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Os 25 lançamentos da música brasileira que importaram em 2017

Equipe Noisey

Foi um ano ótimo para morrer de raiva, ouvir rap, balançar o bumbum ouvindo um funk, e odiar o Alok.

Resumindo, 2017 foi o ano da pistola. Foi das duas uma pra geral: ou você passou os últimos 12 meses pistolíssima devido às mil e uma agruras da complexa vida jovem brasileira, ou você estava de alguma forma apontando essa pistolinha (virtual, real ou de brinquedo, tanto faz) aí na cara de alguém. Não foi mole pra ninguém. Mas no quesito música pop, até que o Universo acabou conspirando a favor, dando uma equalizada cármica no mundo, que ainda insiste em dar chance de existência pro Alok Remixando Mamonas e banda indie de abusador. Essa cólera toda, que aproveitou as trincheiras abertas por "Sulícidio" no ano passado para dar a cara, foi ótima para o rap de todo país, tanto no campo lírico e estético (os melhores DISCOS do ano saíram debaixo da asa do hip hop) quanto comercialmente; ao longo dos meses os artistas do gênero foram galgando as paradas de sucesso, e até disputaram lugar com o onipotente e onipresente Sertanejo de Balada™ e a porra do Alok. Páreo pro sertanejo mesmo foi o funk, lógico, que não só manteve sua popularidade bumbumzística no topo do Brasil, mas também aumentou a sua penetração (hehehe) internacional, com o Skepta pagando rajada na internet e o polêmico remix com o Future, que sai essa semana (Atualização: saiu). Enfim, musicalmente, talvez tenha sido o melhor período para a música brasileira em anos, mas o preço dessa criatividade e tino para os negócios tem o seu preço, que é o caos sócio-político-econômico-moral atual do Brasil. E, creio que não sou o único, mas você também está com esse sensação que o ano que vem vai ser DAQUELE JEITO né? Vamos zuar enquanto dá. Segue a lista, que esse ano foi desconstruídx, sem ordem, uma última lacrada em 2017.

Aldair Playboy - "Senta Porra" e "Vai Toma"

É muito ridículo o quão facilmente nós, paulistas (e moradores do sudeste em geral), conseguimos ignorar completamente o som que vira cabeças no restante do país, principalmente no norte e nordeste. Qualquer jornalistão de jornalão de São Paulo – ou de sites descolados como o Noisey Brasil — passou tranquilamente seu 2017 sem ouvir falar de Banda A Favorita ou Nadson o Ferinha do Arrocha. E só essa ignorância generalizada justifica que as rádios e plataformas de streaming em geral não tenham explodido de tanto tocar Aldair Playboy, o atual mestre do arrocha de João Pessoa. No disco do cantor, Baile Transa Reggae , rolam várias pérolas como “Vai Sentando e Não Para” e “O Kit” (“o kit pega/o kit come/o kit faz ir ao céu”), mas dele eu destaco principalmente os dois grandes hits, “Senta Porra” e “Vai Toma”. Acompanhado do DJ Lowhan, Aldair descreve o melhor sentimento de todos: aquele de estar em casa de bobeira no zapzap, receber uma proposta por mensagem e acabar a noite com whisky, cama box e um sexo bolado. Não sei vocês, mas eu queria demais ouvir esse som num rolê no centro de São Paulo. (Amanda Cavalcanti)

Baco Exu do Blues - Esú

Em 2017, o rap nacional teve que abrir o caminho pra deixar o exú passar. Depois do estrondo que foi "Sulicídio" em 2016, Baco veio mostrar seu quê de divino e humano com Esú, não sem alguns contratempos antes. Depois de prometer o tal do "ano lírico" em seu verso no "Poetas no Topo 2", ele quase sucumbiu à pressão de atender as expectativas e delas tirou "En Tu Mira", primeiro single de Esú. Uma demonstração do real poder do disco: o de tirar a força de onde há vulnerabilidade, pobreza, desespero. Baco deu um retrato da sua Salvador trazendo referências como Jorge Amado e Mário Cravo e pensando numa sonoridade que resgata o tradicional e antigo, mas olha sempre pra frente (apesar de eu achar que, em certos momentos, rola guitarrada demais). Tudo isso além de nos dar a maior canção de amor de 2017, "Te Amo Disgraça". Como o próprio rapper disse no Twitter, Esú não é um disco de rap, é um disco de trap barroco. E sua vitória foi gloriosa, tipo cigarro depois do sexo. (Amanda Cavalcanti)

