se é um elogio. Fico mais preocupado. Gostaria que as pessoas percebessem a dimensão desse desastre que a gente vive lá. Mas as cenas que escrevo não tiram meu sono, não me afetam em nada.

Disseram por aí que é um dos melhores livros do ano.
O Estado de S. Paulo disse que é um dos melhores livros do gênero.

Como você lida com esses elogios?
Isso, às vezes, assusta. Deixa encabulado. Fico assustado.

Li uma resenha que chamou o desfecho de "seco". O que você acha disso?
Acho que o livro termina na hora que tem de terminar. É preciso ter o feeling pra isso. Você tem de perceber o momento de cair fora. Meu livro é um recorte. Aquele recorte parou ali.

Pssica será traduzido pra outras línguas?
Temos a perspectiva de ele ser lançando pela Asphalt, que é minha editora na França. Tenho dois livros antes do Pssica que foram lançados lá.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Alguma história nova na cabeça?
Muitas histórias. Conheço alguém em Belém que, desde jovem, se meteu em jogo de cassino, jogo clandestino, de cartas, de roleta. Ele está me esperando. Vou ficcionar a vida dele. Mas, como sou preguiçoso, vou deixar isso pro ano que vem.

Li teu livro e Querô, do Plínio Marcos, na sequência. Acho que preciso ler um de autoajuda agora.
[risos] De alguma maneira, o escritor quer mudar o mundo pra melhor. Ele quer afetar a realidade. Pra isso é que a arte serve. Penso que meus livros, com esse peso que eles têm, farão com que muita gente saia da sua zona de conforto e perceba assuntos importantes que devem ser olhados, examinados. O livro serve pra incomodar.

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