Viagem

Como o Brooklyn realmente era nos anos 70 e 80

“O aluguel era tão barato que você podia trabalhar e ter uma vida decente sem ter diploma universitário.”

por Seth Ferranti; fotos por Larry Racioppo; Traduzido por Marina Schnoor
27 Setembro 2018, 10:00am

Todas as fotos por Larry Racioppo.

Antes de ser um marca global, o Brooklyn era só um lugar dos EUA onde as pessoas moravam. De Bensonhurst a Park Slope e Bedford-Stuyvesant a Greenpoint, o distrito mais populoso de Nova York também era o mais diverso. E não faltam homenagens da cultura pop ao passado cultural rico da área, dos filmes do Spike Lee – ele mesmo um crítico meio imperfeito da gentrificação – a romances de Jonathan Lethem e Jennifer Egan. Nos últimos anos, escritores como Adelle Waldman e cineastas como Noah Baumbach têm tentado capturar a paisagem metropolitana em mutação (e o que isso significa não só do ponto de vista de aluguel e preços de imóveis, mas também para o amor e a cultura), e como foi crescer, digamos, na Park Slope moderna antes do lugar se tornar só uma piada sobre yuppies ricos pilotando carrinhos de bebê.

É no contexto do hype obsceno do Brooklyn que o fotógrafo e nativo de South Brooklyn Larry Racioppo lançou seu livro Brooklyn Before: Photographs, 1971 – 1983, que inclui ensaios do famoso escritor do Village Voice Tom Robbins e da crítica de arte Julia Van Haaften. A VICE se encontrou com Racioppo para descobrir como ele decidiu começar a fotografar quando era jovem, o que realmente significa dizer que o Brooklyn era um lugar diferente na época, e como suas comunidades interligadas mudaram – e às vezes se recusaram a mudar – desde que ele era garoto. Abaixo, numa transcrição editada da nossa conversa, ele conta o que pensa de tudo isso enquanto detalha as histórias por trás de algumas fotos marcantes do seu livro.


George mostrando sua tatuagem na 36th Street em 1977

Esse é um tio meu. Ele lutou na Segunda Guerra Mundial e voltou traumatizado. Ele nunca mais trabalhou. Ele morava com a minha tia e era muito quieto, mas de vez em quando eu conseguia falar com ele. Perguntei sobre a tatuagem e ele me mostrou, dizendo que tinha feito numa festa num quintal. Achei muito engraçado, e tão simples comparado com a arte extrema da tatuagem agora – uma tatuagem tão básica da Segunda Guerra Mundial.

Um amigo tinha uma câmera e me emprestou. Tirei meu primeiro rolo de filme andando pela cidade e conversando com as pessoas, gostei muito disso e foi uma coisa que me marcou. Eu andava da 2nd ou 3rd Street para o Cemitério Greenwood até a casa dos meus amigos em Sunset Park, fotografando pelo caminho. Eu encontrava pessoas e crianças. Era praticamente só filme preto e branco 35 milímetros. Só fui ter acesso a filme colorido muitos anos depois.

O trabalho nesse livro é muito específico dos anos 1971 a 1983. Eu tinha uma câmera barata de 35 milímetros com que fotografei por anos. Ainda acho que o Brooklyn é um ótimo lugar para morar. A diversidade é tremenda. Mas fora Park Slope, a maioria dos bairros não eram tão integrados, como você sabe. Eu tinha um trabalho muito interessante na cidade, para o departamento de habitação, o chamado HPD, e dirigi pela cidade por 20 anos, fotografando tudo. Vi quase todos os bairros da cidade. E via que as pessoas se davam bem no trabalho, mas quando iam para casa, era uma coisa muito separada.

Pessoas tocando conga na 7th Avenue em 1977

Isso era na esquina da minha casa, um lugar muito diferente agora. Esses caras na frente de uma loja de bebidas que tinha aquela proteção de plástico dos anos 70. Agora é uma loja de bebidas muito chique. Não vemos mais as pessoas nas ruas tocando assim. É um lugar muito mais calmo. Naquela época, os irlandeses estavam saindo do bairro até certo ponto. Os italianos moravam lá, e os porto-riquenhos estavam chegando. Agora você tem mais pessoas da América Central e do Sul.

