Entrevista

"O PCC é de uma complexidade que as autoridades não conseguem entender"

Repleto de 'salves', depoimentos e informações de bastidores, novo livro de Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias analisa os movimentos mais recentes do Primeiro Comando da Capital.

por Gabriel Vituri
08 Agosto 2018, 3:21pm

Foto: Carla Arakaki

O ano de 2017 começou com uma barbárie sem precedentes. No primeiro dia de janeiro, um motim ocorrido no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, deixou 56 mortos. A selvageria que se alastrou pelo presídio não demorou a chegar em todos os celulares do Brasil. Em fotos e vídeos compartilhados no WhatsApp pelos presos envolvidos na rebelião, era possível distinguir corpos decapitados e esquartejados, corações amontoados em baldes e outros pedaços humanos.

Nos dias que sucederam o episódio, mais rebeliões eclodiram no Norte e Nordeste, num ciclo de ataques e contra-ataques que evidenciava uma guerra em curso. Foi o desdobramento mais chamativo de uma briga que havia começado meses antes entre o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e outros grupos que disputam o controle do tráfico de drogas, como o Comando Vermelho (CV) e a Família do Norte (FDN). O embate havia começado a se desenhar em outubro de 2016 em motins esparsos. Meses depois, culminaria nas numerosas chacinas.

Essa ruptura entre as facções é um dos pontos de partida do livro A Guerra - A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, recém lançado pela editora Todavia. Escrito por Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, a obra revela a maneira como o PCC tem se organizado nos últimos anos, empreendendo movimentos que procuram expandir territorialmente a atuação, sem perder de vista os preceitos que o constituem desde a sua criação. Fundado em 1993, o PCC se estrutura sobre um discurso anti-Estado e antissistema, uma organização que busca horizontalidade e um senso de parceria em torno de um objetivo comum. Como o Partido reforça sempre que pode: "o crime fortalece o crime".

O livro-reportagem da dupla, ambos pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência, da USP, mistura o rigor das pesquisas de campo com a capacidade de discutir a complexidade do tema em uma narrativa didática também para os não-iniciados no assunto. Entre vários "salves", entrevistas e informações conseguidas nos bastidores, A Guerra surge como uma atualização de um debate que vem motivando uma série de obras sobre um panorama cuja existência não pode ser mais rechaçada.

Falamos com os autores sobre o livro, a guerra e as fronteiras cada vez mais dominadas pela facção. Confira no papo a seguir:

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Como surgiu a ideia de escrever um livro a quatro mãos para atualizar a discussão sobre o PCC?

Bruno: Eu e a Camila conversamos muito na época da apuração de uma matéria que eu fiz para a piauí, e aí, quando foi publicada, o pessoal da Todavia me chamou para escrever um livro. Ela já tinha feito uma série de viagens e entrevistas inacreditáveis com o povo de várias gangues… Isso pode falar, né?

Camila: Claro, claro.

Bruno: Era um super material que ela estava colhendo, tinha coisas que eu tinha apurado aqui sobre São Paulo e casos que estávamos acompanhando juntos. Quando começou a tensão do racha, a Camila já sabia disso com antecedência, porque vinha acompanhando nos bastidores. Quando veio a proposta do livro, eu disse, "vamos escrever a quatro mãos, talvez a gente nunca mais olhe pra cara do outro, talvez dê certo, mas vamos tentar escrever porque você tem um puta material e é algo muito quente que tá rolando".

Camila: E deu certo. Depois do meu doutorado, que foi sobre o PCC nas prisões de São Paulo, fiz uma pesquisa em que a gente tentava identificar uma transição do início do PCC e uma outra sobre a formação das redes criminais nas fronteiras do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Então, eu tinha ido muitas vezes pra Ponta Porã, Pedro Juan Caballero, Campo Grande, Dourados, enfim, acumulando "salves" e outros documentos do PCC há muitos anos. Nossa ideia era tentar contar a história de como o PCC se relaciona com outros grupos, com o Estado, e os conflitos que surgem a partir dessas estratégias. Também queríamos ressaltar como o Estado, por meio de diversas políticas equivocadas, deu combustível para isso que aconteceu, que nós chamamos de Guerra.

Chama atenção no livro o vasto acesso a material exclusivo, documentos, depoimentos e "salves". Como foi obter e organizar tudo isso?

