Eyehategod. Foto: Divulgação

Faz 30 anos que o Eyehategod ama turnês e conhecer o mundo

Clássica banda de sludge de New Orleans estreia no Brasil com shows em SP, Rio e Belo Horizonte. Vocalista Mike IX Williams fala sobre Nick Cave, um transplante de fígado e ter sido preso 35 vezes.

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05 Outubro 2018, 4:51pm

Eyehategod. Foto: Divulgação

Responsável por alguns dos discos mais interessantes (e barulhentos) do metal/punk dos anos 1990, como Take as Needed for Pain (1993) e Dopesick (1996), o Eyehategod finalmente fará sua estreia em palcos brasileiros neste mês de outubro após 30 anos de uma história recheada de riffs arrastados, gritaria e muita microfonia.

Nesta primeira vinda ao Brasil, a lendária banda de New Orleans toca em três cidades brasileiras: Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, sendo que as apresentações nas capitais paulista e carioca acontecem dentro do Abraxas Fest, ao lado dos alemães do Samsara Blues Experiment (nota: o repórter vai tocar com a sua banda, Basalt, na abertura do show de BH).

Na entrevista abaixo, o vocalista Mike IX Williams fala, obviamente, sobre a expectativa para esses primeiros shows do agora quarteto no Brasil (e na América do Sul), as mudanças na estrada e na sua vida após um transplante de fígado feito há cerca de um ano e meio, o impacto da saída do guitarrista Brian Patton após 25 anos com a banda, e a sua admiração pelo Nick Cave e pelo punk brasileiro, entre outras coisas.

Noisey: Vocês finalmente virão para cá depois de 30 anos de carreira. Por isso, queria saber quais as suas expectativas para esses primeiros shows da banda no Brasil e na América do Sul?
Mike IX Williams: Fuck yeah, man! Eu estou animado pra cacete. Queria ir para a América do Sul há anos e anos, e apenas nunca surgiu a oportunidade. Até então, ninguém tinha vindo falar conosco sobre isso. E agora finalmente conseguimos agendar essa tour. Estamos indo pela Abraxas, que tinha levado o Neurosis (nota: a banda californiana tocou por aqui no final de 2017). E eles (Neurosis) são bons amigos meus e disseram que tiveram uma ótima experiência. Estou super animado, mal posso esperar.

E você está animado para conhecer alguma cidade em especial do Brasil e da América do Sul?
Todas elas, todas as cidades. Mal posso esperar para conhecer todas. Como disse, nunca estive aí. Por isso, estou animado para ir em todos os lugares. Ao Brasil, é claro — vamos tocar no Rio de Janeiro — ao Uruguai. Estou animado para ir a qualquer lugar exótico ou diferente em que pudermos tocar.

Falando nisso, você lembra qual foi a primeira banda brasileira que conheceu na sua vida?
Não consigo lembrar o momento exato ou coisa assim, mas… Quer dizer, há muitas bandas boas por aí, na América do Sul de forma geral. Sou fã do Ratos de Porão e também do Olho Seco.

Aliás, o Nick Cave vai tocar em São Paulo um dia depois de vocês. Vai ser o primeiro show dele por aqui desde que ele morou no Brasil, no início dos anos 1990.
Ah é, sério? Uau, cara. Acho que vamos perder esse show, no entanto. Acho que não estaremos em São Paulo neste dia (nota: o EHG toca no Rio de Janeiro em 14/10, quando Nick Cave se apresenta em SP). Mas adoraria ver esse show. Quer dizer, acho que você sabe disso já que mencionou o assunto. Mas é, o Nick Cave é um dos meus artistas favoritos de todos os tempos.

Talvez ele possa ir assistir ao show do Eyehategod no sábado à noite então (risos).
(Risos) Duvido seriamente que ele faria isso, mas seria incrível. Mas realmente duvido que ele saia em público apenas para ver uma banda qualquer como o Eyehategod (risos). Mas seria legal. E não sabia que ele tinha morado aí no Brasil, isso é muito legal.

Agora sobre o show de vocês. Queria saber como foi fazer o setlist para essa tour comemorativa de 30 anos. Vocês tiveram alguma dificuldade para escolher músicas que representassem toda a história da banda e agradassem a todos?
Bom, nós fazemos isso de qualquer forma. Sempre tocamos algo de quase todos os discos. Normalmente só tocamos 1 hora, 1h15, então tentamos tocar tudo que podemos — e sabemos. O Aaron (baterista) já está na banda há uns seis anos, mas ainda há algumas músicas que ele não conhece. Mas, no geral, tocamos as músicas que todo mundo conhece, tocamos coisas de todos os discos. E esse lance dos 30 anos também tem a ver com a nossa ida para a América do Sul, de podermos celebrar quando estivermos aí. Estamos em turnê desde o final do ano passado, caímos na estrada logo depois do Natal. E só ficamos em casa umas duas semanas desde então. Então iremos para casa depois que essa turnê acabar, que será basicamente setembro (nota: essa entrevista foi feita em julho), e vamos tentar gravar. Pelo menos é o que esperamos. Precisamos escrever algumas músicas novas. Fizemos uma demo, mas foi em uma época diferente, por volta de 2016, e agora somos um quarteto. Então vamos regravar algumas coisas; esperamos conseguir fazer isso em setembro, antes de ir para o Brasil em outubro. E vamos celebrar aí o nosso 30º aniversário. Espero que as pessoas estejam animadas para nos ver aí.

