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Viagem

A cidade dividida do Leste Europeu onde os dois lados se ignoram completamente

Em Kosovska Mitrovica, sérvios e albaneses vivem lado a lado, mas nunca se misturam.

por Irfan Ličina; Traduzido por Marina Schnoor
07 Agosto 2019, 10:00am

A principal ponte sobre o rio Ibar. Todas as fotos por Irfan Ličina.

A Guerra de Kosovo do final dos anos 1990, entre sérvios e albaneses, criou uma divisão que ainda é sentida hoje – e em nenhum outro lugar essa divisão é mais evidente que na cidade de Kosovska Mitrovica. A cidade é dividida pelo rio Ibar, com sérvios morando no norte e albaneses no sul. Os dois lados são ligados por quatro pontes – mesmo que “ligados” não seja exatamente a palavra certa aqui.

A guerra dividiu, entre outras coisas, ruas, quarteirões, shoppings e até cemitérios. Mas há uma exceção: numa colina com vista para a cidade, um monumento une os dois grupos, feito de duas colunas carregando um vagão de mineração. Uma coluna representa os sérvios, a outra os albaneses.

O monumento foi erguido para homenagear os trabalhadores das minas Trepča, que forneciam a principal fonte de renda da cidade, e que em certo ponto correspondia a 70% da riqueza mineral da Iugoslávia.

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Monumento dos Mineiros, uma homenagem à luta pelos direitos dos mineiros. Uma coluna representa os albaneses, a outra os sérvios, carregando o peso juntos.

O time de futebol local levava o nome das minas. Até 1999, havia apenas um Trepča FC em Kosovska Mitrovica, mas depois da guerra o clube também se dividiu. Hoje, albaneses e sérvios da cidade têm seus próprios times de mesmo nome, com os dois lados dizendo que seu clube é a continuação do antigo.

O Trepča FC da parte albanesa da cidade joga em casa num Estádio Olímpico reformado, atualmente o maior de Kosovo. O estádio se chama Adem Jashari, um dos fundadores do Exército de Libertação de Kosovo.

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Ajet Shosholli.

Ajet Shosholi, um lendário jogador kosovar, foi técnico dos “garotos de ouro” do Trepča, na época em que eles ganharam a Liga Iugoslávia e jogaram nas finais da Copa Marechal Tito em Belgrado, em 1977-1978. Hoje, ele é o diretor do clube do sul. Segundo Ajet, atualmente só albaneses jogam pelo clube, mas não haveria problema para sérvios jogarem – desde que queiram ser parte do clube e sejam bons de bola.

Ajet costuma visitar o norte da cidade quando caminha com a esposa, ou um café com seus colegas e vizinhos dos velhos tempos. Ele diz que a divisão entre sérvios e albaneses foi criada por políticos, especialmente os de Belgrado. Atrapalhar a melhoria de relações entre sérvios e albaneses, ele me disse, é do interesse de políticos dos dois lados.

Depois que tomamos um café, Ajet me levou para ver o estádio Trepča e me mostrar as fotos do time que ele treinava, que incluía jogadores de todas as nacionalidades da antiga Iugoslávia. Ele disse que sente falta da antiga união, quando o Trepča FC tinha torcedores sérvios e albaneses.

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Ajet Shosholli mostra fotos dos "garotos de ouro" do Trepča FC, um time formado por sérvios, albaneses e macedônios.

No caminho para o estádio, Ajet me disse para não estacionar na frente do portão principal – só por precaução, porque o carro do meu contato tinha placas de Belgrado. O mesmo Opel estava passando pelas ruas da parte albanesa por dias sem nenhum problema, mas ainda havia a possibilidade do carro ser vandalizado, disse Ajet, já que jovens – especialmente os nascidos depois da guerra – têm muito ódio pelo outro lado. Eles herdaram esse ódio dos pais.

Mais tarde, conheci um jovem sérvio, Milan, na parte norte da cidade. Ele estuda design gráfico e é membro do Centro de Inovação Mitrovica, uma ONG que opera na cidade há três anos, organizando seminários, festivais e oficinas.

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Milan.

Essas oficinas geralmente atraem jovens dos dois lados do rio. Ano passado, eles organizaram um acampamento de grafite com grupos da parte sul da cidade, com sérvios e albaneses participando.

Milan disse que é triste que a camaradagem e simpatia estabelecidas durante o projeto tenham evaporado assim que o evento terminou. Artistas e jovens albaneses no geral quase nunca se aventuram do outro lado da ponte para o norte da cidade, mas Milan também quase nunca vai para o sul. Ele não tem amigos daquele lado – nada que o leve até lá.

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Bandeiras albanesas na única rua da cidade onde sérvios e albaneses moram.

Na opinião de Milan, a barreira da língua é a principal razão para os jovens não se comunicarem tanto quanto as gerações anteriores, quando albaneses ainda aprendiam sérvio na escola, e quando simplesmente pegavam as duas línguas pela convivência. Isso é extremamente raro hoje em dia.

As pontes da cidade agora só são cruzadas por razões profissionais, não por lazer ou amizade, segundo meu contato Ješa. As pontes são guardadas pela Força do Kosovo (ou KFOR), uma força de manutenção da paz liderada pela OTAN, que atualmente ainda é responsável pela segurança de Kosovo. Enquanto a noite caía durante minha visita, era a vez de carabinieri italianos tomarem o posto nas pontes.

Não há uma fronteira oficial em Kosovska Mitrovica – a cidade é toda parte de Kosovo. Ainda assim, todo mundo fica do seu lado, entre seu próprio povo.

Saque mais fotos de Kosovska Mitrovica abaixo.

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A principal ponte sobre o rio Ibar, que é guardada 24 horas pela KFOR ou polícia de Kosovo.
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Uma mulher vende seus trabalhos num mercado no norte da cidade.
1562778626558-A-mural-in-the-center-of-the-northern-Kosovska-Mitrovica-It-was-painted-years-ago-and-has-slowly-became-the-symbol-of-the-northern-part-of-the-city
Um mural no centro da parte norte de Kosovska Mitrovica. Ele foi pintado anos atrás e lentamente se tornou um símbolo dessa parte da cidade.
1562778655556-The-north-side-of-the-city-has-its-own-market-where-Albanians-come-too-but-the-sellers-say-that-happens-less-and-less-The-market-is-right-there-when-you-cross-the-bridge
Um mercado no norte da cidade.
1562778673263-Trepca-mining-grounds-forlorn-and-dilapidated-waiting-for-new-miners-and-an-end-to-the-ownership-dispute-between-Serbia-and-Kosovo
O terreno das minas Trepča.
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A Mesquita Bajram Pasha no centro do sul de Kosovska Mitrovica.

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