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KenDrika Lamar também ama

Manipulando o simbolismo da água, Drik Barbosa mostra lado romântico e língua afiada em seu EP de estreia, 'Espelho', lançado pela Lab Fantasma.

por Beatriz Moura; fotos por Maya Guimarães
23 Março 2018, 12:00pm

Foto: Maya Guimarães

A água é um dos quatro elementos — junto com fogo, ar e terra — que alguns filósofos gregos antigos acreditavam ter dado origem ao Universo. Também é considerada um símbolo sagrado para várias religiões, como cristianismo, paganismo e xintoísmo, por exemplo. Para a astrologia, é um dos elementos que regem o planeta Terra. Foi pesquisando sobre os seus vários significados que a rapper paulistana Drik Barbosa construiu a linha conceitual de seu EP de estreia Espelho, lançado na última sexta-feira (16), pelo selo Lab Fantasma.

Para a maioria dessas crenças, a água simboliza fertilidade, instabilidade e a transformação. "O [Evandro] Fióti me disse que tinha muito a ver com a minha personalidade”, explicou a rapper de 25 anos em entrevista ao Noisey. "Porque, num momento, ela é calma e leve. Em outro, é brava e pesada. E eu também sou meio assim: às vezes chego doce num verso cantado, mais romântico. Às vezes chego mais dura numa rima, pondo o dedo na ferida."

A integrante mais jovem do grupo Rimas & Melodias recebeu a equipe da VICE na sede da Lab Fantasma em Santana, bairro da Zona Norte da capital paulista. Mesmo lugar onde, em 2017, ela assinou com os irmãos Emicida e Fióti para se tornar membro de um dos selos mais (senão o mais) consolidados no cenário atual do rap nacional. E era ali que, agora, quase um ano depois, que ela estava dando suas primeiras entrevistas sobre seu primeiro trabalho oficial.

Bem antes de fazer parte oficialmente da Lab, no entanto, Adriana Barbosa era, como ela mesmo descreve, uma "fã louca" do Emicida. Colava em quase todos os shows, cantava todas as músicas, sabia todas as letras. Tal como o ídolo, era frequentadora da Batalha do Santa Cruz, que acontece perto da estação de metrô homônima há 12 anos na capital paulista. Era 2006, tinha de 14 pra 15 anos e morava perto da região. Mas não curtia muito participar das batalhas, não. "Sempre que ia batalhar com um cara, eles apelavam para linhas do tipo 'ah, e a louça?' ou rimavam falando pra eu passar chapinha no cabelo. Aí eu ficava puta. Enchia o saco", contou Drik, que preferia participar das rodinhas de freestyle, nas quais chegava às vezes cantando, às vezes rimando.

Foto: Maya Guimarães

Acabou chamando a atenção de alguns MCs, que começaram a convidá-la para gravar os refrões cantados das músicas deles. Foram mais de 40 músicas fazendo participação — entre elas, a faixa do Emicida “Aos Olhos de uma Criança”, da trilha do filme O Menino e o Mundo (2013) —, alguns singles lançados com seu amigo de infância, o produtor Kriolão, e Drik ia levando sua vida musical ao mesmo tempo que arrumava outros vários trabalhos para poder ajudar no sustento da casa. "Fui recepcionista, atendente de telemarketing, monitora de transporte escolar. Tinha medo de me jogar na música e não dar certo, porque eu não podia ter uma instabilidade financeira maior do que a que eu já tinha", explicou.

Só depois do lançamento do também single do Emicida "Mandume", do disco Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015) que Drik decidiu que ia se dedicar exclusivamente à música. Diz que não pensava em trabalhar com som, mas também não pensava em trabalhar com outra coisa. “Quando eu subi no palco pela primeira vez, me senti bem do jeito que eu nunca me senti. Ali eu soube o que eu queria". Trouxe para cantar junto com ela sua irmã do meio — Drik é a mais velha de três irmãs —, Kelly Souza, que faz a voz de apoio das suas músicas. "Ela também trabalha só com música agora, comigo. Eu fico incentivando ela a compor suas músicas, mas ela ainda tem vergonha. Quem sabe um dia rola", contou a rapper.


Foi em "Mandume" também que a rapper de 25 anos começou a se reconhecer mais como mulher preta. "Essa faixa trouxe à tona uma outra Drik, mais consciente. Eu já fazia rimas, misturava R&B e rap, mas sempre de uma maneira sentimental e mais leve", comentou. "Depois de 'Mandume', comecei a buscar mais referências para construir minhas linhas, mas sem perder esse meu lado romântico, porque a gente também ama, né (risos)."

Foto: Maya Guimarães

Drik já vinha transitando entre esses seus dois lados, "romântico" versus "língua afiada", nos seus singles solos e no Rimas & Melodias. Por isso ela justifica a escolha do elemento água para reger Espelho — inclusive, o primeiro nome do EP foi “Espelho D’Água” — , trabalho em que esta dualidade fica explícita ao longo das suas cinco faixas: em "Inconsequente", a única love song do EP, Drik canta de maneira bem doce em cima de uma guitarra suave e arranjo de metais sobre uma pessoa que encontra um amor depois de ter vivido uma série de relacionamentos ruins. Já em "Camélia", um trap mais pesado, ela traz rimas bem afiadas sobre questões raciais que mulheres negras enfrentam. "Lendo o livro Na Minha Pele, do Lázaro Ramos, descobri que 'camélia' era um símbolo abolicionista. Usei esse símbolo para escrever sobre a nossa liberdade, das 'negas dramas', que vivemos numa sociedade machista e racista que ainda tenta nos aprisionar", explicou.

Em "Melanina", ela e Rincon Sapiência fazem um som de festa."É importante para nós negros esse momento de celebração também. Trabalhamos tão duro sempre, temos direito de festejar, de descontrair", disse Drik, que explicou que queria uma música com batida baseada em “Feeling Myself” (2014), da Nicki Minaj com a Beyoncé, uma das suas maiores ídolas internacionais. É nessa faixa que ela, com muita audácia, chama a si mesma de "KenDrika Lamar", em referência ao rapper americano Kendrick Lamar. "Se os [rappers] homens podem se comparar a outros homens ou mulheres fodas, eu também posso, não é?"

Para a faixa-título, a rapper convidou sua maior inspiração de rapper nacional, Stephanie, sua parceira de Rimas e Melodias. "Sou fã dela muito antes do Rimas e eu precisava colocá-la de qualquer jeito nesse trampo, porque quando ouvi ela rimando pela primeira vez pensei que era daquele jeito que eu queria rimar". Para completar, "Banho de Chuva", música que Drik já canta há uns dois anos nos seus shows, ganhou uma versão de estúdio para o EP. Espelho contou com direção musical de Grou, produtor e beatmaker que já com Drik no Rimas & Melodias. Grou também produziu todas as faixas do EP, menos "Melanina", que foi produzida por Deryck Cabrera.

Foto: Maya Guimarães

Drik foi selecionada pelo edital da Natura Musical 2018 e, ano que vem, deve lançar um disco cheio intitulado Heranças (até o momento), no qual vai abordar o tema do título sob várias perspectivas. Mas, antes de se jogar de cabeça num trabalho mais denso e temático, a rapper sentiu a necessidade de soltar um material mais pessoal, para que o público a conhecesse melhor. “ Espelho vem para que as pessoas vissem quem eu sou. Eu queria que ele refletisse a minha personalidade, por isso o nome", contou. "Tenho que ir preparando o terreno pro lançamento do álbum, porque muita gente não sabe ainda quem é Drik Barbosa e eu quero que cada vez mais gente me conheça e, principalmente, conheça meu trabalho."

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