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reportagem

A história de uma serial killer e as pessoas que tentaram entendê-la

A inglesa Joanna Dennehy cometeu uma série de assassinatos em 2013 na cidade de Peterborough.

por Adam Forrest; Traduzido por Marina Schnoor
09 Outubro 2017, 10:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

Uma casa não deveria ser uma coisa assustadora. Casas não ficam assombradas. Casas, a menos que estejam pegando fogo, não podem te fazer mal. Ainda assim, parado na frente do pequeno duplex monótono — a casa onde a serial killer Joanna Dennehy cometeu seu primeiro e terceiro assassinatos —numa ponta de Peterborough, na Inglaterra, sinto um arrepio.

As pessoas do bairro de Welland não gostam muito de falar sobre Joanna Dennehy e as coisas terríveis que ela fez. Dois adolescentes de moto, fazendo trilha num terreno gramado ao lado da casa, perguntam por que estou interessado na mulher e seus assassinatos.

"Ela era psicopata, cara", diz um deles.

"Uma puta psicopata assassina, né?", diz o amigo. "Fim da história, cara."

Joanna Dennehy e os assassinatos que aconteceram em Peterborough em 2013 ainda evocam uma fascinação mórbida: como essa mulher viveu uma vida aparentemente normal, e de repente, aos 31 anos, esfaqueou três homens até a morte por nenhuma razão clara? As pessoas, claro, não nascem assim. Então, será que há alguma coisa na história de Joanna Dennehy — ou em suas estranhas ações desde que acabou na prisão — que ajude a entender como um ser humano pode ir do aparentemente calmo ao totalmente cruel?

Dennehy não sumiu realmente, mesmo depois de ser sentenciada à prisão perpétua em 2014 e ser mandada para a penitenciária HMP Bronzefield, um centro de detenção categoria A numa área rural de Surrey. A foto dela fingindo lamber uma faca, aparentemente uma réplica de uma arma de Final Fantasy, continua alojada na psique da Inglaterra, imagem que faz um ótimo trabalho em continuar rendendo manchetes atrás das grades.

Em março de 2014, apenas um mês depois de receber a sentença, ela começou a trocar cartas com a ex-mulher de um de seus cúmplices, alegando que tinha sido condenada por um assassinato que não cometeu. Martin Brunning, um investigador que ajudou a levar Dennehy à justiça, me diz que a carta foi analisada, mas que simplesmente "não há provas que apoiem as alegações dela". Mais tarde em 2014, Dennehy teria começado um romance por carta com um pedreiro de West Sussex — um homem que disse a um tabloide que tinha se apaixonado por ela. Aí, em 2016, emergiram detalhes sobre um plano de fuga: Dennehy planejava matar uma carcereira e usar suas impressões digitais para abrir as portas biométricas da prisão. Como punição, ela foi colocada na solitária, e mais tarde naquele ano tentou processar o Ministério da Justiça, dizendo que sua segregação era uma "punição inumana e degradante".

Muita diversão depois de apenas alguns anos em HMP Bronzefield e, sem dúvida, mais coisas surgirão nos próximos anos.

Psicólogos estão chegando um pouco mais perto de entender a natureza da psicopatia e da necessidade de continuar fazendo esses jogos. Estudos descobriram que psicopatas não sentem empatia e têm uma necessidade de autoengrandecimento ganhando poder sobre outras pessoas, enquanto outros sugerem que em sua necessidade de estimulação, alguns psicopatas apresentam mais chance de comportamento de risco.

"A maioria dos psicopatas não são assassinos — eles não sentem a necessidade de matar", explica a Dra. Elizabeth Yardley, diretora do Centro de Criminologia Aplicada da Birmingham City University. "E a maioria dos assassinos não são realmente psicopatas. Eles têm sentimentos, têm consciência do que fizeram. Mas você tem essa sobreposição em casos muito extremos, como Joanna Dennehy. Penso nesse tipo de psicopata como cientistas loucos — outras pessoas são o experimento deles. Tipo: 'o que aconteceria se eu fizesse isso?' Se você tem zero empatia pelos outros, não tem nada que te impeça de matar essa curiosidade — mesmo agindo violentamente — sob certas circunstâncias."

