O Séculos Apaixonados revisita o groove e a irrelevância em novo disco

Com master de Pedro Garcia (Planet Hemp), banda carioca abraça o cinismo para superar as adversidades do indie brasileiro em 'Suspenso Graças ao Princípio da Insignificância'.

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ago 7 2018, 5:00pm

Foto via Facebook do Séculos Apaixonados.

Na época do lançamento do O Ministério da Colocação (2016), Gabriel Guerra, o Guerrinha (vocal/guitarra/teclados), me confessou que o Séculos Apaixonados estava passando por uma fase um tanto pessimista em relação a expectativas de sobrevivência e manutenção da banda. Era o segundo disco, eles já não eram mais nenhuma novidade no cenário e, além disso, a maior parte dos integrantes tocava em outros projetos — Felipe Vellozo, por exemplo, também é baixista da Mahmundi; o Arthur Braganti (teclados) toca com a Letrux; Guerra tem o selo 40% Foda/Maneiríssimo, junto com o Lucas Paiva (voz, piano e teclados), e estava se dedicando ao seu primeiro disco solo, Wagner. O quinteto também sentia que não se encaixava direito no escopo da cena de música independente do Brasil: o interesse musical deles sempre divergiu bastante do do restante dos grupos que faziam mais sucesso no meio do indie BR. “Sempre gostamos muito dos anos 1980, e não só da produção, mas também da disciplina e mentalidade de alguns compositores da época, como o Cláudio Rabello aqui no Brasil e o David Gamson lá fora”, explicou Guerrinha, em entrevista ao Noisey em agosto de 2016. "Acho que esse tipo de disciplina é basicamente inexistente no gosto de grande parte das pessoas da cena."

Dois anos se passaram desde então. O Séculos passou por alguns perrengues, fez muito menos shows do que na época do seu trabalho de estreia, o Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014), mas sobreviveu. Tanto que, nesta terça-feira (7), os cariocas lançam Suspenso Graças ao Princípio da Insignificância, seu terceiro disco, que, assim como os dois primeiros, sai pelo selo paulistano Balaclava Records.

O fato de eles terem conseguido lançar mais um disco em meio a essas adversidades e ceticismos sobre o seu próprio futuro, no entanto, não é reflexo de uma retomada otimista da banda à ativa. Pelo contrário: “Eu já estou bem pleno com o fato de que as coisas vão ser assim bem 'pequetitinhas mesmo”, comenta Guerrinha. “Antes, até 2016, eu até tinha expectativas. Agora, zero. A gente meio que admitiu para nós mesmos que não dava para fazer os corres que fazíamos em 2014-2016, por causa dos compromissos cotidianos de cada um, além de questões financeiras. Você vai perdendo o romance da coisa. Foi bacana fazer um álbum só pelo simples fato de fazer, sem ter que ficar pensando em ‘Como vamos divulgar?’ ou em ‘Onde vamos tocar?’."

No Suspenso Graças ao Princípio da Insignificância ainda se fala de romance, mas o disco é menos grandiloquente e tem mais groove do que os dois primeiros. Diferente do Ministério, que é um álbum mais enérgico, com músicas mais rápidas e guitarra mais nervosa, o terceiro trabalho do grupo é um retorno às canções mais lentas e das baladas que o Séculos já tinha apresentado lá no Roupa Linda. “Quando a gente começou a tocar o segundo disco, havia shows que a gente sentia que era muito pesado. Não à toa, ‘Cinturões’, do Roupa Linda, era uma faixa frequente no nosso setlist, pra podermos dar uma ‘quebrada’. O Ministério era porrada atrás de porrada e, no show, era mais porrada ainda. E quando tudo é muito porrada, não se tem muito espaço pra curtir. O engraçado é que quando a gente tava junto, raramente ouvíamos música pesada, então era meio discrepante o que acontecia no palco e o que acontecia dentro do nosso carro, por exemplo”. Para Guerrinha, o Suspenso é uma segunda chance do grupo em música lenta, só que mais grooveado, mais bem mixado e menos ralentado que o trabalho de estreia.

A forma em que o disco foi escrito foi propositalmente mais direta também, de acordo com vocalista. Todas as faixas foram escritas num piano digital — que o Zeca Veloso esqueceu com Guerrinha — com um loop de bateria. “Foi bem interessante, porque quando você toca dentro de um loop, você tem que trabalhar pra entender os espaços, para arranjar a música certinho. Algumas músicas do Gaucho, do Steely Dan, (tipo "Time Out of Mind”) são definitivamente um bom exemplo de como tentar botar um piano dentro de uma batida estática, o que foi uma referência para a gente. Mas isso não quer dizer que o nosso disco e Gaucho têm sonoridades parecidas."

O nome do terceiro trabalho da banda — que parece título de livro do Milan Kundera, convenhamos — veio de um episódio que aconteceu em novembro de 2016, quando o Séculos foi fazer um show em um festival no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Um pouco antes de se apresentarem, eles foram fumar um “beck” e acabaram sendo enquadrados. Felipe Vellozo, o baixista, admitiu que a droga era dele e foi pra delegacia. Alguns meses depois, ele tinha que ser julgado, porém o julgamento foi "suspenso graças ao princípio da insignificância", de acordo com a justiça.

“Essa frase batia com a nossa psiqué sobre o nosso trabalho. Entre 2016 e hoje em dia, a gente criou uma ideia de que nossa música é tão insignificante, tão insignificante, que a gente meio que se sobrepõem a qualquer cenário pelo fato de a gente ter expectativas esdrúxulas”, disse Guerrinha. Na capa, a pintura de um veado reforça o ar de insignificância que o Séculos acredita que sua música tem. “Queríamos um animal fraco dentro da ‘Lei do Mais Forte’ e o veado era isso. Essa imagem vem de uma obra de 2002 de um artista espanhol chamado Manuel Sosa. Ele faz quadros para mansões e castelos na Europa, o que só melhora o contexto da capa."

Gravado e mixado por Gabriel, o disco ganhou masterização do Pedro Garcia, baterista do Planet Hemp. Todas as faixas foram escritas pelo Guerrinha, exceto "Eu Sou Seu Papai Noel" (Arthur Braganti), e "Velho e Incrédulo Ciclo" (Gabriel Guerra e Lucas de Paiva).

Ouça Suspenso Graças ao Princípio da Insignificância na íntegra no player abaixo:

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