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Por que tantos supremacistas brancos são vegans

De Hitler a neonazis com canais de culinária no YouTube, a ideologia anticarne da extrema-direita tem raízes surpreendentemente profundas.

por Alexis de Coning; Traduzido por Marina Schnoor
25 Outubro 2017, 9:00am

Screenshot do canal de culinária do YouTube Balaclava Küche, apresentado por nacional-socialistas alemães.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Se havia qualquer dúvida de que nacionalistas brancos estão entre nós, ela desapareceu no meio do ano, quando o submundo racista da extrema-direita se manifestou em Charlottesville. Mas mesmo antes disso, quando o movimento conhecido como "alt-right" cresceu online e ganhou notoriedade por suas expressões de antissemitismo e racismo (além de seu apoio público a Donald Trump), jornalistas e acadêmicos vêm tentando entender a coisa toda. Líderes da alt-right já foram entrevistados várias vezes por grandes meios de comunicação. A popularidade de youtubers de direita já foi dissecada. Simpatizantes ordinários da alt-right foram pesquisados. Comentários do Reddit foram analisados atrás de significado à exaustão.

Mas nem todo mundo percebe que, por mais estranho que pareça, vários supremacistas brancos são vegans e vegetarianos. Não é só uma coincidência estranha, mas uma ramificação de uma das principais crenças do movimento: o conceito de "sangue e solo".

O slogan — blut und boden originalmente em alemão — foi popularizado por Walther Darré em 1930 (apesar de o conceito por trás da frase poder ser rastreado até o movimento Völkisch do século 19). Darré foi o ministro da agricultura alemão de 1933 a 1942 e um defensor ferrenho da reforma na agricultura na Alemanha Nazista. "Sangue e solo" se tornou uma reimaginação mística da identidade alemã, enfatizando a importância da herança racial (sangue) como ligada à terra (solo). Os nacionalistas brancos de Charlottesville gritaram essa frase não só para dizer que os EUA é uma terra de gente branca, mas que os brancos estão inseridos racial e espiritualmente no solo americano.



Ao romantizar a conexão inerente dos brancos com a terra e a natureza, a ideologia "sangue e solo" também abrange noções de pureza racial e nobreza. Comprometimentos dietários, então, se tornam um meio de provar a superioridade racial de alguém.

Adolf Hitler — cujo vegetarianismo é bem conhecido da cultura popular — obviamente ligava dieta e raça. Em Hitler's Table Talk: 1941-1944, uma coleção de monólogos transcritos do führer para seu círculo interno, ele defende o vegetarianismo como uma escolha universalmente natural e saudável, usando os "instintos ancestrais" vegetarianos dos humanos e a "antipatia" de crianças por carne como evidência desse argumento.

Savitri Devi desenvolveu essas ideias ainda mais. Devi era uma grega que se tornou importante na ariosofia, um conjunto de tradições do oculto que mistifica europeus como os descendentes dos arianos "originais". Depois da Segunda Guerra Mundial, ela escreveu livros em que prega esoterismo nazista e vegetarianismo ético. Usando o hinduísmo como principal exemplo, ela argumentava que vegetarianos "egoístas" se abstêm da carne por medo de retribuição na outra vida, mas vegetarianos arianos "não egoístas" demonstram suas qualidades sobre-humanas e superioridade racial ao se importarem com o bem-estar de "todas" as criaturas conscientes.

Isso pode parecer contraditório — como alguém pode apoiar os direitos animais mas negar os direitos de outras pessoas? Há uma longa história de bem-estar animal e ambientalismo nas comunidades nacionalistas brancas. O Partido Nazista, por exemplo, tinha uma "ala verde" que lutava por reformas ambientais, incluindo agricultura orgânica, programas de reflorestamento e proteção de certas espécies de plantas e animais. Junto com Hitler, Heinrich Himmler era um vegetariano que se opunha à vivissecção e crueldade com animais. Movimentos de agricultura orgânica da extrema-direita emergiram na Austrália do pós-guerra, ligados a noções de raça, nação, terra e natureza.

