Feminisme

Mulheres interrompidas contam suas histórias

A interrupção masculina desnecessária sobre a fala de uma mulher é mais comum do que você imagina.

por Marie Declercq
26 Junho 2018, 7:29pm

Foto por Larissa Zaidan/VICE.

Na noite de segunda-feira (25), após a transmissão ao vivo da sabatina com a candidata à presidência Manuela D’Ávila no programa Roda Viva, muitas mulheres criticaram a composição da bancada de entrevistadores e também as constantes interrupções dos mesmos, impedindo que Manuela pudesse responder as perguntas. Em alguns momentos da entrevista, a candidata trocou faíscas com Frederico D'Ávila (que, apesar do sobrenome, não tem nenhum parentesco com ela), um dos coordenadores de campanha de Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB), e teve que se impor para terminar suas respostas.

Na internet, muitas mulheres acusaram os entrevistadores de praticar o chamado “manterrupting”, que é quando um homem constantemente interrompe uma mulher em situações sociais ou de trabalho para dar a mesma opinião ou simplesmente porque não considera a opinião de mulher relevante para uma conversa.

Apesar do termo gringo, a interrupção masculina não é algo exclusivo aos Estados Unidos ou começou a acontecer agora. Em depoimentos dados à VICE, muitas mulheres narram situações (parecidas com a de Manuela) que passaram no trabalho ou em rolês com amigos.

"Mulherzinha"

Uma vez, em uma agência, um diretor de arte começou a discutir futebol comigo. Ele torce pro time rival ao meu. Quando soube disso começou a me perguntar coisas idiotas sobre futebol. Eu ia responder e ele me interrompia e me acusava, como se eu fosse responsável institucionalmente pelo meu time. Ele também me acusava de não saber coisas sem nem me ouvir. Pra coroar, quando consegui completar uma frase que mostrava que eu estava certa, ele me interrompeu mais uma vez com a clássica: "Não vou discutir futebol com mulherzinha" e virou as costas pra não me ouvir mais. Ah, e depois ele imprimiu todo O ARTIGO DA WIKIPEDIA do time dele e deixou na minha mesa. Segundo ele, pra eu saber do que eu falo. Maria, 31

"Como pode?"

Estava conversando com uma amiga sobre política. Falávamos sobre o cenário atual e eu estava comentando sobre como eram tristes todos os episódios do país e defendia um partido no qual acredito. Foi então que um colega de trabalho me interrompeu, se intrometeu na conversa e disse: "Nossa, mas você é tão estudada, trabalha em lugar como esse, como é que pode defender esse partido?". Quer dizer, o meu posicionamento significa que eu sou burra? Ou que eu tenho opinião própria? Ele ainda teve a audácia de me dizer: “Se você ainda fosse do povão, né? Mas, não... Você é estudada, como pode?” Nathalia, 24

Todos os dias

Acontece em reunião de trabalho seja na firma ou no cliente. Pelo menos uma vez por semana. Foda. Amanda, 37

"Vai, termina aí"

Eu era a única atriz mulher de uma companhia de teatro. Em todo ensaio era eu começar a falar algo e ser interrompida pra alguém "complementar" algo que eu nem terminei, aí adotei a tática de falar o famoso "vai terminaí". Tem um cara que também me interrompe nas reuniões do grupo espiritual que faço parte pra corrigir, às vezes, algo que nem precisa. Tipo "no trabalho de terça" aí ele: "terça não, quarta, não é?"
"Não, terça"
"Não, foi quarta"
"Tá. No trabalho de quarta..."
"Ah, não, foi terça, foi terça, pode crer"

A última interrupção do grupo de teatro que eu lembro foi uma discussão sobre possibilidade narrativa pro personagem e lógica dele. O cara do grupo defendeu uma que eu ouvi atentamente até o fim e quando eu comecei a falar ele começou a me interromper até eu soltar o: "agora você vai me deixar falar senãoo eu saio daqui e não volto. Rebecca, 28

"Tem certeza?"

Eu trabalho em jornais e revistas desde os 16 anos e sempre foi assim. Nas reuniões de pauta, antigamente, as mulheres praticamente só conseguiam se manifestar se o tema fosse menos sério ou de menor importância. E também você era constantemente inquirida com um "tem certeza"? Ou seja, homem não erra.

Melhorou, melhorou, mas ainda falta os homens, os jornalistas entenderem que não é porque você é mulher que a tua capacidade de trabalho intelectual é menor. Não consigo entender, sério. Já tive até pauta rejeitada que depois um cara pegou, deu um tapa, e foi aceita. Eu vejo que os jornalistas mais jovens são mais abertos, mas tem preconceito sim. Na hora de falar automático. Tive ex-marido que não me deixava terminar uma frase sem interromper. Dá vontade de chegar e falar: "Cara, eu consigo pensar, obrigada, e se puder não me atrapalhe!".

