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Ninguém sabe dizer se pornô é ruim pra você

Estudos recentes dizem que exposição a pornô pode transformar homens em misóginos. Mas a formação do comportamento não é tão simples assim.

por Gray Chapman; ilustrado por Lia Kantrowitz; Traduzido por Marina Schnoor
17 Agosto 2017, 4:01pm

Imagem por Lia Kantrowitz.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Não importa qual foi sua introdução ao pornô — revistas de mulher pelada no armário do seu pai, assistir furtivamente Girls Gone Wild na casa de um amigo —, é sempre uma experiência formadora. Tanto que entender como o pornô molda nossos comportamentos, atitudes e preferências mais tarde, são questões que vêm confundindo pesquisadores há décadas.

A resposta, se você tentar encontrar sozinho, parece estar por toda a internet na forma de manchetes estilo "seu cérebro ficar assim quando você assiste pornô": Pornô é ruim para o cérebro, pornô mata suas amizades e sua ereção, pornô sobrecarrega seu lobo frontal com descargas de dopamina. (Nota: Na verdade, dopamina não funciona desse jeito.) Porra, o pornô até estragou os orgasmos de John Mayer.

Mas será que isso realmente transforma moleques inocentes em homens misóginos?

Recentemente, uma equipe de doutorandos da Universidade do Nebraska-Lincoln apresentou suas descobertas num estudo que examina a ligação entre a idade em que um homem é exposto inicialmente à experiência do pornô (especificamente online) e, mais tarde na vida, sua atitude em relação às mulheres. A equipe entrevistou quase 300 universitários, na sua maioria brancos e heterossexuais (84,9% brancos, 92,6% héteros) sobre sua primeira exposição ao pornô e a natureza desse encontro (ou seja, se foi acidental, intencional ou forçado), depois pediram que os participantes respondessem um questionário para medir quanto eles se conformavam com certas "normas" de masculinidade, como o desejo de procurar ter poder sobre mulheres ou busca de status, que o Índex de Conformidade com Normas Masculinas (CMNI em inglês) define como "ter prazer em se achar importante".

Seus dados revelaram que participantes que relataram exposição quando muito jovens tinham mais chance de procurar poder sobre mulheres, baseado nas respostas da pesquisa, que define esse comportamento como "suposto controle sobre mulheres nos níveis pessoal e social". Enquanto isso, participantes expostos mais tarde na vida tinham mais chance de exibir comportamento promíscuo de "playboy", definido no inventário como um "desejo por várias relações sexuais sem compromisso e distância emocional das parceiras sexuais". Basicamente: quanto mais jovem você, homem, assiste pornô, mais chance tem de ser escroto com mulheres. Mas é realmente simples assim?

Não exatamente.

A mídia adora pegar esse tipo de dado e bater o martelo. Mas afirmações de que pornô causa misoginia, ou que "garotos que assistem pornô têm mais chance de se tornarem misóginos", são distorções bem flagrantes do que os dados realmente representam. Veja o que os próprios pesquisadores dizem: "Como não é um relacionamento casual, não podemos dizer o que veio primeiro", disse Christina Richardson, doutoranda da UNL que conduziu o estudo.

Ainda assim, quando se trata de estudar pornô, pessoas leigas como nós estão sedentas por conclusões. "Pornô é uma grande fonte de curiosidade como cultura e para nossas ansiedades cercando a sexualidade", disse Shira Tarrant, especialista em estudos de gênero e sexualidade, autora e importante pesquisadora de pornô. "Essa é parte da atenção que vejo esses estudos ganharem, mesmo quando os dados são preliminares." O que, ela alerta, é o caso desse estudo. Dados, sim; um pequeno passo em direção a um melhor entendimento. Mas não uma prova definitiva de que pornô causa misoginia.

"Há outras variáveis para considerar na relação entre exposição ao pornô e comportamentos de gênero: eles foram criados numa religião? Quais eram as ideologias dos pais? Como foi sua educação sexual, se é que tiveram?"

Pesquisas baseadas em dados relatados pelos temas podem ser problemáticas, disse Tarrant, especialmente quando se trata de tópicos tão culturalmente carregados como sexualidade e gênero: as respostas são simplesmente menos confiáveis. Além disso, como Richardson e Tarrant apontaram, há outras variáveis para considerar na relação entre exposição ao pornô e comportamentos de gênero posteriores: eles foram criados numa religião? Quais eram as ideologias dos pais? Como foi sua educação sexual, se é que tiveram? "Há muitas outras coisas que influenciam como nos entendemos e formamos nossas identidades de gênero, e essas outras coisas também podem ter um impacto em como um adolescente pode experimentar exposição à pornografia", disse Tarrant.

Mas mesmo que os resultados do estudo da UNL não sejam conclusivos, eles representam um pequeno avanço. Richardson diz que, além de reforçar algumas teorias, os dados também podem ter implicações interessantes em prevenção de abuso sexual, especialmente considerando a qualidade e conteúdo da educação sexual nos EUA. "A idade média da primeira exposição em nosso grupo era de 13 anos", ela explica. "Então, aos 13, se pornografia é o único meio pelo qual eles recebem qualquer mensagem sobre sexualidade, talvez pudéssemos complementar isso com visões mais balanceadas, ou evitar que essa fosse a única mensagem que eles estão recebendo, se isso leva mesmo a crenças mais problemáticas."

Pornô é um objeto de fascinação na ciência popular, mas baseado nas conversas que tive com pesquisadores, da perspectiva deles isso é um pântano de incerteza, afirmações vagas e, como no caso desse estudo da UNL, amostragens pequenas. As implicações psicológicas, sociológicas e fisiológicas, e efeitos de longo prazo do consumo de pornô têm sido uma área de interesse há décadas, mas a pesquisa em si é notoriamente confusa. Acrescente a isso o tabu social cercando o pornô, e a coisa complica ainda mais. "O modo como os pesquisadores definem [pornografia] pode depender de suas próprias perspectivas políticas, que tipo de conteúdo eles acham alarmante", explicou Tarrant.

Zachary Bloom, professor-assistente no Departamento de Educação da Northeastern Illinois University, descreve o campo de pesquisa sobre pornografia como "infestado de limitações", citando metodologias variáveis, opiniões diferentes sobre pornografia e uma falta de um jeito uniforme de quantificar exposição ao pornô. "O interessante na pornografia como agenda de pesquisa é que isso ainda está ganhando impulso de onde estava antes da disseminação da internet, e os pesquisadores estão limitados pela variedade de instrumentos que têm para medir construções relacionadas à exposição ao pornô, o que, novamente, torna difícil tirar conclusões quando você compara estudos", disse ele. "Podemos encontrar tendências nas pesquisas existentes sobre exposição e uso de pornô, mas as conclusões precisam ser tratadas com ceticismo." A maioria das pesquisas publicadas até agora — incluindo os novos dados — mostram relações mútuas, não necessariamente evidências de causa e efeito.

Simplificando, os estudiosos ainda não têm certeza em que extensão o pornô molda nossos cérebros e comportamentos. Mas, com cada pedaço de dados, a ciência avança um milímetro em direção a uma compreensão melhor de como o pornô influencia as pessoas que nos tornamos.

"É isso que conhecimento é; é isso que a ciência faz", disse Tarrant. "Alguém que trabalha em seu laboratório por 20 anos e chega um centímetro mais perto de entender o fenômeno... não é a palavra final, mas é um passo numa direção construtiva."

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