Boogarins - Lá Vem a Morte

Os (quase) jovens goianienses endoidaram finalmente. Desde que eles existem enquanto banda, emplacam os seus trabalhos nas listinhas de fim de ano Brasil a fora, mas nunca desmerecidamente — apesar de no passado recente chafurdarem com mais vigor no lamaçal do tal rock psicodélico pós-moderno aí. Esse ano eles meteram um pé e meio pra fora desse quadrado pitchforkiano. Fizeram jus à escola de doidera fuzz/reverb do Supercordas e outros compatriotas de outrora, dando uma sobrevida alucinada ao moribundo psicodelismo (que, em linhas gerais, funciona melhor como trilha sonora de wrap-up de patrocinadora de festival do que como música mesmo). Disco doido feitos por doidos em tempos malucos. Amei. (Eduardo Roberto)

Djonga - Heresia

Eu fico meio triste que a qualidade da produção e a mixagem do Heresia fique MUITO aquém da das linhas que o Djonga entrega durante as 10 faixas do disco. Também acho meio engraçado que o melhor som do Djonga de 2017 nem é do Heresia — pra mim, é o "Olho de Tigre", do perfil da Pineapple. Não sei se é porque ele rima meio gritado, porém, nos dois trabalhos do rapper mineiro, você consegue sentir a raiva dele pelo racismo do mundo e a vontade de meter bala nos inimigos. As músicas do cara têm uma personalidade tão própria que eu tenho um pouco de medo de ele acabar fazendo "sempre a mesma coisa" e ficar preso num "estilo meio Djonga". Mas eu boto fé que ele vai conseguir se reinventar e soltar mais rimas fodas pra gente — e espero que num disco melhor produzido. Resumindo: o Heresia é sim a prova que se pode julgar o disco pelo capa. (Beatriz Moura)

Don L - Roteiro para Aïnouz, Vol 3

Todo mundo sabe que o Don L não se contenta com pouco, isso já tava claro na mixtape do Costa a Costa, lá em 2007. Em RPA3 ele transparece a ambição artística de Jay-Z e Kanye West, porém, morando em um país de terceiro mundo espiritualmente devastado, com um mercado de música tão medíocre quanto a sua política. Ao resolver contar sua história de trás pra frente — RPA3 é o primeiro volume de uma trilogia que acaba no começo —, Don L relata sua vinda de Fortaleza para São Paulo e deixa a mostra uma parada bem latente na sua cabeça. Para entender, um paralelo simples: Don L como a personagem principal de O Céu de Suely , do Karim Aïnouz, é grandes demais para o que está em sua volta. Ou, como diz o próprio rapper, "a sina do cearense pelo mundo". E aí fica mais fácil de sacar quando ele fala diretamente sobre a indústria musical, e principalmente o rap, em "Eu Não te Amo" e "Fazia Sentido" ou a respeito de como tudo isso gera uma frustração que beira a depressão em "Aquela Fé", além é claro, do caos distópico de "Cocaína". Muitos podem pensar que RPA3 é só um disco triste pra caralho — e ele é mesmo —, mas quando a gente arruma o fone na orelha percebe que é mais do que isso: é sobre se preparar a vida inteira para uma viagem a Meca e quando você finalmente chega lá, percebe que alguém acabou de botar fogo em tudo. E ah, claro, ano que vem se preparem, pois vai chover cópia desse trampo no rap nacional (mais uma vez). (Paulo Marcondes)