Para mim, o Brooklyn é tem a ver com mudança, com imigração. Se você não gosta de mudança, o Brooklyn não é um bom lugar para morar. Na maior parte, não havia brigas sérias entre gangues. Não era uma coisa grande onde você sentia medo. Você via os outros. Trabalhava com os outros. Mas sabia quem você era também. Você sabia a diferença. Era um bairro de classe trabalhadora. Eram irlandeses, italianos e porto-riquenhos. E o que unia os grupos [na área] era o catolicismo. As pessoas sabiam que havia tensão, mas nada realmente horrível. As pessoas se davam bem.

Um jovem com um boombox na 18th Street em 1980

Clássica Nova York dos anos 80. Vi muitos boomboxes. A dele era relativamente pequena – o que era parte da mudança. Ele estava na frente de um mercado italiano. Minha avó e duas tias moravam no prédio onde ele está sentado. Agora ali é uma bodega dominicana. O bairro foi mudando lentamente de italiano para mais hispânico. Perguntei para o cara se podia tirar a foto. Ele disse “Sim”, mas dá pra ver que ele está cauteloso. Ele parecia estar tenso comigo. Ele não sabia o que eu estava fazendo. Na época, o hip hop não estava realmente acontecendo ali. Era mais uma cena punk e de rock. Quem eu conhecia frequentava o CBGB e o Mudd Club. O lugar ficou muito diferente depois.

O aluguel era tão barato que você podia trabalhar e ter uma vida decente sem precisar de um diploma universitário. Tudo era barato. A maioria dos caras do bairro não tinha nem terminado o colegial. Alguns nem o fundamental. Mas eles viviam bem e podiam sustentar uma família. Muito disso não acontece mais. É muito difícil. Muitas pessoas estão sendo expulsas, há uma questão real de gentrificação. Isso é bom para alguns e ruim para outros. Depende onde você está na vida. É difícil agora, com o jeito como os aluguéis subiram no Brooklyn e em Nova York. Eu alugava uma lojinha por 35 dólares por mês na época. Eu tinha uma cama lá e uma sala escura. Eu conseguia comprar o papel, os químicos e bandejas para trabalhar. Eu tirava algumas fotos, revelava o filme e fazia mais impressões.

Garotos jogando basebol num terreno baldio na 20th Street em 1974

Quando eu era garoto, tudo era na rua. Você voltava da escola, saía para brincar, aí sua mãe te chamava quando escurecia. No dia seguinte, a mesma coisa. Nos finais de semana, a gente ia para o Prospect Park jogar em terrenos baldios. Isso mudou totalmente. A gente, sei lá, jogava tijolos. Fazíamos arminhas que atiravam pedaços duros de linóleo com elásticos. Você ficava correndo pelas ruas jogando de tudo – basebol, basquete e futebol americano.

Se você jogava bola, você jogava bola com todo mundo. O zagueiro dizia pro receptor “Corre uns três metros, entre aquele Cadillac e o Chevy”. E a primeira pessoa que chegasse naquele espaço pegava a bola. Tinha várias brincadeiras de rua. Meus netos nunca brincaram na rua. Eles vão ao parque. Eles estão em times organizados. Eles têm aulas. É muito diferente. As coisas são mais organizadas. Os pais saem com os filhos.

De certa maneira, as coisas não são mais seguras como eram. Tudo é mais controlado. Mas a coisa das crianças brincando na rua é muito diferente.

Garotos com armas de brinquedo na 18th Street em 1971

Isso foi no Natal, num toco de árvore na casa da minha tia. Fui visitar minha tia e meu primo mais novo apareceu. Esses são os amigos dele. Eles subiram no toco e eu fiquei embaixo, com a câmera pra cima. Eles me cercaram. Essa foto sempre me faz rir.

Agora é totalmente diferente. A cultura de armas é terrível. Quando eu trabalhava na cidade, cheguei a tirar uma foto da Bíblia de uma mulher furada de bala; a bala entrou pela janela, passou raspando por ela e acertou a Bíblia. Era uma época diferente. As pessoas não tinham armas.

