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Fui calada ao tentar fazer uma reportagem sobre os rumores de assédios cometidos por Louis C.K.

Alguns anos atrás, fui para um festival de comédia na esperança de perguntar a comediantes como Dave Chappelle, Kevin Hart e T.J. Miller o que eles sabiam sobre Louis C.K ter assediado mulheres. A coisa ficou feia.

PorMegan KoesterTraduzido porMarina Schnoor

Louis C.K. via Creative Commons. Foto da autora no festival Just For Laughs cortesia de Megan Koester. 

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Sei que Harvey Weinstein é um grande merda há anos. Qualquer um prestando atenção saberia.

Merdas como Harvey Weinstein se safam com seu comportamento desprezível porque poder é igual proteção. Um argumento que se pode fazer é que a única razão para as décadas de abuso de Weinstein finalmente renderem consequências é que seu poder diminuiu, ao ponto de que acusá-lo é menos um suicídio de carreira. As pessoas só começaram a falar sobre as décadas de abuso sexual de Bill Cosby depois que o astro começou a perder o brilho, quando ele se tornou menos conhecido como uma lenda da comédia e mais como um velho escroto que dizia para homens negros levantarem a calça. Mas estou fugindo do assunto.

Deixa eu te contar uma história.

Em 2015, fui ao festival Just for Laughs (JFL) em Montreal, no Canadá, como uma jornalista correspondente do Gawker, uma organização que tinhas muitas falhas mas da qual sinto saudade. Os organizadores do festival não sabiam que o propósito da minha presença era investigar vários rumores sobre comportamento sexual inapropriado de Louis C.K. Se eles soubessem, tenho certeza que eu não seria convidada para o evento. Porque Louis, sabe, é “amigo” da organização do JFL.

[Nota da edição: nesta quinta (9), o New York Times publicou uma matéria em que cinco mulheres acusam o humorista Louis C.K. de assédio sexual]

Minha jogada seria no tapete vermelho do evento de premiação. Um por um, eu perguntaria a uma esteira de comediantes, todos homens, “Como você se sente sobre as alegações contra Cosby?” Eles invariavelmente diriam que estavam chocados e enojados com as ações do homem. Aí eu continuaria com “Como você se sente sobre as alegações contra Louis C.K.?” E todos alegariam, invariavelmente, ignorância.

Eu tinha acabado minha terceira entrevista daquela tarde, Kevin Hart (que respondeu com incredulidade antes de ser escoltado para longe de mim), quando uma mulher com uma prancheta me chamou de lado. Ela disse “Estamos recebendo reclamações” sobre as perguntas envolvendo Louis; mas ninguém que eu tinha entrevistado até aquele ponto se mostrou irritado com a pergunta.

Aí um homem alto de terno se aproximou, tomando o lugar dela para me repreender. Ele estava, em uma palavra, lívido. Em três palavras: lívido pra caralho. Com o rosto vermelho, ele me informou que o JFL é uma “família”, que o Louis era membro da dita “família”, que eu podia fazer minhas perguntas na “minha área”, mas que essa era a “área deles”. Aquele não era “esse tipo” de tapete vermelho, ele me informou – era um tapete vermelho “amigável”, e que Louis era um “amigo do festival”. Se eu fizesse a pergunta de novo, ele disse, eu seria expulsa do tapete vermelho. Mas se fizesse perguntas “legais”, eu poderia ficar. Seu tom agressivo implicava que ele não estava com vontade de me deixar fazer isso. Com os olhos marejados, me desculpei com o homem que eu olhava de baixo, o homem que mais tarde descobri ser o COO do JFL Bruce Hills, pela minha indiscrição. Eu disse a ele que ia me corrigir. Eu só tinha feito a tal pergunta a três comediantes até aquele momento – meu plano de perguntar para Patton Oswalt, T.J. Miller e Dave Chappelle, que eu via pelo canto dos olhos entrando no corredor, foi cortado.

(Numa declaração por e-mail para a VICE, Bruce Hills disse que seu problema era com como a autora estava abordando a pergunta, não com a pergunta em si. “Minha intenção era manter a cerimônia de premiação como um evento comemorativo”, ele escreveu. “Fazendo isso, não estava defendendo ou sequer consciente de qualquer alegação contra o talento. Se a Sra. Koester queria que os talentos comentassem oficialmente, esperávamos que ela seguisse os protocolos jornalísticos apropriados, fosse sincera em suas intenções e pedisse uma entrevista completa. Sempre garantimos que todos os talentos do nosso festival tenham tempo e oportunidade para decidir se querem abordar tais questões com um representante da imprensa.”)

Depois de voltar ao tapete vermelho, considerei brevemente ficar e fazer a pergunta mais inócua possível (ou seja: “O que você ama sobre o riso?”) mas me senti constrangida e envergonhada – eu sabia que estaria sendo observada de perto, e o esforço todo pareceu inútil. Eu estava tremendo. Estava com medo. Foi aí que ouvi meu amigo, o comediante Andy Kindler, gritar “Ei, Koester!” por cima do meu ombro. Cambaleei até ele (eu estava usando uma bengala por causa de um ferimento da época, o que me fez sentir ainda mais patética e impotente) e, bem baixinho, expliquei a situação. Depois perguntei se podia ir embora com ele. Ele concordou e provavelmente foi uma boa ideia.

Em vez de continuar ali e possivelmente ser chutada “oficialmente” do evento, fui embora. Depois comecei a literalmente chorar no ombro de Kindler.

Como você pode imaginar, não foi uma experiência legal. Foi uma tentativa de me intimidar para ficar calada, e foi um sucesso. Nunca escrevi a matéria.

Quando contei a amigos e conhecido por que eu estava no JFL, os olhos deles se arregalaram de excitação. Todo mundo ouviu as acusações. Eles também queriam respostas. Eles estavam dispostos a ajudar minha causa como pudessem, desde que não fossem pessoalmente arrastados para o brejo.

Porque é isso que acontece quando você tenta acompanhar histórias assim. Todo mundo quer ser o Garganta Profunda, mas só sob uma capa de anonimato. Ninguém quer se afiliar publicamente a você, muito menos prejudicar a carreira deles como a sua por ousar fazer a pergunta que está na cabeça de todo mundo. Pessoas que conheço, que respeito, que amo – me apoiaram, mas em silêncio, de um jeito muito “vai lá, mas graças a Deus não sou eu”. Uma delas ficou comigo um momento enquanto eu esperava C.K. sair de um local na última noite do festival. Ela disse que me amava e me apoiava, mas que tinha que ir embora, que não podia ser vista por ele comigo. Porque ela queria trabalhar com ele de novo. Então fiquei lá sozinha, na chuva, com a minha bengala, esperando pelo cara que nunca saiu – escolhi a saída errada. Foi uma cena cinematográfica pacas.

“Acho o que você está fazendo é muito corajoso”, um amigo me disse na época. “Estou com muito medo”, respondi. Ainda estou.

Uma versão deste artigo apareceu originalmente no blog pessoal da autora.

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