Place foi uma experiência do Reddit sobre pertencimento

Brincadeira criou uma narrativa condensada da nossa internet: disputa de espaço, guerras, trevas, humor e cooperação.

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18 Abril 2017, 9:20pm

Tradicionalmente no Dia da Mentira, em 1º de abril, o Reddit bola um exercício social.

Em 2015, criaram o Botão, um cronômetro de 60 segundos que podia ser reiniciado apenas uma vez por cada usuário do site. Ninguém sabia o que acontecia quando o tempo chegava ao fim, o que acabou dividindo o Reddit entre usuários que apoiavam ou proibiam clicar no botão. Ano passado, rolou o Robin (tipo "rodízio" em inglês), que colocava uma dupla de usuários em uma sala de bate-papo e pedia para que votassem para manter ou expandir o número de participantes, ou abandonar a sala. O objetivo, aparentemente, era formar a maior sala até o fim do experimento, mas ninguém sabia ao certo.

Nesse ano, o Place tinha regras mais simples. Em uma tela de 1000x1000, os usuários podiam pintar um pixel a cada cinco minutos, num total de 72 horas de experimento. Por conta da limitação entre cada participação individual, era impossível um único usuário conseguir desenhar qualquer coisa que não fosse um rascunho estranho. Portanto, para ilustrar direito, era necessário trabalhar em equipe.

Em questão de minutos, vários grupos e subreddits começaram a se organizar, não só internamente, mas também entre si, para conseguir fazer um grafitão nesse murão virtual. Os acontecimentos dos dois dias de experimento contam histórias dignas de livros sobre guerras clássicas, com batalhas sangrentas e vitórias inspiradoras.

Dickbutt, um personagem 100% internet. Crédito: Reprodução

No começo, o caos

Os primeiros usuários a entrar no Place começaram a pintar pixels aleatórios espalhados pela tela em branco. Não demorou muito pra que experimentassem desenhos mais complexos e a galera começasse a trabalhar junta.

A primeira imagem colaborativa apareceu no canto esquerdo do quadro. Era o Dickbutt, um personagem meio-piroca, meio-bunda, mas 100% internet. Com o tempo, o bicho foi crescendo, ganhando novas partes ainda mais bizarras do que as originais, além de cores e sombras. Em outras partes da tela, novos desenhos começaram a pipocar. Foi então que a guerra criativa do Place começou.

Enquanto uns queriam vandalizar tudo com pintos, xoxotas e vários tipos de genitália pixelada, outros grupos, que se organizavam pra fazer desenhos sérios, ficavam cada vez mais putos com a zoeira. Mas se o embate filosófico no início do Place era o caos versus a ordem, a treta real era por conquista de território.

Foi assim que surgiram os grupos das cores no Place. O primeiro e mais agressivo deles foi o pessoal do Canto Azul e o seu objetivo era nada menos do que a conquista total da tela. No canto direito inferior, uma enorme parte de usuários começaram a pintar tudo de azul, atropelando desenhos, frases, escudos de times de futebol e as primeiras bandeiras de países que começavam a aparecer.

Na sequência surgiram os grupos que se identificavam com as cores vermelha e verde. A ideia da galera do Canto Vermelho era espalhar a palavra comunista, pintando foices e martelos no meio do caminho. Já o pessoal do Canto Verde pirava na própria eficiência em espalhar a cor da sua facção (eles pintavam pontos intercalados de verde, cobrindo a tela com o dobro da velocidade do resto da galera). Mesmo assim, eles não chegaram tão longe quanto a dominação em massa do Canto Azul.

Criar, preservar ou apagar

Com a hegemonia indisputável do Canto Azul, os usuários dessa facção começaram a pensar na responsabilidade de sair atropelando tudo o que encontrassem na tela. E as ilustrações de outros usuários? E as bandeiras? Será que tudo tinha que sumir em nome da cor azul? Alguns tópicos de discussão depois e o Canto Azul passou de um grupo de dominadores alexandrinos para preservadores das artes do Place.

Com a proteção dos azuis, os criadores de desenhos começaram a expandir. Agora mais complexos e maiores, logos, memes, pichações, nomes de games e de outros grupos do Reddit começaram a pipocar em toda a tela. A única fronteira que os usuários do Place não tinham como ultrapassar agora era a do espaço limitado da própria brincadeira.

