Crédito: Nate Milton

O hacker que ajudou a prender o chefe do cartel de Sinaloa está em apuros

Acreditava-se que ele estivesse nos EUA sob proteção do governo americano. Para a surpresa de todos, ele está abandonado no México.

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22 Maio 2017, 4:24pm

Crédito: Nate Milton

Em 2 de maio de 2017, o governo mexicano prendeu Dámaso López Núñez, suposto herdeiro do cartel de Sinaloa, uma das organizações criminosas mais poderosas do mundo. Embora as autoridades do México tenham passado os últimos 15 anos sem nenhuma foto de López Núñez, o criminoso foi localizado e preso graças a um vídeo gravado secretamente com smartphone hackeado.

Desde então, a imprensa mexicana noticiou que o homem responsável pela gravação, descrito como hacker, e que arriscou sua vida ao trair López Núñez, estaria "sob proteção" do governo americano. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, o hacker não está nos EUA, e sim no México.

Em entrevista dada no esconderijo do qual não sai há dias, o hacker disse ao Motherboard que teme que o cartel tente vingar a prisão de López Núñez, seu ex-empregador. Também diz se sentir abandonado pelo governo mexicano.

No ano passado, afirma o hacker, policiais lhe ofereceram proteção e US$1.5 milhão — a mesma recompensa oferecida pelo governo mexicano a quem entregasse Joaquín "El Chapo" Guzmán, chefe da quadrilha — caso ele os ajudassem a prender López Núñez. Ele diz, porém, estar preso em uma espécie de purgatório, esperando em vão que o governo mexicano cumpre suas promessas.

"Não foram eles que pegaram López Núñez", disse o homem, que deseja se manter no anonimato por motivos de segurança. "Fui eu que peguei. Eu o encurralei, o expus e filmei seu rosto, e se eu não tivesse feito isso, eles nunca saberiam quem prender."

Em 2013, promotores americanos acusaram López Núñez de estar envolvido em crimes como o narcotráfico e a lavagem de dinheiro. Estimam que o valor acumulado por suas atividades criminosas dentro do cartel equivaleria a US$280 milhões. Também conhecido como "El Licenciado" – ou o Bacharel, uma referência à sua formação em direito, que inclui um breve período como funcionário no escritório do procurador do estado de Sinaloa — López Núñez estava destinado a comandar um dos maiores cartéis do mundo. Em fevereiro, ele teria tentado matar, sem sucesso, dois dos filhos de Chapo e Ismael "El Mayo" Zambada, líder de outra facção do cartel de Sinaloa.

"Eles não pegaram ele. Fui eu que peguei. Eu o encurralei, o expus e filmei seu rosto".

A primeira fotografia de López Núñez foi divulgada em abril, quando um jornalista mexicano publicou imagem do então inédito vídeo. No dia 24 de abril, apenas oito dias após a prisão de López Núñez, outro repórter publicou o vídeo na íntegra. Segundo este mesmo repórter, o vídeo teria sido gravado por um hacker que vive hoje nos Estados Unidos sob proteção do governo americano.

"O governo mexicano ofereceu para ele proteção e uma recompensa", nos informou um funcionário que trabalhou em conjunto com órgãos do governo mexicano responsáveis por investigações e detenções de narcotraficantes. "Uma recompensa muito boa, diga-se de passagem", disse o agente do Estado, que escolheu manter-se no anonimato devido à delicadeza do tema em questão.

Mas agora o hacker sente que o governo mexicano não está fazendo o suficiente para ajudá-lo.

"É assim que o governo [do México] funciona", disse ele. "Eles usam as pessoas e depois ou largam elas para morrer, ou as matam, ou somem com elas".

O Motherboard teve acesso à versão não editada do vídeo, que foi gravado em julho de 2016 e inclui imagens claras do rosto do homem que estava segurando o celular. O Motherboard também conduziu várias chamadas de vídeo com o hacker, o que nos permitiu chegar à conclusão de que ele é, de fato, a mesma pessoa que aparece no vídeo. Também verificamos que ele realmente está no México.

Um representante da Procuradoria Geral da República do México (PGR) nos informou, em um telefonema efetuado na última quarta-feira, que ele não tinha permissão para responder perguntas ou fazer uma declaração sobre o assunto, pedindo em seguida que o Motherboard enviasse uma lista de perguntas por email. Até o momento, a PGR não respondeu nenhuma das perguntas enviadas pelo Motherboard.

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O hacker afirma que a família de López Núñez o contratou em 2014 para invadir o sistema da Penitenciária Federal de Altiplano, a prisão de alta segurança onde Guzmán estava preso e de onde ele viria a escapar.

O hacker diz que, em junho de 2016, López Núñez pediu que ele criasse uma campanha viral falsa que atacasse os "Chapitos" — apelido dado aos quatro filhos de Guzmán. Nossa fonte no governo mexicano confirmou que o hacker foi contratado para conduzir o que ele chamou de "uma campanha suja contra a família Chapo". O hacker também apresentou evidências que apoiam essa afirmação, entre elas imagens de posts falsos publicados no Facebook, incluindo um print que comprova que ele era o administrador da página.

"O governo mexicano ofereceu para ele proteção e uma recompensa. Uma recompensa muito boa, diga-se de passagem".