Então o que fez Dennehy agir? Que circunstâncias a levaram a se tornar uma serial killer?

Joanna Dennehy (foto via SWNS).

Joanna Dennehy cresceu em Harpenden, uma cidadezinha em Herfordshire. A rua sem saída onde ela foi criada é um lugar calmo e confortável, mesmo parecendo um pouco chato. Sua irmã Maria disse à BBC que seus pais — a mãe balconista de loja e o pai segurança — trabalharam duro para sustentar as duas, e insistiu que a infância delas foi bem normal. "Tinha essa garota que nós amávamos, que depois se tornou um monstro", ela disse.

Problemas sérios foram detectados já na adolescência de Dennehy. Ela tinha só 13 anos quando fugiu de casa, por pouco tempo, com um homem que a irmã acreditava ser bem mais velho que ela — 18 ou 19 anos. Ela começou a roubar dos pais. Ela fugiu mais algumas vezes, depois finalmente saiu de casa de vez aos 16 com um homem cinco anos mais velho, John Treanor.

Treanor e Dennehy se mudaram para Luton, depois Milton Keynes, depois Wisbech em Cambridgeshire. Ela teve dois filhos antes dos 21 anos. Ela era violenta com Treanor, o chutando e socando quando estava bêbada. Ela ficava fora de casa por dias sem dar explicação. Ela dormia com outras pessoas. Ela se autoflagelava. E como um psiquiatra da prisão descobriu mais tarde, ela tinha parafilia sadomasoquista, uma necessidade de dar e receber dor durante o sexo.

Treanor foi embora em 2009, depois que Dennehy o ameaçou com um punhal de quinze centímetros. Ele se mudou para o norte e levou os dois filhos com ele. Dennehy passou por várias cidades de Cambridgeshire e East Anglia. Em 2012, um ano antes dos assassinatos, ela conseguiu liberdade condicional de uma pena de 12 meses por agressão. No mesmo ano, ela passou alguns dias no hospital municipal de Peterborough e foi diagnosticada com transtorno de personalidade antissocial.

Depois de ter alta do hospital, Dennehy foi até a Quicklet, uma pequena imobiliária em Peterborough, onde conseguiu um quarto. Um dos donos da Quicklet, Kevin Lee, logo deu a ela alguns pequenos trabalhos ajudando a despejar inquilinos, o que deu a ela acesso a várias casas locais. Ela cometeu seu primeiro assassinato em Welland, no lado norte de Peterborough, em uma dessas casas. Dennehy conheceu o polonês Lukasz Slaboszewski, empregado de um armazém, no centro da cidade, e ele disse a amigos que estava empolgado com sua "namorada inglesa". No dia 19 de março de 2013, Dennehy mandou uma mensagem de texto pedindo que ele viesse a um endereço em Welland. Quando ele chegou, ela fechou a porta atrás dele e o esfaqueou, enfiando um canivete em seu coração.

Claro, o assassinato não a perturbou. Em nada. Na verdade, ela mostrou o corpo de Slaboszewski — que ela tinha enfiado numa caçamba de lixo — para uma garota de 14 anos do bairro.

Dez dias depois, Dennehy matou de novo. Ela esfaqueou o chefe, Kevin Lee, na mesma casa em Welland. O homem de 48 anos tinha começado um caso com Dennehy depois de empregá-la, e pouco antes de morrer teria revelado a um amigo que ela tinha expressado um desejo de "me vestir de mulher e me estuprar".

(Foto via SWNS.)

Mais tarde naquele dia, Dennehy cometeu seu terceiro assassinato. Esse aconteceu na casa que ela dividia no sul de Peterborough, uma área isolada chamada Orton Goldhay. Ali ela atacou John Chapman — um ex-soldado de 56 anos que morava no primeiro andar do prédio — o esfaqueando seis vezes.