Camila: Fazendo a pesquisa acadêmica a gente tem essas informações, mas pra pesquisa, pra escrever um artigo, você não vai usar isso, e sim propor uma interpretação, uma análise. Você não vai ficar narrando esse racha, e sim entender os efeitos da expansão sobre a taxa de homicídios, sobre a reconfiguração na fronteira. É difícil botar esses detalhes na pesquisa, então você acumula e acaba utilizando pouco. Foi uma oportunidade para usar parte desse material, porque é claro que a imprensa vez ou outra divulga algum "salve", mas as pessoas não têm ideia da centralidade disso na comunicação desses grupos. São "salves" todos os dias, eles se comunicam dessa forma, é muito dinâmico, e acho que o livro traz também esse fluxo que uma parte das pessoas não conhece.

Bruno: No caso do PCC, existe uma grande questão que é justamente a dimensão, a transformação, a novidade na cena criminal brasileira que surpreendeu todo mundo, que afeta o Brasil inteiro e que chegou nas fronteiras. Existem livros sobre o PCC, mas a gente tinha um momento pra escrever uma coisa nova, de questionamento sobre como chegamos até aqui.

Capa do livro lançado pela editora Todavia

Vocês acham que hoje em dia o Estado ainda nega de certa forma a existência do PCC, como fazia até o início dos anos 2000?

Camila: Acho que o Estado e seus atores políticos lidam com isso de acordo com a sua conveniência. Tem estados, por exemplo, que estão querendo grana pra investir em equipamentos, e daí aceitar ou reconhecer a existência das facções é uma maneira de pressionar o governo federal para liberar recursos. São Paulo sempre tratou isso de uma maneira diferente. Tem um histórico de negação da existência do PCC desde os anos 1990, e até hoje, não é que vai negar, mas se você for ver uma entrevista com uma autoridade, existe uma minimização disso. A forma como o PCC se consolidou em São Paulo é determinante pra dinâmica de segurança que nós temos no estado, que se caracteriza, por exemplo, por uma redução dos homicídios. É evidente que as autoridades paulistas não vão reconhecer essa centralidade do PCC. Se você tem uma estruturação melhor das polícias, não podemos negar que há iniciativas políticas que de alguma maneira influenciaram no quadro, mas elas não explicam sozinhas a queda das taxas de homicídios. Então, acho que a forma do Estado lidar com esse fenômeno é muito atrelada à conveniência. Isso pra mim é o que explica a gente estar nesse cenário. Porque você não tem um reconhecimento dos equívocos e um reconhecimento do problema pra tentar chegar à solução do problema. Você tem sempre um uso político do problema. Outros estados também vão utilizar esse fenômeno para suas conveniências próprias. Esse argumento serve pra tudo, inclusive pra justificar essa ideia de guerra, da militarização da segurança.

Bruno: Além da questão da conveniência, acho que tem a própria dificuldade das autoridades entenderem o que aconteceu. É de uma complexidade, de um ineditismo, que as próprias autoridades não entendem o que é isso. O discurso de guerra na polícia e no Ministério Público, de que é preciso confinar ou exterminar seu inimigo, é muito forte. Não se enxerga esse inimigo como alguém que tem capacidade de articulação e de construir soluções para ele próprio. O PCC surgiu nessas décadas de guerra ao crime, que virou basicamente a política pública nos últimos anos: colocar polícia ostensiva nas quebradas e fazer prisão em flagrante pra encher as prisões. Só que não se imaginava que esses grupos que estavam sendo confinados e sentindo raiva por serem exterminados estavam se articulando e pensando como sobreviver. E essa é a grande surpresa que o PCC proporcionou. Essa mentalidade guerreira, de soldados e promotores, de condenar, culpar, não percebe as sutilezas e as complexidades. O discurso de guerra é muito dicotômico, e o PCC é complexidade. É capacidade de articulação, de discursos, de crescer nas brechas. As próprias autoridades não entendem direito até hoje o que tudo isso significa.

Depois das rebeliões e das chacinas nos presídios no início de 2017, essa violência no sistema carcerário parece ter cessado. O que mudou de lá para cá?

Camila: Na verdade, não pacificou, as rupturas permanecem. Essa guerra interna, sobretudo no Norte e Nordeste, continua, mas não mais dentro das prisões, e sim fora, o que reflete na alta taxa de homicídios. É que dentro das prisões eles não vão ficar se matando indefinidamente porque é uma questão de sobrevivência. O Estado também vai dar um jeito de separar, porque ele não quer ficar dando satisfação por tanta gente sendo morta sob sua custódia. Por outro lado, de fato, o PCC tenta retomar as parcerias. Alguns grupos até se aproximaram, mas muitos grupos definitivamente não aceitam o PCC. É que, dentro das prisões, isso acaba dando uma freada porque é da própria dinâmica do sistema prisional. Ele não vai tolerar uma crise naquele patamar que se apresentou no início de 2017. É também importante pontuar, nessa coisa da crise e não-crise, que as autoridades ficam quietas como se tivesse tudo resolvido quando tá nesse momento de estabilidade, só que na verdade, como sempre se falou na época do Carandiru, e isso vale pra todas as unidades, é a bomba-relógio, tem um pavio aceso que de repente explode.

