Como é a vida na zona de exclusão nuclear de Chernobyl

Visitamos os “Samosely”, um assentamento em que 140 pessoas sobrevivem graças a plantações cultivadas em solo contaminado.

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06 março 2017, 11:00am

Na manhã de 26 de abril de 1986, uma ondulação de energia causou uma explosão num reator da usina nuclear de Chernobyl, então parte da República Ucraniana da União Soviética. A explosão liberou 100 vezes o nível de radiação encontrado em Hiroshima e Nagasaki, espalhando uma nuvem pútrida de contaminação tão grande que traços dela foram encontrados até mesmo na Irlanda.

O miasma radioativo infectou o ar, o solo e os residentes do local, causando defeitos de nascença e câncer de tireoide em crianças, e desencadeando mutações grotescas em gerações e gerações de gado. Trinta anos depois, Chernobyl se tornou uma atração turística mórbida, uma lição sobre o preço humano que se paga por decisões de um governo excessivamente arrogante. E como o lugar, anos depois, ainda serve de lar para um grupo de aproximadamente 140 pessoas.

A fotógrafa Esther Hessing e a escritora Sophieke Thurmer viajaram para a Zona de Exclusão de Chernobyl (a área mais afetada pela radiação) para visitar os "Samosely", a última geração de uma comunidade antigamente próspera. Muitos dos assentados são idosos, que voltaram secretamente para suas antigas casas indo contra os conselhos do governo ucraniano. Outros se assentaram ali por desespero, ocupando ilegalmente as milhares de estruturas abandonadas, sobrevivendo de plantações cultivadas em solo contaminado.

Todas as fotos por Esther Hessing.

Em sua nova publicação, Bound to the Ground, a dupla documentou o cotidiano dos residentes, coletando em primeira mão relatos da vida na Zona de Exclusão, além das histórias dos atuais funcionários da Usina Nuclear Chernobyl (UNC). Falei com Esther sobre o projeto, e ela me explicou a razão para tantas pessoas terem retornado a essa perigosa região: "Primeiro, essa região tem uma longa tradição de miséria", ela disse. "Nos anos 30 eles passaram fome por causa do regime de Stalin, e depois por causa da Segunda Guerra Mundial. As pessoas aqui estão acostumadas com uma vida difícil."

"As pessoas tinham pouco dinheiro e dependiam da colheita de sua própria terra. O governo levou a maioria dos fazendeiros para blocos de apartamentos especialmente preparados para eles em Kiev. Os fazendeiros, por sua vez, decidiram que era melhor morar numa zona nuclear por um curto período do que envelhecer miseravelmente em Kiev. Eles também acreditavam que só poderiam se reunir com parentes falecidos se fossem enterrados no mesmo lugar que eles."

Por anos as vítimas de Chernobyl sofreram muita discriminação da população em geral depois do desastre. Assentados retornando para a Zona de Exclusão geralmente faziam o caminho a pé, encarando uma caminhada de 130 km a partir de Kiev. Compreensivelmente, eles precisavam descansar durante a jornada, mas geralmente tinham seus pedidos por abrigo recusados pelos locais que tinham medo de serem infectados com a radiação.

Esther descreve que mesmo as crianças daquela era foram estigmatizadas. "As crianças de Pripyat eram chamadas de 'porcos de Chernobyl'. Esse foi um termo abusivo usado anos depois do desastre para as crianças infectadas pela radiação. Essas crianças não podiam brincar com outras crianças. Isso só acabou quando a cidade de Slavutych foi fundada em 1988, com muitas dessas crianças se mudando para lá com os pais que foram trabalhar na UNC."

Chegando lá, Esther e Sophieke ficaram surpresas em descobrir que mais de duas mil pessoas trabalham atualmente na Usina Nuclear Chernobyl. Diferentemente dos Samosely, que vivem da terra em vilarejos abandonados nos arredores de Pripyat, os funcionários da usina vivem em Slavutych, uma cidade especialmente construída para abrigar sobreviventes do acidente nuclear.

"Muitos dos funcionários atuais [da usina] eram filhos das pessoas que trabalhavam na UNC durante o desastre", explicou Esther. "Eles cresceram em Pripyat, e agora seus filhos, que cresceram em Slavutych, estão trabalhando na usina."

Falta de oportunidade é a principal motivação por trás desses empregos: "Não há trabalho suficiente na Ucrânia, a taxa de desemprego [no país] é enorme e a infraestrutura de saúde e educação geralmente é pobre", disse Esther. "A UNC ainda oferece trabalhos bem-remunerados, e Slavutych tem boas escolas e clínicas. É uma cidade segura para criar os filhos. Ela [a usina] fornece cuidado extra para as consequências da exposição à radiação para as vítimas da primeira, segunda e terceira geração [pós desastre]."

Além de conversar com os Samosely e funcionários da usina, a dupla explorou a cidade abandonada de Pripyat, um município originalmente construído para os empregados da UNC. Pripyat agora é uma cidade-fantasma, mas já foi chamada de "cidade da esperança" pelo governo ucraniano — esperança num futuro abastecido pela tecnologia nuclear.

Sem o impacto da intervenção humana, a natureza retomou o controle de grandes partes de Pripyat, envolvendo as estruturas cinzas e ruas suburbanas com verde e vida selvagem: "Em vez de medo, horror, morte e um país perdido, encontramos uma área bela com muitas flores e árvores, solo fértil e pessoas hospitaleiras que nos recebiam alegremente toda vez que aparecíamos sem avisar", disse Esther.

"Encontramos uma comunidade que ainda trabalha numa usina desmantelada e acreditam no futuro. Encontramos pessoas corajosas o suficiente para trabalhar nesse lugar perigoso só para tornar o mundo um pouco mais seguro. Elas nos mostraram a força marcante da humanidade e quão resistente a natureza é."

Qualquer futuro para Samolesly foi efetivamente proibido pelo governo, que aprovou uma ordem impedindo novos assentamentos na área por mil anos — depois que os moradores atuais morrerem.

Preservar essa comunidade secreta e temporária foi a principal inspiração por trás do trabalho de Esther: "É importante contar essa história, porque os assentados são muito idosos", ela disse. "Enquanto as babushkas da Zona de Exclusão continuam envelhecendo, e novos moradores são proibidos de se estabelecer na área, acreditamos que, daqui dez anos, suas histórias e memórias serão esquecidas. Queremos contar essas histórias e mostrar os rostos dos aldeões antes que o silêncio caia [sobre o local]."

Bound to the Ground está disponível pela Eriskay Connection .

@JMPolish

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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