Marcelo D2 durante gravação de cena de Amar É para os Fortes na Praça XV, no Rio de Janeiro. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação.

Marcelo D2 sampleia o cinema na opera-rap 'Amar é para os fortes'

O décimo álbum de estúdio de Marcelo D2 é um filme dirigido e roteirizado por ele mesmo, com seu filho Sain como personagem principal.

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31 Agosto 2018, 3:56pm

Marcelo D2 durante gravação de cena de Amar É para os Fortes na Praça XV, no Rio de Janeiro. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação.

O décimo álbum de estúdio da carreira de Marcelo D2 é a obra transmídia Amar é para os fortes, lançado nesta sexta (31) com exclusividade na plataforma Apple Music. O álbum é também um filme roteirizado, produzido e dirigido por D2.

Uma obra audiovisual que vai muito além de uma simples colagem de videoclipes ou um musical tradicional, trata-se de uma verdadeira ópera-rap, onde o sample é a pedra fundamental. Tal como na construção das músicas, cenas de clássicos como Wild Style, Faça a Coisa Certa, Cidade de Deus, Rockers, O ódio ou Kids servem como referência ou são meticulosa e escancaradamente recriadas em cenários genuinamente cariocas; as vielas de uma favela, o fervor da Lapa e do Catete, a branquitude das galerias de arte e casas de bacana do Leblon.

Em meio a tantas referências noventosas, o filme ganha um colorido novo na escolha de um casting millennial, que tem Stephan Peixoto, o Sain, no papel principal incorporando o personagem Sinistro — não por acaso o primeiro apelido de seu pai o próprio Marcelo D2. No elenco de apoio e figuração, colegas de banda e amigos de infância do Stephan, basicamente a rapaziada do Bloco Sete e uma ou outra instagrette. A essa estética super contemporânea que revisita a década de ouro do rap e do funk carioca, os anos 90, soma-se uma sonoridade madura e moderna, que vai do sambajazz ao rap, com riquissímas participações e referências.

Para Marcelo, este talvez seja seu maior desafio desde O Usuário de 1995. “É uma coisa nova pra mim e eu me sinto novamente cheio pra caramba por fazer e falar sobre isso por que a gente tá vivendo um momento no país e no mundo de muito ódio, com idiotas espalhando ódio, e falar de amor, como diz minha mãe, é subversivo.”

O nome do disco veio de uma conversa com o ator João Velho, após o playboy que matou seu irmão Rafael Mascarenhas por atropelamento e tentou subornar policiais para se safar ter a pena de sete anos revertida para serviço comunitário. Alguém teria dito que tinha vontade de pegar uma arma e estourar a cara desse vacilão, mas concluíram que segurar uma arma qualquer otário segura, enquanto amar é para os fortes. Do resultado dessa angústia nasceu uma obra consistente e inspiradora, que conta uma história não apenas baseada na vida do próprio Marcelo, mas a história de muitos outros habitantes da cidade partida que é o Rio de Janeiro e que te põe em provação constantemente.

Troquei uma ideia com o Marcelo para explicar como foi essa nova experiência e apresentar as faixas uma por uma pra gente.

Noisey: Assim como no filme que você roteirizou, produziu e dirigiu, você também se envolveu bastante na produção da música.
Marcelo D2: A gente assinou a produção, eu, Mario Caldato e o Nave. Esse talvez seja um dos discos que eu mais produzi, porque o disco precisava de uma direção minha, precisava que eu desse um norte. Eu tinha de casar ele com a imagem, não precisava deixar os músicos viajando no estúdio igual aos outros discos. Os músicos não sabiam a história, então eu falava "essa nota tá muito alta, precisamos de uma nota mais baixa, esse tom aqui não, precisamos de um tom mais isso, mais aquilo". Vou te falar, depois de quatro anos fazendo essa parada, chegou um momento que eu tava muito certo do que eu queria, tá ligado?

Você gravou primeiro as tracks do álbum, para depois filmar o filme. Mas como foi o processo de roteirização e idealização da porra toda?
Cara eu fui escrevendo tudo junto, as músicas e o roteiro do filme. "Agora precisa de uma música assim e assado", aí escrevia um pedaço da música e esse pedaço me dava ideia pro roteiro, e assim por diante. Foi tudo bem amarradinho pra que um ajudasse o outro. Uma coisa que eu queria muito é que o áudio do filme fosse o disco, então eu tinha que estar muito concentrado para que o áudio funcionasse no filme e ao mesmo tempo que funcionasse sem o filme. Esse foi mais um desafio, ter um balanço entre o filme e o disco, para que não fosse um para cada lado. Eu não queria de jeito nenhum mudar o áudio que vai pras plataformas de streaming.