Meu ex era quase compulsivo, me interrompida sempre, inclusive em assuntos que ele não conhece como cozinhar. Aí percebi que na casa dele os irmãos e o pai fazem a mesma coisa com as suas mulheres. Paola, 50

Ciência Sem Respeito

Eu fazia parte de uma linha de pesquisa que, por se tratar de uma área de biotecnologia, a produção de dados tinha que ser elevada a sua máxima potência. Por isso, a orientadora designava algumas horinhas para que esses dados obtidos fossem processados e assim lançados. Certo dia notifiquei (ao mesmo tempo que um colega de pesquisa) que uma das minhas amostras tinha apresentado um comportamento diferente do que o esperado e vi que precisava registrar isso e notificar para a orientadora. Só que um um professor do mesmo departamento que auxiliava na pesquisa apareceu no laboratório e na hora que eu fui contar para ele meu companheiro de pesquisa me interrompeu quatro vezes para que ele pudesse falar a mesma coisa que eu.

Foi horrível. Saí do laboratório, chorei muito no ônibus por umas três horas até em casa e fiquei me questionando a respeito do meu papel naquela linha de pesquisa ali se o que eu tinha pra acrescentar era inútil. O pior é que eu nunca tive coragem de contar isso pra minha orientadora. Inventei uma crise de enxaqueca só pra ter um atestado de dois dias pra poder ficar sozinha pensando se aquilo era pra mim ou não de verdade. Luíza, 24 anos

Deboche

No meu primeiro emprego, em uma produtora cultural, sempre que eu sugeria alguma coisa eu mal terminava a frase e o meu chefe e o assistente deles me atropelavam. Geralmente eles tentavam antecipar o que eu ia falar pra fingir que a ideia era deles.

Eu era bem nova e não fazia nada quanto a isso. Respirava fundo e tentava emendar alguma coisa quando eles terminavam de falar. Mas era horrível. Eles faziam isso e depois me davam uma ordem tipo "ok, Bia, então você ouviu, né, reestrutura a planilha de produção e avisa os coloristas", transformando a minha sugestão numa ordem a mim. Era como se eles tivessem que transformar algo que sugeri fazer espontaneamente numa ordem pra me botar no lugar.

Fora que quando tinha outras pessoas na reunião, tipo clientes, eles ficavam mais sem graça de me interromper, mas davam risinho de deboche para tudo que eu falava. Se o cliente elogiasse eles fingiam que a sugestão era deles.

Teve outro emprego, meu último ano de uma editora quando troquei de redação, que não rolou interrupção, mas tinha um bullying velado (faziam careta nas minhas costas e tal, bem criança mesmo) porque eu dava sugestões que a chefia curtia. Por acaso meu chefe curtia HQ também e a gente batia muito papo disso. Por causa disso, eu era acusada de puxa saco e boicotada sempre que falava algo. – Beatriz, 30 anos

Lugar de fala

Não tem nem comparação a forma que homens interrompem mulheres do que seus iguais. Principalmente porque eles tendem a não acreditar no que uma mulher tá falando, e (acho) é por esse motivo que eles acabam não dando valor e passando por cima. E também por conta de assuntos que são “masculinos”.

Uma vez, no bar, rolou a maior discussão onde um cara afirmava que não era só cara que assediava em balada porque ele já havia sido assediado por uma mulher UMA VEZ. Enfim, depois de muita discussão, ele me pediu "dados que comprovassem", porque parecia que eu estava tirando tudo da minha cabeça. Ao começar a falar os dados, ele me interrompia falando que mulher era agressiva, e não deixava eu falar. Nisso, um outro cara que estava na discussão falou que eu “não estava respeitando o lugar de fala” do cara, porque durante a interrupção eu virei as costas e fui beber. Sim, ele usou o termo "lugar de fala" pra definir o momento que um cara tá falando (me interrompendo).

