'Food Station' é o diário de bordo da Sound Food Gang

Nova mixtape reunindo Chábazz, Chinv, Mano Will, niLL e Yung Buda abre as portas para uma fase mais profissional do coletivo de Jundiaí.

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jul 26 2018, 10:00am

Sound Food Gang reunida (Mano Will segurando o boné, e em sentido horário, Chinv, niLL, DJ Buck, Yung Buda e Chabazz). Foto: Mendes/Divulgação

O rap é a febre na cabeça dos jovens. Esses dias tava andando no shopping e vi camisetas do 2Pac e do Run-DMC sendo vendidas em uma loja de departamento. Com o guarda-roupa cheio, várias bancas e grupinhos vão surgindo, como em toda e qualquer cena musical desde que o mundo (pop) é mundo (pop). Alguns martelam sempre as mesmas ideias, aí falta originalidade. Outros vão fomentando umas tretinhas internas e o que era pra ser família vira uma disputa de ego terrível. Na Sound Food Gang é o oposto. Por lá, cada integrante entrega as rimas de um jeito, escreve sobre uma tema diferente e sobra parceria na turma que conseguiu transpor a barreira do rap e é admirada por muitos indies do país.

Chábazz, Chinv, Mano Will, niLL e Yung Buda resolveram mostrar que são versáteis dentro do gênero, colocando em prática uma ideia que já tinha sido discutida há mó cota e que tomou forma como Food Station, coletânea que inaugura uma nova fase para o coletivo e sai nesta quinta-feira (26) com exclusividade no Noisey.

Food Station é um marco dentro do coletivo, uma forma que os cinco integrantes tiveram de dar um passo à frente na caminhada da banca de rap mais lariquenta desse país e que passou recentemente por uma reestruturação com o grupo U.L.O se dissolvendo e o 2dnós chegando ao fim. Hoje, a Sound Food é formada por Adalberto (o responsável pelos salves e mensagens nas faixas da mixtape), Chábazz, Chinv, DJ Buck, Madruga, Mano Will, Mendes, Moccado Beats, niLL, Will Diamond e Yung Buda. Além disso, os caras estão muito mais profissionais do que eram na época do lançamento de discos como Aprendizados, Músicas pra Drift, Okane Richtape, Regina e Umano Demasiado Humano.

Eles saíram da Várzea Paulista e pegaram uma sede no centro de Jundiaí, que tem um estúdio e uma sala pro Adalberto fechar shows e fazer a produção executiva dos clipes e pro Madruga tomar conta do canal no YouTube e da distribuição da música deles. Outra coisa também mudou: agora todos eles se dedicam diariamente à gangue. Com tudo isso, a mixtape acabou sendo a melhor maneira para registrar este trajeto, como em um diário de bordo. "A gente tá recomeçando profissionalmente com um número bem menor de membros, porque alguns saíram. Tivemos alguns problemas que levaram a gente se juntar e fechar esse projeto. Eu acredito que essa fase vai mudar a vida de todo mundo", conta niLL.

Um desses problemas citados pelo niLL aconteceu com o canal no YouTube. Um erro meio técnico e meio humano fez com que ele fosse apagado. Todos os views e vídeos acabaram indo pro saco, e o pior, tudo rolou quando eles tentavam monetizar os conteúdos piratas que foram subidos em outras páginas e que, em alguns casos, tinham mais visualizações que os originais. Isso foi o estopim para que Food Station chegasse, explica Chinv, numa referência ao YugiOh. "Alguns fãs pediam pra gente fazer a coletânea, mas nunca parávamos pra terminar por causa da correria de cada um. Com a nossa evolução e o fato de perdermos o nosso canal no YouTube, sentimos a necessidade de parar tudo que estávamos fazendo e concluir esse trampo pra abrir essa nova fase, porque seria uma espécie de carta virada pra baixo que a gente tinha ali pra reviver no jogo."