Para esse grupo dietário de nicho, então, a noção de "sangue e solo" leva a uma visão idealizada do veganismo étnico ariano como parte da pureza racial e de herança dos brancos. Romantizar o veganismo pode servir como um ponto de entrada para o nacionalismo branco, ou reforçar outras crenças supremacistas.

Essas ideias persistem nos círculos de nacionalismo branco hoje. Veja o Aryanism.net, por exemplo. Entre todos os artigos devotados à história, filosofia e política do nacionalismo branco, o site está cheio de páginas dedicadas ao veganismo. Repletos de citações de Hitler, Hess, Devi e Joseph Goebbels, os autores anônimos do site afirmam que o veganismo é "uma base do Nacional-Socialismo autêntico", e "um sinal de empatia genuína e nível de nobreza além das normas populares presentes". Mas não é o suficiente ser vegan. Como Devi, a página insiste que os arianos devem ser vegans por razões éticas, não simplesmente por saúde ou vaidade.

Ao rejeitar as associações mainstream entre veganismo e "caricaturas de hippies pacifistas", eles propõem que o verdadeiro arquétipo vegan é um nobre guerreiro ariano. Isso, por sua vez, se torna justificativa para "retaliação violenta". Só aqueles que renunciam à violência "inicial" de comer carne podem ser confiáveis para retaliar apropriadamente contra um mundo que eles percebem como degenerado. Arianos que iniciam a violência comendo produtos animais não são melhores que não-arianos, e não servem para fazer o mundo um "lugar melhor". Por último, o Aryanism.net argumenta que os brancos têm uma predisposição genética para o veganismo, reimaginando um passado pré-histórico onde os arianos eram fazendeiros que só comiam grãos e vegetais, ao contrário dos judeus pastores comedores de carne.

A noção de que o veganismo é de certo modo "natural" para os brancos também é espalhada pelo nacionalista branco e subcelebridade do YouTube Jayme Louis Liardi. Ele começou sua carreira no YouTube em 2012 com um canal chamado Simply Vegan. Inicialmente, seus vlogs eram típicos desse tipo de canal — uma lista de livros de veganismo obrigatórios, razões para parar de comer produtos animais e uma série de vídeos com o que ele comia todo dia. Mas por volta de 2014 e 2015, Liardi mudou de tom. Ele começou a defender um código de "guerreiro" em relação a seu veganismo e criticar as armadilhas da cultura moderna "degenerada".

No começo de 2015, Liardi fez um rebranding em seu canal, falando sobre o veganismo como uma busca pela verdade pessoal, uma verdade informada por sua herança europeia: "Esse é o meu sangue, essa é a minha genética". Ele eventualmente passou do Simply Vegan para um canal epônimo onde defende questões antiglobalização e de separatismo racial. Desde então, ele já foi entrevistado pela Red Ice Radio, e seu vlog "Meu Despertar: Globalismo vs Nacionalismo", foi compartilhado pelo NationalVanguard.com — duas conhecidas plataformas de nacionalismo branco.

O Aryanism.net e Jayme Louis Liardi podem parecer exceções. E mesmo que nem todo supremacista branco seja vegan ou vegetariano, há muitos casos dessa filosofia dietária na mídia supremacista. O Balaclava Küche, por exemplo, é um canal de culinária vegan do YouTube apresentado por dois nacional-socialistas de Hanover usando máscaras de esqui. A Homefront, uma revista feminina nacionalista branca que foca em questões domésticas, promove receitas vegetarianas para famílias arianas.

Veganismo supremacista branco pode parecer meio absurdo, mas também mostra quão complexa e profundamente enraizada essa ideologia é, e como pode atrair uma variedade de públicos. Para combater esses movimentos racistas, devemos entendê-los, inclusive entender como eles podem incorporar crenças que geralmente associamos a políticas liberais ou de esquerda. A diversidade desse movimento não pode ser subestimada.

Alexis de Coning é uma doutoranda de estudos de mídia da University of Colorado Boulder, onde ela investiga movimentos sociais reacionários e políticas alimentares.

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