O negacionismo climático é a cereja do bolo da onda conservadora do Brasil

Apesar das alarmantes evidências científicas sobre o aquecimento global, o novo governo que vem por aí ameaça tirar o país do Acordo de Paris e critica os movimentos de alerta sobre as mudanças climáticas. Os negacionistas piram.

por Gabriel Vituri
02 Janeiro 2019, 9:00am

Foto: Pexels

“Eu acredito na ciência. E ponto final.” Foi assim que o novo presidente eleito, Jair Bolsonaro, respondeu a um repórter que quis saber se o político acreditava em “aquecimento global”. A declaração, dada em uma pequena entrevista coletiva no dia 1º de dezembro, soou como uma espécie de remendo para outras falas desastradas do próximo governo sobre preservação do meio ambiente.

O cenário era de terra arrasada. As ameaças de que o Brasil pode se retirar do Acordo de Paris, a desistência de sediar a próxima Conferência do Clima da ONU, a COP 25, e as declarações do ministro Ernesto Araújo sobre as preocupações ambientais serem “parte de um dogma marxista” compõem uma teia que preocupa a comunidade científica brasileira e internacional, mas isso não é tudo. Ao mesmo tempo em que deixa pesquisadores e parte da população em estado de alerta frente aos retrocessos ambientais que o país pode enfrentar, a emergência desse traço conservador empolga um grupo bem específico, que, apesar de pouco numeroso, tem potencial para fazer circular polêmicas e narrativas conspiratórias: os negacionistas climáticos.

Diferentemente dos céticos, que refutam a existência de qualquer tipo de mudança na Terra, os negacionistas, de forma geral, reconhecem que o planeta vive uma transição climática. Para eles, a temperatura muda, as concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, idem, e o meio ambiente passa por transformações constantes, mas nada disso seria reflexo de uma ação antropogênica.

Em outras palavras, no microcosmo negacionista, a ideia de que as atividades do ser humano provocam um aquecimento global seria uma falácia, um discurso reforçado por nações mais desenvolvidas — sobretudo as europeias — a fim de atravancar políticas de desenvolvimento em lugares como o Brasil. Essa intervenção externa, segundo a comunidade, viria na forma de metas e convenções impostas por países mais influentes, que acabam freando atividades essenciais para a economia brasileira, como o agronegócio e as indústrias nacionais.

O cenário real das mudanças climáticas, no entanto, não tem nada de mirabolante. Pelo contrário: é fundamentado em evidências científicas estudadas por pesquisadores do mundo todo e revela um prognóstico estarrecedor. De acordo com o último relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em outubro deste ano, a humanidade precisa se engajar em ações que limitem em 1.5ºC o aquecimento da Terra, se tomarmos como base a temperatura do planeta na era pré-industrial. Isso significa que, se comparado com o período entre 1850 e 1900, o mundo aqueceu em ritmo vertiginoso e agora é preciso interromper esse ciclo. Continuar nessa toada promete trazer consequências catastróficas em escala planetária – entre outras mazelas, problemas na produção de alimentos, aumento da extinção de espécies, desequilíbrio de ecossistemas inteiros e surgimento de doenças decorrentes da poluição fazem parte do pacote.

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Criado em 1988 pela Organização das Nações Unidas (ONU), o IPCC é uma entidade formada por cientistas de dezenas de países, cuja atuação se baseia no estudo dos efeitos da ação humana na Terra, bem como na busca de metas e soluções para frear uma prática destrutiva que pode impactar na qualidade de vida de toda a população. O último relatório, recém divulgado, vem com um alerta ainda mais severo. Se o Acordo de Paris, discutido entre 195 países durante a COP 21, em 2015, tinha como escopo limitar o aquecimento em 2ºC, o novo relatório especial da ONU revelado este ano mostra que é preciso se esforçar mais, e que essa diferença de 0.5ºC, embora pareça mínima, já teria impactos calamitosos. Trabalhar com a ambiciosa marca de 1.5ºC, portanto, seria um esforço hercúleo, mas provavelmente mais recompensador para todos.