Flora Matos - Eletrocardiograma

Não sei se é pelo simples fato de eu ter nascido mulher ou se foi porque eu tinha ACABADO de passar por uma puta desilusão amorosa depois do fim de um "relacionamento" esquisito de seis meses quando o Eletrocardiograma saiu, mas a real é que o disco da Flora foi o que bateu mais forte pra mim este ano. É muito provável que tenha sido mais por causa da minha condição de "fêmea humana", porque eu honestamente não sei se você, leitor homem, se também estivesse de "coração partido", teria se identificado tanto assim com este álbum quanto outra mina teria — o que eu acho uma pena. Inclusive, também acho uma pena que você certamente "até tenha gostado do disco", mas não o suficiente para bater de frente com o do seu MC homem favorito. Enfim, questões de problematização de gênero no rap nacional à parte, eu acho o Eletrocardiograma o disco nacional mais sensível de 2017. Cantando sobre uma paixão proibida que viveu com um cara por seis anos, Flora se expôs pra caralho nesse disco. É como se cada batida do Eletrocardiograma correspondesse a um segundo de dor que esse amor doentio lhe trouxe — e, no final, como ela conseguiu, finalmente, se livrar de tudo isso. É um álbum transparente, super sincero, em que ela se doou por inteiro. Não à toa, o álbum demorou um bocado pra ficar pronto e ela se envolveu em todas as etapas da produção dele: desde as letras e a produção de alguns beats, até a direção artística e a capa. E tudo bem, você pode até não achar que é o melhor álbum nacional do ano, mas tem que concordar comigo que é o álbum mais visceral do ano. E, sei lá, pra mim arte meio que devia ser isso sempre. (Beatriz Moura)

gorduratrans - Paroxismos

No meio de tanta distorção, fica difícil respirar. Puxa o ar, o pulmão falha. A voz tenta surgir no meio de uma barulheira, mas é abafada pelo som de uma bateria. A guitarra fica mais alta, seu coração acelera e de novo, fica difícil de respirar. Seu estômago dá um grande nó e só aí você entende o que está acontecendo. É, alguém colocou Paroxismos pra tocar. O segundo disco do gorduratrans tem esse clima meio claustrofóbico, tanto pelo conteúdo de suas letras, quanto pela atmosfera que as distorções da guitarra de Felipe Aguiar criam. É fato que se comparada com Repertório Infindável de Dolorosas Piadas a qualidade de gravação melhorou e muito, só que no fim das contas ainda são aqueles dois moleques suburbanos que se encontraram em um grupo de Facebook e queriam vomitar um monte de coisa guardada dentro deles. A diferença é que dessa vez parece que os sentimentos são mais abstratos e soam cada vez mais urgentes e profundos, o que é ótimo em um país que quase tudo feito com guitarras soa tão repetitivo, bobo ou uma releitura mal feita dos sons de duas décadas atrás. (Paulo Marcondes)

Kiko Dinucci - Cortes Curtos

No começo dos 90, Kiko Dinucci se formou no punk. Tocou em umas bandas, o straight edge começou a pegar e ele resolveu sair um pouco desse grupo. Foi pro samba. Caiu no mundo. Rodou, rodou, lançou discos solos, desenvolveu um jeito próprio e inconfundível de tocar guitarra, entrou em listas de melhores discos do ano exaustivamente. Mas o bom filho à casa torna, não tem como correr. Cortes Curtos é a volta dele ao punk do Fugazi, misturado com as mil e uma experiências que ele juntou durante suas andanças pela vida. Das experimentações com Marcos Campello, do Chinese Cookie Poets, a imersão do samba com AfroMacarrônico e do DuoMoviola e o inrotulável Metá Metá. Engana-se quem acha que este é um álbum inovador em vários aspectos; pelo contrário, Cortes Curtos é um disco punk dos anos 90 feito por um suburbano de Guarulhos, mas que ninguém conseguiu fazer naquela época. (Paulo Marcondes)

Letrux - Letrux em Noite de Climão

Você bota seu melhor jeans, passa um batom e vai pro rolê mesmo sem muita vontade. Chega lá, tá aquele clima estranhíssimo, dois discos dos Bee Gees na sequência e você ainda cruza com o seu ex lixoso na fila do banheiro. O negócio é voltar pra casa e virar a madrugada na cama pensando. É mais ou menos isso que a carioca Letícia Novaes traz na faixa “Noite Estranha, Geral Sentiu”. Lançado em julho, Letrux em Noite de Climão passeia por nuances dos anos 70 e 80 e apresenta o universo peculiar e chapante de Letícia com guitarras, sintetizadores e letras engraçadas e loucas. “E que olhada que cê deu aqui na minha cara. E que milagre que cê fez com as duas mãos. Cuidado, o farol tá aceso. Cuidado, a maré tá enchendo”, canta em “Que Estrago”, narrando uma trepada lésbica pra melhorar o climão. Letrux, aliás, abocanhou a categoria de melhor disco da 24ª Edição do Prêmio Multishow de Música Brasileira. (Débora Lopes)