Depois Dennehy telefonou para Gary "Stretch" Richards, que ela conhecia de seu trabalho para Kevin Lee, e cantou "Oops I did it again". Bizarramente, Stretch e outro homem, Leslie Layton, que morava na casa de Orton Goldhay com Dennehy, não chamaram a polícia. Layton até mentiu para os policiais e Stretch ajudou Dennehy a desovar os três corpos em valas de uma fazenda.

Depois, Dennehy e Stretch, agora agindo como seu motorista, fugiram. Dennehy disse a Stretch que queria matar de novo: "Quero me divertir... Preciso da minha diversão", ela teria dito a ele. Em Hereford, Stretch parou o carro para que Dennehy esfaqueasse dois homens aleatórios: Robin Bereza de 64 anos e John Rogers de 56. Eles sobreviveram ao ataque.

"Matei para ver como eu me sentiria, para ver se eu era tão fria quanto achava. Aí eu queria mais".

Dennehy e Stretch foram pegos pela polícia alguns dias depois, e em fevereiro de 2014, Stretch foi condenado por ajudar Dennehy nas duas tentativas de assassinato, enquanto Leslie Layton foi condenado por obstrução da justiça. Dennehy pegou prisão perpétua por homicídio triplo e duas tentativas de assassinato. Ela é uma das duas mulheres vivas do Reino Unido que vão morrer na prisão. A outra é Rose West.

O juiz disse a Dennehy que ela tinha "uma sede sádica por sangue". Se os assassinatos não fossem prova suficiente disso, o que Dennehy disse mais tarde ao psicólogo da prisão com certeza foi: "Matei para ver como eu me sentiria, para ver se eu era tão fria quanto achava. Aí eu queria mais".

A casa no bairro Orton Goldhay, onde o terceiro assassinato aconteceu. (Foto por Adam Forrest.)

Já se passaram quase 4 anos desde os assassinatos, mas alguns moradores de Peterborough ainda não se recuperaram totalmente.

Toni-Ann Roberts dividiu brevemente a casa de Orton Goldhay com Dennehy. Robert se mudou cerca de uma semana depois que Dennehy chegou. Mas ela lembra das várias ocasiões anteriores em que Dennehy apareceu para cobrar o aluguel, beber e socializar com os outros moradores.

Roberts não voltou a Orton Goldhay desde o assassinato de seu antigo colega de casa. "John [Chapman] era um homem adorável", ela lembra. "Ele era alcoólatra, mas uma pessoa muito gentil. Ele me lembrava o Tio Albert de Only Fools and Horses, porque ele se sentava no sofá e começava a contar histórias da Marinha. Não pode ter um motivo para tudo que ela fez com ele."

Roberts descreve Dennehy como "intimidadora", mas diz que ela tinha um jeito de desarmar estranhos e se enturmar rápido. "Ela falava como se estivesse flertando estranhamente com as pessoas", diz Roberts. "Ela era muito direta e já entrava querendo saber quem você era, e o que você fazia. Ela sabia descobrir quem não era muito confiante e como apertar os botões certos da pessoa. Os homens tinham uma tendência a cair aos pés dela. Ela tinha esse poder estranho sobre os homens."

Em suas manipulações do sexo oposto, Dennehy possui uma qualidade camaleônica. Isso foi algo que o escritor Christopher Berry-Dee, autor de Love of Blood — um livro sobre a vida e os crimes de Dennehy — notou quando escreveu para ela na prisão e recebeu algumas cartas de resposta.

"Ela muda de cor para se encaixar ao cenário", diz Berry-Dee. "Por exemplo, ela logo descobriu que o senhorio queria fazer sexo com ela. E o polonês — ela parece ter o convencido de que tinha conhecido uma garota legal... Quando ela estava escrevendo para mim, a letra dela era linda, ortografia e vocabulário perfeitos — uma persona calma e controlada. Era uma tentativa de me impressionar. Mas tive a chance de ver a carta de Dennehy para Gary Stretch, e era completamente diferente, como se ela estivesse baixando o nível. Ela se identifica completamente com a pessoa para quem está escrevendo."

Gary "Stretch" Richards. (Foto via SWNS.)