Bruno: Por outro lado, acho que tem uma grande novidade nessa questão das parcerias: o PCC tem uma visão muito pragmática em relação ao comércio de drogas, e no momento que chega nas fronteiras e começa a chegar no atacado, ter como modelo de negócios a maior quantidade possível de parceiros para revender em todos os outros estados é o que vai dar dinheiro pra todo mundo, então eles tendem a buscar a diplomacia. Apesar de criar muitas tensões, como criaram, multiplica o ganho de todos os que fecham nessa rede.

Camila: Pegando o que o Bruno disse, a gente percebe que antes o PCC só rompeu mais claramente com o PGC (Primeiro Grupo Catarinense), que já era um grupo em Santa Catarina de oposição. Depois, no momento em que o PCC rompe com o CV, essas rupturas se dão de maneira mais clara, em cadeia. Desses grupos todos, era praticamente o PCC e o CV que tinham canais de acesso a grandes quantidades de droga no atacado, na Bolívia, Colômbia, Paraguai. Até 2015, digamos, os grupos menores eram obrigados a conviver com o PCC. Eles só compravam do PCC, era praticamente o único canal, e o CV era aliado, mas era muito mais fragilizado. No momento que os dois rompem, CV e PCC, aparece uma polarização, e esses grupos menores que aturavam o PCC, mas que não concordavam e não queriam aderir à sua disciplina, acabam se organizando em torno do CV, e o CV passa a ser um canal alternativo de fornecimento de mercadorias. Agora a gente tem um cenário novo, cujas consequências ainda não sabemos: a Família do Norte, histórica inimiga do PCC, também rompeu com o CV. Não sei como vai funcionar na região do Amazonas, porque é muito recente, mas vejo que a tendência é sempre uma polaridade. Tinha saído uma notícia de que o PCC fez acordo com a Família do Norte, mas eles soltaram um "salve" dizendo que era calúnia, que não tinham feito acordo nenhum, e que quem tivesse disseminando essa notícia ia sofrer as consequências.

Os salves estão todos no Whatsapp hoje?

Camila: Olha, acho que a disseminação maior, mais usada, está no Whatsapp, mas eles transmitem da forma que for possível. Sempre lembro de uma frase do Erving Goffman, “onde se impõe mundo, se cria o submundo”, então acho que isso é uma variação constante. Quando há uma maneira de o Estado interpelar, interceptar, eles criam novas. É uma queda de braço permanente.

Bruno: E você precisa ter um lastro pra falar que aquilo é verdade. Pra você perder o controle disso no Whatsapp, é muito fácil. Existem fakes, dá pra cair num "salve" falso, é fácil eles perderem o controle. Você não pode perder a capacidade de falar “esse é nosso, aquele não é”. Depende da rede, de quem passa, eles não podem perder o controle disso.

Fora a facilidade de comunicação que os celulares criaram, existe também uma facilidade pós-smartphones para construir suas narrativas a partir das imagens.

Bruno: A tecnologia é transformadora dessa cena. Você só tem o PCC pós-celular. Existia um tipo de conversa, uma articulação, mas o que permite virar o que virou, o que transforma a cena, é a entrada do celular e a possibilidade de conversar entre os presídios e com o lado de fora. Agora, as coisas vão mudando, surgem casos que nos assustam, nos surpreendem, e tentamos entender: os vídeos, a possibilidade de filmar as rebeliões como aconteceram, cortes de cabeça, corações, baldes, subir isso tudo no YouTube, isso é uma coisa grotesca, essa situação é assustadora e está acontecendo. Precisamos saber como lidar com isso, estamos em pleno processo de descoberta de situações que nunca imaginaríamos.

Tem um "salve" de 2011 em que é mencionada a existência de aplicativos com criptografia. Existe essa preocupação cada vez maior com as mensagens trocadas?

Camila: Sim. No PCC eles fazem essa discussão sobre a melhor forma de se comunicar e evitar que essa informação vaze para as polícias porque, depois da operação do Ministério Público em 2013, por exemplo, em que foram denunciados 175 membros, eles perceberam que os celulares estavam grampeados, então é uma disputa constante. Eles ficam presos o dia todo, essa criatividade de pensar em maneiras de se comunicar aparece. Eles têm vários códigos.