Cartaz da turnê latino-americana do Eyehategod.

Com certeza, cara. Aliás, você falou sobre a banda agora ser um quarteto, uma vez que o guitarrista Brian Patton saiu recentemente. Então queria saber se vocês terão de mudar algumas dinâmicas nas músicas por conta disso, uma vez que agora só tem uma guitarra na banda?
Não realmente. Quero dizer, o Jimmy vai tocar as partes que o Brian tocava. Há apenas algumas músicas que o Brian começava tocando. Basicamente, ele e o Jimmy tocam a mesma coisa, com exceção de algumas partes específicas. Mas o Jimmy está se saindo muito bem. Ele coloca amplificadores dos dois lados do palco, então ainda é tão alto quanto era antes, quem sabe ainda mais alto. É assim que estamos fazendo. Pessoalmente… não tenho nada contra o Brian, amo o Brian, ele ainda é um ótimo amigo — ele teve de sair por questões familiares. Mas gosto mais da banda como um quarteto. Meio que sempre quis que a banda tivesse uma formação com quatro pessoas. Porque é mais punk — pelo menos para mim. Porque não nos considero uma banda de metal — e também não nos considero uma banda punk. Mas, para mim, apenas tem algo que gosto no jeito que a banda soa com uma guitarra. Tipo o Black Flag… Eu sei que eles tiveram duas guitarras em uma época, mas eles começaram com uma guitarra. E apenas considero como no estilo do início de carreira do Black Flag.

E é estranho olhar para o lado no palco e não ver mais o Brian após 25 anos?
Não, já me acostumei (risos). Como disse, para mim é mais fácil, é divertido. Nada contra o Brian, é claro. Mas é apenas mais simples. E nós dividimos o dinheiro em quatro, sabe? É legal (risos).

Você falou agora sobre a banda passar muito tempo na estrada. Acha que isso ficou mais fácil e/ou menos cansativo depois que você fez o transplante de fígado há cerca de um ano e meio?
Bom, é mais fácil agora porque não estou mais bebendo vodca todo dia, como eu fazia. Eu costumava tomar umas duas garrafas de vodca todos os dias. E isso acaba se tornando um hábito, mas também é algo muito doloroso. Algo que você faz e se arrepende no dia seguinte. Então não beber mais desse jeito definitivamente torna as coisas mais fáceis. Mas é que… Quando você fica na estrada por tanto tempo, apenas fica entranhado na sua mente. Você apenas sobe e toca. É claro que todas as noites são diferentes, o público é diferente, sempre tem algo diferente. Mas nós apenas subimos e destruímos tudo.

E você teve de mudar mais alguma coisa na sua rotina na estrada após o transplante?
Não, não realmente. Apenas estou tentando comer melhor. Agora sou basicamente 99% vegetariano. Quer dizer, fui vegetariano nos anos 1990 por uns cinco ou seis anos, mas acabei “caindo desse vagão”. Mas, mesmo assim, nunca comi realmente muita carne vermelha, era sempre frango ou peixe. Mas estou tentando cortar tudo, ser totalmente vegetariano. Esse é definitivamente um aspecto mais saudável para mim. Então isso e o lance de beber. Mas ainda damos 1000% de energia e tudo mais no palco.

Durante algum tempo em que não podia se apresentar ao vivo, por problemas de saúde, você foi substituído pelo Phil Anselmo e pelo Randy Blythe à frente do Eyehategod. O que achou deles à frente do EHG? Você conseguiu ver algum vídeo deles com a banda ou algo assim?
Isso foi ideia minha, esses caras são amigos meus. E eu estava muito doente, não conseguia tocar com a banda, estava muito mal para tocar. E então fiquei no hospital por alguns meses. Mas, tirando tudo isso, eles (EHG) tinham uma turnê agendada com o Discharge, uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos. Na verdade, eles tinham alguns outros shows agendados… Os shows que o Phil fez era no lance do churrasco do Gwar. Então tinha isso e a turnê com o Discharge. E então chamamos o Phil para fazer os três shows em torno do Gwar-B-Q e o Randy para fazer a turnê com o Discharge. Porque apenas pensei que a banda ainda devia fazer essas turnês. Não sou esse tipo de pessoa, não ia falar algo como “Não, não façam esses shows porque eu estou doente, vocês não podem tocar”. Eu não disse isso e nunca iria dizer. Eu estava tipo “Cara, vocês têm que fazer isso”. E quando está agendado desse jeito, já há coisas investidas e tudo mais. E, como o Randy é meu amigo, nós ligamos para ele e ele topou imediatamente. Então fiquei feliz por eles terem feito isso. Agora o Eyehategod está associado ao Discharge. E eu conheci os caras, os encontrei recentemente na Inglaterra. Então é legal poder ser associado com uma das minhas bandas favoritas.

