reportagem

A judia ortodoxa que se tornou a maior peruqueira do Brasil

Em São Paulo, Yaffie Begun toca uma fábrica caseira de madeixas que já fez a cabeça de figuras públicas como Dilma Rousseff e hoje é uma grife internacional.

por Guilherme Pavarin; fotos por Larissa Zaidan
31 Agosto 2017, 9:00am

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

A vendedora Marcela Manache pode, num mesmo dia, usar três tipos de cortes de cabelo. Se pela manhã vai à sinagoga com penteado chanel em tons castanhos, não vê motivos para, horas depois, não sair às ruas com fios louros para além dos ombros. "Não estou nem aí para o que o porteiro pensa de mim!", diz, com bom humor, na entrada de seu prédio no bairro nobre de Higienópolis, em São Paulo. Com ar de modelo, ela tira as madeixas marrons e lisas da testa e, como se já soubesse a resposta, questiona: "Quem não é judeu e me vê não diz que é peruca, diz?"

Aos 42 anos e mãe de sete filhos, Marcela é uma mulher alta, magra, de olhos azuis e vivos, que segue o chassidismo, uma corrente do judaísmo medieval surgida na Polônia e na Ucrânia no século 12. Fiel e praticante, ela cumpre à risca a recomendação rabínica de que mulheres devem, depois de casadas, mostrar joelhos, cotovelos e cabelos apenas para seus maridos. Ainda assim, não dispensa a moda atual. Para cobrir o corpo, veste peças vintage que ela mesmo faz; já para o cabelo, usufrui das mais chiques perucas do mercado — mas não sem realizar extensa pesquisa de campo. "Sou a neurótica de peruca", conta, enquanto exibe modelos com os mais variados estilos de fios e cores pelo celular. "Passo o dia todo as vendo e selecionando no Instagram. Olha essa que perfeita!"

Numa tarde recente, depois de meses de confabulação, Marcela resolveu comprar uma nova cabeleira artificial com aquela que julga ser a melhor do ramo, a americana Yaffie Begun, de 46 anos, residente há mais de duas décadas em São Paulo. Tida por muitas co-religiosas como a rainha das perucas, a nova-iorquina atende suas centenas de clientes em um quartinho no seu espaçoso apartamento no bairro de Jardins, em São Paulo. Lá, moldes e perucas são vistos por todos os lados. Quando a interessada chega, a peruqueira cobre uma mesa de jantar inteira com variadas opções de cortes, mechas, comprimento e caimento. Yaffie então começa, sempre com muita conversa, a experimentar peças. Penteia, mescla cabelos, sugere corte, instrui como lavar. Cada minúcia é passada ora em português, ora em inglês.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

No dia da visita, Yaffie usava vestido preto longo e uma peruca de fios lisos e pouco ruivos até pouco depois dos ombros, quase como os vistos em propagandas de shampoo. Risonha, com pele muito clara, olhos claros e miúdos, explicava com detalhes o processo de atendimento — o repórter, claro, não podia acompanhar a revelação capilar. Enquanto escovava os moldes que usa para criar as combinações de penteados, falava do preconceito religioso que tem de lidar. "A definição de judeus ortodoxos não é real, é caricatura, não há nada o que possa fazer", diz. "Dentro da religião tem mulheres que realmente são muito antiquadas, I get crazy, me incomoda muito. Mas eu, por exemplo, gosto de de poder me vestir de maneira transada, fashionable. É o meu trabalho."

O dom de Yaffie com cabelos começou cedo. Ainda criança, aprendeu os truques capilares ao cuidar dos fios artificiais da mãe. Em pouco tempo sabia arrumar e limpá-los como ninguém. Depois começou a lavar e pentear as peças das irmãs e das cunhadas. Fez fama entre amigos e, mais tarde, no Brasil, passou a receber pedidos de colegas judaicas para nutrir cabelos tão bonitos quanto os dela. Com a demanda, a americana iniciou as compras de artigos capilares de Nova York para montar perucas aqui. Nessa viagens adquiriu conhecimento para fabricá-las por conta própria. Assim, confeccionando peças religiosas de alto nível, sentiu-se realizada. "Acreditamos que a presença divina continua pairando em cima da cabeça da mulher casada", explica, em pé na sala de sua casa. "Não é só estética. É uma razão mística."

"Acreditamos que a presença divina continua pairando em cima da cabeça da mulher casada. Não é só estética. É uma razão mística."

Não faz muito tempo, Yaffie viu sua fama ultrapassar os domínios judaicos. O boca à boca das amigas da religião tornou sua marca uma grife de luxo pelo mundo. Hoje uma peruca da Crown Wigs pode custar mais de sete mil reais. A razão, dizem as clientes, são os cabelos impecáveis, escolhidos a dedo pela peruqueira e procurados até por celebridades da moda como Naomi Campbell. "São fios indígenas da América do Sul, os melhores cabelos que tem", diz, mostrando a textura de uma mecha na sala de sua casa. "Mas nem vem que não posso revelar onde acho, é segredo", completa, entre risadas. "Isso vale ouro!"

