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As minas que invadiram a cena punk de LA dos anos 70

O Backstage Pass ensinou que a coisa mais punk de ser mulher é nunca buscar aprovação dos homens.

por Miss Rosen; Traduzido por Marina Schnoor
24 Maio 2018, 10:00am

Esquerda para direita: membros do Backstage Pass Spock, Marina, Holly e Genny (1977). Todas as fotos: © Jenny Lens, Punk Pioneer.

Numa noite em 1975, Marina Muhlfriedel foi para o Whisky a Go Go na Sunset Strip de LA, nos EUA, para assistir o Runaways, uma banda de garotas liderada por Joan Jett. Mas sua empolgação logo acabou quando ela percebeu que o notório empresário Kim Fowley estava fazendo a banda se encaixar num estereótipo de garotas sensuais.

Depois daquele show, Muhlfriedel reuniu suas amigas no Rainbow Bar & Grill e elas decidiram fazer melhor. Como por destino, Rodney Bingenheimer – o DJ e personalidade do rádio famoso por descobrir o Blondie e os Ramones – passou pela mesa. “Ei, Rodney”, gritou Muhlfriedel, “acabei de começar uma nova banda de meninas!” Ele perguntou o nome, e ela mandou a primeira coisa que veio na cabeça: Backstage Pass.

A banda começou a gerar hype mesmo antes de ensaiar. Em 1976 elas estavam seguindo seu caminho, se tornando uma das primeiras bandas da cena punk de LA e a primeira banda punk formada por mulheres da cidade. (Fora o baterista, as quatro principais membros da banda eram mulheres.)

E: Genny e Marina na Screamers Party em Hollywood Hills com Billy Zoom (da banda punk X) e Top Jimmy, 1977. D: Holly Vincent no camarim do Mabuhay Gardens em São Francisco, num show do Backstage Pass com o Mumps, junho de 1977.

No auge, o Backstage Pass fez turnê pela Califórnia, tocando com bandas como Devo, Elvis Costello, The Screamers, The Weirdos e The Nuns. Elas também ajudaram a construir o The Masque, um lendário clube punk de Hollywood, antes da banda acabar em 1979.

Recentemente, a VICE falou com duas das principais membros da banda, Muhlfriedel (Marina del Rey) e Genny Schorr (Genny Body), sobre como era ser pioneiras punk numa cena dominada por homens.

E: Tommy Gear (The Screamers) e Genny na Bomp Records (The Damned Instore), 16 de abril de 1977. D: Joey Ramone, Genny e Arturo Vega no Whisky, fevereiro de 1977.

VICE: Como o Backstage Pass começou?

Marina Muhlfriedel: Me mudei de Londres para LA alguns anos antes da cena punk começar. No final de 1975, Kim Fowley me convidou para ver a nova banda dele, o Runaways. Fui ao Whiskey para ver o show e fiquei chocada. Achei que elas iam tocar e boa, mas tinha essa merda de “Cherry Bomb” rolando – o jeito como os homens querem que você aja. Não acreditei nelas como mulheres. Não achei que aquele era o instinto criativo delas, e achei o controle do Kim questionável. Fui para o Rainbow depois, sentei com as minhas amigas e decidimos ali mesmo: “Vamos começar uma banda!”

Genny Schorr: Cresci em San Fernando Valley. Comecei a tocar guitarra no colegial, e não tinha muitas guitarristas mulheres naquela época. Minha mãe morreu de câncer de mama em 1975, e um ano depois fugi para Hollywood com alguns amigos. Conheci a Marina num show do Dr. Feelgood. Ela se tornou minha colega de apartamento e a banda era tipo minha nova família.

Muhlfriedel: Jake Riviera foi superimportante na banda. Ele e o Brian James do The Damned se mudaram para o nosso apartamento depois que foram expulsos da turnê do Television na primavera de 77. Ele puxou nossa orelha para levar o que a gente estava fazendo a sério. Ele colocou um single nosso na Stiff Records e a coisa deslanchou a partir daí.

E: Backstage Pass no The Masque, 1977, fotos por Donna Santisi. D: Backstage Pass no Starwood em West Hollywood, 1977.

Como foi esse início?

Muhlfriedel: Um cara chamado Con Merten, que trabalhava no Cherokee Studios, disse que a gente podia usar a sala de gravação pequena do segundo andar deles de graça. A parte estranha é que, no primeiro andar, Alice Cooper e David Bowie estavam gravando. Nosso espaço de ensaio tinha um espelho falso, então eles devem ter visto a gente tentando entender nossos instrumentos e escrever músicas. Na época, nenhuma de nós tinha participado de nenhuma banda de verdade, e o pessoal de outras bandas aparecia nos nossos ensaios para ajudar, ouvir e sugerir coisas. Era muito louco, como um experimento de laboratório. Depois do ensaio, a gente saía para perseguir rockstars – essa era uma grande parte da nossa vida.

