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Autoajuda para revoltados, "Um Guia Pussy Riot Para o Ativismo" é ouro para o Brasil de 2019

Livro recém-lançado por feminista russa tem até versinho da banda brasileira CSS.

por Camila Feltrin
30 Maio 2019, 10:00am

Um Guia Pussy Riot Para o Ativismo (Ubu, 2019), livro de Nadya Tolokonnikova, uma das fundadoras do famoso coletivo punk russo, poderia ser distribuído em todas as escolas do Brasil. Ao reiterar de forma divertida para os jovens que afrontar determinações injustas de um governo não é só um direito, mas, sim, um dever, a publicação é capaz de inspirar o pessoal que está indo para as ruas contra as políticas malucas de Jair Bolsonaro, sobretudo na Educação.

Dividido em dez capítulos a partir de “regras, táticas e estratégias” criadas por Nadya para incomodar o presidente Vladimir Putin e seus sicofantas, a publicação reúne dicas que vão desde evitar dar seu dinheiro para lojas que você não acha tão éticas assim e a nunca falar mansinho com os poderosos.

Os conselhos são uma espécie de autoajuda para revoltados. Ao mesmo tempo que dão um tom condescendente à nossa tristeza com o mundo ("se tantas pessoas se sentem sacaneadas e enganadas, talvez elas realmente estejam sendo sacaneadas e enganadas"), eles engajam as pessoas com a máxima punk do faça você mesmo ao incentivar que os jovens arregacem as mangas contra o status quo.

Tem também muito palavrão, mas que são condizentes com as circunstâncias. Seja para explicar a origem de toda revolta de Nadya, hoje com 29 anos, ("quando sua paixão de adolescência é o poeta russo Vladimir Maiakovski, você sabe que se fudeu") ou para desabafar sobre a situação terrível nas cadeias russas (“faça o governo cagar nas calças”), locais que ela e Maria Alyokhina foram enviadas por dois anos após protestarem dentro de um templo da Igreja Ortodoxa Russa em 2012. Detalhes sobre a detenção, inclusive, são o fio condutor da obra e estão em todos os capítulos.

Nadya estudou Filosofia na Universidade de Moscou e espalha conceitos e frases de Marcuse, Foucault, Kant, Sócrates, Diógenes, Phroudon, Betty Friedan, Frida Kahlo, Pankhurst e tantas outras personalidades relevantes pelas páginas, inclusive há um trecho do nosso ex-master hype Cansei de Ser Sexy (“music is my hot hot sex”).

O livro me lembrou muito Coisas que Toda Garota Deve Saber (Samantha Rugen, 1997), que tem dicas de como ser lidar com garotos, usar absorvente e se livrar da insegurança típica da adolescência. Era melhor coisa que você podia ler em sala de aula entre a troca dos professores ou durante o intervalo. Dado o mundo esquisito em que vivemos, com várias nações flertando com o fascismo e incertezas sobre a democracia, o Um Guia Pussy Riot Para o Ativismo é uma aula magna sobre a cultura da revolta e nos encoraja a pedir a cabeça de poderosos através da arte, alegria e união. Serve como um coaching (não picareta!) para lidarmos de forma mais confiante com a desobediência civil.

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