Luccas Carlos - Um

Saiu no comecinho do ano (dia 17 de março, pra ser mais exata). É "só" um EP, mas a gente do Noisey não esqueceu dele. O primeiro trabalho oficial do Luccas como cantor de R&B colocou ele como uma das maiores revelações do gênero no underground deste ano — apesar de eu achar que desde o single "Lady" (2016), um feat com seu conterrâneo e também membro do Pirâmide Perdida BK’, ele já tava mandando benzaço nas lovesongs —, tanto que o carioca já está trabalhando no seu disco de estreia, que deve sair em 2018 com distribuição da Universal Music. Em 2017, além de ter feito um EP cheio batidas de trap gostosinhas, autotune no talo e com a melhor música nacional de transa do primeiro semestre, "Neblina" (que só perdeu o posto pra "Te Amo Disgraça", do Baco Exú do Blues, lançada na segunda metade do ano), o Luccas ainda deu um puta grau com o seu vocal em várias músicas do disco do Sain, Dose de Adrenalina, especialmente em "Desliga" e na faixa homônima do álbum. Apesar de eu não ter curtido a pegada meio tristonha do violãozinho do seu último single,"Sem Ninguém", tô bem ansiosa pra ouvir o disco de estreia. Luccas Carlos, não nos decepcione, por favor. (Beatriz Moura)

Luiza Lian - Oyá Tempo

Ver a Luiza Lian tocar Oyá Tempo pela primeira vez foi uma experiência desconcertante pra mim, no melhor sentido possível da palavra. Eu tava num festival meio classe AB, cercada por uma galera meio nada a ver, sem expectativa nenhuma. Levei um susto assim que ela subiu no palco e começou a cantar "Tucum"”, acompanhada do DJ e produtor do álbum Charles Tixier. A surpresa foi ver uma cantora de quem eu nunca tinha ouvido falar antes, com um projeto tão ambicioso quanto bem produzido, apresentá-lo com a mesma imponência que ela parecia ter o idealizado. Talvez tenha sido porque Tixier me contou que ele se inspirou na estética dos trap rappers norte-americanos para produzir o disco, mas Oyá Tempo se tornou ainda mais especial pra mim quando conheci a história por trás dele: Luiza amarrando suas reflexões sobre tempo, espaço, religião e tecnologia em 25 breves e impactantes minutos que, afinal, não são nada mais que uma expressão de toda sua trajetória e interioridade. Tudo isso em beats que impõem um pensamento muito a frente de seus contemporâneos e que inclusive até tornaram o projeto dificílimo de classificar: pela internet afora, ouvi funk carioca, vaporwave, synthpop e art pop em algumas das tentativas. Mais uma das apostas e riscos corridos e bem sucedidos pelo RISCO nesse 2017. (Amanda Cavalcanti)

Major Lazer, Anitta e Pabllo Vittar - "Sua Cara"

A começo de conversa, esse hit entrou nessa lista após muitas contestações na redação do Noisey Brasil, partindo do princípio de que o trio de DJs do Major Lazer não são filhos deste solo mãe gentil. Fato é, que é inconcebível negar a presença pipocante deste som nas boates, festas e playlists não só da comunidade LGBTQ, mas de quem tem como hobby quicar. Aqui foi o majestoso sinal dos primeiros passos da dominação mundial do pop de Anitta, em 2017. A convite do Major Lazer, Anitta e Pabllo deram vozes a música que uniu mais uma vez o Brasil com o Egito, quase. Ultrapassado os 300 milhões de visualizações, o pop eletrônico de "Sua Cara" promoveu uma coleção de passinhos e coreografias para jogar qualquer bunda na cara de alguém. Podemos considerar impossível, que Anitta ou Pabllo faça um show sem cantar esse hino som, mesmo com a coleção de agudos e falsetes ensurdecedores e hipnóticos. (Bruno Costa)