Schorr: Era o fim da grande era do rock n' roll e glam, com Pete Townsend, Led Zeppelin e the Kinks. Tirei uma foto com Tom Petty e disse pra todo mundo que ia viajar na turnê com eles [risos]. Eu era a mais palhaça porque era a mais nova. As meninas sempre reviravam os olhos pra mim. A primeira coisa punk que vi foi Jake Riviera, que se tornou o empresário de turnê do Dr. Feelgood, chutando seu carro alugado. Eu nunca tinha visto nada assim. Havia muita reação negativa da cena do rock “dinossauro”.

Muhlfriedel: Era uma merda burguesa. O punk era muito mais orgânico. Você descobria tudo sozinho. Você ia para brechós, trazia as coisas pra casa, rasgava, pintava tudo e saía. Tinha muita coisa acontecendo no mundo e as pessoas estavam putas. A cena rock n' roll era ilusória e o punk jogou isso na cara deles.

Como a cena no The Masque se formou?

Muhlfriedel: Achamos o Masque porque precisávamos de um lugar para ensaiar. Uma garota que eu conhecia me disse que tinha um cara alugando um espaço. Fui até o lugar, um cinema pornô em Hollywood, e encontrei esse cara escocês chamado Brendan Mullen. Ele queria estar no epicentro de uma cena artística. Acho que ele queria criar uma coisa mais como a Factory do Andy Warhol do que o que o lugar realmente se tornou.

Expliquei que a gente precisava de um espaço de ensaio, e enquanto ele falava e reclamava, Chas Gray, Holly Beth Vincent e eu fomos em frente e construímos uma sala com uma porta e fechadura para começar a ensaiar. Assinamos o contrato de aluguel e dávamos $150 para ele por mês. Backstage Pass, the Skulls e the Controllers se mudaram para o lugar, depois outras bandas vieram. O primeiro show começou depois que alguém invadiu nossa sala de ensaio, pegou nosso sistema de som e montou num canto do palco.

Che’ Zuro e Genny Schorr, Observatório Griffith Park, UFO Obsession Show, julho de 1978.

Como era a cena punk de LA quando tudo começou?

Muhlfriedel: A garotada vinha de Valley, South Bay e East Side. Era uma convergência de garotos que queriam ser parte de algo novo. Descendo as escadas, o lugar era como um clube secreto. Aí a coisa se alastrou para alguns apartamentos próximo e se tornou uma cena.

Schorr: A cena era cheia de personagens: Fay “Farah Fuckit Minor” Hart usando uma saia de plástico transparente com uma arma de brinquedo, Belinda Carlisle, Pleasant Gehman, Trudie Barrett, Helena “Hellin Killer” Roessler – gente que precisava de um escape e de um lugar para se encaixar. Estávamos andando todas juntas e tomando o controle.

Muhlfriedel: A cena punk de LA era um produto de Hollywood: tinha algo cinematográfico e glamouroso nela. Tinha um senso incrível de autocelebração. Todo mundo metia as caras. A gente usava qualquer roupa bizarra que quisesse e ia pra balada. A gente adorava se chocar.

Schorr: Sim! Uma vez gritei “Odeio sua maldita banda!” para Clive Langer do Deaf School do outro lado da rua. Depois disse “Quer ser meu amigo?” [Risos]. As pessoas se trombavam. Havia muita criatividade. Fazíamos tudo nós mesmos: as roupas, os panfletos e os shows. Era algo muito imediato – as pessoas se desenvolviam no ato. Sempre quis que fosse um ambiente positivo porque eu tinham vindo de um ambiente familiar muito tenso.

Genny e Brian James na Bomp Records.

Como uma banda de mulheres, vocês tinham uma missão?

Schorr: Eu não gostava que me dissessem o que fazer. Eu dizia: “Vou tocar guitarra”, mesmo que a maioria dos guitarristas fossem homens. Aquilo me atraía e me fazia sentir empoderada.

Muhlfriedel: Eu me inspirava em artistas e escritoras como Judy Chicago, Yoko Ono, Anais Nin e Marina Abramovic. Eu sentia que elas eram punk do seu próprio jeito. Era importante para mim ser uma mulher que se expressava sem medo. Havia uma consciência de abrir as portas para outras mulheres. Você vive por exemplo. Se você tem a coragem de ser uma mulher que faz algo que as pessoas normalmente te dizem para não fazer, você permite que outras pessoas também façam isso e deem o próximo passo. Saber que eu tinha colhão para começar uma banda sem saber o que estava fazendo me fez sentir poderosa. Era algo premeditado na época e é premeditado agora.

Marina e Chas Gray do Wall of Voodoo, camarim do Whisky a Go Go.

Como era desconsiderar o olhar masculino na criação da arte?

Muhlfriedel: Quando você se compromete a não se restringir pelas regras masculinas, você não precisa mais lutar. Você pode ser sexy, pode ser vadia, você não tem que se preocupar com ninguém julgando seu comportamento. Lembro uma vez em que a Genny pulou do palco no Mabuhay e começou uma briga.

Você tem que se impor, não importa como, aí se levantar e fazer o que quer. Geralmente você enfrenta muito menos resistência do que se pedir permissão. Talvez essa seja a coisa mais punk de ser mulher: não peça permissão, não busque aprovação dos homens, faça isso por você. Tenha a coragem de continuar e não deixe ninguém te limitar.

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