Me conta como foi trabalhar com esses “não-atores”, que acabaram se revelando puta atores.
Os moleques arrebentaram, né? Eu acho que eu fiz a melhor escolha possível chamando esses caras. Tem um afeto ali foda. Eu sou o pai do Stephan, eu sou o titio da galera, o cara mais velho, o cara que tá ai há mais tempo fazendo o que eles tão fazendo agora. Eu falo pra eles que isso que eles tão começando a fazer, esse negócio de “jovem”, eu sou jovem há mais tempo que eles. Todo esse afeto que eles têm por mim e eu tenho por eles foi o melhor casting que eu podia ter escolhido, porque escrever essa história sozinho não ia dar. Talvez se fossem atores não ia ter esse sangue no olho todo. O desafio que foi pra mim como diretor, produtor e roteirista foi pra eles também, então tava todo mundo no mesmo barco e isso foi foda.

Beatriz Alves (Cloë) e Sain (Sinistro) durante gravações de Amar É para os Fortes. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação

Qual foi a cena mais difícil de fazer?
Eu achava que a cena mais difícil de fazer seria a de tiro, mas o Stephan tava mais preocupado com a cena de sexo, mas nada que um Viagra não resolva (risos). Claro que não, não teve sexo de verdade. Mas assim, eu entendo, essa coisa da intimidade; sexo pra ficar sério é mais difícil que dar um tiro, que é algo que todo mundo tá acostumado de brincar. Foi a parte mais difícil pra eles dois, mas eu fiquei impressionado com o profissionalismo deles. Eles são amigos, são casais amigos, o Stephan e a mulher dele são amigos da Bibi (Beatriz Alvez, atriz que interpreta Cloë) e do marido dela, o Cauã Csik.

E estava todo mundo lá no set também, né?
Ele foi um puta braço direito, porque o Cauã deu uma aula de edição — ele é um diretor, né? Quando eu o chamei pra editar o filme ele foi parceiro pra caramba. Estava todo dia no set, me ajudou a dirigir cena, apesar se não estar assinando como diretor. Todo mundo dava pitaco. Um negócio muito interessante é que eu aprendi que a galera do cinema não se mete na área dos outros, cada um cuida do seu departamento, e eu entendo isso muito bem. Mas com a gente foi diferente, eu queria que todo mundo tivesse muito atento a tudo. Tipo, "ah, tira aquela garrafa dali", não precisa vir o cara da arte fazer isso, eu mesmo tiro. Se o cara tá do meu lado, um cara como o Cauã, que tem mais experiência do que eu, vira e falar, “cara, acho que a câmera pode vir daqui e pra ali", então vamos usar daqui pra ali. Fui cercado de grandes profissionais e amigos que dividiram isso comigo.

É aquela aparição do Bril no meio da viagem de ácido?
É uma mensagem pras crianças, se tomar ácido cuidado, Bril vai aparecer no meio da sua viagem (risos).

Bril durante gravações de Amar É para os Fortes. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação

FAIXA A FAIXA:

"Intro"

Este é um filme de hip-hop, e eu queria recriar umas cenas de outros filmes. Assim como eu faço um disco, sampleando música, eu queria samplear cinema também. Recriamos do Wild Style, que é um clássico do hip-hop, uma cena que são os dois moleques na escada, double trouble. Escrevi o rap e os moleques (Sant e Orochi) foram muito foda, os dois se propuseram, chegaram lá e mandaram muito. Era uma intro pro filme, e eu queria deixar claro lá que é um filme de rap. Quem não tem o conhecimento, procure saber.

"Prelúdio em Rimas Cariocas"

Essa música, cara, foi engraçado. Eu criei um instrumental e depois acabei escrevendo uma rima, mas é uma música que eu recriei com o Pedrinho, batera do Planet Hemp e engenheiro de som, o Marlon, que me ajudou a dirigir os metais e o Cidinho. Foi interessante. É uma base e letra minha, e tem um tanto de afrosamba e afrojazz — eu queria fazer um crédito inicial interessante e eu cheguei nesse lugar. Tem o Kassin tocando baixo, Liminha na guitarra e uma porrada de gente que talvez eu vá esquecendo na sequência. Quero deixar bem claro aqui que tem uma porrada de gente tocando no disco e eu vou acabar esquecer de alguém.

"Alto da Colina"

Eu quis recriar o tanto que eu tenho ouvido de afrosamba, com metais e percussão lá em cima, lá no alto. Essa música talvez seja a grande intro do filme mesmo, e fala um pouco do que a gente tem vivido neste país e no mundo. A letra fala “não trouxeram educação, só trouxeram a PM”, E deixa bem claro o que vem daqui pra frente. Eu sempre achei aquele papo do bandido que tá na cadeia — “a sociedade não me deu oportunidade” — furado pra caralho. Aquilo tem um peso também, mas nem todo mundo tem a luz ou a sensibilidade de falar "tudo bem, não me deram oportunidade eu vou cavar a minha". Tem idiota em todo lugar do mundo. As pessoas acham que idiota é só quem é rico, mas não, tem idiota na favela também. E aí esse peso todo. Eu acho que a gente tem uma saída, você não precisa ser um idiota por que a sociedade não te dá oportunidade. Essa música fala um pouco disso, que temos caminhos diferentes a tomar, e é o que é o tema do filme. Então tem o Marlon, e o Marcelo Jeneci toca alguma coisa também.

