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Drogas

Como a maior apreensão da história da Colômbia vai afetar a oferta de cocaína no mundo

E mais: qual seria a extensão de uma carreira com 12 toneladas de cocaína apreendida?

por Jamie Clifton; Traduzido por Marina Schnoor
13 Novembro 2017, 9:00am

Na quarta-feira, o presidente colombiano Juan Manuel Santos anunciou que a polícia do país apreendeu 12 toneladas de cocaína – supostamente a maior apreensão da história do país.

A polícia diz que as drogas pertenciam ao elusivo Dario Antonio Usuga, AKA “Otoniel” – chefe do Clã do Golfo, o mais poderoso cartel colombiano – e que foram descobertas em esconderijos subterrâneos de quatro fazendas no departamento noroeste de Antioquia, que já foi lar do Cartel de Medelim de Pablo Escobar. Santos destacou que, incluindo esse carregamento, a polícia colombiana aprendeu 362 toneladas de cocaína este ano, já ultrapassando o total de 317 toneladas de 2016.

OK: boas notícias para as relações-públicas da polícia colombiana. Mas o que isso significa, realisticamente, pros cocainômanos do mundo?

Bom, são 907.185 gramas numa tonelada americana, significando que – graças a essa apreensão – 10.886.220 gramas não vão sair do solo colombiano, rumo a cisternas de bares em Miami e as narinas de 1 em cada 25 britânicos. Claro, considerando que provavelmente o bagulho é de alta pureza, e portanto seria cortado antes de chegar ao consumidor final, você teria um número ainda maior aqui. Considerando, por exemplo, o caso do Reino Unido: lá a pureza da cocaína atualmente é de 80% nas ruas, então podemos subir esse número em 20%, dando o total de 13.063.474 papelotes de um grama de pó.

Vendo que todo mundo já fez as contas, vamos além, só por diversão. Qual seria a extensão da carreira que poderia ser feita com todos esses papelotes? Se dizem que uma grama esticada tem uns 30 cm, totalizando isso dá 391.903.920 cm, ou 3,919 km.

Parece muita cocaína porque é muito cocaína. No entanto, em março deste ano a Colômbia era o maior produtor de cocaína do mundo, com os rebeldes das FARC supostamente encorajando os agricultores a plantar mais coca depois que o governo colombiano prometeu substituir a coca com plantações legais como parte de um acordo de paz com a guerrilha. Segundo o Relatório de Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos do Departamento de Estado norte-americano, em 2015 – o último ano com números disponíveis – a Colômbia tinha o potencial de produzir 495 toneladas de cocaína, o que significa que as 362 toneladas apreendidas este ano não chegam nem perto da oferta total. Além disso, Peru e Bolívia também produzem muita cocaína, e as apreensões parecem cada vez menos um arranhão na quantidade geral de cocaína exportada para fora da América Latina.

Então como, exatamente, isso vai afetar a oferta global de cocaína?
“Onde eles conseguem achar toneladas, sabemos que muitas outras toneladas conseguem passar toda semana”, diz o Professor Adam Winstock, fundador do Relatório Mundial de Drogas. “Eu não esperaria muito impacto no mercado já inundado do Reino Unido, que está vendo um aumento na pureza.”

Geroge McBride, da think-tank de políticas de drogas VolteFace, concorda. “Cerca de 900 toneladas são produzidas todo ano [globalmente], então não é uma grande quantidade no grande esquema das coisas”, ele me disse por e-mail. “Essas apreensões geralmente são só golpes publicitários e têm pouco impacto na disponibilidade, preço e pureza. Temos um suprimento contínuo de cocaína pura barata em qualquer momento, e a produção tem aumentado na Colômbia, então não estamos perto de ver um tempo onde isso terá um grande impacto.”

Então é isso: uma boa sessão de fotos – um dia divertido para a polícia; uma chance de colocar milhares de tijolos de cocaína num grande plástico e andar por cima – mas não muita diferença a longo prazo, ou mesmo a curto prazo.

Infelizmente, são os baixos escalões do tráfico de drogas que – como sempre – vão sentir mais o impacto da apreensão. “As consequências serão sentidas mais em casa, com repercussões violentas e intimidação”, diz Winstock sobre o potencial para conflito dessa apreensão. “Os narcos continuam provando que a guerra às drogas é inútil.”

Ele deu um exemplo excelente: segundo o relatório de Drogas e Crime da ONU de 2017, globalmente, a procura por cocaína é tão alta quanto sempre foi. A produção de cocaína na Colômbia é a mais alta vista em duas décadas. Quem continua investindo na Guerra às Drogas está claramente perdendo a batalha. Muitas pessoas gostam de cheirar; tem muito dinheiro para ser feito com cocaína. Ela não vai a lugar nenhum.

O que é preciso é repensar de maneira ampla como lidar melhor com o problema: a introdução de medidas que impeçam que muitas vidas se percam, tanto na cadeia de produção e venda como entre os usuários com acesso cada vez mais fácil a cocaína perigosa de alta pureza.

Para participar do Relatório Global de Drogas 2018, uma pesquisa anônima sobre o consumo de drogas mundial, clique aqui.