E se fosse o oposto, em qual banda você gostaria de ser vocalista por um dia ou algumas datas, como foi o caso do Phil e do Randy no Eyehategod?
Isso é difícil, é algo impossível de responder. Existem tantas bandas que eu amo. É difícil de responder, não consigo escolher uma. Gosto de muitos tipos diferentes de música, não escuto apenas um estilo. Ouço de tudo, desde dub e reggae até Pink Floyd, The Germs e Dead Boys. Sou um grande fã das coisas antigas, Sex Pistols e tudo isso. Há tantos tipos de música e tantas coisas que eu gosto. Seria difícil escolher uma.

Aliás, aproveitando que falamos sobre o transplante agora. Você se vê como uma espécie de sobrevivente por tudo que passou — o transplante, problemas com drogas/bebidas, o fato de ter ido para a prisão, entre outras coisas. O que te faz continuar com o Eyehategod após todas essas coisas?
Ahh, quero dizer, apenas a vontade de sobreviver. Como você disse, apenas uma mentalidade de sobrevivente. Perdi meus pais quando era muito novo. Eu estava por conta própria quando tinha 14 anos, vivia sozinho nessa época. Quero dizer, é claro que houve momentos em que estive suicida e coisas assim, isso acontece. Mas, na maior parte do tempo, a vontade de sobreviver, de seguir em frente. E você passa pelas coisas na vida. As coisas acontecem e você apenas tem que lutar através delas, se quiser continuar seguindo em frente, que é o que eu quero fazer.

E você já pensou em escrever uma biografia ou algo mais pessoal neste sentido?
Ah, eu tenho o livro de poesias… acho que você pode chamar de poesia, um livro chamado “Cancer as a Social Activity”. Mas, além disso, é... Na verdade, atualmente há uma pessoa trabalhando comigo nisso, em produzir uma biografia. Mas estou levando isso no meu tempo, não quero apressar nada. Porque ainda há muito a fazer na minha vida. E também não queria que fosse apenas como qualquer outro livro de rock, queria algo diferente e especial. E espero que consigamos alcançar isso. Mas é, você não é a única pessoa a me perguntar isso, escuto bastante essa pergunta. As pessoas querem saber tudo, sabe (risos)? E há muita coisa. Na verdade, é bastante difícil para eu lembrar porque há muitas coisas. Tipo, não estive na prisão apenas uma vez, já fui preso 35 vezes. Quero dizer, puta que pariu (risos). Já fui sem-teto por um tempo. Quando era bem novo, vivi em um lar para garotos – e fugi de lá. Vivi na Califórnia, no Texas, no Brooklyn. Há muitas coisas que as pessoas nem sabem, tantos caminhos para explicar em um livro. Seria um trabalho e tanto fazer isso do jeito certo.

Você falou agora sobre esse instinto de sobrevivência. Por isso, queria saber qual o significado da banda hoje na sua vida, após essas três décadas? Você aproveita mais hoje fazer turnês e as “pequenas coisas” de estar na estrada?
Eu sempre adorei fazer turnês. Acho que é mais agradável agora porque estou saudável. Como disse, não estou mais bebendo como antes. E isso torna as coisas mais fáceis e divertidas. Mas sempre amei fazer turnês. Você pode ver pelo que falei antes, sobre ter morado na Califórnia, no Texas e Nova York. E isso tudo foi feito em um ônibus da Greyhound (risos) — eu apenas subia em um ônibus. Você apenas paga, sobe no ônibus e deixa a cidade. Então eu sempre gostei de viajar. É por isso que mal posso esperar para tocar na América do Sul. Porque eu quero ir para todos os lugares. Quero tocar em todos os lugares — ou pelo menos apenas visitar todos os lugares. Queremos ir para a China no ano que vem. E para a Filipinas também — há pessoas lá que querem nos levar para tocar. Quero ir para todos esses lugares antes de morrer, quero ver tudo.

Sim, sim, te entendo totalmente. Bom, essa é a última pergunta. Você ainda se vê tocando por muito tempo? Aliás, você pensa neste tipo de coisa? Por quanto tempo mais continuará tocando com o EHG e com suas outras bandas/projetos, como o Corrections House?
Bom, estamos tentando fazer algumas coisas com o Corrections House, mas todos estão ocupados. O Neurosis está fazendo shows de novo, o Eyehategod está em turnê direto, então estamos tentando fazer isso. Mas eu não sei. Eu penso nesse tipo de coisa, por quanto tempo ainda posso fazer isso, mas vou ter que ir acompanhado e ver como… Quero dizer, acho que vou saber quando chegar nesse ponto. E mesmo que não for música, que eu não estiver fazendo música, eu sempre posso… Eu sou um escritor, ainda posso fazer turnês e ler, fazer apresentações de spoken word — o que já fiz várias vezes. Sabe o que quero dizer? Posso seguir para sempre até morrer (risos).

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