Outra situação muito comum de interrupções: mesas de reunião de todas as agências de publicidade para as quais eu trabalhei. Em salas de reunião, na medida do possível eu interfiro. Em conversas com amigos, interfiro também da forma como já vi uma conhecida fazendo: "opa, sinta-se a vontade de continuar falando". Essa vez do bar, eu fiquei sem ter muita reação porque eu tava muito cansada e só ignorei demais o cara. O do "lugar de fala" é meu amigo, e ainda pretendo introduzir esse assunto com ele. Marcella, 28 anos

Intimidação

Com frequência participo de mesas sobre literatura com meu trabalho, que é sobre a literatura feita por mulheres nas periferias. Nestes espaços, sempre exibo meu documentário (em que eu entrevistei 19 mulheres) e converso depois sobre. É raro a vez que não tem um homem na plateia, que levanta a mão e interrompe a discussão para questionar o motivo do projeto só ter mulheres, para perguntar porque não tem espaço para os homens e aí ocorre a interrupção total de toda e qualquer tentativa de dizer o porque o projeto é daquela forma, porque é necessário respeitar isso, etc.

Houve uma vez específica, no Sesc Araraquara, que o cara começou a filmar (como forma de me intimidar) a discussão e não parava de interromper tudo que eu dizia ou que outras mulheres pontuavam, para questionar o motivo do projeto ter só mulheres e maioria de mulheres negras. – Jéssica, 33 anos

Womanterrupting

Estávamos numa roda de quatro homens e duas mulheres e um dos caras falou que queria saber o que a gente achava sobre o estupro coletivo de uma menina que estava sozinha num baile funk com vários homens. Todos começaram a falar sobre como a menina era culpada, se não estivesse ali não teria sido estuprada. Quando eu tentava falar algo sobre o absurdo, eles me interrompiam. Eu comecei a falar que se ela fosse homem ela não teria sido estuprada. E eles me interrompiam falando como eles correm riscos de estupro também.

Nisso, perguntei então como nenhum homem foi estuprado no lugar da menina, já que tinha mais homens nesse lugar perigoso. Em resposta, os caras da discussão gritavam repetindo que se ela não estivesse ali nada teria acontecido. Toda vez que eu tentava falar sobre como acontecem estupros em outros lugares ditos seguros ele me interrompiam gritando e perguntando “até parece, quem de vocês já foi estuprada?”.

Detalhe: eu já. E aquela pergunta foi um baque e eu falei para eles que sim, já tinha sido estuprada. Eles se calaram e começaram a me olhar com pena e nojo e tentaram falar que estavam se referindo a outro caso. Na conversa, tive um breve momento pra explicar o manterrupting, mas durou pouco porque quando eu retomei o raciocínio pra tentar explicar como era violento e abusivo eles colocarem a culpa na vítima, os caras da discussão voltaram a gritar e ficou uma gritaria.

Eles começaram a dizer que eu era louca e que tava interrompendo eles fazendo o womanterrupting, sendo que eu tava tentando concluir um raciocínio. Eu tava falando e eles interrompendo até que o dono da casa gritou mais alto e falou “ACABOU! Não quero mais saber desse assunto” e, olhando pra mim, falou “quem quiser embora que vá”.

Eu fiquei traumatizada por um tempo com essa situação. Porque tive que relembrar e provar um trauma pra poder ter voz. Pra mim foi bem violento e durante um tempo eu ficava revivendo essa conversa e sentindo ódio no meio do meu cotidiano. Hoje eu consigo falar sobre sem sentir a aflição e nervosismo que eu sentia sempre que lembrava dessa situação. – Betina*, 28 anos

Chega

Eu trabalho em publicidade e é quase impossível descrever pra alguém de fora. A galera é muito machista. Mas a gente, inevitavelmente, aprende a lidar com as coisas de um jeito a não parecer que o descontrole é nosso. Só que às vezes não rola. Eu perdi a paciência uma vez. Eu e uma colega, que é mais jovem que eu e uma profissional foda, estávamos apresentando uma proposta interna e tinha um cara da nossa própria agência que nos interrompia sempre, tipo, desde o dia que ele foi contratado.

Quem acha que falar sobre ser interrompida é besteira nunca parou pra pensar no que isso realmente quer dizer. Quando alguém te interrompe não é uma coisa que vem do nada, interromper tá dentro de uma sistemática de diálogo que basicamente parte do pressuposto de que esta pessoa que interrompe tem mais autoridade e o que ela fala é mais importante, ela sabe mais.

Só que esse cara que nos interrompia nem fazia a mesma coisa que a gente (e minha colega era bem mais experiente que ele). Aí nesse dia eu cansei e disse pra ele o quanto era desrespeitoso interromper minha colega, ela sabia melhor que nós dois sobre o que estava falando e ele conseguiria notar isso se deixasse ela concluir uma frase. Obviamente eu saí como louca descontrolada (mesmo que uma supervisora tenha vindo me agradecer por ter feito isso), porque um homem tem todo direito de ser desinformado, rude e egocêntrico, mas se a mulher responde é um absurdo! – Silvana, 38

*O nome foi alterado pra proteger a identidade da entrevistada.

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