Bruno: O PCC busca crescer na brecha do sistema. Eles estão confinados, e ao mesmo tempo estão inseridos nesse mercado milionário do tráfico. É uma capacidade de articulação, de conversa, de criação para encontrar as brechas.

Qual a relevância que a Sintonia dos Estados e Países vem ganhando por conta do plano de expansão e internacionalização?

Camila: Eu não sei exatamente quando ela se forma. Até acho que ela já existisse em 2008 ou 2009, mas não tinha a centralidade que veio a ter depois. A própria existência dessa sintonia tá diretamente ligada à expansão do PCC. No Mato Grosso do Sul e no Paraná, a facção está presente há mais tempo, mas nos outros estados a presença acaba sendo muito ocasional. Até a metade da década de 2000, tem um espalhamento dos membros que é desordenado, e aí no fim da década começa a ser mais pensado como uma estratégia. Acho que a Sintonia dos Estados e Países é um efeito, e tem a função de fazer a gestão do PCC fora de São Paulo. Tem as pessoas que estão no Paraguai, especialmente, e na Bolívia. Em outros países, até onde eu sei, não chega a ter uma sintonia, pode ter alguns integrantes, mas não uma coisa organicamente desenvolvida, isso no meu entendimento. O Ministério Público diz que tem na Colômbia, Peru, Argentina, Portugal… Acho que são pessoas, mas não estruturas. A Sintonia tem o intuito de gerenciar, isso torna o PCC muito eficiente, apesar de ser tudo muito precário. O PCC conseguiu estabelecer uma forma de funcionamento em células, mas ao mesmo tempo tem uma conexão importante; você tem autonomia operacional, mas as diretrizes são dadas a partir de uma cúpula unificada. O Paraguai, de três anos pra cá, passou a se preocupar com o PCC lá porque a facção já está em várias unidades prisionais. Claro que não é como em São Paulo, mas você já tem pavilhões, espaços controlados. Hoje existe uma política no Paraguai que prevê que brasileiros vinculados ao PCC sejam expulsos imediatamente das prisões para não contaminá-las. Eles não querem contato dos integrantes do PCC com os presos de lá.

Fora do Paraguai, qual o panorama atual de internacionalização?

Camila: Quando se fala em internacionalização, tem uma questão fundamental: o destino principal do comércio, dos produtos que o PCC negocia, é o mercado consumidor brasileiro. Essa presença forte no Paraguai, assim como na Bolívia, e obviamente nenhum deles tem um mercado consumidor de drogas relevante, é uma preocupação para ter acesso à origem das mercadorias. Essa internacionalização seria pra buscar o produto no início da cadeia de suprimentos, e não no final.

Bruno: Como o PCC tem esse modelo de negócio de parcerias e de formação de uma rede, a partir do momento que alcança o Paraguai e os mercadores fornecedores, ele pode querer fazer parceria nos mercados europeus, africanos, asiáticos, e ter uma fonte maior de capital. Eles têm essa capacidade de chegar nos outros estados. Me parece que é o momento que a gente tá vivendo agora: chegaram nas fronteiras, têm um modelo de negócio dinâmico e podem alcançar o mundo. Claro, numa velocidade que não dá pra exagerar, mas eles têm uma estratégia que os permite fazer contatos.

Camila: Acho que o Bruno tem razão, mas muitas vezes o MP fala que o PCC tá mandando coisa pra Europa, e é o que a gente fala sobre o individual e o coletivo. Muitas vezes é um integrante que tem um esquema, mas isso não quer dizer que é a organização, e isso é uma outra dificuldade na compreensão dessas dinâmicas. As autoridades não vão fazer essa diferenciação, talvez para as estratégias de repressão essas diferenças não sejam tão relevantes, mas pra gente entender o PCC é importante. É uma potencialidade, acho que são redes, elas se conectam em alguns pontos chave na fronteira, mas não como se fosse uma megaestrutura. Acho, por exemplo, que com os grupos italianos faz sentido pensar que o PCC tem uma cooperação de transporte e logística da droga que sai do Paraguai e vai até o Porto de Santos, claro, porque os italianos não têm uma estrutura aqui nessa rota, mas acho muito difícil imaginar que o PCC teria um espaço pra disputar com esses grupos no mercado europeu final, onde se concentra a maior lucratividade. Esses grupos têm uma história, uma estrutura, uma questão cultural, eles estão arraigados na política, são empresários. O PCC até pode ter um ou outro, mas a base são as favelas, as prisões, acho que isso muitas vezes dificulta a fazer essas equiparações. Pode ser que o PCC tenha uma nova fase e diversifique, claro, mas por ora vejo como parcerias estratégicas. O PCC atua como braço operacional, especialmente das fronteiras até o porto.

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