Essa evolução que o Chinv cita tem relação com as mudanças nas vidas dos integrantes desde o começo da gangue. O leque de referências musicais e o jeito de pensar a vida ficaram mais complexos com passar do tempo, culminando nessa profissionalização da Sound Food. "Esse processo de mudança exigiu que aprendêssemos muita coisa além da música, como a parte burocrática do bagulho. Isso também trouxe coisas boas, como parcerias com marcas e lojas. Tivemos uma evolução notável na parte de beats, canto e hoje cada um consegue se vestir bem e mais próximo do que quer passar como identidade visual artística. Sem contar a parte do entretenimento e do comércio, que não são perceptíveis visualmente, mas são muito importantes pro músico saber como desenrolar seu trampo e colher os frutos disso", revela Chinv. A chave para todo esse processo foi o amadurecimento, daqueles que vem com problemas, a vida cheia e um turbilhão de tretas. "Muita responsa traz amadurecimento. Vivências trazem experiências de vida. Mudei mais como pessoa do que como artista, mas é automático transmitir isso nas letras", fala Mano Will.

A coletânea mostra um aspecto muito interessante da gangue do ponto de vista musical. Passando pelo flow mais rap nacional do Mano Will à levada mais trap do Yung Buda, a combinação de cada traço dos cinco participantes do disco dá uma unidade a Food Station, algo raro de se ver quando algum grupinho senta pra dividir a caneta e o microfone, principalmente depois que o gênero se popularizou e vive quase que um revival do emo franjinha dos anos 2000.

"Isso acontece porque geralmente o pessoal das bancas de rap cantam muito o mesmo tipo de som. A gente é diferente, não é uma banca, é um coletivo. Cada um tem seu estilo, sua característica", diz Yung Buda. Chabázz concorda. "É algo espontâneo, a gente já convive há três anos, o que é suficiente para conhecer o gosto, estilo e estética dos meus manos."

Se por um lado os caras conseguem soar diferentes sem parecer uma colcha de retalhos sonoros, por outro, existe a visão de que um complementa e ajuda o outro. Teve membro que foi aprendendo a desenvolver um estilo próprio de produzir com o pessoal, sempre que dá rola uma participação no som do truta e tem até episódio de integrante que não curtia anime mas acabou revendo sua opinião por causa desse sentimento de família que paira sobre o coletivo de Jundiaí. "Só fui descobrir um pouco desse universo depois que entrei pra gangue. Nunca me imaginei gostando disso, muito menos usando referências na minha música. Os caras me ensinaram a ver as lições de vida por trás de um bagulho que achava bobo", lembra Mano Will.

Outro grande trunfo da Sound Food foi conseguir desbravar e entrar em um cenário além do rap. Mesmo que o ambiente em si seja meio tóxico para negros, pelo menos quando o assunto é fazer rock, os artistas do grupo foram abraçados por um público alternativo, muito por dialogar com outros gêneros, tanto na entrega das rimas, quanto na produção. E isso não é à toa — Misfits, Danzig, David Bowie, Janis Joplin, Scorpions, Beatles e The Doors rolaram no fone de muitos deles. "Por termos essa referência, a gente faz uma sonoridade mais perto do que eles gostam", diz niLL. "Eu, o Yung Buda, o Chinv e o Chábazz já tínhamos essa relação com o rock, antes de nos envolvermos com a música em si. Sempre que dá, a gente faz essa referência e mistura com o rap, aí quem não tem muita ligação com o gênero gosta, porque chama a atenção e acaba dando certo."

Com o lançamento da mixtape, a ideia é que agora os caras saltem diretamente para o topo dos coletivos de rap do país. "Com respeito aos demais, é a hora de se consolidar como a gravadora que está entre as melhores — se não a melhor da cena. Somos bem seguros do que fazemos", prospecta Chábazz. E se alguém acha que a vida é muito mais difícil depois de um recomeço, os caras enxergam de um jeito completamente diferente. O game, para Yung Buda, é como um jogo de videogame. "Quando você joga o jogo uma vez, quando você vai jogar a segunda, joga melhor. É isso. A gente perdeu nosso canal no YouTube, agora a gente tá recuperando. É como se a gente tivesse começado o jogo de novo, só que agora mais calejado".

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