Não tinha como o Place aumentar, então as brigas por território começaram a ser cada vez mais frequentes. Guerras eclodiam de todos os lados: cores contra cores, bandeiras contra bandeiras, logos de games contra logos de games. O que antes era um palco pra criatividade colaborativa agora se tornava um enorme campo de várias tretas simultâneas.

Foi então que surgiu O Vazio.

O Vazio. Crédito: Reprodução

Quem assistiu ao vídeo de time-lapse das 72 horas de Place pode notar que, do nada, uma enorme mancha preta começou a aparecer no centro da tela, como um câncer em plena metástase agressiva. O grupo, que segundo relatos do site Sudoscript foi formado nos fóruns do 4chan, se auto-intitulava O Vazio (ou "The Void", no inglês). O seu objetivo era simples e, para boa parte dos criadores de artes do Place, um pesadelo: apagar tudo e respeitar ninguém.

Os outros usuários do Reddit começaram a se preocupar com O Vazio. Como controlar um grupo sem valores, sem um credo, sem um objetivo a não ser a destruição total? No melhor naipe lovecraftiano, O Vazio não respeitava as criações, não fazia alianças com os grupos das cores, não preservava bandeiras ou qualquer formação de usuários. O Vazio era o nada, era a escuridão; era o próprio Place antes dos primeiros grupos se formarem, a sociedade antes da civilização, o caos antes da ordem – mas era um movimento extremamente necessário pro equilíbrio fundamental de todo o Place.

Como controlar um grupo sem valores, sem um credo, sem um objetivo a não ser a destruição total?

Foi por conta da ameaça d'O Vazio que outros grupos começaram a fazer diplomacia. Se unindo, eles seriam mais fortes. Diante da destruição coletiva dos seus objetivos e sonhos, os usuários começaram a se organizar, mesmo pertencendo a grupos muito diferentes, resultando numa vibe geral de colaboração ainda mais organizada e respeitosa do que no começo do Place.

A guerra entre Alemanha e França, por exemplo, foi muito simbólica desse momento. As bandeiras de ambos os países cresciam cada vez mais, até que começaram a se esbarrar. Em vez de repetir uma Segunda Guerra Mundial no Reddit, os dois países se uniram em uma só bandeira em cruz, de uma forma que podiam expandir a vontade; na intersecção das duas bandeiras, colocaram o símbolo da União Européia. Em só algumas horas, centenas de milhares de alemães e franceses conseguiram entrar num acordo de paz silencioso que daria inveja aos políticos mais consagrados dos dois países.

O mesmo aconteceu com fãs de games e torcedores de futebol, que no começo disputavam pelo maior espaço e depois passaram a dividir o universo limitado do Place com um certo respeito. Rolou até mesmo um cantinho reservado pros usuários brasileiros, que não perderam tempo em meter a bandeira do Brasil no canto esquerdo da tela, com direito a placas de HUE HUE e outras imagens bem brasileiras.

VAI BRASIL!!!

Depois de 72 horas de muita disputa, a experiência do Place finalmente chegou ao fim. Os usuários puderam contemplar a enorme arte colaborativa feita entre 1000x1000 pixels em paz, sem mais se preocuparem se seus desenhos fossem atropelados por outros. O que aconteceu no Place, ficou no Place – mas não sem algumas lições importantes sobre enorme fóruns de internet.

Todos os movimentos dos três dias de experimento mostram uma tendência óbvia, mas fundamental da natureza humana: a vontade de pertencer a um grupo. Os objetivos dos grupos de usuários tinham menos a ver com o resultado gráfico no Place em si, e mais com a associação de indivíduos em volta de um mesmo ideal. Seja nas cores, nas bandeiras, nos desenhos, ou n'O Vazio (ou até na luta contra O Vazio), o que importava é que existiam pessoas que se sentiam bem pensando da mesma forma que outras pessoas.

O resultado final, no fundo, pouco importava. Para cada usuário, o que contava era o pertencimento, era fazer parte de algo maior que si. Contanto que um punhado de usuários pensassem em conjunto, tanto fazia ter ordem ou caos, azul ou vermelho, Alemanha ou França, arte ou nada. Existem centenas de histórias enterradas em páginas e páginas sobre o experimento no Reddit, mas todas elas, no fundo, contam apenas uma história. Humanos, juntos, conseguem fazer qualquer coisa – mesmo que essa coisa seja um personagem meio-bunda, meio-pinto, no meio da internet.