Se isso sugere que Dennehy é alguém muito fria e astuta, essa astúcia nunca a ajudou a ter sucesso na vida. Ela não mantinha relacionamentos. Nem mesmo com os próprios filhos. Ela não subvertia as regras da sociedade para conseguir bens materiais ou conforto. Ela não funcionava muito bem em lugar nenhum por muito tempo. Dennehy pode ter se gabado de ser fria, mas sua autoflagelação contínua indica uma mente torturada.

Elie Godsi, psicóloga consultora, tem certeza de que ela deve ter sofrido algum abuso sério — provavelmente sexual — relativamente cedo na vida. "Ela é uma mulher extremamente perturbada, que, sem dúvida, sofreu algo horrível no passado, eu apostaria minha hipoteca nisso", diz Godsi.

"Ela é violenta e sexualmente violenta — e isso não acontece do nada. Não sei se isso aconteceu dentro da família dela ou não, se aconteceu quando ela era criança ou adolescente, mas mulheres não acabam assim sem uma história", acrescenta a psicóloga. "Vítimas se tornam agressores porque se sentem poderosas e no controle, como um antídoto para terem sido impotentes e controladas. Normalmente, mulheres sentem essa angústia e homens agem sob essa angústia. Mas não nesse caso."

Mas a Dra. Elizabeth não tem tanta certeza. "Conheci psicopatas que passaram por abusos terríveis ou foram negligenciados quando era crianças, por isso entraram no modo robô para sobreviver", ela explica. "Mas conheci outros que tiveram uma criação normal, sendo socializados de maneira aparentemente normal, e que ainda fizeram coisas terríveis sem qualquer consciência."

A neurociência pode dizer mais do que a história familiar? Hoje há um pequeno corpo de pesquisa sugerindo que a configuração cerebral dos psicopatas pode ser distinta, já que a falta de empatia aparece em exames de ressonância magnética. O que é curioso, mas não exatamente esclarecedor — atividade ou falta de atividade em uma parte do cérebro não parece dizer muito sobre a psique, ou a prontidão de alguém para agir sob pensamentos antipáticos. Parece mais provável, como Yardley sugere, que a violência psicopata seja "uma combinação confusa de natureza e meio ambiente".

"No caso de Dennehy, você tem uma falta de empatia, depois uma escalada de comportamento agressivo com o tempo, enquanto limite após limite é ultrapassado", diz ela. "Podemos tentar nos aproximar para entender, mas acho que nunca vamos compreender 100% de onde veio o gatilho para esses assassinatos sem propósito."

Duas vítimas de Dennehy: (esquerda) Lukasz Slaboszewski e (direita) John Chapman. (Foto via SWNS.)

Fora as famílias das vítimas, muitas pessoas em Peterborough atraídas pela órbita de Dennehy ficaram com um sentimento de ansiedade persistente, diz Toni-Ann Roberts. Parte do desconforto se deve ao caráter sem sentido da história toda. "Fiquei horrorizada", ela diz. "Tenho lutado para entender. Isso afetou muita gente que conhecia as pessoas daquela casa, não é algo fácil de esquecer. Eu não sou a única que se afastou de Orton Goldhay."

"Ainda lembro que às vezes ela tinha um olhar... assustador", diz Roberts. "O estranho é que ela foi como um tornado. Ela veio e se foi rapidamente, e deixou todas essa violência para trás. Ela perturbou muitas vidas."

Um idoso num ponto de ônibus em Orton Goldhay me diz algo que já ouvi antes em lugares onde pessoas cometeram crimes brutais: "É uma área tão calma, você não imaginaria que algo assim pudesse acontecer aqui."

Seres humanos são capazes de atos impensáveis. Sabemos disso, mas ainda ficamos chocados quando pessoas fazem coisas terríveis. O horror dentro da cabeça de alguém pode vazar para o mundo, numa rua comum e num dia comum, sem nenhum padrão ou lógica reconhecíveis.

Olhamos para um serial killer e procuramos um sinal de algo que possamos reconhecer, mas talvez seja melhor ficarmos aliviados quando percebemos que não há nada para encontrar.

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