Mawu - Mawu

Vou admitir que esse disco aqui entrou pois 1. Bairrismo: ele soa como a Bela Vista, e eu moro e amo lá. 2. Por que eu sou o editor? Mas, na moral, dentre os vários admiráveis lançamentos do selo Risco, esse foi o que mais me saltou aos ouvidos. Ele não me soa como algo que saiu da cena independente brasileira — que muitas vezes tem uma tendência nefasta à homogeneização —, mas ao mesmo tempo também não parece estar deslocado dessa linguagem. Talvez seja porque as referências aparentes no som estejam hoje em posições proeminentes no éter indie de faculdade de humanas contemporâneo: Dorival Caymmi, Tortoise, IDM, rock progressivo, samba do Bixiga, cultura afro-brasileira e mais uma porrada de coisas muito bem condensadas, diga-se de passagem. Mas referência por si só é bom para fã de série do Netflix. Aqui no Mawu, Eduardo Camargo e Kike Toledo conseguem realmente entrelaçar essas refs de forma bastante pessoal e genuinamente interessante: tudo soa como música, com aquele ar de auto-confiança sossegada da Lira Paulistana, do Branca di Neve. O Mawu parece pertencer apenas parcialmente ao circuito underground, mas esse deslocamento acontece sem rompimento, é quase sem querer. E em 2017 estar ingenuamente de fora é um grande trunfo, especialmente quando a intenção aparentemente é musical e grandiosa, e não qualquer coisa que acabando colidindo na fatídica "estilera Mac Demarco" e suas varições. (Eduardo Roberto)

MC Fioti - "Bum Bum Tam Tam" (Fioti)

A flauta envolvente de MC Fioti foi mais longe do que qualquer outro funk jamais tinha ido antes dela. Virou meme na Indonésia, se tornou o vídeo mais visto do canal do KondZilla e até mesmo ganhou um remix com ninguém menos que o Future, que será lançado nessa sexta (15). É um pouco difícil explicar o que faz de “Bum Bum Tam Tam” uma música tão atraente — será que é de fato o sample de Bach? Será que é o refrão que te manda fazer exatamente o que você tava pensando ao ouvir a batida? Será que é o clipe e toda sua vibe “É o Tchan no Egito”? — mas fato é que ela se consagrará como maior hit do país em 2017. Além de tudo, ela foi também uma declaração que é feita frequentemente, mas dessa vez ficou cravada: a de que o funk anda com suas próprias pernas e não precisou da legitimação de terceiros para se tornar o mais relevante gênero musical do Brasil, tanto artisticamente quanto em popularidade. (Amanda Cavalcanti)

MC Lan - "Rabetão" (Lan), "Open the Tcheka" (DJ R7) e "Maquiavélico 2" (Lan)

O funk vive um momento de renovação no modelo de produção musical. O DJ/produtor tornou-se uma peça fundamental no processo criativo, uma figura ativa e decisiva, sendo o responsável pela construção dos beats pesadões, pelas melodias certeiras e por transformar as vozes dos MCs com um monte de efeitos — não é por acaso que tem uma pá de DJ mais famoso que muito MC por aí. Assim como o Fioti, Gustta e outros mais, o Lan é um cara da nova geração de MCs-produtores, artistas que além de cantar ainda assumem os arranjos das suas música. Lan cria artefatos sonoros com um estilo que é só dele: um som minimalista, microfunk com graves secos para explodir os tímpanos. Mas isso não é nada perto do carisma do cara, que tem um dom especial para comandar a putaria. Simples e singelo em “Rabetão” (que coisa linda ele se declarando: “Tu tá tão, tão linda com esse rabetão”) ou tirando uma onda em “Open The Tcheka” (um tutorial bem direto pro Justin Bieber dar um rolê no Brasil), Lan sempre faz as rabas balançarem. Como não bastasse, ele deu uma roubadinha na levada de uma música do Young Thug e soltou “Maquiavélico 2”, uma “ópera de maloca e madeirite torta” sobre as “cinzas de uma miscigenação agiota”. Não é vida loka. É mais loko que a vida. (GG Albuquerque)