Para exemplificar como essa diferença de menos de um grau Celsius poderia impactar no meio ambiente, o Painel estima que, de 105 mil espécies estudadas, cerca de 18% dos insetos, 16% das plantas e 8% dos animais vertebrados perderiam uma parte considerável de seu território para o aquecimento global se a Terra esquentasse 2ºC. Na meta mais ambiciosa de contenção, esse número cai para 9.6%, 8% e 4%, respectivamente.

O relatório especial do IPCC é bem taxativo sobre a origem desse panorama: atualmente, a partir dos estudos mais recentes, a certeza de que o ser humano é o responsável pelas mudanças climáticas na Terra está acima de 95%. O ciclo de emissões e absorções do CO2 aponta que as emissões humanas, resultante da queima de combustíveis fósseis, desbalancearam as taxas e proporções que poderiam ser justificadas por uma variabilidade natural do planeta e pelas emissões de CO2 vindas dos oceanos. Hoje não só a quantidade de dióxido de carbono que escapa da Terra para o espaço diminuiu: as quantidades de oxigênio também têm caído, apontando que há uma emissão de gás carbônico em grande aceleração e que permanece na atmosfera terrestre.

“O negacionismo não é uma posição com base em ciência, é uma posição anticientífica, faz parte de um movimento mundial que se chama anti-intelectualismo”

Entre a comunidade científica mundial, há entre 97% e 98% de consenso de que esse dado é incontestável se tomarmos por base os estudos empreendidos até o momento. O número, frequentemente citado na literatura científica do tema, pode também ser verificado no Skeptical Science, um site criado pelo pesquisador John Cook para abordar questões da ciência em uma linguagem mais clara e acessível, e que é fortemente marcado pela elucidação de polêmicas conspiratórias compartilhadas pelos negacionistas.

Se as evidências são abundantes, se o consenso científico do papel antropogênico nas mudanças climáticas beira os 100%, e se lideranças de quase todo o mundo se reúnem em torno da questão para debatê-la, por que raios a discussão sobre o negacionismo climático ainda deveria ganhar algum destaque na imprensa?

O questionamento é feito com veemência por cientistas e pesquisadores, que se sentem incomodados com o espaço que negacionistas recebem no noticiário. Para eles, a discussão deveria ser ignorada. Usando um jargão comum no jornalismo, não deveríamos “bater palma para louco dançar”.

O problema, porém, é que os negacionistas e seus seguidores estão por aí e cada vez arrebanham mais gente. Seja em correntes de WhatsApp, em threads do Twitter, em canais do YouTube, em fóruns diversos e, veja bem, até em universidades, eles estão com cada vez mais espaço fora da mídia tradicional.

Ignorar tendências que soam quase ficcionais não parece funcionar muito bem. Basta ver a ascensão do anti-científico Olavo de Carvalho, o mentor de Bolsonaro, e os últimos desdobramentos sociopolíticos do governo do novo presidente eleito, cujas declarações têm feito negacionistas da ciência ganharem notoriedade e, parte deles, bastante poder.

Uma força conspiratória

Reunidos, contrariando quase toda a comunidade científica internacional, os negacionistas do clima tentam provar que fenômenos como o aquecimento global são apenas parte do ciclo natural do planeta, e não uma consequência das intervenções humanas. Para isso, exibem dados geológicos e meteorológicos, refutam pesquisas, criticam organizações como o IPCC e chamam as advertências feitas por movimentos ambientalistas de terrorismo climático.

No fim das contas, então, quando Jair Bolsonaro diz que acredita na ciência, mas ao mesmo tempo escolhe para seu governo membros que parecem ignorá-la, pouca coisa é dita efetivamente, e fica difícil especificar que efeito essa crença do novo presidente teria em ações sobre impactos ambientais.