Foto: Wilmore Oliveira/DIvulgação

"Febre do Rato"

Essa foi a primeira música que eu fiz pro filme, que eu comecei a escrever do meio pro final. Ela é inspirada no filme do Cláudio Assis Febre do Rato , e tem uma formação interessante. Até aí a gente não tem nenhum sample, só gente tocando. É o Rodrigo Amarante na bateria, o Tody do Little Joy no baixo, o Liminha na Guitarra e o Money Mark na guitarra e teclados, o Amarante também faz um tecladinho. É um som super básico e é a correria do moleque que pode se levantar e resolver sua vida sem esperar a “sociedaaaaaade” entre aspas, entre muitas aspas, lhe dar oportunidade. Foda-se irmão, ninguém vai te dar oportunidade, tu tem que cavar a tua oportunidade. Pra mim é o momento que passa mais fácil, e ela pra mim é o ponto chave do filme.

"Depois da Tempestade"

Essa música foi composta pelo Sacha Rudy e por mim. Ele hoje tem 17 anos, mas quando a fizemos ele tinha 16. Ele é francês, filho de um dos maiores pianistas clássicos do mundo, o Mikhail Rudy. Ele fez essa base comigo em Los Angeles e trouxe a menina que canta em francês, Anna Majdison. Tem o Seu Jorge na música também. Essa é talvez uma das mais difíceis de fazer, é uma música de amor, e é difícil escrever de amor, porque amar é para os fortes. E ali foi um momento intenso pra mim, eu precisava emoldurar eles dois se encontrando e tal, e tem aquele final da onda de ácido. Talvez essa música tenha sido a mais difícil do filme. Rola uma evolução na música, é uma relação.

"Surpresa (Pros Amigos)"

O Seu Wilson das Neves mandou pra mim uma fita cassete com uma melodia com voz pra eu escrever uma letra em cima. E ele acabou falecendo e eu não escrevi a letra, claro, esqueci, deixei de lado... Então eu resolvi usar a voz dele como base, ao invés de escrever uma letra, e fiz um rap em cima. Ter o Seu Wilson das Neves no disco foi muito mais importante pra mim do que pra história do filme mesmo, e é aquele momento em que o Sinistro encontra a rapaziada toda e tal.

Gravações de Amar É para os Fortes. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação

"Resistência Cultural"

Nessa ele reencontra os amigos. Tem o Jeneci no acordeon e o Gilberto Gil cantando comigo. Eu já tinha feito uma versão com o Hélio Bentes do Ponto de Equilíbrio. E essa música talvez seja a mais emblemática do filme, porque ela é o que os moleques gostariam de ser, o que eu gostaria de ser, o que todos nós gostaríamos de ser, resistência a essa cambada de filho da puta aí.

"Amar É para os Fortes"

Essa é uma base do Nave e música título do filme. Foi bem legal fazer uma música diferente, mais rap, porque eu tava metendo banda, banda, banda, agora eu preciso de um rap. O Nave fez essa base com um sample do Siba Velloso, que é um ídolo, e de novo aquela fórmula básica que eu faço há 25 anos: pegar uma música brasileira, samplear, fazer um rap e torná-la algo mais contemporâneo. No filme essa é a hora que eu conto a história dos dois, porque os dois brigaram, porque o Maytor queria fazer um assalto, e acaba com o Maytor puxando uma arma pro Sinistro, e vemos a cena do começo.

"Filho de Obá"

Eu resolvi escrever que o Sinistro é filho de Obá, a Rainha da Guerra. Que não é uma guerra contra o mundo. Eu aprendi isso com meus 50 anos: a guerra é dentro da gente, é a disputa interna para você não ser um cara que vai ficar esperando a sociedade te dar oportunidade, de não ser um babaca que vai votar no Bolsonaro, o conflito para você não deixar se corromper por toda essa porrada de merda que você vê com tua cabeça. Ter a cabeça limpa. Essa música tem a Alice Caymmi, tem o Danilo Caymmi e tem o Rincon Sapiência. E a música é meu primeiro afrosamba. A compus com o Rogê, que tá tocando violão pra caramba. Eu chamei ele pra me ajudar a terminá-la, e aproveitou para cantar um pouco também. A maior participação dele foi ter me ajudado a fazer um afrosamba mesmo — o violão dele é forte, trouxe também um pouco de melodia pro que eu já tinha.

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