MC Livinho - "Fazer Falta" (Perera DJ)

Desde 2015 o Livinho já era uma espécie de Frank Ocean brasileiro, mas foi em 2017 que ele consolidou sua fórmula do pancadão R&B com “Tchau e Bença”, uma parceria com o MC Pedrinho, e, principalmente “Fazer Falta”. A música é bem ambígua. Na primeira e mais recorrente interpretação, Livinho parece encarnar um Homem Que Ama Demais™ desiludido com o vazio existencial das noites de sarradas ocasionais, pedindo para a mina uma relação além do sexo casual. Mas na real a letra é uma homenagem à irmã do MC, que inclusive estrela o clipe oficial. Ela é aconselhada a dar uma amenizada no seu estilo de vida baladeira errática, mas Livinho e os amigos sentem a sua falta, precisam dela pro rolê valer. Percebem que, no fim das contas, ela não é verdadeiramente ela na versão comportadinha, daí voltam atrás: “Então sarra a bunda no chão”. Tudo é coroado com uma produção sutil e cristalina do Perera DJ, explorando tanto o lado melódico da música (aquela intro no piano, como uma caixinha de música) como o beat de panela e o grave. Um funk lento, mas dançante; romântico, mas safado. É uma reinvenção da tradição do funk charme dos bailes black dos anos 1970 e 1980, mas feita com perspicácia e imaginação. Livinho e Pereira olham para trás, mas caminham sempre para frente, abrindo trilhas no contrafluxo do próprio funk. (GG Albuquerque)

MC Zaac - "Vai embrazando" (Yuri Martins)

Em dezembro do ano passado, Zaac & Jerry, no ápice do sucesso de “Bumbum Granada”, anunciaram o fim da dupla. Na hora do mundo ficou triste (bem, eu fiquei, espero que você tenha ficado também porque, né, é isso é importante), mas a notícia acabou sendo positiva porque agora temos as músicas do Jerry Smith MAIS as do Zaac. “Vai Embrazando” é uma dessas músicas que já nascem hit, brincando por situações rotineiras. É o retrato de uma juventude que não têm dinheiro pra nada e por isso mesmo está disposta até a encarar aquele líquido com gosto de terra da chamado catuaba para ficar doidão rápido & gastando pouco. O MC Zaac cravou o revival millenial da catuaba na música popular. E ainda fez a gíria embrazado se popularizar no Brasil todo (o Dynho Alves tentou antes, mas não teve o mesmo sucesso), o que também conta muitos pontos. (GG Albuquerque)

Negro Leo - Action Lekking

Eu nunca canso de dizer que o Negro Leo é o maior artista do Brasil. Sério, vai lá no meu Twitter. Eu digo isso pelo menos umas três vezes por semana. E a razão é muito clara: a análise de mundo e de Brasil e de vida e de morte que o Leo faz, ninguém mais chega perto de fazer. E Action Lekking é um ótimo exemplo. No disco, nosso artista e cientista social cria e examina o que ele chama de "lek", aquele que se beneficiou da transferência de renda para as classes mais pobres até o início da década e resiste aos processos políticos e grandes corporações. Kanye West falou bem quando disse que todos os gênios são loucos, e a loucura de Leo se mostra do jeito mais bem humorado e esteticamente diverso possível em Action Lekking. Talvez uma síntese de seus momentos mais esquisitos e mais pop. Por favor, não termine seu ano sem ouvir "O Pato Vai ao Brics". (Amanda Cavalcanti)