Os negacionistas climáticos também dizem acreditar na ciência: alguns são professores com doutorado, têm um punhado de artigos publicados e dão aulas em universidades. Ricardo Felício, por exemplo, um dos grandes ícones dessa corrente hoje em dia, é professor no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP). Em 2018, segundo a USP informou, ele ministrou duas disciplinas para as turmas de graduação, “Mudanças Climáticas Globais e Implicações Locais” e “Climatologia II”. No site do Departamento de Geografia, ele é o único professor cujo endereço de e-mail não está disponível para o público. No lugar, há um aviso de que a informação foi retirada “a pedido do docente”. Por telefone, a secretaria do departamento forneceu dois e-mails seus para que entrássemos em contato, mas ele não quis falar com a reportagem, conforme a mensagem a seguir:

Prezado Gabriel,

Considerando que você já me inseriu no campo do mal denominado "negacionismo climático", nada tenho a contribuir com a sua reportagem. Nem eu nem qualquer cientista crítico do cenário antropogênico das "mudanças climáticas" - e são muitos - pratica algo assemelhado a um "negacionismo", termo desrespeitoso e pejorativo, destinado a equiparar-nos aos negadores de eventos históricos como o Holocausto da II Guerra Mundial. Ao contrário, fazemos apenas Ciência, respeitando os seus princípios fundamentais erigidos ao longo dos últimos séculos, que exigem uma estrita correspondência entre hipóteses e evidências e atenção às anomalias que, com frequência, invalidam conhecimentos de décadas ou séculos - preceitos que têm sido amplamente desconsiderados pelos adeptos da hipótese antropogênica e, principalmente, pelos seus propagandistas.”

O professor Ricardo Felício se candidatou a deputado federal pelo PSL, o partido nanico alugado por Bolsonaro e seu exército de extrema-direita, e obteve 11.163 votos, mas não foi eleito. Posteriormente, seu nome chegou a ser cotado para o ministério do Meio Ambiente, que será assumido por Ricardo Salles, nome que também acumula polêmicas ambientais, mas não necessariamente negacionistas.

Dentro de uma lógica, o professor da USP dizer que faz ciência pode parecer razoável. Os estudos e textos que tanto ele quanto colegas publicam e usam como base demonstram um desejo científico e, ainda que tal bibliografia não seja adotada e legitimada pelos mais de 90% dos acadêmicos que estudam o assunto, esse nicho se reconhece e se acolhe enquanto contracorrente, como um grupo de estudiosos que foram injustiçados por um pensamento dominante e que não encontra abertura para validar seus questionamentos.

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“Isso eu digo pra você, Gabriel: não é fácil adotar a posição que eu adotei. A minha primeira publicação oficial foi em 1991, ninguém falava nada disso no Brasil. Fui muito perseguido, tive muitos projetos negados por conta de me rotularem assim”, revela o Professor Molion, como ele próprio se apresenta ao atender a ligação.

Doutor em Meteorologia pela Universidade de Wisconsin, nos EUA, em 1975, e ex-professor do curso de meteorologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ele fundamenta suas teorias negacionistas a partir de outras interpretações das evidências climatológicas. “Sempre concordei com o aquecimento do planeta entre 1976 e 2005. A diferença básica é que o IPCC diz que a causa foi o aumento da concentração de gases de efeito-estufa e eu digo que o aquecimento foi natural, causado pela redução de cobertura de nuvens e aumento das temperaturas da superfície dos oceanos”, diferencia.

Esse “aquecimento natural” é parte estruturante no discurso dos negacionistas climáticos. Para eles, não há forma de o ser humano ser capaz de promover variações climáticas na Terra em nível global, uma vez que o clima seria essencialmente comandado pelos oceanos, cabendo à humanidade manipular uma parte ínfima da superfície do planeta se comparada com os 71% do território coberto por água. E mais: o dióxido de carbono seria para eles o gás da vida, e de forma alguma o vilão do planeta. “Planta faz fotossíntese com CO2”, Molion enfatiza. “Poluente é o enxofre que existe no petróleo, no carvão mineral, que é microscópico, combina com a atmosfera e forma aerossóis de ácido sulfúrico”, diz, defendendo a tese que não haveria um limite razoável para a quantidade de dióxido de carbono jogado na atmosfera.

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Graciela Arbilla, Professora Titular do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora do CNPq, explica que essa tese sobre o gás carbônico em abundância ser favorável à vegetação não passa de mito. “O CO2 ocasiona retenção da radiação, evitando que os raios infravermelhos saiam da atmosfera. As plantas têm um limite de quanto podem absorver”, esclarece. “A planta absorve CO2 pra fazer a fotossíntese, mas também respira, e assim também emite CO2. Num sistema de florestas novas, você tem absorção do que emite respirando. Uma floresta velha fica no zero a zero. O problema de reflorestar a Amazônia, por exemplo, é que o carbono está retido na planta. Quando você derruba a árvore, ou queima, o carbono que estava retido nela vai pra atmosfera. Se deixa apodrecer, também vai pra atmosfera”.