Foto: Larissa Zaidan/ VICE
Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Para obter o material, Yaffie viaja todo mês com um segurança por vielas sul-americanas. Chega a garimpar toneladas de fios em dois dias de peregrinação. Numa remessa, pode comprar 80 quilos. Os fios mais claros, antes achados na região sul do país, agora vêm da Ucrânia. É que o mercado nacional, explica, saturou com a alta demanda por mega hair, uma técnica de aplique e alongamento de cabelo. "Chegamos a importar muito da Índia, mas os rabinos descobriram que os comerciantes cortavam os cabelos das meninas em nome da religião e não davam nenhuma compensação", conta. "Era uma… Como se diz? Sacanagem?" Apoiado na mesa das perucas, o principal ajudante dela, o marido e rabino brasileiro Mendel, um homem alto, de aparência sacerdotal, com espessa barba grisalha e quipá, confirma com a cabeça: "É uma sacanagem, na Índia não compramos mais."

Yaffie e Mendel se conheceram quando ele terminava os estudos religiosos em Nova York. Casaram-se em 1989 nos EUA e tiveram seis filhos no Brasil. Nos últimos anos, com o boom das perucas, o marido, que também é psicólogo, teve que se dedicar em tempo integral à companhia da mulher. Hoje ele cuida em especial da apresentação do produto para médicos. O marketing dá resultado. Muitos dos principais hospitais do país recomendam as perucas judaicas em seus departamentos de oncologia. A comerciante mineira Cláudia Brito, de 43 anos, foi uma das que, ao tratar de câncer de mama, recebeu indicação do serviço. Mandou fotos de seu cabelo preto e comprido para o WhatsApp de Yaffie e, quando a visitou, surpreendeu-se com o realismo da peça. "Era igual ao meu cabelo. Era 'o' cabelo", disse Cláudia, alegre, na semana em que havia retirado a peruca por completo e adotava o corte curto. "Foi importante, ajudou demais na autoestima. Ficamos muito abaladas com o inchaço. A peruca ajuda a embelezar", conta. "E minha mãe nem percebeu que era peruca", ri.

Yaffie também coleciona elogios de atrizes, cantoras e famosas da política que usaram suas perucas durante tratamento de câncer. Em 2009, recebeu a ligação do assistente daquela que seria uma de suas clientes secretas mais célebres. Do outro lado da linha, a voz de uma secretária pedia discrição total. Falava em nome de uma importante figura nacional que estava com câncer. "Tava esperando Cláudia Leitte, don't know, Ivete Sangalo", diz a peruqueira. Quando chegou lá, porém, não reconheceu a mulher de dentes grandes, ombros tensos e traços fortes. Era Dilma Rousseff, então Ministra da Casa Civil. "No começo ela foi dura, ficava me chamando de 'menina isso, menininha aquilo'", conta Yaffie. "Ela é muito incisiva, não tolera conversa fiada. Mas depois ficamos amigas."

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

A peruqueira conta que levou diversos tipos de madeixas para a futura presidente em um hotel. Após breves momentos de rispidez, Dilma se interessou pela fé do casal. "Falamos bastante de religião", lembra a peruqueira, no sofá de sua casa. "Ela me contou que serviram comida kosher [que segue as leis alimentares judaicas] na Casa Branca e disse do que gostou. A Dilma vem de família judaica, embora não goste de falar muito. Numa certa época os antecedentes dela se converteram por motivos de perseguição religiosa."

Na tarde da visita, Yaffie havia atendido seis mulheres: duas judias e outras quatro em processo de quimioterapia. Ela estima que quase 80% de seus clientes são pacientes oncológicos. De resto, calcula, são 15% de mulheres religiosas e 5% são por moda e beleza. "No Grammy quase 100% das mulheres botaram alguma coisa [no cabelo], então essa parte do meu trabalho está crescendo", conta.

Um dos atrativos do serviço de Yaffie é a discrição. Por causa da aparência trivial do prédio, nem o mais sagaz dos paparazzi desconfia que ali funciona uma fábrica de perucas. Muitas celebridades com problemas de saúde veem ali um porto seguro contra flashes e notícias sensacionalistas. Por motivos parecidos, as judias ortodoxas apreciam muito o atendimento no local. "A Yaffie é especial. Sabe tudo de cabelo como também conversa, entende as pessoas, é muito iluminada", diz Marcela, a judia-fashionista. Ela, aliás, amou o resultado da nova peruca. Dias depois de visitar a peruqueira americana, chegou em sua casa a peça ajustada com fios louros perto da franja. "Era exatamente o que eu queria", falou. E, em tom de piada, completou: "Pode botar pra encerrar sua matéria: só faltou eu pagar."