Na época, os Chapitos e López Núñez estavam lutando pelo comando do cartel. Enquanto isso, diz o hacker, ele participava de uma missão secreta organizada pelo governo mexicano a fim de capturar López Núñez, que, após a última detenção de Guzmán e sua subsequente extradição para os EUA, estava se tornando uma figura proeminente no submundo do crime mexicano.

A hierarquia de poder do cartel de Sinaloa, segundo um gráfico criado pelo Departamento do Tesouro dos EUA em 2013. Esse gráfico exibe a única foto recente de López Núñez disponível na época.

No dia 16 de junho de 2016, o hacker enviou um e-mail à PGR no qual ele oferecia "informações sobre o paradeiro de Dámaso López Núñez, conhecido como el Licenciado". Em seguida, o hacker enviou um arquivo intitulado "Dados_Dámaso", que segundo ele continha imagens da campanha que ele estaria supervisionando a mando de López Núñez, bem como as coordenadas de seu paradeiro. De acordo com cópias dos emails apresentadas pelo hacker ao Motherboard, no dia seguinte, um funcionário da PGR respondeu seu email com uma confirmação de recebimento.

Segundo o hacker, menos de uma semana depois, no dia 14 de julho, ele e López Núñez se encontraram em um restaurante de frutos do mar localizado na cidade do México. Durante o almoço, o homem mostrou a López Núñez algumas fotos em seu celular. No vídeo de 32 segundos, é possível ver López Núñez comendo uma tortilha, olhando para o telefone e em seguida olhando para o hacker.

Enquanto isso, diz o hacker, um spyware chamado Spy Camera OS utilizava a câmera fronteira do celular para gravar os movimentos de López Núñez.

O trabalho do hacker não parou por aí. Após os dois deixarem o restaurante, o hacker memorizou a exata localização do estabelecimento, na tentativa de ajudar as autoridades a obter imagens de câmeras de segurança instaladas na região. Em um vídeo compartilhado pelo hacker com o Motherboard, é possível ouví-lo explicando para as autoridades mexicanas onde López Núñez havia estacionado seu carro. De acordo com nossa fonte no governo mexicano, além de fornecer o vídeo, o hacker também ajudou a localizar o carro de López Núñez.

Na semana seguinte, no dia 21 de julho, o hacker diz ter enviado o vídeo às autoridades através do Mega, um serviço de compartilhamento criptografado.

Nove meses depois, quando o vídeo caiu nas mãos dos jornalistas, as imagens do rosto de López Núñez passaram a estampar todos os jornais mexicanos. López Núñez dominou a mídia novamente alguns dias depois, mas dessa vez com uma aparência mais cansada, uma barba por fazer e um par de algemas ao redor dos pulsos.

"Esse vídeo teve um papel importante na prisão de Dámaso [López Núñez]", disse o funcionário do governo mexicano. "Eu diria até que ele foi essencial".

O agente acrescentou que seria "impossível" prender López Núñez sem a foto ou a descrição do carro que o criminoso havia utilizado para ir ao restaurante. "A gente precisava daquela foto", acrescentou ele.

Agentes da Agência de Investigação Criminal e soldados do exército mexicano escoltam o braço direito de Joaquin "Chapo" Guzman, Dámaso López Núñez, após sua detenção, no dia 2 de maio de 2017. López Núñez estaria envolvido em uma luta sangrenta pela liderança do cartel de Sinaloa. Crédito: STR/AFP/Getty Images

Graças à ciber-militarização do crime organizado, hackers e outros especialistas em tecnologia estão ganhando cada vez mais espaço na hierarquia dos cartéis. Em 2015, por exemplo, um cartel sequestrou um especialista em tecnologia da informação e o obrigou a consertar sua rede de comunicação clandestina.

O governo do México também tem certa familiaridade com hackers. Agências de inteligência mexicanas gastaram milhões de dólares em ferramentas de vigilância compradas de empresas como a Hacking Team e a NSO Group e utilizadas para espionar tanto criminosos quanto jornalistas. Mas o avanço tecnológico do governo mexicano não se limita a spywares: bots do Twitter, trolls e campanhas lançadas nas mídias sociais passaram a desempenhar um papel importante na democracia mexicana.

Nesse caso, um nerd que costumava trabalhar para criminosos exerceu um papel essencial na captura de um chefão do tráfico. Não se sabe qual é a exata natureza do relacionamento entre o hacker e o governo mexicano, assim como o status do acordo feito por ambas as partes em troca do vídeo. Continuaremos atualizando essa matéria a medida em que as autoridades mexicanas disponibilizarem mais informações.

"Vocês não imaginam como esse governo é corrupto, nem quantas pessoas eles já mataram para conseguir o que querem", disse o hacker.

Em um país onde 98% dos assassinatos não são resolvidos — e onde testemunhas sob proteção do governo são constantemente assassinadas — essas suspeitas são legítimas. Em 2011, um juiz mexicano condenou dois funcionários da PGR pelo assassinato de Enrique Bayardo del Villar, uma testemunha sob proteção federal que estava participando de uma investigação sobre a suposta relação entre o cartel de Sinaloa e servidores da divisão de crime organizado da PGR. Del Villar foi morto a tiros em plena luz do dia dentro de um café da Cidade do México.

Agora, o hacker espera que sua história inspire o governo mexicano a cumprir sua promessa — ou que no mínimo ele e sua família recebam algum tipo de proteção.

"Tudo o que eu quero é um jeito de proteger minha família", disse ele. "Estou fazendo isso pelo bem daqueles que amo."