Em um de seus onze artigos científicos publicados, o professor Ricardo Felício defende que quem precisa explicar o aquecimento global antropogênico são os “aquecimentistas”. Em “'Mudanças Climáticas' e 'Aquecimento Global' - Nova Formatação e Paradigma para o Pensamento Contemporâneo?” , publicado em 2014 na revista Ciência e Natura, ele afirma o seguinte na página 258 do periódico: “Quando este grupo resolveu afirmar isto, eles obrigatoriamente precisam apresentar algo que se chama EVIDÊNCIA. Quem nega esta hipótese não tem que provar nada. Quem afirma é que necessita provar e toda vez que os cientistas criticam e pedem pelas evidências, são rechaçados de céticos, de negacionistas e comparados com as piores coisas que se possa imaginar. São relegados como os maiores criminosos contra a “mãe Terra”, contra a humanidade, contra a Natureza. Em breve, os críticos desta hipótese serão filhos de Satã”.

O movimento que nega as mudanças climáticas antropogênicas não tem nada de demoníaco, mas também parece distante do cientificismo. “O negacionismo não é uma posição com base em ciência, é uma posição anticientífica, faz parte de um movimento mundial que se chama anti-intelectualismo”, define Carlos Nobre, um dos autores do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, estudo que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Considerado uma das maiores referências no assunto, Nobre concluiu seu doutorado na década de 1980 pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), foi presidente da CAPES e integrou o ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) entre 2011 e 2015.

O professor, cuja hipótese formulada sobre a savanização da Amazônia é uma referência mundial na área, se sente pouco à vontade para discutir o negacionismo do ponto de vista científico. Sem citar nomes, Carlos Nobre explica que não vê maneiras de debater o tema com defensores do que ele chama de pseudo-ciência e que os ícones dessa corrente sequer deveriam ser colocados no mesmo rol que cientistas. Negar a ação antropogênica, desenvolve, seria um posicionamento filosófico, dogmático, sem qualquer relação com o que compreendemos como ciência.

“É um movimento que tenta refutar a verdade científica, que coloca em termos de 'eu acredito', 'eu não acredito', mas a ciência não funciona dessa maneira, porque ela não é um dogma, e sim a melhor explicação que temos. Cientificamente, não há nenhuma dúvida, mais de 98% dos cientistas da área climática concordam que o planeta está aquecendo por causa da emissão de gases promovida pela humanidade”, reitera.

Uma força geológica

“Estamos em um novo momento da história do Sistema Terra, onde, pela primeira vez, uma única espécie influencia a vida de todo o planeta. Isso é importante notar, e é muito grave”, afirma a professora da UFRJ Graciela Arbilla. Segundo a estudiosa, cujas pesquisas abordam o impacto de combustíveis na qualidade do ar e as interações entre floresta e ambiente urbano, entre outros assuntos, tem havido uma transformação na forma como ela e seus pares se referem ao planeta. A noção de “Sistema Terra”, explica Graciela, parte do reconhecimento de que o globo é constituído não apenas pelas espécies que ele habitam, mas pelas interações entre vegetais e animais inseridos nesse sistema.

A evidência de que o homem conseguiu tirar o Sistema Terra de equilíbrio caracteriza o que vem sendo chamado de Antropoceno. O uso do termo aparece pela primeira vez em 2000, apresentado por Eugene F. Stoermer e Paul J. Crutzen, um cientista holandês que recebeu o Nobel de Química em 1995. A teoria proposta, diz a professora da UFRJ, era que o ser humano havia ganhado uma influência sobre a Terra tão grande quanto as forças naturais, podendo causar mudanças tão significativas quanto meteoritos e grandes erupções vulcânicas. “De repente, o homem se converte em uma força geológica”, resume Graciela.

