James Ellis

Por dentro do estúdio caseiro do canadense MSTRKRFT

O duo de Toronto se armou de drum machines e sintetizadores modulares para deixar de lado o batido electro house e chegar mais perto do techno.

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jan 27 2016, 11:00am

James Ellis

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James Ellis

A dupla canadense de música eletrônica MSTRKRFT, de Toronto, estourou na cena pela primeira vez em 2006, logo que a banda de rock de Jesse Keeler, Death From Above 1979, entrava em hiato. Jesse e o amigo de longa data Al-P (também conhecido como Alex Puodziukas) logo se viram no centro da cena independente de dance, mas depois de dois discos e incontáveis remixes para artistas como Bloc Party, Justice e Metric, o MSTRKRFT suspendeu suas atividades no mesmo momento em que o DFA 1979 voltava à ativa.

Esse hiato agora chegou ao fim, e a dupla está há algum tempo enfurnada em um espaço de ensaios improvisado na lavanderia de Keeler, no lado leste de Toronto, trabalhando em uma abordagem inteiramente nova tanto da criação de músicas quanto da apresentação. Dessa vez, eles planejam montar um show completamente ao vivo, baseado em equipamentos analógicos e sintetizadores modulares. O novo som sofreu uma mutação, deixando para trás suas origens electro house e passando a algo mais próximo do techno puro.

"Ficamos muito tempo tentando trabalhar ao vivo", explica Keeler. "Mas sempre que íamos ver alguém que tentava se apresentar ao vivo, a coisa nunca soava certa aos nossos ouvidos", conta Keeler. "Sempre parecia um meio-termo", acrescenta Puodziukas. "As pessoas que estavam tocando ao vivo naquela época, nunca era 'ao vivo' de verdade. Era mais umas faixas pré-gravadas sendo manipuladas na hora. Isso meio que nos fez desistir de entrar por esse caminho, mas desde que saímos de cena há algum tempo, estivemos trabalhando na criação de algo que seja plenamente ao vivo, com todos os equipamentos que estão gerando os sons em nossas produções atuais".

O popular software Ableton Live tornou as apresentações de música eletrônica muito mais acessíveis do que nunca aos produtores, mas o MSTRKRFT decidiu evitar a praticidade e a estabilidade de um arranjo baseado em computadores. Em vez disso, pegaram uns cabos e juntaram caixas de ritmo, sintetizadores e efeitos tanto antigos quanto modernos, e alguns sintetizadores modulares feitos sob medida. Com uma zorra tão intrincada de cabos e aparelhos, há muita coisa que pode dar errado, mas isso é grande parte do que atrai a dupla.

"Estamos tentando construir um arranjo que possa dar merda", diz Keeler. "Um que possa resultar em erros imensos, grandiosos. Essa é meio que a diversão de se estar em uma banda em cima do palco. Digo, na hora que acontece é uma merda, mas é desse jeito que você sabe que está vendo uma coisa de verdade. É tipo o que motiva as pessoas a verem as corridas da NASCAR – elas ficam à espera de um acidente épico. Bom, é isso pelo menos o que me faz ver as corridas."

"É tipo o que motiva as pessoas a verem as corridas da NASCAR – elas ficam à espera de um acidente épico. Bom, é isso pelo menos o que me faz ver as corridas."

Essa imprevisibilidade e empolgação de estar "no momento" são momentos que estão moldando as novas músicas que eles estão gravando. Embora os equipamentos tenham sempre participado do som deles, a edição e os efeitos realizados no computador também eram parte essencial dos dois primeiros discos da dupla. As gravações que estão fazendo agora, para o terceiro disco, são muito mais voltadas para a captação das performances no estúdio, o que é feito para tornar mais suave a transição para o palco.

"Toda vez que ligamos as coisas todas e começamos a trabalhar, o conteúdo começa a ser gerado muito rapidamente", explica Puodziukas. "A música que estamos fazendo está sendo criada com o kit que vamos levar para as apresentações ao vivo, de modo que não tenhamos que achar nenhum meio-termo quando essa hora chegar. Todas as máquinas que estamos usando na produção vão estar em cima do palco, para que a gente não tenha que tocar um sample de alguma coisa que não podemos criar ao vivo".

Alguns equipamentos usados nos trabalhos anteriores, na verdade, marcam presença no novo arranjo. O primeiro disco deles, The Looks, continha muitas linhas de baixo tocadas no clássico sintetizador Roland SH-101, que ainda está entre os equipamentos usados, assim como o uso abundante da tarola da subestimada Roland TR-707. No segundo disco, Fist Of God, de 2009, a dupla fez uso mais pesado do sintetizador Moog Voyager, mas esse teclado desde então voltou para o armário. Por mais que seja um sintetizador poderoso, eles simplesmente se empolgam mais com os fios complicados e a imprevisibilidade dos sintetizadores modulares que vêm montando.

Os sintetizadores modulares não são de modo algum um conceito novo, mas nos últimos anos sua popularidade aumentou. Pelo mundo todo, pequenas empresas vêm construindo modulozinhos esquisitos, que podem ser conectados a peças montadas por outros inventores. Essa flexibilidade proporciona uma capacidade realmente excepcional de moldar os sons, embora seja praticamente impossível reproduzir com fidelidade as ideias criadas anteriormente. Isso poderia ser visto como uma grande desvantagem, mas é também o que explica em grande parte o papel central que os sintetizadores modulares têm no novo som da dupla.

"Esse arranjo também nos permite criar músicas de improviso dentro da apresentação", diz Puodziukas. "Nunca será 100% igual às gravações, mas isso é parte do que nos interessa na coisa".

"O que mais nos inspirou a entrar por esse caminho foi o fato de que somos gente de banda, e aprendemos a nos apresentar e a fazer música com as nossas mãos, e não com um mouse", acrescenta Keeler. "Quando apareceu alguém nos oferecendo um contrato para gravar, dissemos: 'Claro, a gente faz um 'disco'. E então perguntaram como queríamos nos apresentar, e entramos em pânico, porque de jeito nenhum a gente conseguiria fazer isso na época. Então só ficamos trabalhando como DJs e, quando vimos, aquilo já era a nossa vida, e não sobra tempo para mais nada além de trabalhar como DJ. Fazer isso foi assustador demais. Ainda é meio assustador".

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Tradução: Márcio Stocker

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