Se acontecia uma briga, o máximo que você via era um taco de basebol. Sério, os adolescentes não tinham armas. Não havia o nível de crime de dez anos depois. Isso mudou. E agora é uma coisa grande; meus amigos politizados, que ainda moram em Park Slope, nunca deixariam os filhos brincarem com armas. As crianças gostam de brincar com essas coisas. Já vi nos videogames que meus netos jogam. São muito violentos – mas eles não têm mais armas de plástico nas mãos.

John e Michael na 16th Street em 1980

Eles são dois primos meus mais novos, e os dois tiveram uma vida difícil. Eles eram garotos bonitos que eram legais comigo, mas eram garotos de rua durões. Esse era o estilo do Brooklyn, uma coisa meio John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite. Era meio um clichê. Eles se vestiam como aquele período. Em algumas fotos do livro, você vê “Rock sucks. Disco sucks” pichados e cruzados nos muros do Brooklyn. Quem gostava de rock não gostava de disco e vice-versa.

Crianças no intervalo do culto da Igreja Pentecostal da 7th Avenue em 1979

Eu morava na 10th Street entre a 7th e 8th Avenue, e essa igreja era logo na esquina. Eles tocavam música nas sextas e nas noites de sábado. Era uma igreja haitiana. Era lindo. Mas as crianças ficavam na igreja por horas. Não sei se você foi criado como católico, mas a missa católica tem uns 45 minutos, e no verão eles cortavam para 15 minutos. Mas em alguns desses eventos batistas, as pessoas ficam três, quatro horas na igreja só se aquecendo. Então essas crianças ficavam lá o dia inteiro. Quando eu as encontrava no intervalo, eu sempre pedia para tirar fotos. Elas fizeram essa fila sozinhas. Fizeram a pose e ficaram paradas para a fotografia. Aquela área agora é muito cara, não dá mais para ter uma igreja pentecostal na 7th Avenue. O aluguel seria impossível.

É interessante para mim agora ir para Bed-Stuy ou Bushwick e ver quase só crianças brancas. Quando eu trabalhava, você não via nenhuma. Você via pessoas latinas ou negras. E o bairro realmente se abriu. Um grande fator na época era que as moradias não eram caras. Alugamos um loft grande na 12th Street e 7th Avenue. O lugar tinha 280 metros quadrados e a gente pagava US$ 100 por mês. Quando me mudei para meu primeiro apartamento, o aluguel era US$ 120. Meus pais acharam um escândalo. Eles pagavam US$ 50. Eles pensavam “Como alguém pode cobrar US$ 120?” O mesmo apartamento deve custar mil ou dois mil dólares, no mínimo, hoje. Um aluguel mais baixo permitia fazer arte, fazer seu trabalho.

Uma "vítima" e um "bandido" numa festa de Halloween na 21st Street em 1980

Todo Dia das Bruxas, eu saía por volta das 15, 16 horas depois das aulas e andava até ficar escuro demais para fotografar. Eu não tinha flash – só uma câmera de mão. Um ano, a igreja local deu uma festa de Dias das Bruxas e eu tinha acabado de comprar uma câmera maior e um flash. Fui até a festa ver se eu conseguia boas fotos. Coloquei um pedaço de madeira como fundo. Fiz umas fotos tipo de estúdio. Fotografei um vampiro, o Batman, aí esses dois meninos apareceram e eu disse “O que vocês são?” O garoto levantou os braços e disse “Sou uma vítima”. O outro disse “Sou um bandido”. Aí ele sacou uma arma de plástico.

Acho que isso resume bem a época. As pessoas estavam começando a se conscientizar das mudanças. A cidade estava ficando mais difícil e as crianças pensaram nisso como fantasia. Achei muito incrível.

A molecada jogava ovos ou creme de barbear uns nos outros. Fizemos tudo isso e comecei a fotografar as crianças na frente da minha casa no Halloween em 1973. Tem um livro muito famoso chamado Zen: The Art of Photography que saiu na época, e isso se tornou um jeito de pensar no mundo e sobre mim. Pode parecer estranho, mas essa parte espiritual era o que eu estava procurando. Anos depois, troquei para filme colorido, para uma câmera maior, fotografando negativos de quatro por cinco e oito por dez polegadas. Mas sempre sou atraído a revisitar os meus primeiros dias de fotografia no Brooklyn.

Saiba mais sobre o livro de Racioppo aqui.

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