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Em poucos anos, a ideia do antropoceno ganhou força e se consolidou na comunidade científica. Ainda que haja divergências sobre quando de fato essa nova era geológica teria se iniciado, os estudiosos do Antropoceno concordam que há diversas transições em curso que estão fora da variabilidade natural observada no Holoceno, e devem ser atribuídas ao papel da humanidade no Sistema. Dentre essas mudanças, podemos citar o aumento da concentração de gases poluentes na atmosfera, a produção de novos materiais antropogênicos que estão sendo incorporados ao meio ambiente, como o plástico, e a extinção de várias espécies de seres vivos.

Um desastre em potencial

“Daqui a pouco, quando o Sol nascer, vai ser culpa do homem”, tira um sarro Ricardo Felício, ao cumprimentar os outros participantes de um hang-out promovido pelo blogueiro Thiago Maia. O vídeo faz parte de uma série chamada “Terrorismo Climático", em que convidados debatem assuntos como o derretimento das calotas polares, a relação entre o clima e o agronegócio, a diminuição dos corais e o aumento do nível do mar, entre outros tópicos afins. Em seu canal, Maia conclama colegas a desbaratar teorias sobre mudanças climáticas e a maldizer diversas reportagens que abordam “aquela patifaria do aquecimento global", nas palavras dele.

Seja no discurso dos participantes da série, na caixa de comentários do público ou em outros espaços onde se discute o negacionismo climático, como blogs e fóruns, os ataques à comunidade científica são frequentes: criticam as conferências climáticas, se referem aos membros do IPCC como pesquisadores interessados na fama e no dinheiro que circula nesses espaços e atribuem a eles a responsabilidade pelo seu ostracismo científico. Reforçando um posicionamento de preservação do meio ambiente, os negacionistas dizem reconhecer que é preciso cuidar dos recursos naturais, mas desqualificam as iniciativas práticas propostas nesse sentido. “Thiago, o Bolsonaro tem que se ligar e sair dessa agenda maldita chamada Acordo De París (sic)", escreve um comentarista do canal de Thiago Maia. “Com toda a certeza!”, responde o blogueiro.

As ideias do novo chanceler Ernesto Araújo, além dos posicionamentos de Jair Bolsonaro, indicam que as perspectivas a curto prazo são pouco esperançosas. "Não sei se é por causa desse novo governo, mas entrevistas minhas de dez anos atrás voltaram a circular. Eu mesmo recebi meus próprios vídeos", diz o precursor do negacionismo no país, Luiz Molion. O novo presidente eleito, por sua vez, tem reforçado seus ataques ao Ibama e aos ambientalistas. Em sua última declaração a respeito do Acordo de Paris, ele afirmou que o Brasil deve sugerir mudanças no pacto e, numa coletiva em 12 de dezembro, declarou que “se não mudar, vai sair fora”.

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Para a professora Graciella Arbilla, não dá pra saber se isso se deve à ignorância ou a algum outro interesse. “As pessoas talvez não estejam entendendo a coisa direito”, diz. “Logicamente, essas posições não deixam de preocupar a comunidade científica e toda a sociedade”, reflete Carlos Nobre. “O país já se tornou uma potência na produção de alimentos, uma potência agrícola. Se não conseguirmos ter sucesso no Acordo de Paris, o aquecimento projetado vai derrubar o Brasil”, explica o pesquisador. Por outro lado, Nobre se diz otimista e acredita que o retrospecto brasileiro é favorável, sobretudo pelo protagonismo na discussão sobre mudanças climáticas, um papel que vem desde pelo menos a Rio 92, quase três décadas atrás.

“Pela primeira vez os problemas deixam de ser de um país ou de uma região, e passam a ser do planeta. Antes, se a cidade estava poluída, só você se prejudicava. Agora os problemas atingem o mundo todo, porque o dióxido de carbono se distribui”, explica Graciella.

Problemas globais, logo, demandam soluções globais. Baseada na teoria dos limites planetários, a professora explica que existe um ponto onde se torna impossível voltar atrás, e as evidências científicas mostram que nós estamos cada vez mais próximos dele. “É como se você usasse seu cartão de crédito até onde tem certeza que conseguirá pagar depois. Dali pra frente, não dá mais pra saber.”

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