niLL - Regina

O niLL já tinha desafiado o rap quando lançou "Minha mulher acha que eu sou o Brad Pitt". Um beat com a intro de "Ashes to Ashes", do David Bowie, em loop e uma letra que poderia muito bem ter sido escrita para um disco novo do Polara. Apesar da primeira peitada, como numa treta entre moleques na escola pública, ninguém poderia imaginar que o cara ia nadar contra a correnteza em um álbum inteiro, né? Regina funciona assim, na contramão do que vem rolando no gênero. Ao escolher dedicar o disco à sua falecida mãe, usar audios de WhatsApp durante as faixas e lidar com temas completamente pessoais, o rapaz de Jundiaí foge daquele par de ideias que tem sido exaustivamente explorado no rap: a militância e a curtição. Ao mesmo tempo que nos convida pra colar na sua casa. Pode chegar, tirar o sapato, acender um cigarro e abrir um pacote de bolacha com ele. Mas ow, não é porque o cara abriu a porta que você vai chegar lá causando. Tem que ter disciplina. Tudo continua funcionando do jeito que ele escolheu. A produção lo-fi, bem vaporwave, o seu flow diferente de 90% das coisas genéricas que tem rolado no país e de brinde, um disco no YouTube que tem uma apresentação em 16-bits. No Brasil, só tem um niLL (me desculpe a rima). (Paulo Marcondes)

Pabllo Vittar - Vai Passar Mal

Seria esse o disco que finalmente uniu todas as tribos? Talvez. Com personalidade e uma pose de pop global por conta de um dedinho de produção do Diplo, Vai Passar Mal veio no conjunto de hits perfeitos para balançar a raba, seja onde for. Pabllo só conquistou louros com seu debut: hit carnavalesco e treteiro de 2017 com "Todo Dia". O arrocha im-pos-sí-vel de escutar uma vez só que é "K.O.", dando à Pabllo o posto da cantora drag mais visualizada no YouTube. E outro arrocha puramente dançante, "Corpo Sensual", mostrando que a sonoridade de Pabllo deu ainda mais músculos à visibilidade LGBTQIA no cenário musical, mas acima de tudo, entoa-se como o tal do hino pop que sintetiza o que o Norte e todo o Brasil tem a oferecer. Vem que esse momento é seu, Pabllo. (Bruno Costa)

Raffa Moreira - "Bro"

Você provavelmente sabe melhor do que eu que a história se repete — primeiramente como tragédia, segundamente como farsa. Pois bem, se você usar essa ótica para analisar o trap emo, vai facilmente entender tudo. Mas é aquilo, num é porque a história se repete que a gente não tem culpa no cartório; vai achando que é só surfar na onda com a roupinha certa que vai estar tudo suave. Jamais. Tem que saber curtir, tem que saber lidar. E o Raffa Moreira, desde quando pintou pilotando a mil por hora talento, ofensas e carisma no submundo dos grupões de rap do Facebook (a versão php do "caos impiedosamente ordenado" do inferno dantesco), tem que mostrado que sabe como poucos enveredar pelo labirinto de vaidade e malícia da última onda do rap BR, que nasce, vive e morre na internet. A rua é outros quinhentos, mas, enfim, divago. O importante é que "Bro", provavelmente o primeiro emo trap brasileiro assumido a bater 500 mil visualizações, é uma demonstração que o Raffa ainda tem muito a falar, e que o seu bragadoccio num é em vão. Ter um preto unindo as duas pontas do mainstream da década passada (repetindo a história) num refrão em tom menor, com intimão de negócios e autotune é algo sim digno de sensibilidade pop (agora como farsa, mas no pop, o que não é farsa?). Raffa, não para, irmão. (Eduardo Roberto)

Rakta - Oculto Pelos Seres

Lembra de 2001? Bastava ser homem, ter um cabelinho programaticamente bagunçado, jaco jeans, cara de nóia e um baixão marcando as tônicas. Você era o próprio revival post-punk encarnado. De uma forma ou de outra, ser meio ramoneiro e sensivelmente bunda mole (deixando aquele cheirinho de abusador no ar) era o status quo. E dentre idas e vindas de lá pra cá, essa imagem foi se esfacelando, assim como os modelos de comportamento da época também foram se desvanecendo nos últimos suspiros do glamour rock and roll. O Oculto Pelos Seres do Rakta é o chute no pinto definitivo desse pós-pós-pós grunge modelete. As minas tomam de volta o que lhes era de direito: a estética pós-punk/death rock cheio de raiva e esoterismo. Siouxsie and the Banshees de cara limpa, o filho in vitro do Olho Seco com o The Cure pós castração. O hino de guerra do androcídio wicca global. Não obstante, elas tem grandes chances de nos próximos anos ocuparem a vaga de bandas como o sumido Savages nos lineups de festivalões por aí. Ou pelo menos eu espero que essa seja uma mínima recompensa material para o trio que, a meu ver, no fim das contas quer mesmo é deixar a bruxa solta por aí. (Eduardo Roberto)

Rincon Sapiência - Galanga Livre

É muito bom saber que a afirmação da negritude é algo em pauta. Em todos os cantos a gente vê que o povo preto está se amando e lutando contra todas as merdas do dia a dia. Do segurança te seguindo no mercado, a situações que envolvem um racismo não tão à brasileira assim, como a prisão de Rafael Braga, o áudio vazado por William Waack ou o caso Amarildo. Galanga Livre é um reflexo de todas essas discussões. Basta atentar à história do escravo que fugiu, criada pelo Rincon, ou em como o rapper subverte a lógica preconceituosa da expressão "A Coisa Tá Preta", na música de mesmo nome. E essa negritude, claro, vai além da caneta. O instrumental é o que o próprio Danilo gosta de chamar de afrorap, uma mistura de dancehall, rock africano, funk brasileiro e outros ritmos que fogem um pouco da estética padrão do rap. E aqui talvez more o grande segredo do disco: falar de questões envolvendo cor de pele não é uma novidade no rap, mas ao não ir muito nas influências diretas do gênero — conseguindo direcionar seu discurso com uma linguagem atual — fez com que o mainstream o abraçasse, que seu som batesse em cheio nos universitários e afins, e ainda levasse de brinde um prêmio de Artista Revelação do Multishow, mesmo que sua caminhada para ser sucessor do trono do Xis tenha começado bem antes, com hits como "Elegância" e "Sair pra Gastar". (Paulo Marcondes)

Rodrigo Ogi - Pé no Chão

O Ogi mudou pra cacete de 2015 pra cá. O nascimento do seu primeiro filho serviu para que ele amadurecesse e lidasse com os fantasmas que o assombravam, como a morte prematura da sua mãe e o seu relacionamento destrutivo com o álcool. O resultado disso foi o abandono de uma de suas principais características e algo que muita gente notou: sai o storytelling e entra um método muito mais pessoal de escrever. Pé no Chão não tem aquelas narrativas frenéticas como a da trilogia "Trindade", mas vamos ouvir uma declaração de amor ao seu primogênito em primeira pessoa, em "Nuvens". Vamos vê-lo rimar em cima de boombap, sim, claro, mas pela primeira vez numa base de trap com "Redenção", ou escutar a mistura de grime com samba que é "Deixe-me", canção que o Nave classifica como "híbrida". Tudo isso com aquele apreço técnico e poético pelas rimas, a mais importante característica do Ogi. É um velho papo, que sempre se repete, já que toda vez que o Vovô solta um trabalho novo, o público e os rappers ficam ansiosos. A primeira parcela pra ouvir. A segunda pra saber o quão alto vão ter que subir para alcançar o nível da linguagem que o trampo impõe. Recentemente, em uma das vezes que ouvia o disco, meu computador travou. Eu fiquei puto e subiu a janelinha do Avast: as definições de ano lírico foram atualizadas. (Paulo Marcondes)

Simone e Simaria feat. Anitta - "Loka"

Para quem acompanhava de perto o desenrolar poético das irmãs fortalezenses Simone e Simaria, este foi o menos sofrência de todos. Uma revisita ao tempo pré-feminejo, quando elas eram cantoras de forró. "Loka" vem com uma pegada perfeita pra arrochar e dar aquela rebolada, fazendo jus à presença de Anitta. Juntas para curar aquela fossa maldita depois de um pé na bunda, dançando e bebendo todas, as três gigantes do pop nacional fizeram deste single a versão nacional e porra louca de "New Rules" da Dua Lipa. É fácil se pegar imaginando a sugestão da música de "Entra no carro / Amiga, aumenta o som". Com pitadas de tecnomelody forrozeiro com pop, o som é uma verdadeira celebração de ser mulher e ter amigas ao lado. (Bruno Costa)